Quando os estudantes trazem os livros
Educação, liberdade e a universidade que ainda precisamos construir
Naquela noite, eu acabara de receber uma homenagem da Associação Brasileira de Críticos de Arte por minha trajetória e contribuição à cultura brasileira.
Foi uma cerimônia particularmente emocionante. Havia amigos, críticos, artistas, pesquisadores, pessoas com quem compartilhei diferentes momentos de uma vida dedicada, em grande medida, aos museus, ao patrimônio, à arte, à cultura e à memória.
Mas uma das imagens que permaneceram comigo aconteceu quase silenciosamente.
Uma representante do movimento estudantil aproximou-se e me entregou um livro.
Era uma edição especial de Pedagogia do oprimido, de Paulo Freire.
Não uma edição qualquer.
Nas páginas, o manuscrito.
A letra.
As rasuras.
O pensamento antes de se transformar inteiramente em livro.
Ao lado, a transcrição permite acompanhar aquilo que a mão escreveu.
Recebi o exemplar como se recebem certos presentes cujo significado demora algum tempo para chegar.
Primeiro vemos o objeto.
Depois começamos a compreender a história que ele carrega.
Aquele manuscrito foi escrito em 1968.
Paulo Freire estava no Chile.
No exílio.
O Brasil que produziu um dos educadores mais influentes do século XX havia se tornado, naquele momento, um país no qual ele não podia viver livremente.
Há uma violência histórica difícil de compreender quando reduzimos o exílio a uma mudança de endereço.
Exilar um intelectual significa tentar interromper uma conversa.
Separá-lo de seu país.
De seus interlocutores.
De suas instituições.
De seus alunos.
Do ambiente no qual suas perguntas nasceram.
Mas ideias possuem uma característica que regimes autoritários frequentemente descobrem tarde demais:
elas viajam.
Paulo Freire deixou o Brasil.
Seu pensamento não.
Ou talvez devamos dizer algo ainda mais preciso.
Seu pensamento também deixou o Brasil, atravessou fronteiras, encontrou outras realidades, conversou com outras experiências e voltou maior.
Foi no Chile que Pedagogia do oprimido adquiriu sua forma.
Foi longe de seu país que um brasileiro continuou pensando algumas das perguntas mais profundas sobre educação, liberdade, opressão, consciência e a possibilidade de homens e mulheres se tornarem sujeitos da própria história.
Há nisso uma das grandes ironias dos autoritarismos.
Pretendem silenciar.
Às vezes produzem circulação.
Expulsam pessoas.
E acabam internacionalizando perguntas.
Paulo Freire não foi o único.
Uma parte extraordinária da inteligência brasileira daquele período conheceu perseguição, afastamento, prisão ou exílio.
Darcy Ribeiro partiu.
Meu pai, Marco Antonio França Mastrobuono, foi preso e solto sete vezes.
Na última prisão, aconteceu uma cena que me acompanharia pelo resto da vida.
Levaram os livros de nossa casa.
Durante muito tempo, essa lembrança me pareceu apenas uma das brutalidades daquele período.
Hoje penso que ela contém uma espécie de síntese.
Não perseguiam apenas homens.
Perseguiam aquilo que os homens poderiam pensar.
Um livro é perigoso para todo poder que deseje transformar obediência em virtude porque ele cria uma circunstância íntima de liberdade.
Alguém lê.
E alguma coisa começa a acontecer num lugar ao qual o poder não consegue chegar inteiramente.
Uma pergunta.
Uma dúvida.
Uma comparação.
Uma possibilidade.
Talvez por isso tenham levado os livros.
O que não podiam levar era aquilo que já havia sido lido.
Meu pai pertencera ao movimento estudantil da Universidade de São Paulo.
Foi presidente de seu DCE.
Sua formação política e intelectual começou também nesse ambiente em que jovens discutiam universidade, país, desenvolvimento, democracia e futuro.
Antes que muitos daqueles estudantes se tornassem professores, técnicos, intelectuais, parlamentares, ministros, engenheiros, administradores ou perseguidos políticos, foram simplesmente jovens que acreditavam possuir o direito de discutir o mundo que receberiam.
Essa talvez seja uma das razões pelas quais o movimento estudantil sempre me pareceu tão importante.
Não porque estudantes estejam sempre certos.
Não estão.
Nenhuma geração está.
Movimentos estudantis podem exagerar.
Podem simplificar.
Podem escolher causas equivocadas.
Podem ser impacientes.
