RESENHA

Com quantos nomes se faz um livro

Em Aos Pés da Letra, Gregorio Duvivier transforma as curiosidades e as aparentes esquisitices da língua em matéria de reflexão. Com humor, inteligência e rigor, convida o leitor a pensar sobre as palavras e os modos como elas moldam nossa percepção do mundo

Os três primeiros verbetes do recém-lançado Aos Pés da Letra, de Gregorio Duvivier – cujo trabalho como humorista, poeta, tradutor, entre outras atividades, acompanho há décadas – intitulam-se “Rosa”, “Nome” e “Clássico”. A leitura desses textos remeteu-me imediatamente aos versos do clássico Poema de Sete Faces (1930), de Carlos Drummond de Andrade, pois ambos refletem sobre os nomes e os significados que eles carregam.

“Vai, Carlos! ser gauche na vida”, lemos no poema de Drummond. Porém, o pobre Carlos, sujeito sério, simples e com poucos amigos, queria mesmo era ser Raimundo: “Mundo, mundo vasto mundo, / se eu me chamasse Raimundo / seria uma rima, não seria uma solução”.

No verbete “Rosa”, o autor não cita a poesia de Drummond, mas uma famosa passagem de Romeu e Julieta, de William Shakespeare, a qual, no entanto, tem muito em comum com a reflexão que Drummond propõe em seu poema. No texto shakespeariano editado por Barbara A. Mowat e Paul Werstine, consta: “What’s in a name? That which we call a rose. / By any other word would smell as sweet. / So Romeo would, were he not Romeo called, / Retain that dear perfection which he owes / Without that title”. Na tradução clássica de Bárbara Heliodora, que contou com a revisão rigorosa de Liana de Camargo Leão, lê-se: “O que há num nome?  O que chamamos rosa / Teria o mesmo cheiro com outro nome; / E assim Romeu, chamado de outra coisa, / Continuaria sempre a ser perfeito, / Com outro nome”.

Na tradução de Duvivier, “Rosa” aparece como nome próprio – talvez porque ele tenha se baseado em outra versão do texto shakespeariano – e não como nome comum (“rosa”, em letra minúscula). O que chama a atenção, porém, é que sua Julieta já não é tão assertiva em relação à mudança dos nomes e passa a indagar se haveria, de fato, uma relação intrínseca entre o nome próprio e as características físicas e morais de quem o carrega: “Se outro nome tivesse a Rosa, em vez de rosa, seria por isso menos perfumosa?”, pergunta-se a Julieta de Duvivier.

O autor brasileiro, a seguir, toma a palavra e responde à heroína do bardo inglês em tom de puro deboche, o qual é muito explorado em todo o livro: “Desculpa, Romeu, mas se a rosa se chamasse Regina seria perfumosa de outro jeito: teria cheiro de tia perfumada mas fumante, cheiro de elevador de Copacabana”.

Duvivier tem o timing para o humor, conforme se pode verificar, e essa característica confere graça às suas tiradas mais inspiradas. Humor e rigor, no entanto, nem sempre rimam na sua escrita.

No mesmo verbete, outros nomes próprios ganham protagonismo, como Valentina, com seu cheiro de “body splash de baunilha”, ou Heitor, com seu “cheiro de loção pós-barba, cheiro de pai dos outros”. Assim, o humor do escritor carioca, rompendo com a fidelidade ao verso inglês, vai se construindo por si mesmo, levado por motivações que não são necessariamente shakespearianas.

Raimundo e Carlos, dois nomes que já citei, não apareceram nessa lista, mas os versos de Drummond aparecem bem depois, no verbete “Razzle Dazzle”, onde se lê que o poema clássico do brasileiro seria uma resposta à aversão nacional à rima. Duvivier afirma que inventamos palavras só para evitar que nas nossas frases corriqueiras ocorram rimas indesejadas: “Por isso não falamos na abolição da escravidão. Inventamos uma palavra nova: escravatura, que só é usada depois de abolição”.

Foto: Divulgação

Voltemos ao segundo verbete do livro, “Nome”. Nele, Duvivier afirma: “por mais que os linguistas digam o contrário, os poetas sabem muito bem: as palavras e as coisas têm uma relação simbiótica. Mais do que isso: siamesa”. Shakespeare, como grande poeta, estava atento a essas questões e as colocou na boca de sua Julieta, a qual foi contestada por Duvivier. Duelam aqui Duvivier e Shakespeare.

Nesse mesmo verbete, o nome que se destaca é o de Fabrício Corsaletti, o qual, segundo o autor, escreveu “o grande poema da minha geração – um poema de amor não pela pessoa, mas por seu nome, o que dá no mesmo”. Duvivier cita apenas este verso: “Se eu tivesse um bar ele teria o seu nome / Se eu tivesse um barco ele teria o seu nome”.

Uma característica curiosa do livro de do autor carioca é a proliferação de nomes de amigos e de celebridades contemporâneas ao longo de todos os verbetes. Um ensaio de Michel de Montaigne, intitulado “Dos nomes”, poderia, quem sabe, esclarecer esse fenômeno: “Dizem que é vantajoso ter bom nome ou renome, isto é, ter crédito e reputação. Há igualmente utilidade em ter um nome bonito e que seja fácil de se pronunciar e reter na memória. Nós mesmos, entre nossos serviçais, chamamos de preferência os que nos vêm mais facilmente aos lábios” (tradução de Sérgio Milliet).

