URBANISMO NA CORDA BAMBA

Entre a cidade como direito e a cidade como mercadoria

Sobre Urbanismo na corda bamba: crônicas para enfrentar a crise das cidades, de Nabil Bonduki 

Há livros que procuram interpretar a cidade. Outros procuram transformá-la. Urbanismo na corda bamba: crônicas para enfrentar a crise das cidades, de Nabil Bonduki, pertence às duas categorias. Mais do que uma coletânea de artigos publicados na imprensa ao longo de quase duas décadas, o livro constitui um diário crítico das disputas em torno da cidade brasileira – e, com especial centralidade, de São Paulo. Seu mérito está em demonstrar que o urbanismo nunca é uma questão estritamente técnica: por trás de cada plano, parque, avenida, edifício, regra de zoneamento ou projeto habitacional existem interesses, conflitos e diferentes concepções sobre quem tem direito ao espaço urbano. 

Crédito: Divulgação

Publicado em 2026, pela Autonomia Literária, a obra reúne mais de uma centena de textos selecionados entre os mais de trezentos artigos publicados por Bonduki, sobretudo na Folha de S.Paulo, onde manteve uma coluna de urbanismo entre 2017 e 2022, além de contribuições para a CartaCapital. Organizada em oito capítulos, a coletânea percorre temas como planejamento urbano, espaços públicos, meio ambiente, mobilidade, habitação, pandemia, cultura, patrimônio e a construção de uma nova política nacional de desenvolvimento urbano. 

A estrutura fragmentária, própria da crônica jornalística, poderia sugerir uma reunião circunstancial de textos. Ocorre o contrário. Lidos em conjunto, eles revelam uma linha de pensamento persistente: a cidade é um campo de disputa política no qual o interesse público precisa ser permanentemente defendido diante da força do mercado e da apropriação privada do território. 

Mas há algo mais nessa forma de organização. A crônica não apenas registra acontecimentos urbanos: ela intervém neles. Escritos no momento em que determinadas decisões, projetos ou conflitos ainda estavam em disputa, os textos de Nabil participam da própria esfera pública em que a cidade é debatida. Reunidos posteriormente em livro, deixam de ser apenas intervenção conjuntural e passam a constituir uma espécie de memória das batalhas urbanas recentes. É justamente nessa passagem entre o acontecimento e sua elaboração retrospectiva que reside parte importante do interesse da obra. 

A cidade em disputa 

O próprio título é uma chave de leitura. Estar “na corda bamba” significa caminhar sobre uma situação de equilíbrio precário. No caso das cidades, esse equilíbrio se estabelece entre desenvolvimento e preservação, adensamento e qualidade urbana, mobilidade e sustentabilidade, propriedade privada e função social, concessão e interesse público, crescimento econômico e redução das desigualdades. 

As perguntas formuladas pelo autor são reveladoras: é possível planejar a cidade sem produzir exclusão? Os espaços públicos podem permanecer democráticos em uma época de crescente mercantilização? É possível adaptar as cidades à crise climática sem aprofundar as desigualdades? O direito à habitação pode ser efetivamente garantido? A proteção do patrimônio pode conviver com uma cidade mais compacta e verticalizada? 

Não são perguntas retóricas. Elas organizam um programa político para o urbanismo. E talvez seja justamente esse o ponto que confere unidade à diversidade temática do livro: habitação, mobilidade, patrimônio, meio ambiente e espaço público não aparecem como setores independentes da política urbana, mas como dimensões de uma mesma disputa pelo controle do território e, portanto, pelo próprio futuro da cidade. 

O autor parte de uma constatação incômoda: a urbanização brasileira produziu uma cidade profundamente desigual porque o Estado historicamente tratou de maneira desigual seus diferentes territórios. Os investimentos públicos, a infraestrutura e os instrumentos de planejamento foram frequentemente direcionados às áreas valorizadas pelo mercado, enquanto as periferias cresceram de forma precária, por meio da autoconstrução, da informalidade e da ausência de serviços urbanos básicos. 

Nesse sentido, o livro dialoga com uma tradição do pensamento urbano brasileiro – de Ermínia Maricato a Flávio Villaça, de Lucio Kowarick a Raquel Rolnik – sem transformar essa interlocução em mera revisão bibliográfica. A teoria aparece encarnada nos conflitos concretos do território. Nabil não fala da cidade como uma abstração; fala de parques, ônibus, cinemas, terrenos vazios, cortiços, favelas, prédios históricos, corredores de transporte, áreas de risco e bairros específicos. 

Essa dimensão concreta é importante porque recoloca uma questão que o discurso técnico frequentemente procura ocultar: o território nunca é um espaço neutro sobre o qual diferentes políticas simplesmente incidem. Ele é, ao mesmo tempo, resultado e condição das relações sociais. Planejar significa, portanto, interferir em relações de poder já espacializadas. 

Planejar não é controlar: é disputar o futuro 

Um dos argumentos centrais do livro é a ideia de que o planejamento urbano não perdeu sua importância simplesmente porque muitos planos não foram implementados. Ao contrário, o problema reside na sua captura, descontinuidade ou abandono pelo poder público. 

A experiência do Plano Diretor Estratégico (PDE) de São Paulo aparece como um dos grandes fios condutores da coletânea. O autor escreve a partir de uma posição privilegiada e engajada: além de professor e pesquisador, Nabil Bonduki foi relator do PDE de 2014, na Câmara Municipal de São Paulo, o que confere aos seus textos a autoridade de quem vivenciou a formulação da norma por dentro das instâncias de negociação política. Ele mostra as possibilidades abertas pelo plano – adensamento ao longo dos eixos de transporte coletivo, proteção ambiental, produção habitacional social em áreas bem localizadas e combate à ociosidade imobiliária –, mas também acompanha as resistências e as tentativas de desfiguração durante sua implementação e revisões subsequentes. 

Essa discussão desconstrói a falsa oposição entre “planejamento” e “mercado”. A questão real colocada é: qual planejamento, para quem e a serviço de quais interesses? 

Aqui o livro toca numa questão decisiva do urbanismo contemporâneo. O mercado não está fora do planejamento, esperando apenas que o Estado retire seus obstáculos. Ele também disputa as regras, os índices, os investimentos e as localizações produzidas pelo planejamento. A própria norma urbanística pode, assim, converter-se em instrumento de valorização imobiliária. O problema não é simplesmente a presença do mercado na cidade – inevitável em uma sociedade capitalista –, mas a capacidade de subordinar a valorização privada aos interesses coletivos. 

Bonduki não se opõe ao adensamento urbano, tampouco defende uma cidade congelada em nome do preservacionismo. O que contesta é a transformação da verticalização em um fim em si mesmo – sobretudo quando atende prioritariamente à valorização imobiliária. A questão não é “verticalizar ou não verticalizar”, mas decidir onde, quanto, para quem e com quais contrapartidas urbanas. 

Essa distinção ganha urgência quando o discurso da “cidade compacta” passa a ser apropriado pelo mercado para legitimar uma verticalização generalizada. O livro lembra que compactação e verticalização não são sinônimos. Uma cidade compacta pode ser ambientalmente sustentável e inclusiva; uma verticalização desordenada, ao contrário, produz enclaves, destrói referências urbanas e aprofunda assimetrias. 

Mais do que discutir formas urbanas isoladamente, essa passagem recoloca a questão do modelo de urbanização. Densidade, altura e compactação não são valores em si: dependem das relações que estabelecem com infraestrutura, espaço público, mobilidade, habitação, paisagem e acesso à cidade. 

Quando o espaço público deixa de ser público 

A defesa do espaço público constitui outro eixo central da obra. Parques, praças, ruas e equipamentos culturais surgem como infraestruturas vitais da democracia urbana. 

A crítica às concessões e aos processos de desestatização implementados em São Paulo, a partir de 2017, não significa uma defesa automática da gestão estatal ineficiente. A provocação do autor foca no risco de entregar espaços públicos ao setor privado sem delimitar, de forma transparente, os direitos da população e os limites da exploração econômica. 

A privatização do espaço público não ocorre apenas por transferência formal de propriedade, mas também pelo controle dos usos, cercamento, cobrança, vigilância, arquitetura hostil e transformação de lugares de convivência em espaços voltados prioritariamente ao consumo. A cidade perde, assim, sua característica essencial: a possibilidade do encontro entre o diverso. 

Essa questão ultrapassa a oposição simplista entre público e privado. O que está em jogo é a diferença entre possuir um espaço e produzir urbanidade. Um espaço juridicamente público pode ser socialmente excludente; inversamente, determinados espaços submetidos a formas privadas de gestão podem desempenhar funções coletivas. A questão fundamental passa a ser quem pode usá-los, em que condições e segundo quais regras. 

O livro relaciona essa dinâmica à segurança urbana. Muros, condomínios fechados e a dependência do automóvel funcionam como falsos mecanismos de proteção. Ao retirarem as pessoas das ruas, contribuem para o esvaziamento do espaço público e para a produção de uma cidade ainda mais insegura. A tese é direta: a segurança não deve ser obtida contra a cidade, mas por meio da cidade viva. 

Cultura também é urbanismo 

Cultura e patrimônio deixam de ser temas acessórios e passam a integrar a própria política urbana. A defesa do Cine Belas Artes é emblemática: o conflito em torno de seu fechamento mobilizou o setor cultural e impulsionou a criação da Zepec-APC (Zona Especial de Preservação Cultural – Área de Proteção Cultural), instrumento destinado a proteger espaços de valor afetivo e social. 

O cinema de rua não é apenas um local de exibição, mas um equipamento gerador de centralidade, movimento e vida urbana. O mesmo raciocínio aplica-se a teatros, mercados e praças. Essa abordagem afasta-se do patrimonialismo tradicional que reduz a preservação à conservação estática de edifícios: preservar é manter vivas as relações sociais, as memórias e os usos do espaço. 

Aqui a contribuição do livro ultrapassa a defesa convencional do patrimônio. Ao aproximar cultura e urbanismo, Bonduki sugere que a memória urbana não está apenas inscrita nos objetos arquitetônicos, mas também nas práticas, nos percursos e nas formas de apropriação coletiva. O patrimônio deixa de ser um estoque de edifícios a conservar e passa a ser compreendido como parte da própria estrutura de vida urbana. 

A emergência climática desmente a velha cidade 

A crise climática atualiza a discussão do livro de forma incisiva. Enchentes, deslizamentos, ilhas de calor, impermeabilização do solo e precariedade habitacional são apresentados como manifestações de um mesmo modelo de urbanização. 

Os dados consolidados no livro mostram a gravidade do cenário: segundo balanços de órgãos de proteção civil, entre 2012 e 2025, o número de pessoas afetadas por desastres relacionados ao clima no Brasil saltou de 0,5 milhão para 13,4 milhões ao ano. 

A crise climática, portanto, não é um capítulo ambiental isolado. Ela exige a integração entre mobilidade, habitação, saneamento, áreas verdes e infraestrutura, reconhecendo que os impactos ambientais atingem desproporcionalmente as populações vulneráveis periféricas. A emergência climática revela-se, em última instância, uma emergência social. 

É talvez nesse ponto que a ideia de “corda bamba” adquire sua dimensão mais contemporânea. A cidade precisa simultaneamente adaptar-se às mudanças climáticas e enfrentar as desigualdades que fazem com que os riscos sejam distribuídos de maneira tão desigual. Não basta tornar a cidade mais resiliente: é preciso perguntar resiliente para quem e a que custo. 

A pandemia como revelação 

A pandemia de Covid-19 funciona na obra como um experimento involuntário sobre as fragilidades urbanas. Ela escancarou o papel central da habitação e as abissais disparidades de acesso a ela. Enquanto a classe média assimilava o trabalho remoto, milhões de trabalhadores permaneciam confinados em ambientes superlotados ou dependentes do transporte público de massa. 

O período colocou em xeque o modelo centrado em grandes distritos corporativos e afetou o comércio de rua. Contudo, a principal contribuição dessa seção é recusar a ideia de que a resposta às crises sanitárias deva ser o isolamento, a privatização do cotidiano ou o recuo da vida comunitária. Bonduki alerta para o risco de o medo fortalecer o uso do automóvel individual e esvaziar o espaço coletivo, provocando o desafio de desenhar cidades densas e seguras sem produzir confinamento ou segregação. 

A pandemia, nesse sentido, funciona como reveladora de estruturas que já estavam presentes. A crise sanitária não criou a desigualdade urbana; tornou-a visível. Mostrou que a qualidade da habitação, a proximidade dos serviços, o acesso ao transporte e a possibilidade de permanecer ou não no próprio bairro durante uma crise são também dimensões do direito à cidade. 

De São Paulo à política urbana nacional 

No capítulo final, o autor projeta a análise para a escala nacional, defendendo a reconstrução da capacidade pública de coordenação entre habitação, saneamento, mobilidade e meio ambiente. A reforma urbana não se consolida se limitada ao âmbito municipal, exigindo articulação federativa entre União, estados e municípios, especialmente nas regiões metropolitanas. 

