Os evangélicos nas eleições de 2026
As movimentações partidárias para o pleito de 2026 revelam a diversidade interna da bancada evangélica, com atuações à esquerda e ao centro, pondo à prova o estereótipo de uma adesão automática à direita
O encerramento do ciclo das convenções partidárias e de registro das candidaturas traz uma importante novidade para a disputa proporcional de 2026: o pleito pode registrar a maior bancada da história de parlamentares eleitos que se definem como evangélicos e que estão filiados aos partidos de esquerda da base do presidente Lula (PT, PDT, PSB, PCdoB, PV, Rede e PSOL).
Um primeiro termômetro para esse fenômeno é identificar os concorrentes que adicionam aos seus nomes de urna algo que os associe à religião. Buscando por aqueles que fazem alusão à sua identidade religiosa no nome (Pastor, Irmão, Missionário, Bispo ou Apóstolo), foram identificadas 144 candidaturas para deputado federal. Um levantamento do portal UOL aponta 311 candidaturas, considerando todas as cadeiras em disputa.
Dos 30 partidos registrados, oito não possuem nomes com títulos evangélicos para deputado federal. Nas legendas que compõem a coligação que apoia a reeleição de Lula, o número de candidatos é 42, o que representa 13,5% dos 311 concorrentes identificados pelo UOL. Já entre os postulantes à Câmara Federal, encontramos, nos dados do TSE, 21 candidatos filiados aos partidos de esquerda, ou seja, 14,6% do grupo com nomes evangélicos em disputa para esse cargo.
Considerando apenas a corrida para deputado federal, os partidos com mais postulantes ostentando nome religioso são a Democracia Cristã (DC), com 16, e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), com 12. Na sequência, aparecem Novo, Avante e Republicanos, com 11 cada, concluindo este primeiro bloco com Podemos e o Partido Democrático Trabalhista (PDT), que possuem 10 candidatos cada. No cômputo geral (todos os cargos), despontam com maior quantidade DC, MDB e PL, com 26 candidaturas cada.
O conjunto de lideranças evangélicas abordado neste artigo vai muito além daquelas que adotam a nomenclatura religiosa na urna, envolvendo nomes experientes e novatos com reais possibilidades eleitorais. O critério de inclusão aqui adotado foi o de possuir ou já ter possuído algum mandato, ter alcançado significativa votação em eleição anterior ou ocupar posição de destaque dentro da estrutura partidária. Nos partidos da coligação do atual governo, há um número considerável de candidaturas evangélicas competitivas. Na plataforma Radar do Congresso, o índice de governismo dos deputados dessas legendas está acima de 85%.
Para além da esquerda, é possível identificar partidos de centro que formam a base do governo (MDB, Avante, Republicanos, Solidariedade, Podemos, PP, PSD e União Brasil), muitos dos quais responsáveis pela condução de ministérios. Há dados consistentes mostrando os altos percentuais de fidelidade desse conjunto de partidos, destacando-se aqueles que apresentam índice de governismo superior a 70%.

Essas siglas, de centro e de esquerda, conformam a base do terceiro mandato de Lula. Ao analisarmos os parlamentares evangélicos em uma lista que considerou 93 nomes com essa filiação religiosa, observa-se que 35 alcançam percentual de fidelidade superior a 70%. Eles representam 38% da bancada evangélica, sendo importante destacar a relevância do Republicanos nessa composição, já que o partido contribui com 14 parlamentares nessa conta. Assim, além de olhar as apostas à esquerda, é fundamental indicar nomes evangélicos ao centro que poderão apoiar um eventual quarto mandato do petista.
De esquerda, evangélicos e quase todos pretos
Iniciando pelos partidos de esquerda, temos a deputada federal Benedita da Silva como a decana do grupo. Evangélica, petista e pentecostal, sua trajetória é marcada por um reconhecido compromisso com a militância e com a fé. Historicamente ligada à Assembleia de Deus, hoje congrega na Igreja Presbiteriana do Brasil. Benedita concorre este ano ao Senado Federal, espaço que já ocupou no passado e para o qual tem liderado as pesquisas. Sua candidatura é tratada como prioridade pelo PT nacional.
