Um ensaio abolicionista sobre o encarceramento de travestis
Dados não são suficientes para mobilizar a transformação social. Não que eles não sejam importantes, pelo contrário, mas é no resgate das humanidades perdidas por detrás dos numerais que estão as sementes de empatia férteis o suficiente para fazer brotar a resistência em nossas comunidades
“Dados e estatísticas não movem pessoas para a luta, mas a humanidade escondida em suas histórias, sim.”
Walidah Imarisha
Ouvi essa frase da escritora, artista de spoken word, abolicionista e minha mestra, Walidah Imarisha, em um de nossos primeiros encontros presenciais, enquanto eu consolidava minhas práticas em seu método de ficções visionárias.
Segundo Imarisha (2016), nossos imaginários são cotidianamente capturados por uma lógica reformista que nos torna indispostos aos processos comunitários de transformação radical. Mesmo quando estamos reunidos em uma roda de companheiros e companheiras progressistas, ainda que reconheçam as prisões como um enorme prejuízo para a sociedade, muitos permanecem presos ao que é, tendo perdido de vista as possibilidades que habitam o campo do que pode vir a ser.
É justamente por isso que Walidah – e eu assino embaixo – defende que nossos movimentos de luta por justiça social precisam, desesperadamente, da ficção científica e da ficção especulativa.
Isso me fez lembrar de uma história que me aconteceu a não muito tempo:
Eu estava na Linha 9-Esmeralda da CPTM, meu terceiro e último meio de transporte para chegar ao CDP – Centro de Detenção Provisória Pinheiros II. Era a sexta tentativa de regularizar minha documentação para visitar uma pessoa querida, presa atrás daqueles muros. Antes disso, eu já havia pegado um ônibus e duas linhas de metrô, em um trajeto que somava mais de duas horas de viagem até aquele ponto. Tudo isso para tentar emitir minha carteirinha de visitante da unidade prisional. Eu já havia cumprido todo o ritual que nós, familiares e/ou amigos de pessoas presas, repetimos sempre que iniciamos uma viagem para abraçar quem amamos do outro lado dos muros.
Primeiro, o vestuário. Era preciso usar uma calça de moletom comprida, desde que não fosse marrom ou bege (para não ser confundido com uma das pessoas presas), branca (porque marca o corpo e você poderia despertar desejo demais) ou preta (para não ser confundido com um dos funcionários). A calça deveria ser acompanhada de uma camiseta de manga, que não podia ser regata, polo, ter zíper, estampa de time ou ser branca ou preta. Tudo conforme o regulamento do presídio e as justificativas apresentadas pela administração.
Nos pés, apenas chinelos de dedo, do tipo Havaianas. Ao longo dessa jornada, deixei de usar piercings e brincos, tantas foram as vezes em que precisei descartá-los durante as tentativas de visita. Perucas, apliques capilares, relógios, pulseiras, objetos metálicos e decotes de qualquer tipo também figuravam na extensa lista de restrições. Na véspera de toda visita, eu avaliava cuidadosamente cada peça de roupa, montando o uniforme que deveria vestir para que minha tentativa de ver minha família estendida[1] não fosse frustrada logo no guichê da fila de visitas. As regras de vestimenta precisavam ser conferidas antes de cada entrada, pois podiam mudar completamente de uma visita para outra, de forma aparentemente aleatória, mesmo dentro da mesma unidade prisional.
“Do portão pra dentro quem manda aqui sou eu, então é bom você se comportar ou você nunca mais consegue visitar ninguém aqui, entendeu?” me disse um dos funcionários do CDP quando eu, já exausto, reclamava das perguntas absurdas que eles me faziam durante a entrevista para visitação, que em nada comprovavam se eu tinha ou não alguma relação de afeto com a pessoa que buscava abraçar lá dentro.
Eles me perguntavam o nome do pai, se ela tinha alguma tatuagem em alguma parte do corpo que não está a mostra, o ano em que os pais dela nasceram, quantos irmãos ela tinha… Além de absurdas, essas perguntas eram dolorosas.
