CAPITALISMO

O Império da Mercadoria

Depois de atravessar o Atlântico, a “Mercadoria” atravessou o Pacífico. E a interferência do Estado na economia não é algo novo no capitalismo

Embora para muitos possa parecer milenar, o capitalismo como sistema tem pouco mais do que dois séculos de vida. Para o decadente Império Americano, que permaneceu como polo hegemônico do capitalismo internacional por menos de um século, parece que é o fim do mundo, coisa de comunista; para o Partido Comunista, que governa a China em nome da “Mercadoria”, é “socialismo com características chinesas”; e, para quem gosta de contemporizar, a China está além do capitalismo e do comunismo.

O Império Chinês nunca se interessou pela remota e pouco civilizada Europa, mas o contrário não é verdadeiro. A Europa sempre se interessou pela China, como fonte de conhecimento, tecnologia e luxo – invenções da bússola, papel, imprensa, pólvora; produção de chá, porcelana, seda etc. – desde Marco Polo no século XIII, passando pelo Renascimento Europeu, para desembocar na expansão do Capitalismo Industrial no século XIX.

A Inglaterra, em meados do século XIX, submeteu o Império Chinês, que desabou em 1912. Seguiu-se a república, a guerra civil sob as lideranças de Mao Ze Dong e Chiang Kai Shek, a invasão do Japão e, por fim, a Revolução de 1949. A China, então uma sociedade predominantemente agrária, com 90% da população vivendo na zona rural, desenvolveu as suas “forças produtivas” sob a liderança do Partido Comunista, industrializando e urbanizando o país, a ponto de transformá-lo no polo hegemônico do capitalismo internacional nas primeiras décadas do século XXI.

Foto: Robert Scoble/Flickr

A volta ao mundo

A gênese do império da mercadoria, que corresponde à sua pré-história, data do Renascimento europeu e de sua expansão ultramarina iniciada no século XV. O processo de generalização da “Mercadoria”, propriamente dito, ocorreu durante a Revolução Industrial inglesa, na passagem dos séculos XVIII para o XIX. O eixo hegemônico do sistema capitalista internacional cruzou o Atlântico no século XX e o Pacífico no século XXI… e, assim, completamos a volta ao mundo, voltamos para a China, agora não mais na condição de um império milenar, mas como a nova sede do império da mercadoria.

O país que está herdando a hegemonia do capitalismo internacional está em clima de festa. A poderosa elite banha-se em champagne e acende charutos com notas de 100 yuan. O dinheiro não vale mais nada, pode-se gastar, pode-se desperdiçar à vontade. A massiva classe média, mais comedida, segue atrás, refestelando-se com o mundo da “Mercadoria” às suas mãos, feliz por se libertar da carestia, abraçando o desperdício, ainda que com certo acanhamento. Os camponeses e os migrantes urbanos, mesmo sujeitos à baixa remuneração e restritos direitos trabalhistas e sociais para habitação, saúde, educação etc., são deferentes à autoridade do governo e agradecem o Partido Comunista por lhes garantir a sobrevivência – o apoio popular ao governo (90%) está entre os mais elevados do mundo.

Dedicados operários batem continência, agradecem o governo por lhes oferecer trabalho e se dedicam à produção em prol de garantir a sobrevivência da restaurada soberania da China – suas vidas privadas e familiares são uma abstração. Em maio de 2026, em Shang Hai, por acaso, presenciei, na abertura do expediente de um restaurante, uma gerente falando com oito funcionários em pé, eretos, postados em duas fileiras (como um sargento a seus soldados). Já havia visto cenas semelhantes em vídeos que retratavam operários em unidades industriais e fiquei observando o evento à distância. A gerente falava pelos cotovelos e os garçons, altamente concentrados, nem piscavam. Depois que ela acabou o seu longo discurso, todos levantaram os braços, dispersando e gritando hurra! Pela música, entendi que ela não tinha nada para comunicar, era só um ritual, um exercício de autoritarismo e subserviência (a cena também chamava a atenção pelo empenho da gerente, apesar do reduzido número de subalternos).

