REPORTAGEM

Se conectar com o presente e desejar o futuro através do cinema

Documentários fabulam futuros possíveis frente à crise climática e propõem imagens utópicas para lidar com os lutos do presente 

A cena é sempre a mesma: sob um horizonte seco e cinzento, a terra se abre em fendas onde um dia correram rios. Um veículo robusto mas bastante desgastado atravessa a estrada deserta e uma panorâmica revela os enormes edifícios metálicos que se impõem sobre a paisagem, vigiando com olhos e braços mecânicos os escombros de uma civilização em derrocada. Hollywood nos ensinou que este seria o futuro: sem árvores ou água, viveríamos ansiando pelo espetacular fim dos tempos. Por mais que as previsões cinematográficas de domínio das máquinas e catástrofe climática pareçam cada vez mais concretas, a imagem da grandiosa batalha que garantirá o triunfo da natureza humana contra a legião de máquinas destruidoras ainda parece esdrúxula. Contra esse horizonte metálico, documentaristas brasileiras experimentam criar outras imagens de futuro para lidar com a crise de presente que a ansiedade climática causa hoje.  

 

Crédito: Luiza Sigulem / Arquivo Pessoal

Janaina Wagner é artista e pesquisadora, diretora do curta-metragem Quando o segundo Sol chegar / Um cometa nos teus olhos, que estreia neste domingo (23) na 37ª edição do Kinoforum, em São Paulo. Janaina empresta o verso da popular canção de Nando Reis e Cássia Eller para imaginar que a aproximação de um segundo Sol interromperá o processo contínuo de devastação e exploração que a Rodovia Transamazônica impõe sobre a floresta desde sua criação, durante a ditadura militar. Ela sobrepõe os significados da canção do título a trechos dos livros Autobiografia do vermelho, de Anne Carson, e O arrebatamento de Lol V. Stein, de Marguerite Duras, para transformar o sentimento de luto amoroso em luto pelo planeta que a “lógica produtivista e extrativista que rege e molda a história do Brasil” vem apagando.  

“Seguimos sendo nós mesmos quando uma relação de amor termina, e o outro também. Da mesma forma, nós seguimos aqui e o mundo também segue, mas a nossa realidade deixou de existir. Refletir sobre esse luto amoroso me ajuda a entender o que acontece com a crise climática.” Ela menciona o sentimento de “angústia pelo futuro” como resultado do aquecimento global: “o futuro está se aproximando e esse ‘fim do mundo’ está chegando no gerúndio. Ele já está aqui. Nós vivemos ao mesmo tempo com angústia de futuro e com nostalgia, a saudade de um mundo que não existe mais. Olhamos pela janela e nossa cidade está lá, mas o que tinha de ‘nosso’ nela não existe mais. Olhamos para o mundo e o vemos desaparecer enquanto estamos nele.”  

Janaina lembra do livro Há mundo por vir? Ensaios sobre o medo e o fim, de Eduardo Viveiros de Castro e Déborah Danowski. Nele, os autores descrevem o imaginário apocalíptico bíblico reforçado pelo cinema hollywoodiano para contrapor a ele uma realidade que se apresenta como no filme O Cavalo de Turim, de Béla Tarr e Ágnes Hranitzky: “um fim lento e arrastado, onde quase nada acontece, mas paira uma sensação de medo. É esse lugar que estamos vivendo agora”, reflete a artista. A solução de um cinema documental que insiste em não paralisar de medo frente ao fim é a fabulação. 

Eliza Capai é jornalista e documentarista, diretora de A Fabulosa Máquina do Tempo, que estreou no começo deste ano no Festival Internacional de Cinema de Berlim e está em cartaz em cinemas de São Paulo. O filme acompanha passado, presente e futuro de garotas de Guaribas, no interior do Piauí, cidade onde primeiro foram implantados os programas sociais Fome Zero e Bolsa Família, em 2003. Retratando a vida de meninas da cidade, o filme mostra o impacto das políticas públicas nas gerações de mulheres da cidade e aposta nos sonhos das crianças para acreditar na construção de um futuro melhor.  

Ao receber o prêmio de Melhor Feito Técnico-artístico da competição Ibero-americana de Documentários do Festival de Internacional de Cinema de Guadalajara, no México, a diretora lembrou das distopias cinematográficas de sua infância para questionar: Como nossos filmes podem nos ajudar a amar esse planeta e desejar futuros?  “O cinema pega essa projeção de futuro distópico e nos cria imagens. É com isso que nós sonhamos, é o que nos constitui. De certa forma, é muito mais possível seguir os exemplos que nós já temos, mesmo que não gostemos deles. O cinema nos preparou e nos impulsionou rumo a essa distopia. Eu entendo que, fazendo cinema, podemos construir o oposto disso, sonhar mundos em que queiramos viver e não um mundo em que temos medo de viver, como essas distopias com as quais crescemos.”  

No seu filme, as meninas de Guaribas sonham com a utopia, um mundo melhor em que elas poderão sair da pobreza e da violência para seguir os caminhos profissionais que quiserem. Ao fazer um documentário com base nas brincadeiras e fabulações das crianças, Eliza foi questionada: “Mas esse filme não é uma ficção? Ele é sobre a brincadeira, um lugar que reside entre o real e a ficção. A fabulação é muito preciosa porque nos permite imaginar, o que direciona para onde seguir até esse futuro possível.”  