Ela, uma travesti preta, soropositiva como eu, viveu o abandono dos pais desde muito cedo. Me contou uma vez que saiu de casa aos 12 anos de idade, expulsa pela mãe que não aceitava a forma como ela se vestia. Nunca me falou do pai. Quem a criou foi a rua, com toda a crueza que dali vem.
Nasceu no Rio de Janeiro e foi a tantos outros estados brasileiros tentando encontrar algo que preenchesse os imensos vazios que existiam nos buracos cavados no fundo de seu peito. Procurou em todos os lugares algo que superasse essa sensação de incompletude. Quando tentou se livrar do peso das ruas, encontrou o peso das casas de acolhida e toda a violência institucional que muitos desses espaços empregam para essas corpas[2], quando na verdade deveriam protegê-las. O vazio aumentou e ela fugiu. Experimentou o crack por insistência de amigos aos 16 anos de idade, na volta de uma viagem para Minas Gerais. Apesar de reconhecer que aquela decisão foi o primeiro passo para a destruição completa de sua vida, foi somente naquele momento em que ela conseguiu esquecer seus buracos. Não se sentia completa, mas remendada. E isso já era muita coisa. A necessidade de sentir suas feridas tampadas a levou a cometer pequenos furtos e a trabalhar nas pistas de prostituição.
Então chegou o CRIAM, equivalente, no estado do Rio de Janeiro, à FEBEM ou à Fundação Casa, onde o Estado deu início ao processo de privação de sua liberdade. Ao lado de outros jovens com histórias muitas vezes semelhantes à sua, ela conheceu a revolta. Parecia acreditar que havia algo de errado consigo mesma e se culpava por isso. “Eu sempre faço as piores escolhas”, me disse certa vez.
Sentia saudade da mãe. Chegou a visitá-la depois de solta e a perdoou. Ela dizia que tudo que sua mãe fez com ela foi por causa do que a igreja a fez acreditar que seria bom ou mau.
Que mãe não quer o melhor para sua filha? O que essa mãe não percebeu é que essa lavagem cerebral disfarçada de fé, empurrou sua filha para cada vez mais longe. E cada vez que ela era empurrada, suas feridas abriam e só a fumaça do cachimbo parecia ser capaz de estancar o sangue e pus que dali escorriam no mesmo fluxo da água salgada de seus olhos.
Veio para São Paulo porque lhe disseram que aqui havia mais oportunidades para “pessoas assim”. A frustração veio quando a primeira política pública desse estado que lhe acolheu foi o sistema penitenciário de adultos. Na primeira prisão, tiraram-lhe os cabelos, as pulseiras, os brincos, o sutiã e o nome. A partir dali, ela seria apenas um “detento” ou um número de matrícula. Tudo aquilo pelo qual havia lutado para ser – a identidade que reivindicara com tanta força, a ponto de defendê-la nas ruas – foi apagado. Oculta sob uma camiseta branca larga e uma calça bege ainda mais larga, convivia com percevejos que lhe picavam o corpo incessantemente, como se quisessem lembrá-la, a todo instante: o inferno é aqui.
E, quando parecia que já haviam lhe tirado tudo, o sistema ainda deu um jeito de lhe tirar ainda mais. Ela não pôde ver mãe morrer. Soube de sua morte apenas meses depois, embora as duas tivessem, pouco antes, conseguido se reconciliar para seguir em frente. Não a deixaram sair para se despedir, para tirar aquele choro engasgado que precisava permanecer oculto. Porque, atrás daqueles muros, ou você é forte ou você é devorada viva.
Mas nenhuma dessas histórias justificava minha relação com ela para o diretor da instituição prisional que me entrevistava. Eles precisavam dos números se eu quisesse visitá-la.