Para se ter uma ideia do expediente que impera na China, os comissários de bordo da Air China são “desenhados” acompanhando o layout das aeronaves – idade entre 18 e 25 anos, longilíneos, como só jovens adultos soem ser. Dois tripulantes conseguem transitar tranquilamente lado a lado pelos estreitos corredores; entre os comissários das companhias ocidentais você pode encontrar pessoas com idade avançada e sobrepeso, até com dificuldade de se locomover na aeronave.

A China já está até exportando tecnologia em gerenciamento da classe trabalhadora. A Fuyao Glass Industry Group, que assumiu uma planta industrial nos Estados Unidos, autorizou a filmagem de American Factory acreditando que o documentário registraria uma história de sucesso, a geração de milhares de empregos. Os cineastas independentes, porém, com amplo acesso ao chão de fábrica, reuniões, operários e executivos, nos Estados Unidos e na China, documentaram conflitos trabalhistas, redução de salários, aceleração do ritmo de trabalho, imposição de horas extras, ressentimentos pela restrita vida privada e familiar, cerceamento à organização sindical etc. Ironicamente, a China Comunista está ensinando ao Império Capitalista Americano como fazer seus trabalhadores esquecerem seus parcos direitos trabalhistas conquistados e se submeterem ao capital.

O presidente da Fuyao, Cao De Wang, no final do documentário, disse que a China de sua juventude era pobre, mas que sentia que era mais feliz naquela época. Declarou: “Nas últimas décadas, eu construí inúmeras fábricas. Será que só causei perturbação e destruí o meio ambiente? Não sei se contribuí para o bem ou se sou um criminoso.”

Estado e capitalismo

A forte interferência do Estado na economia tem sido usada por algumas organizações de esquerda – que não conseguem sobreviver sem uma “pátria do socialismo” – para identificar a China como comunista. Mas a ingerência do Estado na economia não é algo novo no capitalismo. Durante o século XIX, o capitalismo enfrentava crises econômicas periódicas sem que o Estado interferisse em sua dinâmica. Mas, a partir do século XX, o Estado passou a intervir com maior ou menor intensidade nas economias capitalistas. Uma das mais importantes iniciativas, além de políticas fiscais anticíclicas, foi a substituição do padrão ouro pelo padrão monetário administrado por bancos centrais, com o uso de políticas monetárias.

Diante da Grande Depressão de 1929, sob a presidência de Franklin Roosevelt, os Estados Unidos lançaram o New Deal, com forte intervenção estatal na economia, criação de empregos, regulação financeira e medidas para garantir o bem-estar social. O Estado na Alemanha, sob a liderança de Adolf Hitler, também exerceu forte intervenção na economia – um sucesso do ponto de vista econômico, expressiva reativação industrial e redução do desemprego.

Barack Obama foi eleito em meio à Crise Financeira de 2008 e, em 2009, seu papel no enfrentamento da crise nos Estados Unidos, que evitou o aprofundamento da crise na Europa, foi o motivo subjacente, não explicitado, de ele receber o Prêmio Nobel da Paz (em 2009, os Estados Unidos estavam militarmente envolvidos em conflitos com o Afeganistão, Iraque, Paquistão, Iêmen e Somália). Obama havia declarado publicamente que ninguém gostava de ajudar os bancos a saírem de uma crise que eles mesmo geraram, mas que as consequências para a sociedade seriam piores se o governo não socorresse as instituições financeiras.

Voltando à interferência do Estado na economia capitalista da Alemanha Nacional-Socialista, seu desempenho econômico foi angariado por uma política estatal racista, expansionista e bélica. Por um momento, isto me fez lembrar a política estatal da atual administração da decadente sociedade norte-americana.

 

Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política. Autor, entre outros livros, de 1968, sonhos e pesadelos

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