BOLSONARISMO

O futuro vos libertará

Os atos do Sete de Setembro se tornaram momentos privilegiados da mobilização social do campo reacionário

I

Em 2021, Jair Bolsonaro, então presidente, confrontou Alexandre de Moraes e xingou-o de “canalha”. Os comícios eleitorais de 2022 e 2024, tiveram suas particularidades. Quatro anos atrás, o eleitoralismo das direitas foi hegemônico, mas corriam por fora o monarquismo e o intervencionismo militar, duas formas distintas de conceber uma mudança de regime político no longo ou no curto prazo, respectivamente. Já nas eleições municipais, Pablo Marçal demonstrou como era possível um outsider hackear de forma subterrânea o showmício oficial, mesmo sendo barrado de subir no carro de som.

Já em 2023, não houve ocupação das ruas: um tempo já longínquo em que o “8 de Janeiro” ainda tinha reverberações negativas para todos os envolvidos no epílogo de uma campanha golpista – o tempo passou e a memória da depredação profanadora dos símbolos de poder se revelou frágil, com a responsabilização dos golpistas estando por um triz de ser revertido, dependendo de quem ganhar a presidência agora em outubro.

Por fim, em 2025, o dia da independência foi espetacularmente invertido por um clamor de dependência, graças ao bandeirão ianque que os bolsonaristas estenderam na Paulista. Outros significados relevantes se conectavam com a indefinição, à época, da chapa presidencial que representaria o bolsonarismo, com a figura tecnocrática de Tarcísio de Freitas ainda em evidência, e o enorme carisma de Michelle Bolsonaro, à espreita.

Nos meses seguintes, o pai consagrou o filho: Jair indicou Flávio como seu herdeiro oficial, com a esperança de, no mínimo, manter a hegemonia do clã sobre as direitas brasileiras, mesmo que perdessem a eleição e, no máximo, ao ganhar, ser uma via de anistia e libertação para si (e, secundariamente, para os presos do 8 de Janeiro). A candidatura de Flávio Bolsonaro, ao se consolidar, foi confrontada pela proliferação de candidatos que buscam de diferentes maneiras disputar e construir um bolsonarismo sem (a família) Bolsonaro: Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (NOVO) e Renan Santos (MISSÃO). O liberalismo econômico brasileiro se degradou em reacionarismo.

Esse cenário só se torna compreensível em sua densidade histórica quando comparamos as candidaturas presidenciais de 2026 com as de 2022. Quatro anos atrás, no 1º turno, além de Lula retornando à cena eleitoral depois de dois governos, popularidade recorde, perseguição, prisão e redenção, tínhamos uma proliferação de candidaturas bem mais centristas (desconsiderando aqui o NOVO já bolsonarizado e a tragicômica figura de Padre Kelmon, duas linhas auxiliares de Jair, mas bem mais precárias do que hoje). De um lado, o então trabalhista Ciro Gomes (PDT) e, de outro, a social-liberal Simone Tebet (MDB). O segundo turno de 2022, selou o futuro divergente de ambos: Tebet foi integrada à frente ampla democrática que abrigou inclusive os economistas do Plano Real, se tornou ministra do governo eleito e agora é candidata ao Senado pelo PSB de Alckmin; e Ciro se apequenou, mantendo-se neutro, depois rompendo politicamente com seu irmão e praticamente se bolsonarizando como candidato ao governo estadual do Ceará, pelo PSDB de Aécio e Tasso.