A angústia em não conseguir visitar um ente querido dentro dos muros faz com que estejamos também presos do outro lado. Eu sabia que ela estava sem acesso aos seus antirretrovirais há seis meses, o tempo em que tentava visitá-la. O advogado já havia solicitado o acesso aos remédios com a receita que encaminhamos da unidade de saúde que lhe assistia em liberdade. “Ela precisa passar por uma consulta interna para liberarmos a medicação”, respondiam-nos por e-mail.
Eu já estava com o jumbo comprado e separado há meses. Sabemos as condições em que pessoas presas estão submetidas a uma alimentação precária e falta de acesso a itens básicos de higiene. É pelo jumbo que conseguimos, do lado de fora, trazer um mínimo de dignidade para nossos entes queridos. Os itens ali contidos, além de garantirem a sobrevivência com dignidade dentro das terras de ninguém que são as prisões, podem ser barganhados com outros presos a fim de garantir seguridade. Mas sem a carteirinha o jumbo não entra.
Desespero.
Eles queriam números e eu não os podia dar. Naquele trem, a caminho da minha estação de destino, eu só conseguia pensar em todos os outros números que regulavam estatísticas sobre a realidade prisional, algumas das quais eu me via inserido enquanto amigo/familiar.
Segundo a plataforma World Prison Brief (2026), banco de dados online mantido pelo Institute for Crime and Justice Policy Research, que oferece acesso gratuito a informações sobre sistemas prisionais em todo o mundo, o Brasil é o país com a terceira maior população carcerária do planeta. Perdemos apenas para a China e os Estados Unidos. São 909.607 pessoas cativas no sistema penal brasileiro. 909.607 cadeiras vazias nas mesas de jantar de outras centenas de milhares de famílias periféricas, pretas, indígenas, imigrantes, pobres ou dissidentes de gênero e sexualidade. Nossa população carcerária é maior do que a população da Guiana, de Cabo Verde, das Maldivas ou de todo o estado de Roraima. Há 37 países no mundo cuja população total é inferior ao número de pessoas presas no Brasil. Nossa massa carcerária equivale, sozinha, à população somada de até nove desses países (PopulationPyramid.net, 2026).
Nove países inteiros estão trancafiados entre as muralhas do estado brasileiro constituindo uma nação sem dignidade, onde seus habitantes são destituídos de todos os seus direitos em um regime opressor legitimado pelo censo popular. É nessa terra que vemos a derrocada da democracia e a falência da ideia da representatividade política, onde a maioria vence. Mas que maioria? Democracia para quem?
Nove países ausentes de seus entes queridos no Brasil. Ausências que fraturam e fragilizam comunidades inteiras. Crianças que são obrigadas a crescerem sem os pais, muitas vezes tuteladas pelo sistema de abrigos para menores que também atuam como tolhedores da liberdade e da esperança. Afastadas de seu seio familiar, tomadas de suas mães pelo estigma da criminalidade sob uma promessa de que, ao fim de tudo, todos estarão devidamente ressocializados.
Ressocialização. Essa é outra falácia do sistema punitivista que insiste em chamar suas vítimas de educandos.
Se as instituições prisionais fossem organizações (res)socializadoras, exemplos da educação para as segundas chances, você que me lê agora poderia responder à pergunta: Você contrataria alguém que foi preso para trabalhar dentro da sua casa? Ou na sua empresa?
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Os relatórios nacionais são ainda mais alarmantes. Segundo o RELIPEN – Relatório de Informações Penais do 2º semestre de 2025 (Brasil, 2026), apenas 192.338 pessoas presas em celas físicas no Brasil possuem trabalho, das quais 86.991, cerca de 45,23%, o fazem somente por remição de pena. Isso significa que existem dezenas de milhares de pessoas dentro das penitenciárias no Brasil desenvolvendo trabalho não remunerado, na expectativa de terem seus dias de reclusão diminuídos. Pessoas que trabalham em regime escravo, fazendo a roda do capitalismo girar a todo vapor, lubrificando suas engrenagens com suor e sangue de pessoas historicamente subalternizadas desde a colonização dessas terras. O mesmo relatório mostra que 28.729 pessoas presas trabalham por menos de três quartos de um salário mínimo. Outras 55.293 recebem entre três quartos e um salário mínimo.
