A acolhida dos imigrantes
A afluência dos imigrantes na cidade de São Paulo, é um tema que vem se tornando cada vez mais importante. Isso já vem de longe, existe uma tradição antiga de migrações do Nordeste, de migrações do interior, em busca de emprego na cidade, de uma vida melhor, mas essa realidade mudou muito. O sonho acabou, a migração não.
O Padre Alfredo José Gonçalves, é uma pessoa profundamente comprometida e militante nessa área de promover a acolhida dos imigrantes em São Paulo, especialmente dos mais fragilizados. Ele é missionário scalabrinianoi, é assessor do Serviço Pastoral do Imigrante, ligado à CNBB, um militante dos Direitos Humanos.
Confira a entrevista:
Quero começar com uma pergunta básica: quem são hoje os imigrantes na cidade de São Paulo?
Basicamente, a cidade de São Paulo passou por um processo. No bairro da Liberdade, na Baixada do Glicério, fica a Casa do Migrante. Podemos dizer que ela teve uma grande importância nas últimas décadas. Acolheu, por exemplo, imigrantes do Cone Sul durante o período das ditaduras militares. Argentinos, paraguaios, uruguaios e chilenos passaram pela Casa do Migrante. Nessa época, muita gente passou por aqui.
Com o fim das ditaduras, ela começou a acolher especialmente migrantes internos, sobretudo vindos do Nordeste, do Paraná e de Minas Gerais. Depois, abriu-se aos vizinhos, que vinham por questões socioeconômicas, como bolivianos, paraguaios, equatorianos, peruanos etc.
Hoje, os vizinhos ainda estão presentes, principalmente os bolivianos, mas, aqui na casa, quem está passando em maior número são aqueles vindos de outros continentes. Os haitianos tiveram uma presença muito forte há alguns anos. Depois, vieram os venezuelanos e, hoje, neste momento, predominam os angolanos, congoleses e senegaleses. Também estão chegando muitos cubanos e pessoas de outros países da África, como Eritreia, Etiópia e Nigéria, além de alguns indianos, e assim por diante.
Padre Alfredo, temos números? Temos quantidades para saber a dimensão dessa migração?
Os números da imigração têm sempre uma certa ambiguidade, muitos imigrantes não têm documento, não aparecem, são invisíveis. Mas, nós temos.
Hoje, no Brasil, são cerca de 2 milhões de imigrantes e refugiados. E aqui é preciso uma palavra: o Brasil não tem muitos imigrantes, em termos relativos. Esse número não chega a 1% da população, enquanto no Chile, nós temos 7%, Argentina e outros países, temos 2%, 3%, 4% de imigrantes.
Nós temos 600 mil venezuelanos no Brasil hoje. Entre 80 mil e 140 mil bolivianos – é muito difícil calcular o número devido às pessoas que trabalham sem documentos, em oficinas têxteis etc. Quanto aos haitianos, os cálculos vão de 120 mil a 200 mil no Brasil. Angolanos, entre 15 mil e 17 mil. Cubanos, entre 100 mil e 150 mil. Portugueses, de 150 mil a 700 mil. Também aqui está presente a ambiguidade em relação aos filhos de portugueses naturalizados brasileiros etc. Há muita ambiguidade em tudo isso.
E quando os imigrantes chegam aqui, na cidade de São Paulo, o que acontece com eles?
Olha, normalmente, eles já vêm com informações. Entre eles há uma rede, quem veio antes, quem vem depois, então, eles já têm informações sobre a Casa do Migrante. Por exemplo, na capital do Paquistão, e na capital do Afeganistão, tem placas sobre a Casa, o endereço e telefone. A mesma coisa em Angola, em Moçambique, na Nigéria.
