Obra da autora retrata a relação íntima entre um titereiro e seus bonecos enquanto revisita amores, perdas e a beleza da despedida
Marcela Güther
Em um contexto em que temas como saúde mental, luto, envelhecimento e solidão vêm ocupando cada vez mais espaço nas discussões contemporâneas, o romance As sete faces de um anjo sem trombeta (Editora Labrador), da escritora Lilian Dias, propõe uma reflexão delicada e profundamente poética sobre a finitude humana. O livro acompanha os últimos sete dias de Mundo, um homem que apresenta seu teatro de bonecos pelas ruas de Lisboa enquanto lida, silenciosamente, com a proximidade da morte e o fluxo intenso de suas memórias.
A narrativa em ordem temporal inversa – começando justamente pelo último dia de vida do personagem – cria uma atmosfera que remete à maneira fragmentada, emocional e não linear com que a mente humana elabora perdas, afetos e despedidas. As sete faces de um anjo sem trombeta conta ainda com texto de orelha assinado pelo poeta Rodrigo Carpi Nejar e prefácio de Henrique Cairus, professor titular de Língua e Literatura Grega da UFRJ.
Foto: Divulgação
Mundo, protagonista da obra, é um homem de mais de 2 metros de altura que “nunca parou de crescer”, condição que atravessa o romance tanto em seu aspecto físico quanto simbólico. Sua existência é marcada por sentimentos de deslocamento, exclusão e solidão, enquanto a relação íntima que estabelece com seus bonecos revela alguém que busca, na criação artística, formas de pertencimento e expressão emocional. À medida que seu corpo sucumbe a uma fadiga misteriosa, suas lembranças retornam de maneira intensa e imagética, misturando passado, afetos e dores.
Lilian Dias tem 59 anos, nasceu e cresceu no Rio de Janeiro e atualmente vive em Saquarema, litoral fluminense. Após cursar Filosofia e Ciências Sociais no final dos anos 1980, atuou como tradutora de inglês, francês e espanhol por uma década. Foi livreira em Copacabana e no Centro do Rio, restauradora de livros antigos e pesquisadora de obras raras para catálogos de leilões bibliográficos. Desde 2015, dedica-se à escrita de ficção, explorando narrativas que diluem fronteiras entre prosa e poesia.
Confira na íntegra entrevista com a autora:
Em As sete faces de um anjo sem trombeta você fala da morte como uma experiência profundamente ligada à memória e à percepção da continuidade da vida. Como a literatura ajudou você a compreender emocionalmente as perdas e a transformar essa experiência em reflexão dentro da sua escrita?
A memória é o movimento da vida humana. Desde que inventamos o tempo linear e passamos a concebê-lo de forma cronológica, perdemos o presente de forma definitiva, pois só conseguimos assimilá-lo quando ele já se tornou passado. O futuro, por sua vez, é um exercício de crença e imaginação, baseado em expectativas criadas pela memória. Ela é, portanto, o motor de tudo, e está em constante transformação, tanto no plano individual quanto no coletivo. Quando elegemos certas memórias, elas se tornam pautas: sobre elas, decidimos o futuro, escolhemos os caminhos que vamos seguir. Esse é um pensamento muito simples, mas de difícil assimilação pela via do raciocínio direto. Somos muito apegados ao conceito da “realidade” como dado material, fático. Se você não está vendo o mesmo que eu, você está errado. Onde está o seu erro? Precisamos corrigi-lo.
Na literatura, enquanto expressão artística, percebemos que o erro só existe como categoria plantada na expectativa social. O personagem está ali, lutando com suas próprias escolhas, desafiando expectativas e, com isso, capturando nossa atenção e – sim! – também nosso afeto. A literatura se torna, deste modo, um caminho incontornável para o desenvolvimento de uma consciência empática.
Você acredita que o silêncio histórico em torno da morte, do luto e do envelhecimento contribuiu para impactos na saúde mental coletiva? Como a literatura pode ajudar a tornar esses temas mais humanos e menos tabu?