Na legislação brasileira, o artigo 149 do Código Penal define os elementos que caracterizam a redução de uma pessoa à condição análoga à de escravo. São eles: a submissão a trabalhos forçados ou a jornadas exaustivas; a sujeição a condições degradantes de trabalho; e a restrição da locomoção do trabalhador.
Além disso, o artigo 76 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) estabelece que o salário mínimo é a contraprestação mínima devida e paga diretamente pelo empregador a todo trabalhador.
Inconstitucional? Ilegal? Com certeza. Mas como podemos ver, dentro dos muros essas regras não se aplicam. Embora a Lei de Execução Penal garanta que pessoas presas não sejam obrigadas a trabalhar durante sua privação de liberdade, sabemos que as condições precárias e desumanas a que estão submetidas levam essas pessoas a aceitar esses trabalhos como alternativa para fugir da dor do cárcere. Essas evidências aparecem em depoimentos como o da travesti Aline Oliveira, que foi cativa por 20 anos nas penitenciárias do complexo prisional do Estado de São Paulo:
“Tem unidade que o rateio é 30 reais… Por mês. Tem unidade que o rateio é 70. Tem unidade que o rateio é 120. Tem unidade que não chega nem a isso. Mas você trabalhar e ganhar, que seja, 30… pô! vai chegar no final do mês você não ficou ali dentro, você evitou tanta coisa, se aborreceu menos, se ocupou e tem 30 reais, que seja. Cinco maços de cigarro…” (Nascimento; Gaulês, 2020, s.n.).
É por isso que os movimentos de luta antiprisional e antirracista em todo o mundo compreendem as prisões como uma continuidade da senzala escravocrata. Nessa perspectiva, seus objetivos estariam muito mais ligados à manutenção do poder dos soberanos e do capitalismo exploratório do que à promoção da segurança pública. A esse respeito, ao retratar a realidade estadunidense, a filósofa socialista e abolicionista Angela Davis afirma:
“Logo após a abolição da escravidão, os estados do Sul se apressaram em desenvolver um sistema de justiça criminal que restringisse legalmente as possibilidades de liberdade para os escravos recém-emancipados. As pessoas negras se tornaram os principais alvos de um sistema em desenvolvimento de arrendamento de condenados, ao qual muitos se referiam como uma reencarnação da escravidão.” (DAVIS, 2018, p.25)
Quase 89% das pessoas que trabalham dentro do sistema prisional brasileiro o fazem em regime escravo e recebem rendimentos abaixo dos aprovados pela CLT (isso quando recebem alguma coisa) (Brasil, 2026).
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Quando pensamos na população LGBTQIA+ cativa nos muros do estado, chegamos a outros dados também alarmantes. O relatório mais recente da ANTRA, aponta que o Brasil é, pelo 18º ano consecutivo, o país que mais mata a população transvestigênere no mundo.
Em 2025, 80 pessoas trans foram assassinadas nesse país simplesmente por serem quem são. E embora esse número tenha sofrido uma queda de 34% entre 2023 e 2025, essa redução não representa um avanço concreto no enfrentamento à violência transfóbica, mas reflete o aprofundamento da subnotificação, da invisibilização das mortes trans e do abandono institucional, marcado pela ausência de políticas públicas, pela precarização do monitoramento dos casos, pelo silêncio forçado das vítimas e pelo descrédito nas instituições de segurança e justiça (Benevides, 2026).
Esse ódio instaurado no imaginário da população brasileira, que leva a legitimar o extermínio de uma determinada população com requintes de crueldade, se imprime também dentro das instituições prisionais. Como revela uma travesti sobrevivente do cárcere na dramaturgia da peça Anjos de Cara Suja – O Sol é, ou deveria ser, para todas: “Lá dentro, a gente tá presa pela polícia, pelo Estado e pelo ladrão ainda” (Gaulês, 2023a, p. 469).