Podem confundir intensidade com razão.
Mas talvez seu valor mais profundo nunca tenha estado na promessa de acertar sempre.
O valor do movimento estudantil está em recusar que a universidade deixe de perguntar.
Uma universidade sem estudantes capazes de inquietá-la pode continuar produzindo diplomas.
Pode publicar.
Pode pesquisar.
Pode administrar laboratórios.
No entanto, alguma coisa essencial começa a faltar quando aqueles que estão sendo formados deixam de participar criticamente da experiência universitária.
É aqui que o livro recebido naquela noite começa a adquirir outro significado.
Pedagogia do oprimido não é um tratado sobre movimento estudantil.
Seria intelectualmente incorreto tratá-lo assim.
Mas existe no pensamento de Paulo Freire uma recusa radical à ideia de educação como simples transferência unilateral de conhecimento.
Sua crítica à educação bancária tornou-se conhecida justamente porque questiona a imagem do estudante como recipiente no qual alguém deposita um saber já concluído.
Educação, em sua dimensão emancipadora, exige diálogo.
Exige participação.
Exige consciência.
Exige que aquele que aprende não seja reduzido à passividade.
Talvez possamos transportar essa inquietação para a universidade contemporânea.
O estudante não é o lugar onde a universidade deposita conhecimento. É uma das pessoas através das quais a universidade continua produzindo perguntas.
Isso muda tudo.
Muda a sala de aula.
Muda a relação entre professor e aluno.
Muda o significado da universidade.
E muda também a maneira pela qual compreendemos o movimento estudantil.
O estudante deixa de ser apenas destinatário da instituição.
Torna-se participante de sua responsabilidade histórica.
Penso muito nisso agora, quando o Memorial da América Latina começa a viver um momento que considero profundamente transformador.
Estamos construindo o Distrito Acadêmico e Científico Latino-Americano.
Universidades começam a ocupar permanentemente espaços concebidos originalmente por Oscar Niemeyer para uma instituição imaginada por Darcy Ribeiro.
Nasce também o Centro de Ensino Superior Darcy Ribeiro.
Há algo de profundamente emocionante nisso.
Darcy pertence à história intelectual do Brasil, mas pertence também à minha memória.
Compartilhou com a geração de meu pai a experiência do governo João Goulart, da ruptura de 1964, da perseguição e do exílio. Nossa história familiar voltou a encontrá-lo no Peru, país onde vivi parte da infância e onde meu pai participou intensamente da experiência de integração latino-americana.
Por isso, quando hoje vejo universidades chegando ao Memorial, não consigo enxergar apenas ocupação de espaços.
Vejo uma pergunta antiga reaparecendo.
Para que serve uma universidade?
Paulo Freire e Darcy Ribeiro não foram o mesmo pensador.
Não precisamos apagar suas diferenças para aproximá-los.
Talvez seja mais interessante justamente preservá-las.
Mas ambos pertenceram a uma geração para a qual educação não podia ser inteiramente separada da pergunta sobre que sociedade desejávamos construir.
Darcy pensou universidade, educação, antropologia, povos, desenvolvimento e América Latina.
Freire pensou educação, consciência, diálogo, opressão e emancipação.
Ambos compreenderam, por caminhos diferentes, que ensinar nunca é um ato inteiramente neutro diante do mundo.
E ambos conheceram o exílio.
Talvez uma das respostas mais dignas que podemos oferecer a intelectuais perseguidos por aquilo que pensaram seja construir instituições nas quais pensar continue sendo possível.
É isso que desejo para o Distrito.
Não quero universidades simplesmente instaladas no Memorial.
Quero universidades vivas.
Pesquisando.
Ensinando.
Discordando.
Criando.
Ouvindo.
Encontrando outras universidades.
Encontrando a sociedade.
Encontrando a América Latina.
E, sobretudo, encontrando estudantes.
Porque um Distrito Acadêmico sem vida estudantil correria o risco de se transformar numa bela arquitetura institucional sem a inquietação que faz uma universidade permanecer jovem.
Por isso decidimos reservar no Memorial um espaço para o movimento estudantil.
E queremos que esse espaço carregue o nome de José “Pepe” Mujica.
Não preciso afirmar uma relação pessoal entre Mujica e Paulo Freire para perceber uma conversa possível entre suas histórias.
As ideias podem encontrar-se mesmo quando as biografias não se encontraram.
