OPERAÇÕES COGNITIVAS

IA do Google enquadra análise publicada no Le Monde Diplomatique Brasil sobre a Operação Absolute Resolve como satírica e fictícia

Insistentemente, a Visão Geral gerada por IA do Google, continua atribuindo à análise geopolítica do artigo publicado em janeiro no Le Monde Diplomatique Brasil sobre a Operação Absolute Resolve como fictícia. Quando a desinformação vem direto do mecanismo de busca, os limites entre erro algorítmico e Operações Psicológicas tornam-se perigosamente tênues  

No dia 31 de agosto, foi publicado um artigo descrevendo como a IA do Google usa o Le Monde Diplomatique Brasil como fonte da fake news de que Maduro nunca foi capturado, com base em uma série de prints que recebemos do resultado da busca do nome do artigo A arquitetura da operação perfeita: Como os EUA fizeram para bombardear a Venezuela e sequestrar Maduro em menos de 5 horas antes da primeira segunda-feira do ano?. Outros prints enviados também enquadram a análise dos eventos reais como cenários hipotéticos, ensaísticos ou de ficção especulativa: 

No dia 01 de agosto, ao procurar pelo título do artigo IA do Google usa o Le Monde Diplomatique Brasil como fonte da fake news de que Maduro nunca foi capturado, a Visão Geral gerada por Inteligência Artificial continua insistindo que o artigo publicado é crônica, sátira, ficção. 

Agora, a IA passa a usar justamente a matéria que documenta o erro para reiterar o próprio erro; da mesma forma que usou o artigo relatando o fato real do sequestro de Maduro e o bombardeio da Venezuela, como fonte para sustentar que esses mesmos acontecimentos jamais haviam ocorrido. Agora, mesmo diante de um texto cujo objeto central é demonstrar que o artigo anterior tratava de acontecimentos reais, a Visão Geral continua descrevendo aquela análise como “crônica”, “sátira” ou “ficção”, preservando a classificação equivocada que havia motivado a reportagem do dia anterior. Ou seja, em vez de incorporar a correção oferecida pela fonte, o sistema absorve a nova publicação e a reorganiza dentro da mesma interpretação falsa: reconhece que existe uma controvérsia sobre a resposta gerada pelo Google, mas mantém como premissa que o artigo original possuía caráter ficcional. 

O que isso nos revela sobre o momento atual? 

Operações Cognitivas 

Operações cognitivas atuam sobre as condições pelas quais indivíduos e sociedades percebem, interpretam e recordam a realidade política. Seu objetivo ultrapassa a circulação de informações falsas ou enganosas – a mera “desinformação” – e passa a organizar o ambiente informacional de modo que determinadas interpretações adquiram credibilidade, outras sejam neutralizadas e a percepção pública se ajuste a objetivos políticos ou estratégicos. Linebarger, o pai das Operações Psicológicas, é categórico: PsyOps existem para facilitar e realizar o objetivo militar. 

Na era digital, essa capacidade encontra nas infraestruturas das Big Techs um alcance sem precedentes. Hoje, algoritmos, mecanismos de busca e sistemas generativos passaram a intervir diretamente sobre aquilo que se torna visível, plausível e reconhecível como verdadeiro. 

A ironia é que um dos argumentos centrais de o artigo de publicado em janeiro, que tratava justamente da dimensão cognitiva da fase pós-cinética. Depois das bombas e da captura de Maduro, o controle da narrativa passaria a administrar o fato consumado, reorganizando a percepção pública sobre o que havia ocorrido e estabelecendo os termos sob os quais o acontecimento seria compreendido. A operação militar poderia terminar no terreno, mas sua consolidação dependeria da capacidade de controlar sua interpretação, legitimar seus resultados e integrá-los à memória coletiva. 

E aqui, ao continuar a transformar nossa análise em ficção, negando o evento que ela documentava, a IA do Google acabou reproduzindo, de forma quase literal, o mecanismo descrito no texto: o poder de intervir sobre a memória imediata dos acontecimentos e de redefinir a realidade por meio do controle informacional. 

