O BRASIL VOLTA AO CENTRO DO DEBATE

O cinema com foco em distribuição de impacto social consolida um novo campo de atuação na América Latina

A partir desse ano, o Fórum deixa de ser apenas um evento periódico para afirmar-se como uma plataforma permanente de produção de conhecimento, articulação regional e incidência política

Toni Morrison disse que escrevia os livros que gostaria de ler. Alice Walker diz que escreve os livros que já deveriam existir para que ela lesse. Inspirado nessas vozes negras que falam sobre sermos nossa própria referência e contar as histórias ignoradas, o Fórum de Cinema e Impacto Social surge e se consolida como espaço de rede e coletividade, no qual nos propomos a ser nossas próprias referências, para pensar e construir caminhos em comum para os diversos modos de circular e exibir filmes na América Latina.

Com três edições realizadas no Brasil, México e Colômbia, o Fórum Latino-Americano de Cinema e Impacto Social retorna ao Brasil com uma questão que ecoa para além do evento: o cinema de impacto social deixou de ser uma prática experimental para tornar-se um campo estruturado no audiovisual latino-americano?

Durante anos, iniciativas que utilizavam o cinema como ferramenta de fortalecimento comunitário, mobilização social, incidência política e formação cidadã permaneceram dispersas. Organizações da sociedade civil, cineastas, distribuidoras independentes, festivais e movimentos sociais desenvolveram metodologias próprias de circulação e engajamento, mas sem um vocabulário comum, referências compartilhadas ou mecanismos consistentes de registro de suas práticas. A existência destas ações e a persistência de manter vivas as estruturas de circulação eram o possível num contexto de não reconhecimento das práticas de difusão audiovisual.

Nos últimos quatro anos, esse cenário começou a mudar.

Criado em 2022, o Fórum Latino-Americano de Cinema e Impacto Social tornou-se um espaço permanente de articulação entre organizações do Brasil, México e Colômbia dedicadas a compreender como os filmes podem produzir transformações que ultrapassam a experiência dos espaços de exibição. Ao reunir realizadores, pesquisadores, distribuidoras, organizações sociais e instituições públicas, o encontro passou a construir uma agenda comum para um campo que, até então, estava fragmentado.

Neste percurso, o Fórum contribuiu para estruturar modelos de registro de campanhas de distribuição de impacto social, metodologias de engajamento de público e ferramentas de avaliação. Estas ações buscaram fortalecer redes de colaboração na região e produzir evidências sobre práticas que hoje vêm sendo reconhecidas como parte de uma nova dimensão da distribuição audiovisual: a distribuição com impacto social.

O primeiro resultado concreto desse processo é a Mediateca Latino-Americana de Cinema e Impacto Social, plataforma digital que reúne 25 estudos de caso produzidos em diferentes países da região. A Mediateca apresenta um modelo inédito de documentação e sistematização dos objetivos, metodologias, públicos envolvidos, estratégias de circulação, indicadores e aprendizados de campanhas de impacto social desenvolvidas a partir dos filmes.

Ao transformar experiências antes dispersas em conhecimento estruturado, a Mediateca oferece uma das primeiras evidências organizadas da existência de um campo específico de atuação no audiovisual latino-americano. Cada estudo de caso amplia a compreensão sobre como o cinema pode dialogar com temas de políticas públicas, educação, direitos humanos, memória, fortalecimento comunitário dentre outros, oferecendo referências concretas para profissionais, pesquisadores e instituições interessados em desenvolver estratégias de impacto social. Os estudos reunidos mostram que o impacto social de um filme pode ser observado de muitas maneiras.

O documentário Hasta los Dientes (2018), dirigido por Alberto Arnaut, investiga o assassinato de Jorge e Javier, executados na cidade de Monterrey, no México, pelo exército e posteriormente apresentados como integrantes do crime organizado. A campanha de impacto realizada pela produtora ImpactaCine mobilizou familiares, a organização Ambulante, a Anistia Internacional, universidades, organizações de direitos humanos e veículos de imprensa para disputar a narrativa pública sobre o caso.