Aqui, eles passam por uma triagem, nós temos um serviço de assistência social, normalmente não repetimos a acolhida, quem já passou por aqui vai para segundo plano. Nós recebemos mais aqueles que estão entrando no país nesse momento. E aqui eles têm a possibilidade de ficar, nós falamos de um máximo de 3 meses, mas pode ser prolongado, depende da situação de cada família, de cada pessoa. Alguns encontram emprego, na verdade, são todos mais ou menos “bicos”, mas alguns encontram alguma coisa e logo deixam a casa. Outros permanecem por mais tempo. Aqui, temos alojamento, refeições e serviços aos migrantes. Também fazemos a intermediação com empresas e empregadores: realizamos entrevistas com empregadores e migrantes e promovemos espaços para que eles possam conversar entre si e participar de encontros.
Então, várias empresas vão na Casa, buscando pessoas para emprego doméstico, para outros trabalhos profissionais. Normalmente, a porta de entrada em São Paulo é a construção civil, os serviços públicos e empregos domésticos.

Temos notícias de que, se aproveitando de pessoas em situação de fragilidade, empregadores os contratam por salários irrisórios e os submetem à servidão pelas dívidas, às vezes. Há investigações do Ministério do Trabalho que encontram imigrantes quase em condição de trabalho escravo, aqui em São Paulo.
Isso acontece, em especial, com as comunidades bolivianas, em muitas indústrias têxteis, em muitos salões de costura, na verdade, trabalham menores, trabalha gente sem documentos legalizados, que são trazidos da Bolívia para cá. Isso ocorre, nós temos conhecimento disso. Em geral, nós preservamos os endereços desses imigrantes, por conta da segurança. Porque, se chega até a Polícia Federal, imediatamente são deportados.
Uma frase que ouvimos muito aqui é: “aqui está ruim, mas lá era pior”, a região de origem era pior. Então, o pessoal se submete às condições mais precárias de trabalho por conta das condições de origem, por conta da vulnerabilidade desses imigrantes.
É o mesmo para a colheita da uva, a colheita da maçã, a colheita do morango, a colheita do café. Muitos desses trabalhadores são internos, mas, muitos desses já são também estrangeiros, como haitianos, venezuelanos que já estão no sul do país trabalhando em safras agrícolas. Há muitos imigrantes trabalhando em safras agrícolas ou em frigoríficos, por exemplo. E aí, as condições são bastante precárias e os salários são bastante baixos.
Quando você fala: “a gente abriga na casa, na pastoral, esse pessoal para depois ir encaminhando”, isso tem um limite de volume de pessoas? Podem ser 80, podem ser 100, não sei quantas são, mas está longe da escala do que é necessário, não é?
Trabalhamos com 100 leitos, e esse número de pessoas passam aqui todos os dias. Mas existem outros centros que trabalham com imigrantes, existe o Arsenal da Migração, que é antiga hospedagem dos italianos na Mooca, no Belém. Muitos migrantes vão ali. Os jesuítas trabalham com os refugiados, a Cáritas também tem casas de acolhida, então, são várias entidades. No nosso caso, são 100 pessoas. Isso é uma gota diante do que seria necessário.
Vive muitos estrangeiros na cidade de São Paulo e muito “moram” em cortiços. Para poder garantir o aluguel, eles se juntam em 8, 10, 20, 15, em um quarto para conseguir pagar o aluguel. Uma kitnet de 22 metros quadrados, por exemplo, está custando R$1.300. Então, para conseguir pagar isso e enviar um dinheiro para sua família, eles são obrigados a se amontoar.
Então, eles enviam dinheiro para suas famílias em seus países de origem?
Quase todos. Os bolivianos, os haitianos, os venezuelanos, normalmente, eles bancam ou sustentam suas famílias de longe.
Com a perseguição aos imigrantes e o bloqueio do fluxo migratório, os EUA se isolam do mundo. As remessas que os imigrantes enviam para seus familiares se reduzem drasticamente. Com isso, a renda de muitos países da América Central, por exemplo, caiu, pois eles dependiam dos recursos enviados por seus familiares, gerados pelo trabalho nos Estados Unidos. Então, temos um conjunto de países que vai sofrer – e já está sofrendo – um grande baque, porque não recebe mais essas remessas. Como você vê isso?