Segundo dados do Observatório de mortes e violências conta LGBTI+ no Brasil, não são apenas os genocídios de travestis que nos colocam no topo do ranking mundial, mas o extermínio de toda a população LGBTQIA+ brasileira (Gastaldi, 2024).
Em 2023, o Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura realizou visitas a 24 unidades penitenciárias em diferentes regiões do Brasil, com o intuito de coletar dados que reflitam as tendências de análise do encarceramento de pessoas LGBTQIA+. Essas visitas culminaram na produção de um relatório que explicita questões como assédio, falta de produtos básicos de higiene e saúde, falta de alimentos, anulação de identidades e outras violações aos direitos humanos. (Coloniese; Ferreira; Klein, 2023)
“O primeiro direito é não ter direito. O segundo é respeitar o primeiro” (apud. Coloniese; Ferreira; Klein, 2023, p.19), afirmou um agente penitenciário ao falar sobre a ala LGBTQIA+ durante entrevista para o relatório. Essa realidade se repete em todas as outras 193 celas/alas especiais para pessoas dissidentes de gênero existentes no nosso sistema carcerário. Condições que levam a uma descrença completa das organizações de Direitos Humanos, o que torna ainda mais difícil a produção de dados sobre os horrores experimentados nessas peles triplamente encarceradas. “Denunciar pra que? Apanhar de novo e pegar castigo?” (Coloniese; Ferreira; Klein, 2023, p.9), desabafa uma mulher trans presa para a mesma entrevista.
Pessoas que foram abandonadas pela família, pela sociedade e pelo estado são torturadas com maior rigor por não seguirem os padrões de ordem estabelecidos pelo delírio da normal cisgênera e heterossexual. Corpos que precisam se sujeitar a condições abaixo de sub-humanas, tendo que se prostituir dentro dessas instituições para poder ter acesso a um sabonete, uma lâmina de barbear ou uma pasta de dente. Consegue imaginar o que é se prostituir por um sabonete?
Segundo o pesquisador Pedro Gastaldi de Carvalho:
“Corpos LGBTI+, no Brasil, experimentam a tortura como política de ordem. A busca por uma definição do que seria ‘a ordem’ produz, necessariamente, a concepção de desordem – articulada à constituição do medo como um potente operador político – e que faz existir instituições com a finalidade de preservá-la a fim de conter o medo que opera a ordem. […] Aqui, a ordem se concretiza sob o signo da heterossexualidade e da cisgeneridade. E, tudo o que foge a tais padrões, cabe o signo da desordem, que, por isso, apresenta-se como uma espécie de destino imperioso a corpos torturáveis.” (apud. Coloniese; Ferreira; Klein, 2023, p.13)

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Até 2024, o Brasil contava com 1.381 estabelecimentos prisionais em todo o seu território, dos quais cinco eram federais e os demais estavam sob administração e responsabilidade dos estados da Federação (Brasil, 2026).
Nessas unidades, 59.237 pessoas permaneciam em prisão provisória por mais de 90 dias. O artigo 316, parágrafo único, do Código de Processo Penal determina que a necessidade da prisão preventiva seja reavaliada a cada 90 dias, por meio de decisão fundamentada, sob pena de a custódia se tornar ilegal. Isso significa que dezenas de milhares de pessoas permanecem presas sem que a manutenção da medida cautelar tenha sido devidamente reexaminada pela Justiça.
Aproximadamente uma em cada nove pessoas presas no país encontrava-se nessa situação: sem condenação definitiva e submetida a uma prisão que, em tese, deveria ter sido reavaliada. A pessoa que eu pretendia visitar no CDP Pinheiros II era um exemplo concreto dessa realidade. Estava presa havia seis meses sem sequer ter sido julgada.
Sabemos que os corpos cativos no muro do sistema têm endereço, cor e classe social. Segundo os dados do SENAPPEN (Brasil, 2026) cerca de 66% das pessoas presas em celas físicas nesse país se autodeclaram como pretas ou pardas. Ainda sobre porcentagem, 47% das pessoas presas no Brasil não completaram o ensino fundamental e 76% não terminaram o ensino médio. Esses valores ajudam a entender a realidade socioeconômica da esmagadora maioria das vítimas cativas do sistema prisional.