A chapa de Benedita conta com a presença de Kleber Lucas como suplente. Cantor gospel de carreira consagrada e vencedor do Grammy Latino na categoria “Melhor Álbum de Música Cristã em Língua Portuguesa”, ele é pastor batista, mestre e doutor em História pela UFRJ. Kleber possui significativa inserção popular no Rio de Janeiro e atuação destacada no diálogo inter-religioso e no combate ao racismo.

A disputa para o Senado ganha relevo com mais duas mulheres negras. No Maranhão, a senadora Eliziane Gama (PT-MA), recém-filiada à sigla, disputa a reeleição. Filha de pastor da Assembleia de Deus, ela possui forte atuação na denominação. Em São Paulo, a também assembleiana e deputada federal Marina Silva (Rede-SP) busca retornar à Casa, onde já exerceu mandato. Liderança mundialmente conhecida no tema ambiental e duas vezes ministra do Meio Ambiente, Marina repetiu recentemente para universitários evangélicos um bordão característico: Deus ou a Bíblia não seriam “nem de esquerda, nem de direita, nem de centro, mas de cima”.
Entre os que buscam reeleição na Câmara, destaca-se, no Rio de Janeiro, o Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ), também negro. Na atual legislatura, ele tem pautado sua fé e seu pastorado como expressões do trabalho em defesa dos direitos humanos, com foco em liberdade religiosa e segurança pública. Vieira frequentemente se contrapõe ao discurso da ala à direita da bancada evangélica, afirmando que o extremismo não encontra reverberação na Bíblia. Vinculado à Igreja Batista, ele aparece nas pesquisas como um dos deputados mais lembrados pelo eleitorado fluminense.
A expressiva presença de negros e negras entre os candidatos progressistas mantém um perfil que já foi a regra geral: como apontou o sociólogo Paul Freston em sua tese, a Assembleia Constituinte dos anos 1980, presenciou uma bancada evangélica originalmente mais negra, periférica e de menor escolaridade do que a média do Congresso. Contudo, enquanto os parlamentares conservadores se distanciaram desse perfil ao se aproximarem do mundo empresarial e das pautas marcadamente liberais, a esquerda evangélica mantém sua ligação basilar com as periferias e os movimentos sociais.
Em Minas Gerais, André Janones (Rede-MG) tenta manter-se no parlamento. Membro da Igreja Batista, ele não aciona tanto sua pertença evangélica no discurso cotidiano, mas faz uso intenso das redes sociais para um enfático enfrentamento à extrema-direita, travando uma disputa acirrada pelo eleitorado mineiro na rivalidade com outro evangélico, Nikolas Ferreira (PL-MG).
No Mato Grosso do Sul, a deputada Camila Jara (PT-MS) almeja uma nova legislatura. Eleita com apenas 27 anos, foi a deputada federal mais jovem em 2022. Jara iniciou a militância nas pastorais da Igreja Católica e relata sua conversão ao passar a frequentar uma congregação evangélica. Para os defensores da renovação, é notável perceber que o PT tem em seus quadros uma jovem parlamentar que reúne respostas para essa necessidade, consolidada após um destacado mandato como vereadora em Campo Grande.
Na busca pela reeleição, há nomes da esquerda que assumiram o mandato no decorrer da atual legislatura via suplência, como Lucas Abrahão (Rede-AP) e Gilmar Machado (PT-MG). Lucas atuou como secretário estadual da Casa Civil, é filho e neto de pastores da Assembleia de Deus e define-se como evangélico reformado. Enquanto ele é um estreante no parlamento federal, Gilmar traz a bagagem de dois mandatos estaduais e quatro federais. Especialista na área orçamentária, Gilmar atuou na Secretaria de Relações Institucionais no terceiro governo Lula e agora trabalha por uma vaga titular. Membro da Igreja Batista, mantém diálogo regular com a liderança da Convenção Batista Brasileira.