Mujica pertence a outra geração e a outra experiência latino-americana. Sua trajetória atravessou militância, prisão, democracia, vida pública e Presidência da República do Uruguai. E sua figura acabou associada, para milhões de pessoas, a uma determinada compreensão de simplicidade, participação política, liberdade e responsabilidade coletiva.
Dar seu nome a um espaço destinado ao movimento estudantil não deveria significar pedir aos estudantes que pensem como Mujica.
Seria contraditório.
Um espaço verdadeiramente estudantil não deveria dizer aos jovens o que pensar. Deveria assegurar-lhes o direito de pensar.
Talvez essa seja a homenagem mais coerente.
O Centro de Ensino Superior leva o nome de Darcy Ribeiro.
O espaço estudantil poderá levar o nome de Pepe Mujica.
E Paulo Freire chegou às minhas mãos pelas mãos de uma estudante.
Há alguma coisa nessa constelação que me comove.
Não porque forme uma genealogia ideológica perfeita.
Não forma.
Nem deveria.
Mas porque todos esses nomes, com histórias, circunstâncias e pensamentos diferentes, nos devolvem a uma questão que continua aberta:
que lugar reservamos à juventude na construção do futuro?
É fácil homenagear jovens abstratamente.
Muito mais difícil é ouvi-los quando discordam de nós.
É fácil defender liberdade intelectual quando ela produz ideias que consideramos razoáveis.
Mais difícil é construir instituições capazes de conviver com dissenso, desconforto e contestação.
Universidades amadurecem quando aprendem essa diferença.
Movimentos estudantis também.
Liberdade acadêmica não significa ausência de responsabilidade.
E responsabilidade não significa obediência.
Entre ambas existe uma das experiências mais difíceis e fecundas da vida universitária:
o diálogo entre pessoas que possuem o direito de discordar.
Talvez seja justamente por isso que o movimento estudantil seja uma escola.
Não apenas escola de política.
Escola de convivência.
De negociação.
De derrota.
De argumentação.
De representação.
De responsabilidade coletiva.
De descoberta de que desejar alguma coisa para todos exige aprender a conviver com aqueles que desejam outra.
Meu pai levou parte dessa experiência para a vida pública.
Outros estudantes de sua geração seguiram caminhos muito diferentes.
Alguns permaneceram amigos.
Outros se tornaram adversários.
Alguns chegaram ao governo.
Outros à universidade.
Outros ao exílio.
A história separou muitos deles.
Mas alguma coisa havia começado antes.
Tinham aprendido a discutir o país dentro da universidade.
Talvez este seja um patrimônio imaterial que não deveríamos desprezar.
Falamos muito sobre prédios universitários.
Laboratórios.
Bibliotecas.
Orçamentos.
Cursos.
Avaliações.
Tudo isso é indispensável.
Contudo, existe também uma cultura universitária.
Ela vive nas relações entre gerações.
Nas perguntas.
Nos grupos de estudo.
Nos centros acadêmicos.
Nos corredores.
Nos jornais estudantis.
Nas assembleias.
Nos debates que às vezes parecem excessivos e, décadas depois, descobrimos que estavam formando pessoas.
Nem todo aprendizado aparece no histórico escolar.
Talvez algumas das experiências mais importantes de uma universidade jamais recebam nota.

É por isso que me parece tão simbólico receber Pedagogia do oprimido daquela maneira.
A edição que chegou às minhas mãos preserva o manuscrito.
E um manuscrito possui algo que o livro impresso frequentemente esconde.
O pensamento ainda está acontecendo.
A letra hesita.
A palavra é escolhida.
Há marcas.
Correções.
O texto ainda não possui a aparência inevitável que adquire depois de publicado.
O manuscrito nos lembra que ideias também tiveram infância.
Foram tentativa antes de se tornarem referência.
Talvez devêssemos permitir aos estudantes a mesma coisa.
O direito de formular pensamentos ainda incompletos.
De errar.
De revisar.
De amadurecer.
De mudar de opinião.
Uma universidade que exige dos jovens apenas respostas prontas talvez esteja lhes negando justamente aquilo que deveria ensinar:
como construir uma pergunta suficientemente boa para transformar uma resposta.
Paulo Freire escreveu aquele manuscrito em 1968, no exílio.
Darcy Ribeiro também pensou grande parte da América Latina longe do Brasil.
Meu pai, perseguido depois de 1964, continuou sua trajetória intelectual no continente e fez da integração latino-americana parte importante de sua vida profissional.
Há uma pergunta histórica que não podemos evitar:
quanto perdeu o Brasil ao expulsar parte de sua inteligência?
