O MÁGICO COMO COTIDIANO

25 anos de ofício e meio milhão de exemplares de Socorro Acioli

O último lançamento de Socorro Acioli, Amar é Inadiável, articula sua visão sobre o amor em suas múltiplas dimensões

Na última semana, a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) bateu seu recorde de visitantes, mesmo operando com metade do orçamento do projeto. Com a saída de patrocinadores em um ano marcado por Copa do Mundo e eleições, mais de 40 mil pessoas estiveram na cidade para prestigiar o evento literário em sua 24ª edição.

Com público e mesas majoritariamente femininos, atravessando gerações, a presença de autoras como Cármen Lúcia, Conceição Evaristo, Carla Madeira e Socorro Acioli reflete o protagonismo das mulheres no mercado editorial brasileiro.

Amar é Inadiável, de Socorro Acioli, publicado e lançado pela Editora Planeta durante o evento, foi o livro mais vendido desta edição. Anteriormente, Socorro já havia se consagrado como a autora mais vendida da Flip 2023. Naquele ano, a obra Oração para Desaparecer ocupou o primeiro lugar em vendas, enquanto A Cabeça do Santo ficou na terceira posição.

Jornalista e escritora brasileira nascida em Fortaleza, Acioli é autora de 24 livros – transitando entre romances, crônicas e literatura infantojuvenil. Em 2013, foi vencedora do Prêmio Jabuti, na categoria infantojuvenil, com a obra Ela tem olhos de Céu. Desde 2025, a escritora está no topo da lista de autores mais lidos do país, ultrapassando a marca de meio milhão de exemplares vendidos.

Seu trabalho mais aclamado é o romance A Cabeça do Santo, projeto desenvolvido durante a oficina literária Como contar um conto, ministrada pelo escritor colombiano Gabriel García Márquez, em Cuba, no ano de 2006. Socorro Acioli foi a única brasileira selecionada entre centenas de inscritos após submeter uma ideia e um parágrafo inicial com muita insistência, bastidor que a autora costuma compartilhar em diversas entrevistas com o tom de humor característico de sua personalidade.

O enredo acompanha Samuel, um jovem que passa a morar dentro da cabeça oca de uma estátua gigante de Santo Antônio, no interior do Ceará, e começa a ouvir as preces das mulheres da região. Publicado em 2014, o título marcou a estreia de Acioli no romance adulto e, desde então, foi traduzido para diversos idiomas. Em breve, o cinema brasileiro receberá uma adaptação cinematográfica da obra.

Entrevistamos a autora para conversar sobre seu último lançamento, Amar é Inadiável, no qual ela articula sua visão sobre o amor em múltiplas dimensões: nas relações afetivas, na amizade e no profundo respeito pelas palavras e pela escrita, que formam a base de seu ofício.

Confira a entrevista na íntegra:

Para você, qual é a função do amor?

Eita, diacho! Começou logo… Por essa eu não estava esperando. Para mim, o amor é fonte de motivação para viver. São diferentes tipos de amor, de maneiras diferentes e em momentos diferentes, que vão sempre me tornando mais forte do que as dificuldades. Seja o amor pelo trabalho, pela profissão, ou pelas minhas filhas. Tem coisas que eu preciso superar e que supero por amor – seja a alguém que precisa de mim ou a alguém que me sustenta emocionalmente. É como se fosse, de fato, um combustível que me mantém sempre em movimento.

A próxima pergunta nos leva a 10 anos atrás, quando você escrevia para o jornal O Povo – que você mencionou aqui em Amar é Inadiável –, e agora, que você está com uma coluna na Folha de S.Paulo. Você sente liberdade criativa? Sente-se pressionada? Como é a sua relação com a escrita das crônicas?

Pelos veículos – tanto O Povo, o Diário do Nordeste e, agora, a Folha –, sinto total liberdade. Nunca tive nenhum cerceamento ou direcionamento de assunto. Mas sinto muita pressão, toda semana, de mim mesma. Há uma preocupação constante em como vou me posicionar, porque a crônica é um espaço onde você pode facilmente cair no pessoal, por ser um texto em primeira pessoa. Tem sempre o risco de você escorregar um pouco e esquecer que aquilo será lido por muita gente, em um veículo de acesso enorme. Então, fico sempre muito tensa: o que posso dizer que seja útil para as pessoas? Que tenha alguma função, e não seja apenas eu mesma cumprindo tabela ou uma obrigação de escrever. A pressão não vem dos jornais, de jeito nenhum, mas de mim mesma; toda semana é muito difícil. Reflito e penso milhões de vezes no que vou escrever. Inclusive, já estou desesperada sem saber o que vou fazer para a coluna de segunda-feira.