Na cidade de São Paulo, a maior do país e a terceira maior do mundo, 59,5% das pessoas em situação de rua passaram, pelo menos uma vez, por alguma instituição de privação de liberdade (São Paulo, 2019).
R$5,40 a passagem. Estação Ceasa. Agora é só caminhar até a entrada do CDP de Pinheiros II. Quanto tempo leva?
Ao chegar no guichê da penitenciária, não é possível encontrar nenhum funcionário. O horário de atendimento fixado no mural diz que o guichê já deveria estar aberto. Algumas mulheres fazem fila esperando também para serem atendidas comigo. Esperamos por cerca de três horas e nada. Não há ninguém ali para se requerer informações. Tentamos ligar para o telefone da penitenciária e depois de muitas tentativas conseguimos uma resposta: “Podem aguardar aí que daqui a pouco vão abrir o guichê”.
O estado de São Paulo é conhecido por ser os Estados Unidos do sistema prisional brasileiro. Quase 30% das pessoas privadas de liberdade em estabelecimentos prisionais no país estão encarceradas em unidades paulistas. Ao todo, são 221.220 pessoas presas em estabelecimentos com capacidade para receber, no máximo, 156.884. Esses dados foram informados pelos próprios estabelecimentos prisionais à Secretaria Nacional de Políticas Penais (SENAPPEN) (Brasil, 2026).
Duas horas e meia de viagem, mais três horas de espera. Seis mulheres aguardam comigo na fila para tentar fazer suas carteirinhas. 524 anos desde a invasão dos colonizadores. 136 anos desde a farsa da abolição da escravatura no Brasil. Quanto tempo leva?
Os números estão aí, compondo uma cartografia que, simultaneamente, registra a história e profetiza o futuro. Profecia essa que nós, membros de comunidades fraturadas pelo projeto punitivista/penitenciário, insistimos em repetir. Como já disse uma vez, minha mestra Walidah Imarisha:
“Nos meus momentos mais dramáticos, imagino a mim e outras desafiando o sistema prisional como Cassandras, amaldiçoadas pelos deuses a prever o futuro e não ser ouvidas, enquanto nossas predições da destruição de Tróia pelos espartanos nos enlouquecem lentamente. Existem milhares de Cassandras nas filas de visita neste momento.
Eu considero nossas visões de devastação tão terríveis quanto o destino de Tróia […]. As prisões são os cavalos de Tróia desta sociedade, profetizadas como o fim da “guerra às drogas”. Nós aceitamos isso e as consequências devastadoras que acompanham.” (Gaulês, 2023, p.56)
Apesar do horror dos números, concordo com Walidah que esses dados não são suficientes para mobilizar a transformação social. Não que eles não sejam importantes, pelo contrário, mas é no resgate das humanidades perdidas por detrás dos numerais que estão as sementes de empatia férteis o suficiente para fazer brotar a resistência em nossas comunidades.
Afinal, o sistema carcerário já transforma seus cativos em números desde a entrada na unidade prisional, com o objetivo de subtrair as identidades e continuar o processo de desumanização ou “Maafa”.
O termo “Maafa” foi cunhado por Marimba Ani (1994) para designar os processos de desumanização radical provocados pela invasão da África e pelas violências do regime escravista, cujos efeitos se perpetuam até os dias atuais. Significa “grande tragédia” em suaíli[3], e define o efeito dominó de violências e abusos perpetuados secularmente em comunidades inteiras e a consequente reprodução de violência por parte dessas mesmas comunidades. Territórios inteiros que foram doutrinados compulsoriamente sob uma pedagogia do sofrimento naturalizado.