A estratégia ultrapassou a circulação convencional do documentário. O filme foi exibido em universidades, festivais, cineclubes, instituições públicas e espaços de tomada de decisão, acompanhado por debates, campanhas de incidência por justiça e reparação e materiais pedagógicos. A mobilização culminou em um pedido público de desculpas do Estado mexicano às famílias das vítimas, reconhecendo oficialmente que Jorge Mercado e Javier Arredondo eram estudantes e não criminosos, principal reivindicação construída durante quase uma década de mobilização do filme.

No Brasil, outro exemplo evidencia que o impacto social pode assumir diferentes dimensões. O documentário Black Rio! Black Power! (2024), de Emílio Domingos, mostra como um filme pode atuar na reconstrução da memória cultural e da identidade negra brasileira. Ao recuperar a trajetória do movimento Black Rio, o documentário fortaleceu processos de valorização da cultura negra, ampliou o debate sobre memória e identidade e passou a integrar atividades educativas, festivais e ações comunitárias, demonstrando que o impacto também pode ser medido pela capacidade de transformar repertórios, fortalecer pertencimentos e reativar memórias coletivas.

Esses exemplos ajudam a compreender que o impacto social não substitui a dimensão artística ou comercial do cinema. Ao contrário, amplia suas possibilidades de circulação e seu papel na vida pública.

Vale destacar também que os estudos reunidos na Mediateca não documentam apenas os resultados positivos das campanhas, mas também permitem vislumbrar suas dificuldades, conflitos, limitações e erros, incluindo o reconhecimento de que a ausência inicial de processos sistemáticos de avaliação dificultou a mensuração de alguns impactos. Ao registrar também esses aprendizados, a Mediateca demonstra que produzir conhecimento significa compreender criticamente os processos, e não apenas celebrar conquistas.

Foto: Divulgação

A consolidação do campo do cinema de impacto social começa a ter efeitos institucionais

Na agenda estratégica para a cultura em 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, então candidato à presidência, conjuntamente com sua equipe de governo, propunham tratar das políticas para a cultura como eixo estratégico para o processo de reconstrução democrática do país e da retomada do desenvolvimento sustentável. Em seu plano de governo, na diretriz 25, a candidatura defendia a cultura como direito e a garantia a plena liberdade artística como base do fomento à qualificação das relações sociais e valores democráticos.

Em agosto de 2025, pela primeira vez, uma política pública nomeia a distribuição de impacto como parte da cadeia audiovisual. O edital de comercialização de cinema, lançado pelo Ministério da Cultura com gestão da Secretaria do Audiovisual, insere em suas definições a distribuição de impacto, com o seguinte entendimento:

“Distribuição de impacto é aquela que parte da compreensão de que obras audiovisuais podem contribuir para a construção de ações de transformação social, para além do cinema, possibilitando a construção de alternativas de distribuição que potencializem o compromisso social e estimulem mudanças significativas na sociedade. Envolve estratégias e articulações cuidadosamente planejadas para alcançar públicos específicos, engajar comunidades e promover diálogos sobre questões importantes para a sociedade.

O reconhecimento da dimensão do impacto nas definições gerais do edital representa um importante avanço para um setor que há anos reivindica o reconhecimento de práticas que extrapolam os indicadores tradicionais de desempenho comercial e de público. Ação fundamental – ainda que não suficiente – para o desafio da distribuição no Brasil e de debates de acesso, métricas e modelos que não se encerram e que não são de todo, contemplados com o campo da distribuição de impacto.

No entanto, o reconhecimento institucional das práticas de distribuição ditas de impacto, ou alternativas, dialoga diretamente com uma realidade que permanece como um dos maiores desafios da política cultural brasileira. Segundo dados do Sistema de Informações e Indicadores Culturais (SIIC) do IBGE divulgados em 2023, cerca de 40% da população brasileira vive em municípios sem salas de cinema, evidenciando que o acesso aos bens culturais continua profundamente desigual no país. Nesse contexto, redes independentes de circulação, cineclubes, exibições comunitárias, escolas, organizações sociais e equipamentos culturais assumem um papel estratégico para garantir o direito ao acesso ao audiovisual. Ainda assim, estas práticas não são reconhecidas nas políticas de financiamento para o setor audiovisual no Brasil.