No Distrito Federal, o PT aposta em Policarpo, liderança sindical ligada à Assembleia de Deus, que exerceu mandato entre 2011 e 2012. Nas eleições de 2022, ficou na segunda suplência com pouco mais de 22 mil votos e se apresenta novamente. O pleito no DF traz uma novidade tática: Erika Kokay (PT-DF), após quatro mandatos consecutivos na Câmara e sendo quase a voz solitária da esquerda na bancada distrital, concorre agora ao Senado, abrindo espaço para novos candidatos do segmento em 2027.
No Rio Grande do Sul, destaca-se José Fortunati (PT-RS), político experiente que foi deputado federal na década de 1990, além de ter sido prefeito de Porto Alegre por duas gestões, deputado estadual e vereador. De formação católica, o casamento com uma evangélica o levou ao batismo em uma congregação protestante, sendo hoje membro da Igreja Batista. Com histórico no movimento sindical bancário, Fortunati presidiu a CUT/RS, entidade que organizou, no início de agosto, uma reunião do Coletivo de Sindicalistas Evangélicos com sua participação.
Se em 2022 os partidos de esquerda elegeram seis parlamentares declarados evangélicos, a expectativa para a 58ª legislatura (2027-2031) é que esse número possa dobrar. Dentre os eleitos no último pleito, Rejane Dias (PT-PI) não tentará a reeleição, pois assumiu, em 2023, o cargo de conselheira do Tribunal de Contas do Estado.
Entre os novos rostos, desponta a vereadora de Goiânia Aava Santiago (PSB-GO), voz marcante nas redes sociais e na juventude. Eleita em 2020 e reeleita em 2024, com expressivo aumento de votos, Aava migrou do PSDB para o PSB em 2025, com o aval de lideranças nacionais. Filha de pastores da Assembleia de Deus, é formada em Ciências Sociais pela UFG. Outra aposta é o Pastor Wellington do Pinheiro (PT-AL), líder batista de uma comunidade afetada pelo desastre socioambiental da Braskem em Maceió. Ele se tornou uma liderança na defesa da população atingida. Além da força local, Wellington e sua esposa, a pastora e teóloga Odja Santos, são referências nacionais de evangélicos progressistas.
Os comunistas também marcam presença com Nésio Fernandes (PCdoB-ES), secretário estadual de Saúde durante a pandemia e ex-ocupante de cargo de alto escalão no Ministério da Saúde sob Lula. Membro do Comitê Nacional do partido e filiado há mais de 25 anos, Nésio sempre afirmou sua fé evangélica como participante ativo da Igreja Batista. No Mato Grosso do Sul, além de Camila Jara, o partido lança à Câmara a advogada Giselle Marques, ligada à Igreja Batista, que obteve 135 mil votos ao disputar o governo do estado em 2022. Ainda nas eleições majoritárias, o PT Sul-mato-grossense conta com Fabio Trad como candidato, apresentando mais uma vez um evangélico na disputa pelo governo estadual.

Alinhamentos e pragmatismo ao centro
Em um escopo mais ao centro, mesmo fora da coligação direta para a reeleição de Lula, encontram-se parlamentares com alta fidelidade ao governo ou candidatos com histórico relacionado a pautas progressistas.
No primeiro grupo, destacam-se três deputadas federais com elevados índices de governismo: Nely Aquino (Podemos-MG, 87%), da Igreja Batista, que como vereadora exerceu a presidência da Câmara Municipal de Belo Horizonte por dois mandatos, caracterizando-se por uma postura conciliadora; Renilce Nicodemos (MDB-PA, 87%), da Assembleia de Deus, casada com um tradicional político paraense, que possui forte atuação em instituições de ação social; e Daniela Carneiro (União-RJ, 97%), da Igreja Nova Vida, ex-ministra do atual governo que garantiu um apoio crucial a Lula em 2022. na Baixada Fluminense.