A ideia da morte e a percepção da finitude como um dado incontornável da vida está na origem de toda produção artística, desde tempos imemoriais. Quando visitamos um museu arqueológico, por exemplo, nos damos conta de que praticamente todas as formas de arte surgiram associadas a rituais de passagem entre a vida e a morte. A própria música nasceu e floresceu em ambientes religiosos, e as religiões nada mais são do que a forma como a humanidade lida com a consciência e consequente perplexidade diante da morte. A cultura da expressão artística como prazer puramente estético é muito recente na história da humanidade, algo que nasce na Antiguidade Clássica e se desenvolve a partir de então. O luto passa a exigir dignidade, entrevamento, não se pode mais gritá-lo nas ruas, ostentá-lo como um totem da dor. Nesse ponto, a literatura chega em nosso socorro, conectando as formas silenciosas de expressão do sofrimento decorrente de nossas perdas, e o faz de forma natural, erigindo um processo interior de reconciliação, sem teorias nem conselhos.
Foto: Carol Reis
Como essa experiência criativa da construção do personagem central da narrativa, Mundo, ajudou você a refletir sobre a relação entre saúde emocional, passagem do tempo e consciência da própria finitude?
O personagem Mundo é apresentado em seus últimos sete dias de vida, narrados em cronologia invertida, acompanhando o fluxo anárquico de sua memória. Mundo pressente que o fim está próximo, mas não pensa nisso, pois é assolado por lembranças e imagens que surgem de forma quase sináptica. Deste modo, o livro se delineou de forma poética, numa analogia à construção dos sonhos. Encontrei, nessa forma de narrativa, uma maneira de vislumbrar o momento misterioso que precede a morte do homem comum, quando seu corpo sabe que o tempo está se esgotando, mas se recusa a entregar esse conhecimento à consciência. Não antecipar seria, assim, uma forma de viver plenamente até o último segundo.
O personagem Mundo carrega uma condição física que funciona tanto de maneira biológica quanto simbólica, refletindo sobre exclusão, solidão e pertencimento. Como a construção desse personagem ajudou você a explorar os impactos emocionais de viver à margem e a relação entre singularidade, isolamento e saúde mental?
Mundo tem uma condição física sugerida, mas não de todo explicada. Ele é um gigante. A expressão “nunca parou de crescer” impõe ao personagem uma condição biológica e metafórica ao mesmo tempo. Algumas pistas apontam para o diagnóstico de acromegalia, doença sobre a qual tomei conhecimento ao ler uma biografia de Julio Cortázar. Refletir sobre como seria viver com algo que determina o estar no mundo de uma pessoa me levou a uma sentença quase inevitável: a singularidade leva à exclusão social e à solidão. No caso de Mundo, isso o levou à criação de seu próprio universo. Ele se torna o demiurgo de sua própria existência.
Você acredita que a literatura pode ajudar a dar voz às experiências de exclusão, solidão e sofrimento emocional vividas por pessoas que estão à margem dos padrões sociais?
Em geral, no contexto da literatura mundial, é através da arte que os personagens excluídos socialmente interagem com o mundo, numa eloquência muitas vezes silenciada. Quando não entregam algo de sua atividade criadora, acabam por emergir como elementos que confrontam o status quo e a hipocrisia cuidadosamente resguardada. Nenhuma boa história se sustenta sem os desajustados, sem os antagonistas dos rótulos estabelecidos, pois, na ausência de um olhar estrangeiro, não há como enxergarmos os contornos artificiais que estabelecemos na vida social.
Em uma sociedade marcada pela busca por aceitação e padronização, como a literatura pode ajudar a revelar as contradições entre pertencimento, solidão e o desejo humano de ter sua singularidade reconhecida?
Os personagens desajustados peregrinam pelo mundo sabendo que não há adequação possível para eles. Suas ações revelam que a solidão é unânime, uma condição coletiva e individual a um só tempo. Uma sociedade obcecada por padronização descortina a profunda solidão que está por trás da necessidade de aceitação social. E, ao mesmo tempo, todos querem ser especiais de alguma forma e desejam que sua singularidade seja reconhecida. A vida social é feita de muitas contradições. A literatura lança luz justamente sobre esses buracos, não para consertá-los, mas para impedir que continuemos a fingir que eles não existem. Através deles, podemos respirar novos ares e vislumbrar outros universos, enriquecendo nossa experiência, ampliando horizontes e, assim, fortalecendo a tolerância e o respeito.
Marcela Güther é jornalista, gestora de comunicação e especialista em relacionamento com a mídia e influência na editora Orlando e na com.tato, empresa especializada em comunicação para editoras e autores independentes. Com mais de 10 anos de experiência no setor de comunicação, atua também como mediadora de clubes e mesas literárias, combinando paixão por leitura com expertise em comunicação e curadoria de conteúdo literário.
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