É nesse deslocamento de escala que surge uma questão que o próprio livro ajuda a formular: até que ponto a experiência paulistana pode funcionar como laboratório para compreender a cidade brasileira? São Paulo concentra problemas e experiências que antecipam tendências nacionais, mas sua escala, sua estrutura econômica e sua capacidade institucional também são excepcionais. A força da experiência paulistana está menos em oferecer modelos diretamente replicáveis do que em revelar, em escala ampliada, conflitos que atravessam diferentes cidades brasileiras. 

A obra aponta a necessidade de o campo progressista formular uma agenda urbana propositiva, superando a postura exclusivamente reativa às políticas neoliberais. A crítica isolada não transforma o território; é preciso disputar projetos e apresentar alternativas viáveis. 

Essa talvez seja uma das provocações políticas mais importantes do livro. O urbanismo não pode limitar-se a denunciar a cidade produzida pelo mercado. Precisa também formular imagens, projetos e instrumentos capazes de disputar o futuro. Em outras palavras, a crítica precisa recuperar sua dimensão projetual. 

O valor político da crônica 

Sendo uma coletânea de textos produzidos no calor do momento, algumas pautas reaparecem e certos artigos carregam marcas da conjuntura em que foram redigidos. A organização temática mitiga essa sobreposição sem anular o caráter documental da obra. Lidos em perspectiva, os artigos permitem acompanhar as idas e vindas da política urbana recente, revelando como episódios aparentemente isolados integram disputas estruturais pelo solo urbano. 

Essa é também a força e o limite do livro. A crônica permite acompanhar a cidade em movimento, registrar conflitos antes que sejam estabilizados pela narrativa posterior e intervir no debate público. Mas sua natureza conjuntural pode fazer com que determinados acontecimentos apareçam com maior nitidez do que os processos lentos e estruturais que os produzem. 

Bonduki enfrenta essa limitação pela própria reunião dos textos. Ao serem retiradas de sua temporalidade imediata e colocadas lado a lado, as crônicas revelam recorrências. O que parecia episódio torna-se processo; o que parecia exceção revela estrutura. A cidade aparece, assim, não como uma obra acabada, mas como uma construção permanente, atravessada por disputas que se renovam. 

A cidade como direito ou como mercadoria? 

É justamente nessa perspectiva que o título do livro adquire maior alcance. A “corda bamba” não é apenas o equilíbrio entre posições opostas. É a própria condição de uma cidade submetida simultaneamente a duas lógicas. 

De um lado, a cidade como mercadoria: terra, localização, infraestrutura, paisagem, espaço público e até patrimônio convertidos em ativos capazes de produzir renda e valorização. De outro, a cidade como direito: espaço de moradia, encontro, memória, mobilidade, convivência e participação política. 

A tensão entre essas duas dimensões não pode ser resolvida apenas por uma escolha normativa. Ela atravessa concretamente as decisões sobre onde construir, onde preservar, onde investir, quem pode permanecer e quem será deslocado. É por isso que o urbanismo, para Bonduki, não pode reivindicar neutralidade. 

O mérito maior de Urbanismo na corda bamba está justamente em recolocar o urbanismo no terreno da política. Não como simples disputa partidária, mas como disputa sobre os modos de produzir e compartilhar o território. Decidir onde investir, o que preservar, como transportar e quem pode morar na cidade é definir, na prática, o modelo de sociedade em construção. 

A “corda bamba” do título expressa, portanto, menos uma situação de equilíbrio do que uma condição permanente de disputa. A cidade nunca está definitivamente ganha. Seus espaços, suas regras e seus projetos são continuamente renegociados entre interesses privados e necessidades coletivas. 

É nesse sentido que o livro permanece atual: não porque ofereça uma fórmula para resolver a crise das cidades, mas porque lembra que não existe solução urbana sem disputa sobre o futuro. Entre a cidade que se valoriza como mercadoria e a cidade que se realiza como direito, o urbanismo continua sendo um dos lugares privilegiados onde essa escolha se torna concreta. 

 

Adalberto da Silva Retto Jr., é arquiteto urbanista e engenheiro agrônomo. Atua como professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp). É doutor pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU USP) e pelo Departamento de História da Arquitetura e Urbanismo do Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza (IUAV), com pós-doutorado no Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza – Itália. Foi professor-pesquisador visitante na Universitè Panthéon Sorbonne -Paris I – França.  

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