Linchamentos fazem parte da rotina do brasileiro, como um evento em família
Esses tipos de agressões coletivas não são apenas explosões espontâneas, mas métodos de controle social utilizados para restaurar uma suposta ordem moral por meio da eliminação de indivíduos considerados indesejados
Cleidenilson andava de bicicleta junto com o amigo adolescente no bairro de São Cristóvão, em São Luís do Maranhão, quando decidiram tentar a sorte assaltando um pequeno restaurante local. Ao entrarem e anunciarem o assalto, ambos foram surpreendidos com a reação de clientes que os derrubaram e imobilizaram no chão. Tudo poderia ter sido encerrado ali, mas o que se seguiu foi algo que acontece ao menos uma vez por dia no Brasil[1].
O filho do proprietário do restaurante iniciou a sequência de chutes e socos contra Cleidenilson enquanto outros os seguravam. Logo depois, ele foi carregado até a calçada, onde mais pessoas passaram a participar do suplício público; garrafas de vidro foram quebradas em sua cabeça e depois perfurado no rosto com os pedaços de vidro. Por fim, o menino foi amarrado, todo ensanguentado e nu, num poste ao lado de seu amigo onde morreu minutos depois.

Essa é a descrição de um linchamento. Algo que, embora pareça impressionar pelo nível da violência e seja comumente associado aos grupos de supremacia racial dos Estados Unidos durante a era Jim Crow, como forma de vingança e controle contra a população afro-americana, na verdade, compõe parte da paisagem social das grandes cidades do Brasil.
Entre os anos de 1980 até 2006, foram registrados 1.179 linchamentos no país, sendo São Paulo (568) e Rio de Janeiro (204) os estados com a maior concentração de eventos desse modelo de justiça popular[2]. Estudos mostram que os principais alvos são homens negros, pobres, desempregados ou precarizados, com idade entre 15 e 30 anos[3].
Além da recorrência, o linchamento também se constitui enquanto um grande evento familiar, participando homens, mulheres e até crianças[4], em todo o processo de espancamento dos “criminosos”, “bruxas”, “nóias”, dissidentes sexuais, imigrantes, e, bom, qualquer indivíduo que possa ser indicado como um problema externo que ameaça a ordem e a moral local.
Essa violência pode ser usada de duas maneiras clássicas: pela ação espontânea de grupos ou comunidades em reação a um evento específico, ou de forma organizada por “vigilantes” que buscam ativamente seus alvos por ruas e bairros determinados. Seu propósito não é subverter a lei ou o marco civilizatório do contrato social, mas sim operar enquanto violência fundante dessa ordem, restaurando a “normalidade”, expulsando indesejados e disciplinando exemplarmente aqueles que ficam.
Em 2023, os “justiceiros de Copacabana” ganharam atenção de parte do noticiário com cenas de perseguição de pessoas, espancamentos com socos, chutes e paus, filmados e compartilhados em grupos de Whatsapp para moradores da região. Esse tipo de prática de linchamento se enquadra na segunda modalidade. Atuam em conjunto com moradores, comerciantes e policiais, ganham legitimidade com o terror criminal fomentado pela imprensa declaratória e têm suas ações eventualmente questionadas apenas quando essas atingem alvos que correspondem ao tipo ideal racializado: homem negro, pobre, trabalhador e inocente.
Foi o caso do ciclista Claudio Rafael Landeiro, de 37 anos, acusado falsamente de roubar uma bicicleta por um segurança privado e espancado até a morte, no dia 11 de agosto de 2026, por outros jovens entregadores de aplicativo que trabalhavam em Copacabana. Agora, seus algozes são condenados pela opinião pública não por terem matado uma pessoa, mas sim por terem errado o alvo. E a morte de Claudio é lamentada não por ter sido executado brutalmente, mas por ter sido alvo de uma falsa acusação.
O segurança que participou do linchamento pediu “perdão por tudo o que aconteceu”[5]. Mas, se considerarmos algo inútil por ora, do tipo a bicicleta ter sido realmente roubada, não bastaria um pedido de desculpas também? Não parece que o pedido tenha como destino a família de Claudio, mas aos adeptos e simpatizantes dessa prática, que ganhou alguns dias de questionamento no noticiário.
Lucas Alencar de Araujo é Assistente Social. Professor do programa de pós-graduação da Faculdade Paulista de Serviço Social de São Caetano do Sul. Coordenador do Grupo de Estdudos Avançados “Abolicionismo Penal: da produção intelectual à prática política” do IBCCrim.
[1]https://brasil.elpais.com/brasil/2015/07/09/politica/1436398636_252670.html
[2] https://direitopenaledemocracia.ufpa.br/index.php/pesquisa-constata-que-brasil-e-o-pais-que-mais-lincha-no-mundo/
[3] “30 Anos de Linchamentos na Região Metropolitana de São Paulo: 1980-2009”, 2012. Ariadne Lima Natal
[4]“Linchamentos: a Justiça popular no Brasil”, 2015. José de Souza Martins
[5]https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2026/08/20/seguranca-que-negou-ter-participado-de-agressoes-deu-pauladas-mostra-video.ghtm