A Maafa é uma tragédia que não pode ser mensurada por números, não é quantificável, pois seus impactos produzem estilhaços que se infiltram profundamente na carne de pessoas pretas, pobres e periféricas infeccionando e adoecendo o organismo de nossas comunidades em espaços e tempos que se multiplicam contínua e aceleradamente.
Quando finalmente fui atendido no guichê da fila de visitas, não conseguiram encontrar o cadastro da pessoa que procuro pelo nome. “Sem o número da matrícula não podemos dar sequência”, disseram-me. Corri para pegar na bolsa uma das cartas que ela havia me escrito, já que em todas elas as pessoas presas também precisam colocar o número de matrícula. Não adianta data de nascimento, RG, CPF… Sem a matrícula você volta para casa sem a carteirinha. Na sexta tentativa eu consegui fazer minha credencial para visitá-la. Ficaria pronta em 15 dias e bastava eu ir até a unidade para buscar. Eu nunca fui buscar essa carteirinha porque não precisei usá-la. Depois de muita pressão do advogado e barulho na mídia, o juiz concedeu liberdade provisória na semana seguinte da liberação do meu cadastro no guichê de visitantes. Nada a lamentar, só comemoração. Nossa visita se deu sob o céu, o sol e as nuvens.
Eu tenho insistido com muita força em registrar e narrar essas histórias, histórias de muita dor e violência, com muita poesia. Não porque queira romantizar ou simplificar a contradição complexa que elas habitam, mas porque essa é uma maneira de reiterar ao mundo punitivista-capitalista que, apesar de tudo o que nos fizeram, ainda insistimos em manter as nossas humanidades esfarrapadas intactas. É justamente isso que minha querida Walidah quer dizer quando insiste que os movimentos por justiça social precisam da ficção científica. Não para escapar da realidade, mas para disputar o imaginário que a torna possível. Afinal, toda prisão existiu primeiro como uma ideia; todo regime de violência precisou, antes, convencer uma sociedade de que determinados corpos eram descartáveis.
A história da minha amiga poderia ter terminado como tantas outras histórias de travestis brasileiras: reduzida a uma nota policial, a uma manchete sensacionalista ou a mais um número em um relatório sobre encarceramento, violência ou morte. Um corpo transformado em espetáculo. Uma vida subtraída de sua potência para alimentar a pedagogia do medo e da punição. Mas nenhuma pessoa nasce para virar estatística, nem para servir de entretenimento em programas que lucram com a exposição da miséria produzida pelo próprio Estado.
Contar sua história é recusar esse destino. É devolver nome onde o cárcere impôs matrícula. É devolver memória onde tentaram produzir esquecimento. É devolver futuro onde insistem em fabricar apenas reincidência e morte.
A ficção visionária nos convida justamente a esse exercício coletivo: imaginar mundos em que travestis não precisem sobreviver ao abandono familiar, à rua, ao cárcere e à violência institucional para existir. Mundos em que o Estado não invista mais em celas do que em cuidado. Mundos em que nossas comunidades sejam capazes de produzir pertencimento antes que o sistema produza captura.
Porque imaginar radicalmente não é um luxo. É uma prática de sobrevivência. Enquanto aceitarmos que histórias como a dela sejam contadas apenas pelos boletins de ocorrência, pelos censos penitenciários ou pelos programas policialescos do fim da tarde, permaneceremos aprisionados aos limites do mundo que existe. A abolição das prisões começa muito antes da queda de seus muros. Ela começa quando somos capazes de construir, em comunidade, imaginários tão potentes que já não haja espaço para aceitar como inevitável aquilo que hoje chamamos de realidade.
O presente trabalho é um desdobramento da tese de doutorado Borboletas no Asfalto: uma perspectiva fractal sobre artes cênicas, prisão e abolição, desenvolvida com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). O texto foi revisado e atualizado no âmbito da pesquisa de pós-doutorado atualmente desenvolvida com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), processo nº 2025/012602-2.
Murilo Moraes Gaulês é abolicionista, pós-doutorando FAPESP/USP, doutor em Artes Cênicas e diretor da CiA dXs TeRrOrIsTaS.
