Resenha de ‘Sangue de Cabra’, de Mylena Queiroz
A obra traz um clima insólito, em que o pano de fundo é a violência contra a mulher, mas sempre através de uma narrativa fora da curva
Estreia da escritora e professora pernambucana Mylena Queiroz, Sangue de Cabra é uma coletânea de nove contos (ou cortes, como a própria obra afirma) publicada pela Editora Patuá. O livro foi finalista do Prêmio Mozart Pereira Soares 2026 e listado na lista de melhores livros de 2025 da revista O Odisseu.
Sangue de Cabra abre com um conto homônimo, que apresenta uma situação aterrorizante, mas aparentemente comum – um episódio de bullying no colégio, em que uma garota é assediada. No entanto, seu desdobramento deixa o leitor de queixo caído: a aluna não é encurralada física ou de forma explicitamente sexual – na verdade, ela é forçada por um grupo de meninos a beber sangue de cabra.

Essa situação já evoca o clima insólito que a obra toma, em que o pano de fundo é a violência contra a mulher, mas sempre através de uma narrativa fora da curva. São situações de violência doméstica, domesticação e submissão do corpo feminino, stalking, dentre outras que compõem Sangue de Cabra.
O livro traça um diálogo com autoras da literatura fantástica latino-americana contemporânea e clássica, como Samanta Schweblin, Silvina Ocampo e Mônica Ojeda. Em todos os textos, inclusive, há menção a essas escritoras, que aparecem nas epígrafes. Este gesto, ainda que simplório, demarca a rede de referências de Queiroz, dando voz e espaço para outras mulheres que escrevem.
Nesse sentido, Sangue de Cabra é uma obra que desponta uma nova tradição brasileira de literatura insólita, que traz a mulher para o centro, tanto na forma quanto no conteúdo. Trata-se de um livro fora da caixa, que desafia o leitor a pensar sobre estruturas sociais a partir de situações fantásticas ou, até mesmo, absurdas.
Laura Redfern Navarro (2000) é poeta, jornalista e pesquisadora.

