O cinema é uma janela para o mundo: 50 anos da Mostra de Cinema de São Paulo
Diretora da Mostra, Renata de Almeida fala sobre os desafios de coordenar um festival na era da economia criativa e as vias de diálogo que o cinema ainda abre ao público
A Mostra Internacional de Cinema em São Paulo completa 50 anos com a intenção de celebrar a cultura de cinefilia que leva paulistanos e visitantes em massa aos cinemas da cidade ao longo do mês de outubro de cada ano desde 1977. A Mostra foi fundada pelo crítico Leon Cakoff no meio da ditadura militar. Naquele ano, 25, documentário de Celso Luccas e José Celso Martinez Corrêa sobre Moçambique, teve que vir clandestinamente na mala diplomática francesa, tal era o clima de censura contra as artes que a programação viria a desafiar nos anos seguintes.

Renata de Almeida, viúva de Cakoff e responsável pelo festival desde 2011, conta que a Mostra foi, durante a ditadura, “uma janela para o mundo” exibindo filmes sobre as realidades de países como Cuba e mesmo do Brasil, como mostrou Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia, de Hector Babenco, vencedor do primeiro Prêmio do Público da Mostra.
O festival completa meio século de existência em um momento complexo para o setor cultural. Por um lado, trabalhadores ainda respiram o alívio de um aparelho de Estado presente, que se contrapõe ao sofrimento que marcou o governo de Jair Bolsonaro. Por outro, reclama-se da mentalidade mercantil que tomou conta dos gestores da cultura, mais preocupados com números do que com a arte, os artistas e o público.
Renata acumula mais de trinta anos de experiência no comando da Mostra – primeiro ao lado de Cakoff, seguido de muitos anos como cabeça singular, e hoje com a ajuda crescente de seu filho. Responsável por uma programação ampla e variada, que vem exibindo uma média de 300 filmes por edição, ela explica a escolha por trás do nome de James Gray como cineasta homenageado, diretor de filmes que são “puro cinema”, como Paper Tiger, que abre o festival deste ano.
Em um momento em que se confunde o cinema com as mais mercadológicas produções audiovisuais, Renata ainda acredita que o público apaixonado da Mostra de Cinema de São Paulo merece conhecer e discutir o mundo e suas questões através de uma arte de filmar com cuidado e atenção, como pretende apresentar a sua curadoria.
A Mostra completa 50 anos em um momento de efervescência popular do cinema brasileiro. Também é o 15º ano que você dirige o festival. O que significa, pessoalmente, chegar a essa 50ª edição?
Comemorar um festival com 50 anos, ainda mais no Brasil, é emocionante. A Mostra passou por tantos governos, épocas diferentes do Brasil e conseguiu chegar a esse número redondo. Cada fase teve suas alegrias e suas dificuldades. Chegamos com patrocínio e tudo, mas o Brasil é outro, o mundo é outro, as questões são outras. Isso é muito forte na história da Mostra: acompanhar o estado do mundo com a programação. Chegar aos 50 anos é um marco importante, motivo para festejar.
Apesar disso, hoje vivemos com uma mentalidade muito comercial. Depois dos ataques durante o governo Bolsonaro, o setor cultural se preocupou muito em falar sobre números. Nos museus e nas instituições, a maioria dos gestores hoje veio do mercado financeiro. Acho que estamos precisando voltar a um equilíbrio. Mesmo a Lei Rouanet, diria que virou quase uma verba extra de marketing para as empresas, o que não era o objetivo no início da lei.
A Mostra tem o bônus e o ônus de ter 50 anos: com o aumento dessa mentalidade mercadológica e política, não no sentido de estadista, mas de quem só quer resultados, uma instituição com tanta história acaba sendo uma pedra no sapato, porque não pode ser facilmente carimbado. O que mais vem sendo incentivado é chamar algo de novo, sendo que não é nada novo. É um conceito de cultura em que o marketing entrou muito. É o que sinto nesses mais de 30 anos em que trabalho com a Mostra.
O que a Mostra mais valoriza nesse sentido, entre equilibrar a arte e o marketing?
A programação da Mostra é soberana, pois ela tem uma história. Acho importante ter uma seleção que tem o lado do cinema que a gente ama e a importância do filme como cinema em si, mas também tem uma preocupação de reflexão sobre o mundo, sobre o que está acontecendo, sobre as questões mais urgentes, o cinema também tem essa função. A Mostra surgiu durante a ditadura, quando se tinha pouca informação no Brasil. As pessoas tinham mais dificuldade de se informar e a Mostra foi uma janela para o mundo, para várias culturas. O cinema tem esse poder. A Mostra introduziu o cinema iraniano no Brasil, por exemplo, que tem filmes e dramaturgias muito fortes, além de uma poesia maravilhosa. Hoje, valorizamos o cinema palestino.
