PRECISAMOS CRIAR CIRCULAÇÃO

A cultura também precisa atravessar a cidade

Não existe acesso cultural de verdade quando a pessoa precisa atravessar a cidade para conseguir viver uma experiência cultural 

Tem uma coisa que me incomoda quando a gente fala em democratização da cultura: muitas vezes, a conversa termina na palavra “acesso”. 

Abriu a porta. É gratuito. Tem programação. 

Pronto? 

Não. 

São Paulo é uma cidade enorme, desigual e, sobretudo, muito diferente dependendo de onde você está. O lugar onde uma pessoa mora ainda interfere nas oportunidades que ela encontra. Isso vale para emprego, educação, saúde. E vale, também, para cultura. 

Às vezes parece óbvio, mas não é: não existe acesso cultural de verdade quando a pessoa precisa atravessar a cidade para conseguir viver uma experiência cultural. 

E eu não estou dizendo que todos os equipamentos precisam estar em todos os bairros. Isso seria impossível e, talvez, nem fosse desejável. Uma cidade culturalmente viva também precisa ter seus grandes centros, seus teatros, seus museus, suas salas de referência. 

O problema é quando esses lugares são praticamente a única porta de entrada. 

Foi essa inquietação que começou a orientar muito do meu trabalho na Spcine. 

Como fazer o cinema circular mais? Como criar novas portas? 

E, principalmente, como fazer com que uma pessoa que nunca se imaginou dentro daquele universo possa descobrir que ele também pode ser dela? 

Porque existe uma diferença enorme entre levar um filme para um território e criar uma relação daquele território com o cinema. 

A primeira coisa é programação. A segunda é política cultural. 

Pode parecer uma diferença pequena. Não é. 

Uma criança que assiste a uma sessão de cinema pela primeira vez talvez simplesmente tenha visto um filme. Mas talvez tenha acontecido outra coisa também. Talvez tenha descoberto uma linguagem. Talvez queira voltar. Talvez pergunte como aquele filme foi feito. Talvez um dia queira fazer um. 

A gente não consegue colocar esse tipo de transformação facilmente numa planilha. E, ainda assim, ela é uma das coisas mais importantes que uma política pública pode produzir. 

Por isso eu gosto tanto da ideia de formação de público. Não no sentido de ensinar alguém a gostar de determinada cultura – isso seria quase arrogante –, mas de ampliar repertórios. 

Mostrar que existem outras possibilidades. Que existem outras histórias. Que existem outros mundos. 

E que o cinema pode estar perto de você. 

Isso me leva a uma outra questão, que considero ainda mais importante: a periferia não pode ser tratada apenas como lugar onde a cultura precisa chegar. 

Ela já tem cultura. Tem criação. Tem linguagem. Tem talento. 

O que muitas vezes falta é acesso aos meios, aos equipamentos, à formação, à circulação e às oportunidades que permitam que essa produção alcance outros públicos. 

Essa inversão de perspectiva é essencial. 

Não estamos falando apenas de levar cultura para a periferia. Estamos falando de reconhecer a periferia como parte da produção cultural da cidade. 

E isso muda tudo. 

Também muda o jeito de pensar inovação. 

Eu trabalho com inovação na Spcine e, curiosamente, nem sempre a coisa mais inovadora é uma tecnologia nova. 

Às vezes é simplesmente fazer uma pergunta que ninguém estava fazendo. 

Por que o equipamento precisa esperar o público? 

Por que não pode ir até ele? 

Por que um caminhão não pode virar um laboratório de criação? 

Por que um jovem interessado em games não pode entrar por essa porta e descobrir programação, narrativa, design, audiovisual? 

É daí que surgem experiências como o Futuro Gamer. 

E eu gosto de pensar nisso não apenas como uma iniciativa de games. É uma iniciativa de possibilidade. Porque, para um jovem, descobrir uma possibilidade profissional aos 13, 14 ou 15 anos pode fazer uma diferença enorme. 

Talvez ele nunca trabalhe com games. Tudo bem. Mas pode descobrir que gosta de tecnologia. Ou de roteiro. Ou de criação. Ou simplesmente perceber que aquele universo, que parecia distante, não é tão distante assim. 

Isso também é formação. 

Isso também é política pública. 

E existe uma dimensão econômica que não podemos ignorar. 

Cinema, games e audiovisual são cultura, mas também são setores que geram trabalho, renda e novas profissões. Quando aproximamos esses universos de quem historicamente teve menos acesso a eles, estamos ampliando oportunidades. 

Não vejo isso como uma contradição. 

Cultura não precisa escolher entre ser direito e ser atividade econômica. 

Pode ser as duas coisas. 

Aliás, precisa ser. 

O que não podemos é transformar tudo em número. 

Número de espectadores. Número de sessões. Número de equipamentos. Número de oficinas. 

Claro que precisamos desses indicadores. O dinheiro público precisa ser acompanhado, avaliado, cobrado. Mas existe algo que acontece antes dos números e depois deles: a sensação de pertencimento. 

E pertencimento é difícil de medir. 

Uma pessoa entra em um equipamento cultural e percebe que aquele lugar não é “para os outros”. 

É para ela. 

Parece simples. 

Não é. 

O Instituto ViaFoto realiza exposições fotográficas temporárias e gratuitas  Crédito: Helena Brambilla / Arquivo pessoal

São Paulo tem uma das cenas culturais mais potentes do mundo. Temos produtores, artistas, técnicos, criadores, empreendedores e públicos muito diversos. Mas ainda convivemos com uma concentração enorme de oportunidades. 

Essa contradição precisa ser encarada. 

Não acho que a solução seja simplesmente espalhar equipamentos pela cidade. Seria uma resposta fácil para um problema difícil. 

Precisamos descentralizar experiências, formação, programação e produção. Precisamos criar circulação. Precisamos experimentar novos formatos. 

E precisamos aceitar que algumas experiências vão dar errado. Política pública que não se permite experimentar acaba apenas repetindo aquilo que já conhece. 

Talvez seja esse o ponto em que inovação e cultura pública mais se aproximam. 

As duas precisam de espaço para testar. Para ouvir. Para mudar de ideia. Para perceber que uma solução que funcionou em um bairro talvez não funcione em outro. 

Porque o território importa. 

O público importa. 

Contexto importa. 

E não existe uma fórmula única para uma cidade como São Paulo. 

No final, continuo voltando à mesma pergunta: o que significa democratizar a cultura? 

Para mim, é mais do que garantir que alguém possa assistir a um filme gratuitamente. 

É garantir que essa pessoa possa encontrar o filme perto de casa. Que possa se sentir bem-vinda. Que possa voltar. Que possa aprender como aquilo foi feito. Que possa criar também. 

E, quem sabe, que uma criança olhando para uma tela hoje consiga imaginar que, algum dia, aquela história poderia ter sido contada por ela. 

É aí que uma política pública deixa de ser apenas uma política de acesso. 

Ela começa a mudar a relação das pessoas com a própria cidade. 

A cultura não deveria ser um privilégio de quem consegue chegar até ela. 

E talvez o nosso trabalho seja justamente fazer com que ela atravesse a cidade inteira. 

 

Emiliano Zapata é Diretor de Inovação da Spcine. 

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