Se formos voltar a eleições anteriores, podemos constatar a existência de relevantes espaços políticos tanto à esquerda quanto ao centro com relação ao PT (desconsiderando o finado papel do PSDB como polo de centro-direita que também organizou as eleições brasileiras entre 1994 e 2014): Heloísa Helena (PSOL) e Cristovam Buarque (PDT) em 2006; Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) e Marina Silva (PV) em 2010; Luciana Genro (PSOL) e novamente Marina Silva (PSB) em 2014; Guilherme Boulos (PSOL) e Ciro Gomes (PDT) em 2018. Quando confrontamos o cenário eleitoral de 2026 com esta série histórica, tal espaço político ampliado simplesmente desapareceu. Diante do crescimento digital e eleitoral e o enraizamento societal da extrema direita, o PT e o campo democrático-popular se tornaram um centro gravitacional que convidou, incentivou, forçou e negociou que diversas forças sociais e políticas se tornassem seus satélites: de um lado, o papel das tendências menos esquerdistas do PSOL em torno de Guilherme Boulos; de outro, as ex-presidenciáveis Tebet e Marina, tornadas ministras e dupla que agora disputa o Senado por PSB e REDE. Em termos ideológicos, Lula 3 se tornou uma frente amplíssima, que vai do neoliberalismo (mais ou menos progressista) até a Bancada da Esquerda Radical.

Mas tal amplitude político-ideológica não se traduz em maioria segura em termos diretamente eleitorais. Muito pelo contrário: é como se o ecossistema da extrema direita tivesse se desenvolvido e se legitimado a um tal ponto que a profusão de lideranças políticas espalhadas por vários partidos permitiu que a unidade no 1º turno não precisasse ser construída. Já em termos ideológicos, Flávio, Zema, Caiado e Renan não se distinguem muito: todos têm como ídolo o autoritarismo reacionário do presidente salvadorenho Nayib Bukele, se sentem confortáveis no papel de subgovernadores de uma província estadunidense (a bomba atômica defendida por Renan parece surpreendentemente distingui-lo, mas sempre com consequências violentas) e ao menos nos três primeiros casos prometem para 1º de janeiro uma anistia para os golpistas de 2022-2023 – sob o manto da “pacificação” e também do revisionismo histórico: querem destruir a memória que nos permitiria, pela primeira vez, responsabilizar quem atenta contra a nossa democracia e naturaliza o secular “poder moderador” das Forças Armadas.

Junto com esta pulverização de candidaturas de extrema direita, o histórico recente das ruas também alimentava a possibilidade de um cenário de fragmentação no Sete de Setembro. A partir de 2023, no momento em que o pastor Silas Malafaia tomou a frente e passou a organizar showmícios cada vez mais profissionalizados e ofereceu ao clã Bolsonaro os principais palcos de sua campanha por anistia, uma dinâmica inédita tomou conta dos atos de rua da extrema direita. Se lá por 2014 até 2019, os protestos das direitas eram estruturados por múltiplos carros de som (MBL, Vem Pra Rua, Revoltados On Line, NasRuas, etc.), disputando a atenção da base social, com Malafaia foi instaurado um carro de som unificado. Conforme o pastor adiantou nas semanas anteriores que ele não seria o organizador do Sete de Setembro de 2026, passei a formular a hipótese de que isto poderia significar o retorno da pluralidade em termos de carros de som, lideranças políticas, movimentos sociais (liberais, conservadores e reacionários), além de candidaturas presidenciais. Tirando o ato bolsonarista em Copacabana, que conviveu com uma caminhada paralela em prol de Augusto Cury, a Avenida Paulista não confirmou esta minha expectativa centrífuga.

Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

II

A manifestação bolsonarista reuniu 28 mil pessoas, o que poderia ser lido seja como declínio, seja como fracasso. De fato, os atos do Dia da Independência nos anos anteriores haviam mobilizado entre 45 e 42 mil manifestantes (em 2024 e 2025, respectivamente). Por outro lado, o número mais baixo que a série histórica do Monitor do Debate Político no Meio Digital do Cebrap registrou para a extrema direita foi 12 mil, em 29 de junho de 2025, sob o impacto negativo do tarifaço de Trump. Deste modo, quase 30 mil pessoas terem saído de suas casas sob baixíssima temperatura e risco de chuva não foi pouca coisa (e praticamente o dobro do que um dos maiores protestos convocados pela esquerda, em 10 de julho de 2025, também no contexto de reação à interferência trumpista). Além disso, a etnografia de protestos ensina que os elementos quantitativos precisam sempre ser analisados de forma articulada com os elementos qualitativos, o que se relaciona com a circulação de discursos, símbolos e emoções que constroem a dinâmica interativa entre lideranças e base. Quero chamar a atenção a seguir que o fato político mais relevante do que o relativo declínio numérico foi a convergência centrípeta dos agentes sociais e políticos em torno de Flávio Bolsonaro.