Durante o seu processo criativo, você costuma resgatar acontecimentos ou guardar situações pensando que elas dariam uma boa crônica?

Às vezes eu guardo, mas sempre tento tirar de uma perspectiva personalista. Aconteceu comigo, mas procuro pensar em como aquilo acontece também com outras pessoas; em como pode ser ampliado de uma questão estritamente biográfica para uma reflexão na qual os leitores se reconheçam. Se eu ficar falando só de mim, vai ficar cada vez pior, cada vez mais sem graça. Mas eu guardo, sim. Coisas que eu escuto, que alguém fala, ou algo que observo… Acabo guardando para as crônicas. E principalmente prestando atenção nas pessoas. Acontece muito de alguém dizer alguma coisa ou se comportar de uma maneira que eu sinta que pode gerar assunto pra uma crônica.

A escritora Socorro Acioli – Foto: Igor de Melo/Divulgação

Ainda sobre inspiração, mas saindo um pouco das crônicas: você acha que a sua vivência de infância influenciou na criação do seu realismo fantástico? Ou foi algo construído mais tarde, ao longo da carreira?

Não. É uma influência da minha família. Na verdade, eu nem via aquilo como “realismo fantástico”, eu via como realidade mesmo. Muitas coisas que estão nos meus livros eram muito comuns na minha vida familiar: ver espírito, receber anúncio de morte, saber o dia em que vai morrer. Isso é natural na minha família materna, não é nada do campo do sobrenatural, não, era o normal! As mulheres da minha família sabem o dia em que vão morrer. Para mim, não tem nada de mágico, eu chamo isso de cotidiano. É a realidade de estar em casa. Uma vez, minha avó ouviu uma voz, eu também ouvi, e ela logo identificou: era meu tio avisando que tinha sido assassinado. Uma hora depois, toca o telefone. Normal lá em casa.

Acho que você chegou a compartilhar essa história em uma coluna da Folha, não foi?

Coloquei, sim. Com o Tio José foi assim.

E alguém da sua família escrevia? Isso te motivou de alguma forma?

Não, ninguém. Nada, nada, nada. A influência vinha das histórias; minha avó contava muita coisa, mas escrever, não. Ela era semianalfabeta. Anos depois eu soube que meu pai tinha vontade de ser cronista esportivo, sonhava em escrever sobre futebol no jornal. Mas, tirando esse desejo dele, ninguém na minha família tem nenhuma relação com literatura ou com a escrita. Nada mesmo.

Quais dicas, técnicas ou livros você recomendaria para quem está começando na escrita ou enfrentando o famoso bloqueio criativo?

Leitura, em geral. Principalmente de textos parecidos com o que você gostaria de escrever. Seja qual for a área escolhida, o primeiro passo é ler. Conhecer a fundo a literatura brasileira, entender a nossa tradição para saber onde você se posiciona ao escrever hoje. Se quer escrever não ficção, por exemplo, estude quem já fez isso antes. E, acima de tudo, tenha paciência, porque a escrita é uma construção absurdamente lenta. A segurança total, para mim, nunca chegou. Mas é a construção muito lenta de uma vida: percepção de mundo, bagagem de leitura, experiências… Tudo caminha junto. Mas é imprescindível passar por uma formação leitora consistente naquilo que você quer escrever. Acho que isso é fundamental.

Por falar nessa segurança, ou na falta dela, de qual obra, crônica ou livro seu você tem mais orgulho? Aquele texto ao qual você se agarra e se sente realmente orgulhosa?

Nenhum. Que eu ache que está muito bom? Nenhum. Fico feliz que as pessoas gostem, mas eu mesma não releio nada. Se eu leio algum trecho, sempre encontro muitos defeitos. Não tenho essa segurança com nenhum texto meu. Lamento decepcionar, mas nenhum! Se eu reler, vou querer refazer tudo. Às vezes, em algum evento, a pessoa diz: “lê um trechinho” e eu me escuto, me sinto péssima. Fico pensando: “Meu Deus, está muito fraco, deveria ter mudado aquela palavra, olha o tanto de repetição…”. Acho muito ruim, de verdade. Lamento, mas é verdade.

Para encerrar: se você tivesse que resgatar três livros de um incêndio na sua biblioteca, quais seriam?

O exemplar de Notícia de um Sequestro que o Gabriel García Márquez autografou para mim; o livro que ele autografou para a minha filha, A sesta de terça-feira (uma edição ilustrada para crianças); e O Pipoqueiro João, o primeiro livrinho que escrevi quando era criança. Resgataria esses três com certeza absoluta. O resto, eu deixava pegar fogo!

 

Ana Rosa é parte da equipe do Le Monde Diplomatique Brasil.

Leia mais sobre o tema: