PÓS-VERDADE

IA do Google usa o Le Monde Diplomatique Brasil como fonte da fake news de que Maduro nunca foi capturado

Busca por título de artigo publicado em janeiro de 2026 pelo Le Monde Diplomatique Brasil gerou resposta do Gemini dizendo se tratar de “crônica ficcional e satírica” e que o bombardeio da Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro jamais haviam ocorrido

No fim de 2024, o Google lançou uma IA embutida em seu mecanismo de busca chamada de “visão geral”, entregando resultados customizados ao usuário antes de links. Na época, pesquisadores alertaram que a mudança poderia ampliar a circulação de informações falsas apresentadas com aparência de autoridade, descontextualizar fontes, reproduzir vieses, oferecer orientações perigosas em temas sensíveis e concentrar ainda mais nas mãos da Google o poder de determinar quais informações seriam vistas como verdadeiras e relevantes.

No dia 20 de agosto de 2026, descobrimos que a visão geral do Gemini estava usando o nosso artigo A arquitetura da operação perfeita: Como os EUA fizeram para bombardear a Venezuela e sequestrar Maduro em menos de 5 horas antes da primeira segunda-feira do ano? para argumentar que os acontecimentos analisados –  o bombardeio da Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro – jamais haviam ocorrido, e que a operação Absolute Resolve seria nada senão uma crônica ficcional e satírica, criada pela autora Isabela Rocha como metáfora ou exercício literário.

Crédito: Arquivo pessoal
Crédito: Arquivo pessoal
Crédito: Arquivo pessoal
Crédito: Arquivo pessoal

A Visão Geral criada pela IA apresentava essa resposta a partir da busca pelo título exato do artigo, entre aspas – e esse comportamento não se restringiu a um único usuário ou dispositivo. Pessoas diferentes, em computadores distintos, repetiram a mesma consulta e receberam resultados substancialmente semelhantes: a ferramenta negava a ocorrência dos fatos, reclassificava a análise como ficção ou sátira e atribuía à autora uma intenção literária que jamais existiu. Em outros idiomas a busca também mostrou esse mesmo tipo de resultado:

Crédito: Arquivo pessoal
Crédito: Arquivo pessoal
Crédito: Arquivo pessoal

É preciso dizer que houveram algumas exceções, nas quais a IA reconheceu que o bombardeio da Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro realmente haviam ocorrido. Essa variação, contudo, tornava o problema ainda mais grave: diante da mesma consulta e da mesma fonte, o sistema produzia versões inconciliáveis da realidade, apresentando-as com idêntica aparência de autoridade. E fica a pergunta, quais são os critérios do algoritmo para entregar a informação verdadeira ou falsa ao usuário?

Crédito: Arquivo pessoal

Uma descoberta importante dessa busca foi a de que quando a visão geral citava apenas o nosso artigo como fonte, a IA invariavelmente enquadrava a operação Absolute Resolve como invenção. Nosso texto, porém, não tinha qualquer caráter ficcional: analisava a arquitetura da intervenção norte-americana a partir de três etapas – pré-cinética, cinética e pós-cinética –, examinando a integração entre ação militar, controle informacional e gestão jurídica da violência.

Além disso, quando a Inteligência Artificial reconhecia que o ocorrido na Venezuela era verídico, mesmo utilizando o título do artigo publicado em nosso site, afirmava não encontrar textos com esse título. Em outras buscas, também não apresentava o artigo publicado no Le Monde Diplomatique Brasil como principal fonte de pesquisa. 

Crédito: Arquivo pessoal
Crédito: Arquivo pessoal

A equipe do Le Monde Diplomatique Brasil entrou em contato com a Google através de seu email oficial para contato com a imprensa e também com o suporte. Requisitamos as seguintes informações: O que está causando esse tipo de apresentação nos resultados gerados por IA?; Por que, em determinados casos, um link do Le Monde Diplomatique Brasil aparece como única fonte e parece estar associado incorretamente a um evento ou informação? E, se isso poderia estar relacionado a algum problema na indexação, interpretação, recuperação ou processamento do nosso conteúdo pelo sistema de IA? Finalmente, também solicitamos quaisquer registros ou logs técnicos disponíveis que mostrem como o link foi utilizado pelo sistema de IA, incluindo informações sobre quando o conteúdo foi acessado ou recuperado e como foi interpretado ou utilizado para gerar o resultado apresentado ao usuário. O Google respondeu que não vai comentar na matéria.

 

Isabela Rocha-Dashicheva é mestre e doutoranda em Ciência Política pelo Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (IPOL UnB), coordena o Grupo de Trabalho Estratégia, Dados e Soberania do Grupo de Estudos e Pesquisas em Segurança Internacional do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEPSI IREL UnB) e preside o Fórum para Tecnologia Estratégica dos BRICS+, visando o desenvolvimento de infraestrutura tecnológica íntegra e soberana no Brasil, no Sul Global, nos países BRICS+, e no mundo.

Maíra Oliveira Graça é editora assistente do Le Monde Diplomatique Brasil.

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