Dependendo se o ano é eleitoral ou não, a dinâmica do ato de Sete de Setembro se transforma. Se não há eleições, é temática é mais livre: em 2021, o intervencionismo militar ganhando visibilidade pública inédita no pós-redemocratização; já em 2025, diante da decepção com as Forças Armadas (“melancias”, “verdes por fora, vermelhas por dentro”), foi esboçado o deslizamento da intervenção militar em direção à intervenção estrangeira. Sendo setembro sempre no meio de campanhas eleitorais, os atos de 2022, 2024 e 2026 se reconfiguraram como comícios eleitorais sui generis. O elemento mais visível desta dinâmica são os bandeirões, camisetas, adesivos e, claro, os santinhos com números de candidatos (ao executivo e, principalmente, ao legislativo).

Esta articulação entre eleições e protestos – o institucional e o extra-institucional – não é exclusividade da (extrema) direita, as esquerdas também funcionam da mesma forma: partidos e candidatos enxergam a manifestação de rua como uma oportunidade preciosa de disputar não apenas a atenção, mas a fidelidade político-eleitoral de pessoas com alta capacidade de mobilização social e engajamento digital. No caso da esquerda, pude observar atos assim em 2022 e 2024; este ano ainda não vi nada similar na cidade de São Paulo, o que parece indicar a baixa eletrização de sua base.

Fui registrando em meu caderno de campo os partidos presentes no ato bolsonarista. O PL obviamente surgiu com grande destaque. Mas diversos partidos de direita que não estão oficialmente na coligação de Flávio Bolsonaro abraçaram o protesto como campanha eleitoral: partidos que participaram da base congressual de Jair Bolsonaro (Republicanos, Progressistas), partidos nanicos (Podemos, Solidariedade) e partidos que foram em algum momento da base de Lula 3 (MDB, União Brasil). Por fim, nas margens do ato, compareceram até partidos que têm outros candidatos presidenciais (o NOVO de Zema e o PSD de Caiado). Curiosamente, não observei materiais ou candidatos do AVANTE de Augusto Cury nem do MISSÃO de Renan Santos – no caso deste último, a curiosidade também é histórica, considerando que o MBL, gênese social deste partido político, construía e disputava os protestos das direitas desde o seu surgimento, em 2014.

Junto com as pessoas contratadas para segurar bandeirões e distribuir santinhos, convive uma outra forma partidária. Longe deste formato clássico de partidos analógicos que terceirizam a propagação de materiais publicitários físicos, emergiu nos últimos anos o que Marcos Nobre e sua equipe de pesquisa no CCI/Cebrap chamaram de  , que conta com o engajamento de influenciadores, responsáveis por mediar a experiência offline das ruas com a reverberação online nas redes sociais. A criação de conteúdo é descentralizada e consumida como “autêntica”, bastando estar com seu celular ligado para que múltiplas pessoas no chão do ato produzam imagens e narrativas que receberão views, likes e shares. Várias delas passaram por mim, em especial homens. Enquanto um dizia para sua câmera “o sistema soltou o Lula para roubar, esta é que é a verdade”, um outro só repetia freneticamente “vamo que vamo que vamo”. De um lado, o recorrente discurso antissistêmico; de outro, a confiança no movimento ascendente de seu próprio campo político.

Um momento privilegiado da interação entre carro de som e chão do ato é acompanhar as emoções despertadas e cultivadas pelas pessoas em torno dos discursos eletrificados. É possível inclusive falar em uma espécie de hierarquia emocional. Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, costuma ser um dos que menos desperta animação nos manifestantes. Sintoma de que o Partido Digital Bolsonarista depende formal e oficialmente do hackeamento de um partido analógico, mas seu modo de funcionamento é radicalmente distinto, transbordando o PL. Valdemar, que já foi um apoiador de Lula nos idos dos anos 2000, até tentou estimular os presentes, como quando formulou que “Flávio é o melhor para botar ordem neste país”, além de profetizar que “O Jair vai ficar preso mais 10 anos se o Flávio não for eleito. Volta Bolsonaro!”. Nem sequer recorrendo à libertação do ex-presidente a reação das pessoas deixou de ser fraca ou apática. Outro que não costuma engajar a atenção da base é Malafaia. Autorremovido de seu papel de centralidade como organizador do showmício, a reação das pessoas ao seu discurso, mais curto do que de costume, foi morna.

Em repetidas observações de protestos, percebo que Tarcísio é inicialmente muito bem recebido quando apresentado pelo mestre de cerimônias; desta vez contando inclusive com palmas e uivos. Contudo, no exato momento em que ele abre a boca, algo invariavelmente se perde e a atenção dos manifestantes se dispersa. Em outros momentos, o governador paulista erra a mão ao detalhar conceitos como “economia do conhecimento” ou apostar em um discurso excessivamente tecnocrático, voltado para detalhes de políticas públicas. Desta vez, ele até buscou inovar. Em vez de burocratizar sua fala, foi por um caminho historiográfico, tentando criar paralelos históricos e políticos entre 1822 e 2026. Se a independência do país foi uma luta contra os poderes absolutos de Portugal, estaríamos hoje vivendo o desafio e a oportunidade de mais uma vez reescrever a história do Brasil e “declarar independência da corrupção, da desfaçatez, do PT, de Lula e dessa corja”. As menções a Flávio foram tímidas ou inexistentes, mas obviamente tal segunda independência passaria por sua eleição como presidente.

Os contrastes entre Tarcísio e Nikolas – antepenúltimo e penúltimo a discursarem – são vários.

Por um lado, o carisma incomparável do jovem deputado federal por Minas Gerais. Embora algumas pessoas tenham se movido para mais perto do carro de som quando Tarcísio começou a falar, os manifestantes sempre ficam eletrizados do começo ao fim enquanto Nikolas discursa. A quantidade de celulares erguidos para o alto para registrá-lo em vídeo só perde para as vezes em que Michelle surge como protagonista. Aliás, seu não comparecimento surpreendeu. Nos dias anteriores, reportagens haviam antecipado que ela comporia o ato na Paulista. Acabou argumentando que precisava ficar em casa cuidando do marido. Não ficou claro para mim o significado político de sua ausência: as negociações não atenderam suas demandas ou Flávio está tão seguro da vitória que seu apoio deixou de ser indispensável como na época do desastroso quase rompimento entre madrasta e enteado?

Por outro lado, as menções a Flávio foram explícitas em seu discurso, ao contrário de Tarcísio. Aqui não se trata apenas do fato de que Nikolas está no topo da cadeia alimentar da economia da atenção ou da hierarquia emocional dos oradores no carro de som. É importante contrastar com sua postura – juvenil e rebelde – no   e sua atual pré-disposição em ser enquadrado como mais um leal subordinado a serviço da candidatura de Flávio. No 1º semestre, Nikolas foi responsável por dissolver a melancolia dos atos de rua esvaziados em novembro e dezembro de 2025, diante da prisão da maior liderança da extrema direita. Não se verificou a esperada resistência ao sistema que supostamente perseguia Jair. Mas em janeiro de 2026, Nikolas convocou uma caminhada (vista como épica para quem estava dentro e ridícula para quem estava fora) que saiu do interior de Minas Gerais e desaguou em um protesto em Brasília, que ficou marcado por uma chuva torrencial e raios que atingiram manifestantes – algo lido como irresponsável pelo campo progressista, mas confirmando o tom heroico da campanha em torno de si.