Esse mecanismo corresponde ao princípio de credibilidade e consistência formulado por Paul Linebarger e reinterpretado por nós para o ambiente digital. Em uma operação psicológica, a credibilidade não depende necessariamente da verdade objetiva, mas da aparência de plausibilidade produzida dentro do universo cognitivo do público. A Visão Geral desautorizou uma fonte jornalística que contradizia sua conclusão, atribuiu à autora intenções inexistentes e construiu uma narrativa completa para explicar por que os fatos documentados jamais teriam ocorrido. Segundo o sistema, o texto teria sido escrito para ilustrar, como hipótese, um acontecimento que nunca existiu. E, inclusive, quando questionada, a IA afirmou:

O erro adquiriu estrutura, coerência e aparência de verificação. A resposta mobilizou a autoridade epistêmica do mecanismo de busca para produzir uma explicação autossuficiente, capaz de absorver a evidência contraditória e convertê-la em confirmação de sua própria narrativa. O artigo deixou de ser prova do acontecimento e passou a ser apresentado como prova da suposta intenção ficcional da autora. 

E isso é grave ao se considerar que a mesma empresa que organiza o acesso de bilhões de pessoas à informação passou a oferecer uma camada automática de interpretação capaz de converter registros históricos recentes em ficção antes mesmo que o leitor chegasse ao primeiro link. 

Esse processo também se aproxima daquilo que Walter Lippmann definiu como pseudoambiente: uma realidade mediada e simplificada a partir da qual os indivíduos formam opiniões sobre acontecimentos que não experimentaram diretamente. Nas plataformas digitais, porém, esse pseudoambiente passa a ser organizado por sistemas algorítmicos que selecionam fontes, hierarquizam versões e oferecem interpretações prontas. A Visão Geral ocupa uma posição especialmente poderosa nessa arquitetura porque apresenta sua síntese antes mesmo que o usuário alcance os links originais. A camada automática de interpretação precede o contato com a evidência e condiciona a leitura de tudo o que aparece depois. 

Esse caso adquire maior gravidade quando observado à luz da integração entre operações cognitivas e operações cinéticas. Conforme argumentamos no artigo de janeiro, as operações psicológicas contemporâneas acompanham a violência militar antes, durante e depois de sua execução. Elas preparam sua legitimidade, enquadram seus efeitos e administram sua memória. E agora, ao negar um acontecimento político recente e reclassificar como ficção o registro jornalístico que o documentava, o sistema interferiu precisamente nessa fase pós-cinética, durante a qual o domínio narrativo busca estabilizar a interpretação do fato consumado. 

Também aqui no Le Monde Diplomatique Brasil, publicamos sobre como executivos da Palantir, da Anduril, da OpenAI e da Meta receberam o posto de tenente-coronel da reserva do Exército dos Estados Unidos, passando a integrar o Detachment 201, unidade criada para incorporar lideranças do setor tecnológico à estrutura militar norte-americana. No caso da Google, a partir de 2022, o exército americano passa a utilizar o workspace. No artigo, mostramos como essa nomeação conferiu forma institucional a uma aproximação que já vinha sendo construída havia anos: as Big Techs passaram atuar como fornecedoras de infraestrutura, dados e sistemas de inteligência, ocupando posições dentro da própria cadeia militar de comando. Assim, não é um absurdo especular que estamos, agora, sendo submetidos por operações psicológicas conduzidas no espaço digital. 

Essa convergência entre poder corporativo da Big Tech e realização de objetivos militares materializa, no ambiente digital, outro princípio de Linebarger: o veículo de comunicação deve ser tecnicamente eficiente e permanecer sob controle. Hoje, esse veículo corresponde à um ecossistema privado e globalmente conectado, composto por mecanismos de busca, sistemas de recomendação, modelos generativos, bancos de dados e protocolos de moderação. É a Diplomacy 2.0’, doutrina formulada pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos para empregar redes sociais e plataformas digitais como instrumentos de interação, persuasão e influência sobre públicos estrangeiros. Nesse modelo, a internet funciona simultaneamente como canal de disseminação, mecanismo de segmentação de audiências e sistema de coleta de respostas, permitindo que as narrativas sejam monitoradas e ajustadas em tempo real. 

Ainda assim, precisamos ressaltar que não é possível, a partir deste episódio isolado descoberto, afirmar que a resposta do Google tenha resultado de uma operação deliberadamente coordenada. Essa atribuição tampouco é necessária para a análise uma vez que, independentemente de sua origem intencional ou sistêmica, o efeito produzido pertence à lógica das operações cognitivas: interferiu nas condições pelas quais uma sociedade reconhece um acontecimento como verdadeiro, preserva sua memória e atribui sentido à violência política. 

