FILOSOFIA

Qual o futuro da Filosofia no Brasil?

A marginalização da Filosofia como disciplina ou modus vivendi não é algo novo, mas um processo de exclusão política, pedagógica e cultural proposital, consciente, dos poderes públicos, tendo como objetivo subliminar seu alcance crítico na sociedade. Uma sociedade sem a capacidade de pensar por si, de ter um pensamento próprio crítico, é mais fácil de manipular e controlar ideologicamente

No dia 16 de agosto, é comemorado o “Dia da Filosofia” ou “Dia do Filósofo”, tendo como referência o aniversário do famoso pensador grego Platão, que viveu entre os séculos V e IV a.C. Platão concebia a Filosofia como uma ferramenta fundamental para a busca da compreensão da realidade e do mundo. Para ele, a ascensão ao conhecimento constituiria o próprio propósito da humanidade, que não deveria se limitar à materialidade enganosa da vida terrena, marcada pela imperfeição, mas buscar, como horizonte, o mundo inteligível, perfeito e livre das limitações impostas pela finitude.

Crédito: Direitos autorais: Edgar Serrano – CC BY-NC-SA

Sobre o nascimento da Filosofia, o consenso contemporâneo aponta para a existência, em África, de inúmeros saberes e tradições filosóficas anteriores àquelas difundidas pelos gregos, que foram violentamente suprimidas por processos de apagamento ao longo da história. Esse movimento de anulação da sabedoria produzida em África apagou incontáveis nomes e histórias que não foram alocados no hall da imortalidade filosófica, privilegiando um saber europeu, branco e patriarcal.

Isso sem mencionar as filósofas: quantas pensadoras e filósofas africanas da Antiguidade tiveram seus nomes apagados? Quantas foram “saqueadas” de seus saberes e tiveram suas contribuições apropriadas por filósofos que lhes negaram o reconhecimento de sua originalidade? Enfim, são muitas camadas que um pequeno opúsculo como este não seria capaz de responder, mas que pode, ao menos, apontar.

Desde os primeiros pensadores, observamos que o conhecimento não percorre um trajeto estático ou fixo, tampouco se encontra enquadrado ou condensado em uma doutrina específica. Ao contrário, ele se sustenta em parâmetros que possibilitam sua evolução contínua, por meio de um movimento crítico que coloca a realidade em permanente questionamento. Esse é o papel do profissional da Filosofia no mundo contemporâneo: expor e questionar continuamente a realidade cotidiana, por meio da retomada do conteúdo teórico e filosófico produzido pelos pensadores que marcaram a história, tendo como finalidade criar uma atmosfera crítica que impeça a realidade de se acomodar e naturalizar.

A marginalização da Filosofia como disciplina ou modus vivendi não é algo novo, mas constitui um processo deliberado de exclusão política, pedagógica e cultural, promovido pelos poderes públicos com o objetivo de limitar seu alcance crítico na sociedade. Uma sociedade sem capacidade de pensar por si mesma, de desenvolver um pensamento próprio e crítico, torna-se mais suscetível à manipulação e ao controle ideológico. A filtragem do pensamento e de sua participação na vida social constitui, também, uma forma de violência simbólica.

O mundo contemporâneo, imerso na lógica neoliberal, privilegia a prática laboral e o mecanicismo orientado para resultados imediatos e mensuráveis. Nesse contexto, quem se dedica profissionalmente à Filosofia fica, muitas vezes, restrito aos ambientes acadêmicos, cada vez mais reduzidos, uma vez que até mesmo os espaços de ensino vêm limitando a presença da disciplina. Por quê? Sua utilidade prática não é reconhecida; seria, supostamente, apenas “devaneio” ou “papo de desocupado”. Refletir sobre a sociedade passa, então, a ser considerado coisa de “vagabundo”.

Esse processo de marginalização não se restringe à Filosofia, mas alcança as Ciências Humanas de modo geral. No Brasil, ele ganhou contornos particularmente violentos após o golpe militar de 1964. Filosofia, Pedagogia, História, Letras e Sociologia, disciplinas que possuem em seu âmago uma dimensão crítica e questionadora, foram duramente atingidas pelo regime militar e, em diferentes momentos, associadas à subversão. A liberdade de pensamento passou a ser vista pelos órgãos de repressão como uma ameaça ao controle ideológico e político.

Nesse contexto, a exclusão da Filosofia dos currículos escolares, sobretudo durante a ditadura, relacionou-se ao projeto educacional tecnicista implementado pelo regime, que privilegiava uma formação voltada às demandas do mercado de trabalho. A redução do espaço destinado à reflexão crítica e às Ciências Humanas fazia parte, portanto, de uma concepção de educação que subordinava a formação intelectual a objetivos técnicos e produtivos. Não seria isso, afinal, profundamente antidemocrático?

Uma sociedade que opta por condenar a Filosofia e as Ciências Sociais como um todo, precisa explicar o motivo pelo que faz. Ela é inútil: Supérflua? Banal? O que é manifestado pelo senso comum é uma caricatura, formado pelo tempo e com influências que apresentei no parágrafo anterior. Os movimentos extremistas formalizam seu desprezo pelo pensamento livre no intuito de minar gradativamente maiores oposições. Quem questiona impulsiona reflexões de um mundo sem dogmatismos, na contramão desses grupos que pregam uma uniformidade nas ações e no pensamento, elementos primordiais no controle de uma sociedade.

Qual o futuro da Filosofia no Brasil? O desprezo por essa área do saber cria um terreno fértil para a manipulação de pessoas que exaltam gurus e veneram coaches, como vemos nos dias atuais. Essa rede de violência contra a disciplina também se insere em uma lógica lucrativa, própria do capitalismo neoliberal, que pode se beneficiar da ignorância e da falta de acesso à educação.

É contraditório perseguir aqueles que estimulam e desenvolvem o pensamento crítico dos indivíduos e, ao mesmo tempo, dedicar um dia à celebração da Filosofia. O futuro da Filosofia no Brasil passa, portanto, por uma questão fundamental: existem razões para defender um projeto de formação humana que exclua o potencial dos sujeitos de pensar criticamente, criar e construir um futuro verdadeiramente promissor?

Não faz sentido comemorar o dia do filósofo sem refletir sobre o processo de violência simbólica que a disciplina como um todo sofre cotidianamente.

 

Railson Barboza é doutor em Política Social pela UFF e Bacharel em Filosofia (PUC-Rio). Imortal da Academia Fluminense de Letras. Professor Associado do Programa de Pós-Graduação Stricto Senso da Faculdade Universo.

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