É justamente nesse cenário que o retorno do Fórum Latino-Americano de Cinema e Impacto Social ao Brasil ganha significado político. Ao sediar novamente o encontro e justamente em ano em que vivenciamos eleições presidenciais e profundas mudanças na política da região, o país apresenta uma experiência singular de redes comunitárias de exibição, circulação territorial e formação de públicos construída por organizações sociais, coletivos culturais e políticas públicas ao longo das últimas décadas. O Brasil na sua diversidade fundante, desníveis estruturantes de acesso e desigualdades históricas, torna-se um laboratório privilegiado para discutir modelos de distribuição comprometidos com o acesso, a diversidade cultural e os direitos humanos e pode partilhar com a região latino-americana, caminhos em favor de uma coexistência de telas e da legitimidade dos diferentes modos de fazer e pensar o cinema.

A 4ª edição do Fórum Latino-americano de Cinema e Impacto Social

Entre os dias 10 e 13 de agosto, Fortaleza (CE), capital no Nordeste do Brasil, recebe o Fórum Latino-Americano de Cinema e Impacto Social, correalizado pelo Instituto Taturana (Brasil), Ambulante (México), Impacta Cine (México) e Nodo Sur (Colômbia), em parceria com a Vila das Artes e a Casa do Barão de Camocim – Centro Cultural.

Inspirada na filosofia africana Sankofa, essa edição parte da compreensão de que construir o futuro exige revisitar o caminho percorrido e atuar criticamente no presente. Assim, o Fórum propõe uma reflexão coletiva sobre os aprendizados acumulados desde 2022, buscando refletir sobre os eixos temáticos abordados nas edições anteriores, das metodologias em comum entre os países para nomear a prática de cinema de impacto, às metodologias de avaliação e mensuração de resultados, até a definição de um sotaque latino ou da tropicalização de pensar o que é impacto social no cinema. Todos estes pontos estão à mesa na edição 2026.

Celebrando sua trajetória e propondo uma mudança de escala

A partir desse ano, o Fórum deixa de ser apenas um evento periódico para afirmar-se como uma plataforma permanente de produção de conhecimento, articulação regional e incidência política. A sistematização das experiências acumuladas, conduzida por um comitê formado pelas quatro organizações dos três países, busca produzir referências capazes de orientar políticas públicas, fortalecer redes internacionais e ampliar a circulação de obras comprometidas com a transformação social na América do Sul e em diálogo com outros sul-globais.

O percurso construído ao longo das três primeiras edições revela um movimento que vai além da realização de um encontro internacional. A articulação regional promovida pelo Fórum, a criação da Mediateca Latino-Americana de Cinema e Impacto Social e os dados que evidenciam os desafios do acesso ao audiovisual no Brasil formam um tripé que ajuda a compreender por que o cinema de impacto social deixou de ser apenas uma prática emergente para consolidar-se como um campo estratégico de atuação no audiovisual contemporâneo.

Em um momento em que diferentes países buscam novas formas de democratizar o acesso à cultura, fortalecer territórios e ampliar a participação cidadã, a pergunta que mobiliza o Fórum deixa de ser apenas como distribuir filmes. Passa a ser como construir processos de circulação capazes de gerar conhecimento, fortalecer comunidades e ampliar o papel social do cinema na América Latina, sendo o público o regente deste baile.

Nas pistas de Morrison e Walker, iluminadas pela filosofia Sankofa, o Fórum 2026 olha para seu passado, fabula suas próprias referências, retorna ao Brasil para ampliar e revisitar suas raízes, ou como diz Toni Morrison em “the side of memory”, toda água tem uma memória perfeita e está sempre tentando voltar para onde estava.

 

Rodrigo Antonio é cineasta, pesquisador e diretor de Formação do Instituto Taturana. Mestre em Artes pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e formado em Cinema pela EICTV (Cuba), atua no desenvolvimento de projetos voltados ao cinema amazônico, à formação audiovisual e ao impacto social na América Latina.

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