Quando uma infraestrutura privada, opaca e integrada aos interesses estratégicos de uma potência militar adquire autoridade para decidir quais fatos existiram, quais fontes merecem crédito e quais registros podem ser tratados como ficção, o controle da informação deixa de apenas mediar a realidade e passa a disputar sua própria existência. 

Pós-verdade 

A Venezuela realmente foi bombardeada, deixando mais de 100 mortos. Maduro realmente foi capturado, e está hoje detido em Nova York. Ter que reafirmar a realidade poucos meses depois desses acontecimentos revela a dimensão do poder adquirido por sistemas capazes de se interpor entre o público e as fontes, selecionando, resumindo e reinterpretando informações antes que o usuário tenha contato com os documentos originais. Fica a pergunta, quantas pessoas receberam a informação falsa, citando nosso artigo, sem jamais acessar o texto completo? 

O conceito de pós-verdade descreve um ambiente em que a força pública dos fatos depende cada vez menos de sua comprovação e cada vez mais das estruturas capazes de lhes conferir visibilidade, coerência e autoridade. Nesse ambiente, uma falsidade bem organizada pode prevalecer sobre o registro documental porque chega primeiro já que ele oferece uma explicação pronta e dispensa o esforço da verificação. A citação cumpre então uma função cenográfica já que sua presença produz confiança mesmo quando a fonte citada afirma o contrário da resposta apresentada. 

A Visão Geral do Google acrescenta a essa dinâmica uma dimensão algorítmica. O usuário já não precisa escolher entre versões concorrentes nem percorrer os resultados para formar uma interpretação já que a própria plataforma realiza essa operação, estabelece uma hierarquia entre as fontes e apresenta sua síntese no lugar de maior autoridade da página. A pós-verdade passa, assim, a ser incorporada à infraestrutura de acesso ao conhecimento: uma realidade personalizada e algoritmicamente curada, na qual o fato encontrado por cada pessoa pode depender da resposta que o sistema decidiu produzir para ela naquele instante. 

Quando o mesmo sistema que localiza as fontes também se encarrega de interpretá-las, a plataforma concentra duas formas de poder: primeiramente controla o acesso à evidência, e em segundo determina antecipadamente o sentido que lhe será atribuído. E, novamente, a autoridade documental do artigo é preservada apenas como aparência, enquanto seu conteúdo é substituído por uma narrativa produzida pelo próprio sistema. A fonte continua visível, mas já não conserva o direito de dizer o que diz. 

A pós-verdade foi uma vez concebida como condição cultural marcada pela indiferença aos fatos, mas agora, a dimensão parece ser menos da percepção individual e mais da dimensão infraestrutural. A verdade pública passa a depender de sistemas privados que operam de maneira opaca, oferecem respostas diferentes a usuários distintos e podem reescrever acontecimentos recentes em tempo real, sem deixar registro público das versões anteriormente apresentadas. O passado torna-se instável e pode ser recalculado a cada nova consulta. 

A pergunta, então, ganha contornos ainda mais graves e questionamos novamente: quantas pessoas receberam a informação falsa, acompanhada da autoridade de nosso artigo, sem jamais acessar o texto completo? E quantas saíram da página convencidas de que haviam verificado os fatos, quando, na realidade, apenas receberam uma narrativa algorítmica que contradizia a própria fonte utilizada para legitimá-la? 

A pós-verdade algorítmica nasce precisamente dessa inversão. A citação já não obriga a resposta a permanecer fiel ao documento; o documento é convocado para conferir credibilidade à resposta que o contradiz. Hoje o Google disputa a realidade, decidindo quais acontecimentos serão reconhecidos, quais registros conservarão autoridade e quais fatos poderão desaparecer sob a aparência de uma síntese confiável. 

 

Isabela Rocha-Dashicheva é mestre e doutoranda em Ciência Política pelo Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (IPOL UnB), coordena o Grupo de Trabalho Estratégia, Dados e Soberania do Grupo de Estudos e Pesquisas em Segurança Internacional do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEPSI IREL UnB) e preside o Fórum para Tecnologia Estratégica dos BRICS+, visando o desenvolvimento de infraestrutura tecnológica íntegra e soberana no Brasil, no Sul Global, nos países BRICS+, e no mundo.