Nunca saberemos inteiramente.
Sabemos, porém, aquilo que muitos desses homens produziram depois.
E isso talvez torne a violência ainda mais evidente.
Não devemos medir um período autoritário apenas pelo que conseguiu destruir.
Devemos medi-lo também pela qualidade daquilo que tentou impedir de existir.
É por isso que universidades livres são patrimônio democrático.
E movimentos estudantis também fazem parte desse patrimônio.
Não porque possuam razão por definição.
Mas porque uma sociedade livre precisa preservar lugares nos quais uma geração possa dizer à anterior:
talvez exista outra maneira.
Às vezes não existe.
Às vezes existe.
Só descobriremos se a pergunta puder ser feita.
Quando olho hoje para o Memorial da América Latina e imagino estudantes circulando pelo Distrito Acadêmico, sinto que alguma coisa está retornando ao lugar certo.
Darcy imaginou o Memorial como instituição voltada para integração, cultura e consciência latino-americana.
Agora universidades chegam.
Professores chegam.
Pesquisadores chegam.
Alunos chegarão.
Livros chegarão.
Perguntas chegarão.
E talvez seja justamente isso que uma instituição dedicada à memória deva fazer para não se transformar num monumento ao passado:
permitir que o futuro entre.
Foi por isso que aquela pequena cena na cerimônia da ABCA adquiriu para mim uma dimensão inesperada.
Eu havia subido ao palco para receber uma homenagem por uma trajetória ligada à cultura.
Entretanto, talvez um dos acontecimentos mais importantes daquela noite tenha ocorrido depois.
Uma estudante se aproximou.
Trazia Paulo Freire nas mãos.
Naquele instante, eu ainda não havia ligado todos esses pontos.
O Chile.
O exílio.
Darcy.
Meu pai.
O movimento estudantil.
Os livros levados de nossa casa.
O Distrito.
O Centro de Ensino Superior Darcy Ribeiro.
A futura casa do movimento estudantil.
Pepe Mujica.
A América Latina.
Talvez ideias precisem de algum tempo antes de revelarem as relações que carregam.
Agora consigo enxergá-las.
Meu pai pertenceu ao movimento estudantil.
Paulo Freire escreveu no exílio.
Darcy sonhou universidades.
Mujica pertence a outra história latino-americana de política, conflito, prisão e democracia.
Nenhum deles precisa ser transformado em personagem sem contradições.
Seria uma forma pobre de memória.
Precisamos deles humanos.
Complexos.
Historicamente situados.
Capazes de nos oferecer não respostas obrigatórias, mas perguntas que ainda merecem ser feitas.
Talvez seja isso que desejamos construir no Memorial.
Um lugar onde livros possam voltar.
Onde universidades possam chegar.
Onde estudantes tenham casa.
Onde Darcy Ribeiro não seja apenas um nome.
Onde Paulo Freire continue produzindo perguntas.
Onde Pepe Mujica possa lembrar que participação política também pertence à juventude.
Onde professores possam ensinar sem exigir submissão.
Onde estudantes possam discordar sem transformar discordância em impossibilidade de diálogo.
E onde nenhuma geração precise pedir licença para pensar o mundo que terá de habitar.
Talvez uma universidade comece exatamente aí.
Não quando alguém ensina.
Nem quando alguém aprende.
Mas quando ambos reconhecem que existe entre eles uma coisa que ainda precisa ser compreendida.
Uma pergunta.
Uma sociedade.
Um país.
Um continente.
Um futuro.
Quero, por isso, guardar aquela fotografia.
Não apenas porque registra uma noite em que fui homenageado.
Nem apenas porque estou segurando uma edição especial de um dos livros mais importantes do pensamento educacional brasileiro.
Quero guardá-la pelo gesto.
Uma estudante se aproximou.
Trouxe um livro.
E colocou-o em minhas mãos.
Por alguns segundos, agora que reconstruo essa cena, penso inevitavelmente em meu pai.
Na última vez em que foi preso depois de 1964, levaram também os livros de nossa casa.
Décadas se passaram.
O Brasil mudou.
Nós mudamos.
As universidades mudaram.
A democracia conheceu avanços, crises, interrupções e reconstruções.
Mas algumas imagens parecem conversar através do tempo.
Um dia levaram os livros.
Muitos anos depois, os estudantes começaram a trazê-los de volta.
Pedro Mastrobuono é diretor-presidente da Fundação Memorial da América Latina e Pós-Doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS).