Referências:
ANÍ, Marimba. Yurugu: An African-Centered Critique of European Cultural Thought and Behavior. Trenton: África World Press, 1994.
BENEVIDES, Bruna G. DOSSIÊ, Assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileira em 2025. Brasília, DF: Distrito Drag; ANTRA, 2026. Disponível em <https://antrabrasil.org/wp-content/uploads/2026/01/dossie-antra-2026.pdf>
BRASIL. SENAPPEN – SECRETARIA NACIONAL DE POLÍTICAS PENAIS. Relatório de Informações Penais – RELIPEN – 2º semestre 2025. Brasília, 2026. Disponível em: <https://www.gov.br/senappen/pt-br/servicos/sisdepen/relatorios/relatorios-de-informacoes-penitenciarias/relatorio-do-2o-semestre-de-2025.pdf>.
COLONIESE, Bárbara; FERREIRA; Guilherme Gomes; KLEIN; Caio Cesar.. Relatório Nacional de Inspeções – População LGBTQIA+ privada de liberdade no Brasil. MNPCT (Mecanismo Nacional de Proteção e Combate a Tortura). Brasília, 2023.
DAVIS, Angela. Estarão as prisões obsoletas? DIFEL. 2018
GASTALDI. Alexandre Bogas Fraga (org.). DOSSIÊ 2023: mortes e violências contra LGBTI+ no Brasil. Brasília: Observatório de Mortes e Violências LGBTI+ no Brasil, 2024. Disponível em <https://observatoriomorteseviolenciaslgbtibrasil.org/wp-content/uploads/2024/05/Dossie-de-Mortes-e-Violencias-Contra-LGBTI-no-Brasil-2023-ACONTECE-ANTRA-ABGLT.pdf>
GAULÊS, Murilo Moraes (org.). Anjos de Cara Suja: Três histórias de crime, prisão e redenção | O Sol é, ou deveria ser, para todas. La Lettre. São Paulo. 2023.
IMARISHA, Walidah. Reescrevendo o futuro: usando ficção científica para rever justiça. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 2016. Disponível em: <https://pt.scribd.com/document/378747787/Walidah-Imarisha-22Reescrevendo-o-futuro-22-pdf>
NASCIMENTO, Diego; GAULES, Murilo. Como Recuperar o Fôlego Gritando. Documentário. 30min. São Paulo. 2020.
POPULATION PYRAMID.NET. 2026. Disponível em < https://www.populationpyramid.net/pt/popula%C3%A7%C3%A3o/2026/>
SÃO PAULO. SMADS – SECRETARIA MUNICIPAL DE ASSISTÊNCIA E DESENVOLVIMENTO SOCIAL. Pesquisa Censitária da População em situação de rua, caracterização socioeconômica da população em situação de rua e relatório temático de identificação das necessidades desta população na cidade de São Paulo. 2019. Disponível em <https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/upload/Produtos/Produto%209_SMADS_SP.pdf>
WORLD PRISON BRIEF. Highest to Lowest – Prison Population Total. 2026. Disponível em <https://www.prisonstudies.org/highest-to-lowest/prison-population-total?field_region_taxonomy_tid=All>
[1] Forma de organização familiar que vai além dos laços sanguíneos. A partir das relações interpessoais, as pessoas que integram essa família se escolhem e compõe papéis distintos da hierarquia comum ao formato nuclear tradicional. No decorrer do texto, essa construção da minha família estendida será melhor abordada, assim como as pessoas que a constituem.
[2] A palavra “corpa” é uma ressignificação da palavra “corpo”, deslocada para fora das normas impostas pelos padrões da cisgeneridade sobre a compreensão dos seres.
[3] Língua banta da família nigero-congolesa, falada como primeira língua na costa oriental e em ilhas da África, numa área que se estende da ilha de Lamu (Quênia) até a fronteira meridional da Tanzânia, e usada como língua franca na Tanzânia, Quênia, República Democrática do Congo e Uganda e também no Norte de Moçambique.