É, você tem razão. É o caso do México, da Guatemala, de El Salvador, dos que estão nos Estados Unidos e que sustentam suas famílias. O Brasil ainda permite que se envie, mas nisso também tem uma certa exploração, seja dos bancos, seja dos próprios imigrantes que, às vezes, criam esses meios de enviar, mas sempre comendo uma certa fatia. Isso é próprio em todas as etnias de migrantes, os mais antigos se aproveitam daqueles que estão recém chegando. Isso é lastimável dizer, mas existem as redes, que, às vezes, são de ajuda, mas podem se tornar também, ao longo do tempo, de exploração e aproveitamento.
Vamos falar um pouquinho mais disso, quais são as políticas públicas que apoiam ou não apoiam essa imigração?
O grande problema é esse. O governo brasileiro – Federal, Estadual e Municipal – normalmente, oferece visto humanitário, por exemplo, para haitianos, venezuelanos, afegãos, foi oferecido a eles visto humanitário. Mas, quando chegam aqui, o governo, de certa forma, lava as mãos.
É o processo de interiorização que está ocorrendo em Roraima. Eu estive esses dias no estado, onde tem muitos venezuelanos, e o exército recebe e interioriza. Mas, depois que passa o proceso, ele manda para as casas de acolhida. E aí, normalmente são as entidades ligadas às igrejas, à Caritas, a uma série de organizações que acabam tomando conta de todos os custos de abrigo, alojamento e serviços em geral.
O Brasil, por um tempo foi um país de passagem. Muitos afegãos e haitianos vieram para cá com a ideia de fazer um visto humanitário aqui e depois tentar chegar nos EUA. Hoje, isso está mais difícil, porque as leis brasileiras também estão ficando mais rígidas.
O governo brasileiro está fazendo deportação de imigrantes?
Quando encontra trabalho escravo, sim. Quando encontra situações análogas à escravidão, ou situações degradantes, o governo deporta. É o caso dos bolivianos e haitianos que já foram mandados de volta. Há casos, nesse sentido. São exceções. Mais do que regra, são exceções. Não é uma política sistemática como nos Estados Unidos.
Existem algumas portas de entrada dessa migração. Você falou de Roraima, por exemplo. E aqui estamos falando do imigrante em São Paulo. Como se dá essa passagem de um imigrante chegando lá… Aliás, parece-me que o atendimento ao imigrante é mais importante nesse portão de entrada do que na cidade em que ele vai se assentar. Qual é a sua opinião sobre isso?
Os haitianos, normalmente, saíam do Haiti pela República Dominicana. Hoje, isso está proibido, mas, antes, a fronteira era bastante livre. Eles costumavam ir para o Panamá, passavam pela Colômbia e entravam por Tabatinga, no Amazonas. Pegavam o barco e iam parar em Manaus.
Nós, padres, temos uma paróquia em Manaus que recebeu 15 mil haitianos depois do terremoto no Haiti, em 2010. Todos eles, praticamente, vieram para São Paulo. Daqui de São Paulo foram para o sul, alguns permaneceram aqui, outros tentaram ir para o Chile, e depois para os Estados Unidos e, hoje, estão em Tijuana. Os venezuelanos também entram por Pacaraima, que é uma cidade fronteiriça entre Venezuela e Brasil. Em 10 anos, a cidade de Pacaraima passou de 8 mil para 30 mil habitantes. A grande maioria são venezuelanos que estão por aí, à espera de algum documento ou visto humanitário.
Normalmente, o exército interioriza os imigrantes, leva para São Paulo ou para o Rio Grande do Sul. São lugares que as pessoas ou pedem, ou o exército decide, e vão espalhando pelo Brasil. Mas aí, em Pacaraima e em Boa Vista, em Manaus, ainda permanecem milhares de bolivianos. Eu estive agora em um encontro em Boa Vista com 50 venezuelanos. Alguns já trabalham na Cáritas, outros na pastoral dos migrantes, muito ligados à igreja, muito ligados às organizações sociais, mas ainda com intenção de voltar para a Venezuela. E agora se espera uma nova leva de migrantes venezuelanos devido ao terremoto.
São muitos os imigrantes cubanos?
Os cubanos têm aumentado depois do blackout promovido pelos Estados Unidos, esse mais recente, depois do corte ao combustível e a outros bens. Tem aumentado muito também o número de bolivianos, mas o Brasil sempre teve uma entrada de cubanos bastante regular. Aumentou bastante nos últimos 3 meses. Eles costumam entrar muito pelo Acre, pelas Guianas, por Manaus, Tabatinga. Alguns bolivianos entram por Corumbá, Mato Grosso do Sul, e muitos vêm pelo Paraguai e pela Ponte da Amizade, pelas três fronteiras: Argentina, Brasil e Paraguai.
Padre Alfredo, eu estou entendendo que essas migrações são um último recurso de famílias que não encontram meios de sobreviver em seus locais de origem, alguma coisa assim. Mas nós temos também, por exemplo, os chineses, que vêm, inclusive, junto com as obras contratadas pelo governo brasileiro para serem implementadas em território nacional. Há uma distinção entre esses migrantes?
Essas migrações carregam uma certa ambiguidade. Você tem situações, às vezes, bastante precárias ou situações de guerra, no caso do Afeganistão, no caso do Sudão do Sul, no caso da Nigéria, conflitos internos que levam muitos migrantes a vir para cá. E a pobreza, a miséria, aquelas carências da Venezuela e do Haiti. Isso é um ponto, um contexto de rejeição.
Se para os governos é um problema, para os migrantes, muitas vezes, é um projeto de vida. Quer dizer, migra o pai, o filho mais velho para sustentar a família a partir de longe. Isso é muito comum, inclusive, em países da Europa. Nos tempos da guerra, por exemplo, eles migravam para os Estados Unidos, para a Austrália, e sustentavam a família a partir de longe.
Eu lembro disso porque eu sou português e meu pai também fez isso. Ele veio em 1969 para o Brasil, como um projeto de fugir da ditadura de Salazar. Os jovens, naquela época, iam para a guerra em Angola e Moçambique. Então, as famílias fugiam da guerra. Com 16 anos, nós não podíamos mais sair de Portugal. O exército tomava 2 anos de treinamento. A partir da Revolução dos Cravos, em 1975, é que isso mudou.
Mas, nesse contexto de carência ou de guerra, o próprio migrante tem o seu projeto, ele tem o projeto de migrar para sustentar a família a partir de longe. Alguns têm o projeto de migrar periodicamente, são os migrantes temporários para as safras agrícolas, retornando a cada 6, 7 meses, e manter a família de longe nesse vai e vem.
No contexto das migrações, existem também empreendedores que vêm para se instalar no Brasil. Isso é outro tipo de migração. Nós, aqui, trabalhamos mais com aqueles que vêm por necessidades básicas ou por refúgio. Mas, sabemos que tem muitos que vêm da China, da Coréia, e de outros países, no sentido de se instalar aqui, como alguns brasileiros agora estão indo para o Paraguai, dizendo que lá tem aquilo que no Brasil não tem. Então, isso realmente acontece. O nosso trabalho aqui é mais com os refugiados, migrantes socioeconômicos, digamos assim.
E as políticas públicas com relação aos imigrantes, o que é que tem?
Pouca coisa. Muito pouca coisa. O governo de São Paulo até fez uma lei com uns certos benefícios para receber imigrantes, para acolher, mas passando da lei, nós vemos muito pouca ação social de efetivação de empregos para essas pessoas.
Nós, aqui, junto com a Pastoral dos Migrantes, com a CNBB, fomos ao Ministério da Justiça e, lá, nós insistimos em duas coisas: que fossem traduzidos, imediatamente, quando o migrante chega, os diplomas de quem é advogado, enfermeira, médico, engenheiro, biólogo. Pedimos que houvesse uma tradução imediata, e que isso fosse reconhecido pelo Ministério do Trabalho. Mas, até agora, não existe.
Tem muita gente formada trabalhando de vendedor ambulante, de pedreiro, de servente de pedreiro, com costura. Gente que tem uma formação acadêmica. E isso vale para o Haiti, para o Afeganistão, para a Venezuela, vale para todos os países. Então, na verdade, a lei é muito bonita, a lei de São Paulo também é muito interessante, mas não chega no concreto, no sentido de traduzir isso imediatamente, reconhecer o diploma.
Quando o imigrante vai fazer uma entrevista com os órgãos do governo, a entrevista, normalmente, é por escrito. Ora, tem muito imigrante que se expressa muito bem oralmente, mas, para escrever, tem muita dificuldade. A gente pedia também que a entrevista fosse feita oralmente.
Houve um certo recuo do governo brasileiro a partir da entrada de Trump. Nós achamos que houve interferência do governo estadunidense na emissão de vistos humanitários para aqueles que passavam pelo Brasil com os olhos voltados para os Estados Unidos, como os afegãos, os haitianos e os indianos. Quando Trump entrou, cortou tudo isso. Então, a lei brasileira também recuou nesse sentido.
Entendi. Agora, me dá a impressão de que são muito mais homens do que mulheres. E as crianças?
Com a migração afegã, haitiana e venezuelana, nós vemos, hoje, muitas mulheres empreendendo o projeto de migração, mulheres com as crianças. E por um motivo muito simples: no Afeganistão, os homens não podiam vir, os homens tinham que ir para a guerra; no caso do Haiti, os homens já tinham vindo. O Haiti está em um processo agora de reunir a família. Então, muitos estão chamando a mulher e os filhos. Então, tem muitas mulheres migrando hoje em dia. Tem muitas também da Ucrânia que passaram por aqui. Muitas angolanas vêm para o Brasil por causa do sistema de saúde. Algumas vêm grávidas para ter o pré-natal e dar à luz aqui, porque tem o SUS e tudo é de graça. Enquanto lá, elas têm que pagar tudo. Depois, acabam ficando por aqui, e encontram alguma coisa por aqui, até pela facilidade da língua. Nós temos visto uma feminilização das migrações bastante intensa. Ainda predominam os homens, mas as mulheres estão se fazendo muito presentes na migração.
E eles conseguem se estabelecer, colocar os filhos na escola, ter um reconhecimento, ou existe algum tipo de discriminação?
Existe discriminação, sim, mas há a lei, que diz que aquele que tem visto humanitário ou visto de trabalho aqui tem todos os direitos de um brasileiro, seja na escola, seja na saúde, seja na creche, onde quer que seja. Mas muitos alunos sofrem bullying. Isso a gente fica sabendo. Isso temos notícia, de preconceito, discriminação. E, às vezes, a gente tem que ir atrás disso.
Eles têm acesso aos exames médicos e saúde?
Eles têm acesso por lei. Mas, chegando lá, às vezes, precisam brigar muito. Esse é o problema. Tem muito isso: “olha, nós já temos muito brasileiro aqui, não precisava vir ninguém de fora para acumular.” É o caso de Pacaraima, o sistema de saúde está completamente colapsado. Aí, os brasileiros colocam a culpa nos venezuelanos. E assim por diante. Então, isso existe. Em lugares como Mooca, Brás, aqui no Glicério, onde o número de estrangeiros é grande. Então, nos postos de saúde, nos hospitais, algumas vezes, eles têm problema para garantir o seu direito.
O que fazemos, enquanto Missão Paz, SPM, é acompanhá-los nessas horas. Quando tem uma entidade por trás, o tratamento é diferente. A mesma coisa na Polícia Federal, quando eles vão fazer o documento, muitas vezes, são recebidos com grosseria, é muito difícil. Normalmente, temos contato com a Polícia Federal, asseguramos algumas vagas mensais para os imigrantes que passam por aqui, geralmente vai uma pessoa daqui junto com 20, 30, 40 migrantes fazer a documentação. Assim, fica muito mais fácil, é muito mais garantido o atendimento humano, justo.
Existe uma concentração na cidade de imigrantes em bairros específicos?