O cinema tem esse lado que a Mostra sempre valorizou: trazer outras coisas que não chegavam ao país antes. Nesse tempo todo, muita coisa aconteceu com o mundo. Quando a Mostra nasceu, era um deserto. No primeiro ano, a Mostra encheu, porque as pessoas tinham muita sede de informação. Hoje está tudo a um clique, principalmente para os jovens. Mas, ao mesmo tempo, vivemos nesse lugar da internet em que tudo tem o mesmo peso, em que todo mundo é especialista. A diferença do trabalho que fazemos é essa peneira, uma curadoria. E também abrimos espaços para o Encontro de Ideias, um lugar de discussão onde podemos voltar a conversar, se desentender de uma maneira civilizada, ter uma abertura para mudar seu ponto de vista, que é algo que as redes não proporcionam.
Qual é o papel do curador da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo? O que norteia seu trabalho?
O curador é um amigo que te dá um conselho, mesmo que seja uma provocação: “Vai ver esse filme. Eu fui ver e gostei. Tenta abrir os olhos para uma coisa diferente, um universo que você não está esperando”. Na curadoria, claro, você tem os filmes muito esperados, os homenageados, e a curadoria é para isso. No ano passado, abrimos o festival com Sirât [Vencedor do prêmio do júri no Festival de Cannes, dirigido por Oliver Laxe] porque pensamos que era o filme certo para o momento.
Este ano estamos abrindo com um filme que é puro cinema, um melodrama sobre dois irmãos, Paper Tiger. James Gray trabalha muito nessa área. Com ele, estamos trabalhando por uma valorização do cinema em si, ao mesmo tempo em que, nesse filme, se fala de máfia, do meio ambiente, questões contemporâneas. Ele é um cineasta que nós admiramos, faz cinema num momento em que muita gente chama de cinema coisas que não são cinema. Todo mundo acha que qualquer coisinha é cinema, e não é. O cinema exige trabalho: tem que cuidar da mise-en-scène, da fotografia.
A Mostra vai se formando a partir dos filmes. Este ano, por exemplo, estou vendo que tem muitos filmes sobre música. Fazemos um trabalho um pouco jornalístico também, porque trabalhamos em cima do que existe, selecionando aquilo que achamos mais relevante. Recebemos quase dois mil links, temos vários pré-selecionadores que fazem relatórios que chegam a mim e ao Jonas [Chadarevian, produtor executivo da Mostra]. Nós vamos conversando, tentando traçar um perfil. Por mais que, no começo do ano, tenhamos pensado em algumas coisas, trabalhamos com um olhar sobre o que está sendo produzido. A Mostra é grande porque São Paulo é grande.
James Gray é o convidado internacional de destaque dessa Mostra, reforçando a importância da parceria que vocês têm com o produtor Rodrigo Teixeira, que se revela um ator importante nessa conexão entre o Brasil e os cinemas do mundo. Por que James Gray?
James Gray porque eu acho que ele é um dos melhores autores de cinema hoje. Porque existem muitos diretores competentes, mas alguns diretores têm uma marca, um perfil, que até se transformam em adjetivos. De autores que você reconhece, mesmo que ele faça uma ficção científica no espaço ou um filme na selva. São filmes sobre a alma humana, sobre as relações. Ele me lembra alguns filmes do Zurlini, do Visconti, esse melodrama clássico. Tem muito cuidado estético, com onde vai a câmera, com os cortes. Ele é um cineasta que faz storyboard desenhado, por isso o pôster desta Mostra é de autoria dele.
Já faz tempo que queríamos fazer uma coisa forte com o James Gray. No Brasil, ele tem muitos admiradores; já não é tão valorizado como deveria nos Estados Unidos. O Brasil tem isso. A diretora de A voz de Bergman, Gunnar Bergdahl, quando veio a São Paulo, falou que o [Ingmar] Bergman tinha mandado um abraço, porque ele tinha muito carinho por São Paulo. Foi daqui que ele recebeu o primeiro prêmio da vida. Acho curioso que São Paulo, seus cinéfilos e críticos, têm uma cinefilia muito especial, uma sensibilidade para o bom cinema.
Acho que isso vem de um conjunto: a Mostra, mas também o público e a crítica. É uma conjuntura que fez com que esses autores tenham destaque na Mostra. A sensibilidade do público, com a sensibilidade do jornalista, colabora com esse desenho, com a Mostra que existe há 50 anos. O dia que esse tripé não existir mais, o banquinho cai. Claro, tem também o patrocínio. É isso que faz com que a Mostra exista: patrocínio, um público fiel e jornalistas repercutem nosso trabalho. Se um desses não funciona, não existe a Mostra.