O fato é que a reflexão em torno do nome na literatura ocidental é demasiada ampla para ser discutida aqui: Homero e a Bíblia, em particular, são fontes inesgotáveis, como se sabe. Mas citarei um outro clássico, Através do Espelho, de Lewis Carroll, onde há uma séria, porém divertida, consideração sobre esse tema, na conversa que se desenvolve entre Humpty Dumpty, o ovo hermeneuta, e Alice: “‘Um nome deve significar alguma coisa?’ Alice perguntou ambiguamente. ‘Claro que deve’, Humpty Dumpty respondeu com uma risada curta. ‘Meu nome significa o meu formato… aliás, um belo formato. Com um nome como o seu, você poderia ter praticamente qualquer formato’” (tradução de Maria Luiza X. de A. Borges).

Humpty Dumpty é citado sucintamente por Duvivier no já mencionado verbete “Razzle Dazzle”: “Humpty Dumpty”, nada mais. Esse procedimento abrupto parece replicar, aliás, o próprio estilo de Carroll, quando o ovo hermeneuta, depois de recitar um longo poema para Alice, faz “uma longa pausa” e encerra a recitação sem maiores explicações. Alice pergunta a Humpty Dumpty: “Acabou?”. Ele responde: “Acabou. Até logo”.

E chegamos, assim, ao terceiro verbete do livro, intitulado “Clássico”. Nele, Duvivier faz referência aos célebres versos de Sacred Emily, poema da escritora estadunidense Gertrude Stein: “Rose is a rose is a rose is a rose” (“Rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa”). Na interpretação do autor, o verso “não tem metáfora, nada além de uma declaração circular, tautológica”. Em seguida, aproxima-o de um célebre clichê do futebol: “Clássico é clássico e vice-versa”. Mas será mesmo que essa leitura se sustenta? Permito-me discordar da interpretação que Duvivier faz da frase icônica de Stein.

Vale lembrar que a tautologia é uma repetição aparentemente gratuita de determinado conceito. Gertrude Stein certamente brinca com a tautologia, mas o seu verso vai muito além desse jogo de repetição mecânica de um só termo. Quando o texto inglês é lido em voz alta, por exemplo, a sua extraordinária musicalidade permite que o leitor perceba uma nova frase emergindo de “a rose is a rose” (uma rosa é uma rosa): “a rose is arose” (uma rosa nasceu / surgiu / emergiu / se levantou). Ora, essa percepção da duplicidade da frase muda tudo, além do que, visualmente, ela é uma metáfora de um galho crescido onde rosas desabrocharam. Como então traduzir para o português esse verso em constante metamorfose, que gera metáforas incessantemente?    

Duvivier parece se arrepender, mais à frente, de ter oferecido uma interpretação tão simplista desse grandioso verso, e termina o verbete afirmando que “o poema da Gertrude também pode dizer outra coisa, menos óbvio e que nos interessa mais aqui. Rosa (nome próprio) é uma rosa (coisa) é uma rosa (nome de coisa) é uma rosa (coisa): as coisas também são seu nome, e os nomes também são coisas. Existe uma ligação uterina entre a coisa e a palavra que a designa”.

A rosa de Stein é, curiosamente, recorrente no livro de Duvivier, pois retorna em um dos últimos verbetes do livro, “Adivinhada”: “Diria Gertrude Stein: só o Rosa é o Rosa é o Rosa é o Rosa”, remetendo a João Guimarães Rosa, um escritor muito atento aos nomes e às repetições.

Para concluir, comentarei brevemente outros dois verbetes, pois considero que ambos sintetizam o humor de Duvivier. Em “Psicose”, ao tratar da tradução de títulos de filmes, ele faz a seguinte observação: “Por que raios traduzimos The Sound of Music por A Noviça Rebelde? Suspeito que quisessem atrair o público da pornochanchada”. Vale lembrar, contudo, que A Noviça Rebelde estreou no Brasil em 1965 e que o gênero da pornochanchada só se consolidaria anos depois. A observação, portanto, é deliberadamente anacrônica. A imprecisão, é claro, funciona em favor do humor, embora o alvo mais imediato da piada pareça ser a tradição brasileira de adaptar títulos estrangeiros de forma livre, e não propriamente o contexto cinematográfico da época, em que o Cinema Novo ocupava posição de destaque.

Outro verbete que merece também ser citado é o instigante “Amigo pessoal”, o qual poderia vir acompanhado (permito-me fazer essa sugestão) de verbetes como “Amigo da onça” e “O baba-ovo”, já que esses personagens, não trabalhados por Duvivier, são atualmente até mais decisivos e influentes do que os verdadeiros amigos pessoais. O “baba-ovo”, por exemplo, já tem lugar consagrado na história do humorismo brasileiro, graças às falas de Rolando Lero, interpretado por Rogério Cardoso, cujo bordão era “amado mestre”, seguido dos mais exagerados elogios ao seu professor Raimundo, interpretado por Chico Anysio.

É no mínimo curioso, por fim, constatar que o livro traz um verbete sobre o diminutivo, o qual me interessou particularmente, já que meu nome é Dirce, mas sou conhecida entre os amigos por Dircinha, pois assim eles me distinguem de minha avó Dirce, de quem herdei o nome.

Aos pés da letra é, acima de tudo, um livro divertido, pois a proposta do autor é claramente pensar a língua portuguesa de uma perspectiva espirituosa. O livro se junta, assim, a outras publicações leves que estão surgindo por aqui e que falam despretensiosamente da nossa língua pátria, tão estranha e tão familiar, como diria James Joyce.

 

Dirce Waltrick do Amarante é professora, tradutora e ensaísta. Autora, entre outros, de Interferências: censura, apagamento e outros temas contemporâneos, ambos publicados pela editora Iluminuras.

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