Sim. Normalmente, eles se localizam em bairros específicos. Os bairros da Mooca e do Brás, que já foram dos italianos, hoje é dos bolivianos. A mesma coisa em Osasco, em Guarulhos, em municípios vizinhos. Na Liberdade, na baixa Liberdade, no Glicério, há uma concentração muito grande de haitianos. Os venezuelanos também têm os seus lugares, seus bairros de concentração. A mesma coisa os coreanos, os japoneses.
Quem se mistura muito com a população e está por toda a cidade são os portugueses. Talvez por causa da língua, o que acaba facilitando para entrar em qualquer lugar. Eles se reúnem em bairros um pouco pela sua proteção, um pouco para suas manifestações culturais, religiosas. Então, nesses bairros, eles têm seus salões, eles têm seu comércio.
Na frente da igreja onde estou agora, tem uma feira de coisas do Haiti. Todo dia estão lá as mulheres com banana, banana da terra, inhame, com outros produtos do Haiti, e tem sempre gente comprando ali. Inclusive, brasileiros, famílias de brasileiros começam a introduzir em sua culinária esses produtos do Haiti, da Venezuela, da Bolívia, do Chile, do Peru, do Paraguai, e assim por diante.
Você falando, eu me lembro da feira dos japoneses na Liberdade, que tem toda a cultura deles expressa. Isso é importante para as identidades.
Isso vale também para as questões de língua, de expressões culturais. Por exemplo, aqui na igreja onde estamos, nós temos missa em espanhol, inglês para um grupo de filipinos que vem aqui. Temos missa em francês, em italiano e em português. E nesses momentos, eles têm suas danças, suas vestimentas, eles têm suas expressões culturais. Tem momentos muito ricos aqui a respeito disso.
E tem as festas da bandeira, as festas pátrias. Normalmente, eles fazem em clubes, em locais onde eles possam se reunir. É essa concentração em alguns bairros que permite a coesão, que permite que eles se autodefendam, e que permite, inclusive, que em alguns lugares eles sejam a maioria nas próprias salas de aula. Em algumas escolas, tem algumas salas de aula, no Brás em que a maioria é boliviana, por exemplo.
E aí, bom, é em português a aula, certo?
A aula é em português. É porque as crianças aprendem rápido, muito rápido. E por falar em língua, aqui na Missão, além da intermediação entre empreendedor e trabalhador, temos um serviço de saúde, um eixo de saúde onde acompanhamos, inclusive, saúde mental.
Muitos migrantes sofrem de saúde mental. Muitos chegam aqui transtornados e tem que ter um socorro imediato. Toda quarta-feira vem quatro profissionais da USP e da PUC que nos ajudam.
Nós temos o serviço de documentação, que é aberto não só para quem se hospeda, mas também para quem mora nas imediações. Aí vem bolivianos, vem haitianos, vem afegãos, para facilitar a documentação na Polícia Federal.
Ao todo, são mais de 30 voluntários que dão aulas de português. Em geral, professores e professoras aposentados. Então, as aulas de português são muito frequentadas, especialmente por haitianos, por vizinhos nossos aqui, mas também para afegãos. A língua é muito importante para eles conseguirem inserção no mercado de trabalho.
Padre Alfredo, e esse pessoal imigrante, eles se colocam ou ficam sobrando como uma população que não tem encaixe, vamos dizer assim, na vida cotidiana, no mundo do trabalho, na vida comunitária? Eles se isolam ou eles se integram? A sociedade brasileira acolhe?
As duas coisas se dão. Há lugares onde eles imediatamente se integram bem. Muitos estão nos serviços domésticos, nos serviços em geral, restaurantes, hotéis, como servidores de menor qualidade. Quando é obra braçal, em geral, eles entram.