O Brasil vem ocupando um lugar de protagonismo no cinema internacional nos últimos dois anos. Como a produção nacional aparece na ampla seleção da Mostra?
Temos a Mostra Brasil, que faz um panorama da nossa produção, até para apresentá-la aos estrangeiros que vêm à Mostra. Junto com o Encontro de Ideias, criamos o Work-In-Progress (WIP) plataforma para que cineastas apresentem longas-metragens em fase avançada de pós-produção a distribuidores.
Historicamente, o público da Mostra não ia ver os filmes brasileiros, então os cineastas tinham um certo receio de colocar os filmes na Mostra, porque achavam que eles iam competir com o internacional. Mas conforme os anos passaram, os filmes brasileiros passaram a ser tão ou mais disputados que os internacionais. Isso se deve à qualidade dos filmes e a um olhar do público para o cinema brasileiro.
Eu acho curioso que, no Instagram da Mostra, fizemos uma brincadeira: “O que você vai ver na Mostra?”. Alguém falou: “Não vou ver os brasileiros que estreiam depois, vou selecionar os outros”. Em resposta, pessoas de fora de São Paulo, que compõem uma parte importante do nosso público, diziam: “Não, eu vou ver o filme brasileiro, porque eu moro numa cidade onde não estreia nenhum filme brasileiro”. A Mostra criou esse lugar que valoriza o cinema brasileiro, tanto pela curadoria, na hora de selecionar, como pelo público.
Você já mencionou: nos últimos anos você vem trabalhando de modo bastante próximo do seu filho, Jonas Chadarevian, na produção e na programação. A Mostra sempre teve uma dimensão de continuidade, desde que você assumiu a direção depois do Leon Cakoff. Como você entende essa continuidade dentro da própria família? Você o vê como sucessor à frente da Mostra no futuro?
Ele quis, foi uma escolha dele. Não tem favorecimento nenhum, porque ele se preparou para isso. Eu chamo ele de HD, porque começou a ver filmes muito cedo e lembra de tudo. Quando ele era criança, eu proibia, falava: “Vai brincar, não é para ficar vendo filme”. Mas ele fez faculdade de cinema, estuda e viu muitos filmes. Acabamos trabalhando juntos porque é confortável, é uma pessoa que entende muito de cinema para a idade dele. É uma idade em que se tem muita memória, isso é uma vantagem, porque eu, que tenho conhecimento, já estou esquecendo. Então é uma pessoa com quem eu trabalho muito perto, não pelo fato de ser meu filho, e sim por todo esse conhecimento e dedicação. Ele começou aos poucos e neste ano atingiu um ponto de curadoria muito presente. Ele realmente gosta de curadoria, de ver filmes – até demais, às vezes. É o que aconteceu. Eu também não esperava ter ficado tanto na Mostra quando entrei, mas as coisas acontecem.
Você falou que a Mostra foi uma janela para o mundo naquele momento de abertura e agora está falando que está trabalhando mais do que pensou que ia trabalhar na Mostra, há mais tempo. O que mobiliza seu amor ao cinema ainda hoje?
O público. Todo ano me perguntam se tem sentido continuar. Eu fico pensando: será que o cinema vai continuar como conhecemos, com essa qualidade? Porque um filme é algo que demora. Os cineastas têm projetos de dez anos, alguns têm vários projetos para ver qual anda mais. É um trabalho longo numa sociedade que cada vez valoriza mais a rapidez e uma certa superficialidade das coisas. Mas quando a Mostra começa eu vejo um público muito engajado. Eu sinto esse carinho. É tão bacana ver as pessoas.
Ano passado encontrei umas senhoras, eram cinco amigas de Natal que vêm juntas todos os anos para a Mostra. Tem grupos de amigos que se formam, numa sociedade em que acho que a gente está tão pouco afeito aos laços afetivos. Então, quando me contam histórias – até casamento, namoro que começou na Mostra –, acho muito bacana. O cinema é uma tribo, o público tem gostos variados, mas, ao mesmo tempo, as pessoas se unem. Se não tiver público, não adianta mais nada. Sem ele, não tem patrocínio e não tem Mostra.
Eu não me sinto na obrigação de continuar fazendo nada. Eu poderia ter feito outra coisa, mas esse encanto com o público me comove. Por mais que, às vezes, eles nos xinguem nas redes sociais, porque não conseguem ver tal filme, eu vejo nesse desespero uma paixão. Muita gente diz que lembra de acontecimentos da vida a cada ano através dos posters da Mostra. Fazer parte de uma maneira positiva da vida de alguém é um prêmio.