Uma presença emblemática é a do deputado e pastor Otoni de Paula (PSD-RJ), da Assembleia de Deus. Após romper com o bolsonarismo, Otoni passou a defender políticas públicas do Executivo federal e a criticar abertamente a instrumentalização da fé pela direita. Em 2024, participou da sanção da lei que criou o Dia da Música Gospel e orou ao lado do presidente. Otoni declarou que, num eventual segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, ficará com o petista e lançará o movimento “Direita com Lula”. Ele é, entre os citados neste artigo, o parlamentar com o menor índice de governismo: 62%.
No PSD paulista, a aposta é o vereador e pastor Carlos Alberto Bezerra Jr., em seu quinto mandato municipal. Filho do fundador da Comunidade da Graça e ex-secretário, Bezerra rompeu com o prefeito Ricardo Nunes e busca uma vaga na Câmara Federal. Sua longa trajetória no PSDB e a proximidade histórica com Geraldo Alckmin reforçam seu potencial disponibilidade para o diálogo em torno de pautas relacionadas aos direitos humanos e sociais.
Há, ainda, nomes de centro com raízes na esquerda. O Pastor Sargento Isidório (Avante-BA), que já foi filiado a PT, PDT e PSB, cumpre seu terceiro mandato federal aliando suas aparições peculiares a um apoio firme a pautas prioritárias do governo, como o fim da escala 6×1 (índice de governismo de 91%). O deputado Toninho Wandscheer (PP-PR), da Assembleia de Deus e ex-prefeito pelo PT, atinge 82% de fidelidade. Com 80% de alinhamento, destaca-se Áureo Ribeiro (Solidariedade-RJ), da Igreja Metodista. Apesar da opção oficial de sua legenda pela neutralidade em 2026, Áureo defendia a manutenção da aliança selada com Lula em 2022 e preserva grande inserção evangélica no Rio.
Nas disputas estaduais, cinco nomes à esquerda despontam com boas chances eleitorais: Luis Fernando (PT-SP), em seu terceiro mandato na Alesp e com forte diálogo com igrejas do ABCD paulista, tenta a reeleição; Marcos Henriques (PT-PB), vereador na capital, líder sindical e batista; Keit Lima (PSOL-SP), vereadora paulistana e da Assembleia de Deus; Wesley Teixeira (PSB-RJ), jovem liderança negra com atuação na educação, ex-candidato a prefeito de Duque de Caxias e suplente estadual; e a teóloga Elcimar Loureiro (PT-ES), ex-secretária de Assistência Social na cidade da Serra.
A César o que é de César
A análise do comportamento parlamentar revela que a filiação partidária e a disciplina de bancada exercem, frequentemente, um peso muito maior do que a origem religiosa nas votações. Os deputados tendem a votar em bloco com suas lideranças. Nos partidos de centro, observa-se uma adesão metódica às orientações do governo, guiada por acordos pragmáticos e pela distribuição de espaços no Executivo.
Essa dinâmica fica evidente ao se examinar as denominações. Deputados da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), Assembleia de Deus e Igreja Batista somam 58% do total de evangélicos no Congresso e representam 80% dos que apoiam o governo Lula. Contudo, a taxa de adesão varia brutalmente: enquanto 40% dos deputados batistas e assembleianos votam com o governo, o índice salta para 85% entre os filiados à IURD. Isso ilustra a força do direcionamento político-institucional: os deputados da Universal concentram-se majoritariamente no Republicanos, gerando uma espécie de sobreposição partidária-eclesiástica que não se repete nas demais igrejas. Fica claro que de pouco adianta uma orientação denominacional se ela não for corroborada pela liderança do partido: a César o que é de César.
O cenário que se desenha para 2026 tem o potencial de afastar de vez a premissa de que o eleitorado e os parlamentares evangélicos formam um bloco monolítico a serviço da direita. Seja pela convicção ideológica e militância de base dos quadros da esquerda, seja pelo pragmatismo eleitoral dos partidos de centro, a presença evangélica no ecossistema político brasileiro mostra-se múltipla, complexa e em constante reconfiguração. Compreender essa heterogeneidade deixou de ser apenas um exercício sociológico e passou a ser condição imperativa para a governabilidade e para o futuro da nossa democracia.
Alexandre Brasil é sociólogo, professor titular na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