A porta de entrada dos imigrantes costuma ser na construção civil, serviços e empregos domésticos. Em termos de serviços, até que eles encontram. Agora, os salários são baixos. As empresas, os empregadores, normalmente, se aproveitam da situação em que eles estão. Isso é inegável. E, em alguns lugares, eles sofrem por serem imigrantes, e têm menos facilidade de inserção. É aí que conta a rede familiar que eles têm. Normalmente, haitianos, venezuelanos, bolivianos têm redes muito fortes. Clubes ou associações. A partir daí, eles organizam suas defesas, seus apoios a familiares. Agora, essas redes são de suporte, de sustento, de reinserção, mas, às vezes, podem ser de infantilização também. Às vezes, infantilizam um migrante, que nunca se torna um adulto na cidade de São Paulo, sempre está dependente de algum padrinho, de algum parente.
Tem algumas etnias que tem suas redes, seus lugares de frequência. Outras têm mais dificuldade de inserção e necessitam mais das casas de acolhida.
A questão do migrante aqui no Brasil, ela é importante, mas ela não é, assim, muito expressiva, se comparado com outros países. Mas me chamou atenção você dizer que o Brasil pode ser também um lugar para adquirir esse visto, um caminho para chegar aos Estados Unidos. Esse caminho está bloqueado hoje. Então, para onde vão?
Esse caminho está bloqueado. Nós temos haitianos que passaram por aqui, daqui foram para o Chile, Santiago, e depois empreenderam a caminhada para chegar nos Estados Unidos, passando pelo Panamá e pelo estreito de Darién, para depois tomar as caravanas de centro América para os EUA. Muitos deles foram barrados em Tijuana, no Mexico, e estão aí. Na verdade, na fronteira do México com os Estados Unidos, nós temos 5 casas de imigrantes. Em todas elas, tem imigrantes barrados.
Hoje, só passa quem tem a documentação perfeitamente em dia e, ainda assim, tem uma peneira muito fina, muito difícil. Só entram pessoas muito qualificadas, ou com uma qualificação.
Apesar do fechamento das fronteiras, a porta dos fundos permanece aberta. Por quê? Porque os Estados Unidos e os países europeus têm necessidade da mão de obra braçal para as colheitas agrícolas, para a construção civil, para os restaurantes, para os cafés. Eles deixam aberta a porta dos fundos, mas deixam fechada a porta da frente. O que significa isso? Eles querem trabalhadores, mas não querem cidadãos. Então, abrem a porta dos fundos, mas não dão documentação. Depois, vão buscar os indocumentados, usam deles para algum tipo de serviço, repescam e deportam. Quando o Trump fechou completamente a fronteira, os primeiros a reclamar foram os empresários, que estavam lhes tirando os trabalhadores que são mais fáceis deles terem junto com eles.
E aí é uma hipocrisia do mundo, de todos os países, deixar a porta dos fundos aberta, mas trancar a porta da frente, a porta da cidadania, da documentação, ela permanece fechada.
Quando você fala assim do tratamento dos imigrantes, eu fico pensando se um governo que é um supremacista branco não reafirma o racismo nesse tratamento dos imigrantes. Os ucranianos são tratados de uma maneira diferente, não é?
Ah, isso, com certeza! Hoje, uma das primeiras condições para entrar nos Estados Unidos é ser branco. Era muito mais fácil para os afegãos arrumarem documentação do que os haitianos, por exemplo.
Quero terminar dizendo que o imigrante, às vezes é um problema para o governo, às vezes é entendido como uma ameaça para a opinião pública e para a população, e nós queremos dizer que não é nem um problema, nem uma ameaça, e nem somente vítima. Normalmente, ele é um sujeito e um protagonista. Nós temos aqui muitos casos de imigrantes que trouxeram, que vieram enriquecer a nossa cultura, e que tem muita coisa para enriquecer.
Percebemos a riqueza que podemos ter, abrindo a esses povos diferentes que batem às nossas portas.
Silvio Caccia Bava é Sociólogo e diretor do Le Monde Diplomatique Brasil é também o âncora desse programa semanal de entrevistas nas TVs: TVT, TV Kirimurê (Salvador), canais universitários de São Paulo e Florianópolis.
i. Os scalabrinianos (ou Congregação dos Missionários de São Carlos) são uma congregação religiosa católica dedicada ao acolhimento, proteção e integração de migrantes e refugiados (IA).