Eliza enfatiza o papel das políticas públicas no seu filme. Por um lado, as histórias retratadas mostram a importância dos programas sociais. Ela conta que em sua primeira visita à cidade, em 2013, viu uma população em ascendência: fora da miséria, crianças podiam estudar e planejar futuros. Mas, quando retornou, em 2021, durante o governo de Jair Bolsonaro, viu os impactos do desmonte do Bolsa Família nas casas de famílias que passavam fome outra vez. Seu intuito com o filme era acabar com as polarizações que opõem defensores e críticos de programas sociais mostrando a realidade daqueles que precisam deles.  

Ao destacar a importância da continuidade para as políticas públicas, a diretora lembra do papel de programas de incentivo na produção do próprio filme: “eu tenho certeza que esse filme só foi possível graças às políticas de fomento ao cinema”. Por mais que o governo Lula tenha proposto uma reorganização do audiovisual ao recuperar o Ministério da Cultura e a Ancine, ambos desmontados no governo Bolsonaro, trabalhadores do setor ainda sentem falta de infraestrutura mais robusta, que formule cronogramas anuais de editais e que não atrase o repasse de recursos.  

“Essa desorganização é muito prejudicial para a existência do setor. O audiovisual brasileiro tem ganhado visibilidade externa através das últimas participações no Oscar. Muitas pessoas que tinham implicância com o cinema brasileiro passaram a admirar nosso trabalho. Deveria ser um momento de mais investimento para que essa onda crescesse,” afirma a documentarista.  

Jade Rainho, artista e diretora do documentário Jardim de Mariacorrobora sobre a importância do incentivo à cultura ao lembrar do atraso na realização de seu filme, que teve os recursos bloqueados por mais de dois anos após o desmonte da Ancine, em 2019. É nesse momento politicamente conturbado que ela começa a contar a história de Maria, matriarca Guarani Mbya que decide replantar uma área degradada da Terra Indígena do Jaraguá, uma das últimas zonas de Mata Atlântica preservadas da capital paulista, lutando pela demarcação de suas terras.  

Jade descreve seu documentário como um “cinema de impacto”, que planta “sementes de transformação e de consciência”. Poeta, educadora e ativista pelos direitos dos povos indígenas, ela descreve a relação de proximidade que constrói com as pessoas e as paisagens que compõem seus filmes: não como jornalista que reporta uma história, mas como parceira. “Estou sempre de um lado muito declarado, lutando pelos direitos deles. Por ser uma artista de muitas linguagens, sinto que eu consigo trazer ao filme a singularidade de uma escuta muito sensível.”  

Ela faz um retrato íntimo da cultura Guarani de São Paulo e de sua luta pela regeneração do território e pelo direito de viver sua própria cultura, mesmo dentro da cidade. Jade descreve sua empreitada como uma tentativa de “servir, com a minha arte, àquelas histórias”. Atenta aos sons que invadem a floresta e às imagens que se anunciam ao redor, a documentarista acredita que “muita coisa já está dita nas imagens, sem que eu precise ficar falando sobre elas. Quero levar o espectador para dentro da aldeia para ele sentir a experiência. Eu trabalho abrindo janelas para que possamos sentir o outro e refletir sobre ele, reconhecer nossa humanidade e ampliar os horizontes compartilhados.”  

Em resposta à crise de realidade provocada pelos desastres climáticos e humanitários que enchem os feeds de notícias, Eliza propõe que o cinema seja uma “ferramenta para lidar com o real a partir do afeto e da empatia para pensar que podemos ter futuros melhores do que este presente. A construção da utopia é muito importante para que consigamos nos conectar com o presente e desejar um futuro”. 

Ao localizar a história de Maria em São Paulo, Jade lembra que mesmo uma cidade com rios soterrados e florestas derrubadas, cujos resquícios só podem ser vistos nas bordas, em um horizonte quase invisível, pode ser replantada. “São Paulo pode se tornar uma cidade menos cinza, mais arborizada, com mais qualidade de vida para as pessoas que a habitam. Não precisa ser uma cidade onde só se imagina um futuro apocalíptico. São Paulo pode ser um exemplo se começarmos a olhar para a natureza como olhamos para nós mesmos”.  

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Quando o segundo sol chegar / Um cometa em teus olhos, de Janaina Wagner, passa no 37º Kinoforum em 23 de agosto (domingo), 18h30 na Cinemateca Brasileira;  28 de agosto (sexta-feira), 17h no Centro Cultural São Paulo; e 30 de agosto (domingo), 15h no Centro Cultural São Paulo.  

A Fabulosa Máquina do Tempo, de Eliza Capai, está em cartaz no Instituto Moreira Salles da Avenida Paulista.  

Jardim de Maria, de Jade Rainho, circula internacionalmente e integra a programação da XXII Mostra Internacional de Mujeres en el Cine y la Televisión e da 14ª edição do Contra el Silencio Todas las Voces – Encuentro Hispanoamericano de Cine Documental Independiente, no México, entre agosto e setembro.  

 

 

Carolina Azevedo é jornalista, mestranda em teoria literária na USP e coordenadora do projeto Cultura SP no Le Monde Diplomatique Brasil. 

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