O ato da Paulista em março deste ano era, portanto, a culminação deste ensaio de protagonismo e independência política na capacidade de convocar e organizar um ato de rua, fora da esfera de influência do consórcio Malafaia e família Bolsonaro. Neste contexto muito específico, Nikolas se sentiu à vontade para não apenas ser o penúltimo a discursar, mas também para usurpar o microfone de Flávio, que teoricamente era o último orador, fazendo questão de adiar o encerramento imediato da manifestação e, em seguida, de mencionar Michelle – até então ignorada pelas outras lideranças, inclusive o enteado – e, por fim, puxou um Pai Nosso, criando um epílogo mais teológico e moral do que propriamente político-eleitoral, como era do interesse de Flávio.

De lá para cá, a candidatura de 01 deixou de ser questionada ou ameaçada por potenciais alternativas (como Tarcísio, Michelle ou o próprio Caiado, que também estava no ato de março, prometendo anistia, aliás) e efetivamente se viabilizou. Mesmo que as lideranças políticas e a base social estejam “tampando o nariz” e fazendo um “voto útil” em Flávio, o fato é que ele se tornou incontornável, além de um candidato com perspectivas reais de poder (as pesquisas eleitorais passaram a dar empate técnico com Lula no 2º turno), o que reorganiza as disputas em torno do futuro do bolsonarismo em 2030 (quando Tarcísio sairá do Palácio dos Bandeirantes) e 2034 (quando Nikolas poderá finalmente ser elegível de acordo com a Constituição; hoje ele é jovem demais).

A evidência de que, até no chão do ato, os bolsonaristas não morrem de amor por Flávio é uma conversa informal entre três amigas que eu pude escutar e registrar. Em algum momento entre os discursos de Tarcísio e Nikolas, uma dela diz para as outras, bastante convicta: “eu prefiro o Eduardo mil vezes do que o Flávio!”. O que não a impedirá de apertar 22 na urna eletrônica. Sem contar a enorme maioria dos eleitores que apostarão no 1º turno nas demais candidaturas do “bolsonarismo sem Bolsonaro”: todas elas vão convergir e se explicitar como de extrema direita no provável 2º turno.

III

Nikolas costuma terminar seus discursos eletrificados no carro de som com o seguinte bordão: “O presente é deles, mas o futuro é nosso”. Um dos princípios da teologia judaico-cristã é aqui mobilizado: se a extrema direita se percebe, hoje, “oprimida”, ela promete para seus fiéis redenção em um amanhã crível e palpável, permitindo alimentar as esperanças em um horizonte melhor, mesmo diante de um cenário difícil, que teve tudo para incentivar e justificar o pessimismo e o niilismo no pós-8 de Janeiro e na imediata eclosão do escândalo que revelou as conexões do filme Dark Horse com o Banco Master.

Além disso, um dos principais jingles de Flávio 2026, tocado ao final do ato, se chama “Com o pé direito, o Brasil tem futuro”. Por estes motivos, me interessei em mapear e reconstruir as imagens de futuro que circularam no Dia da Independência, entre lideranças e base do campo reacionário. Quais são os desejos políticos que estão sendo prognosticados na eventual vitória de Flávio Bolsonaro e quais imaginários sociais são por ela encarnados?

O day after da posse de Flávio seria marcado pela libertação de seu pai e pela culminação da longa campanha por anistia política dos presos do 8 de Janeiro, que foi esboçada em 2023, adensada em 2024, mas frustrada em 2025, no que parecia ser uma inédita responsabilização do secular golpismo militar e civil brasileiro.

Em seguida, o foco passaria a ser a reconfiguração do STF. Embora o antipetismo continue constitutivo da extrema direita, Lula passou a ser superado por Alexandre de Moraes como o grande antagonista político do campo reacionário. Graças ao escândalo do Banco Master, o impeachment de Moraes deixou de ser algo inconcebível e restrito a franjas radicalizadas e passou a habitar o centro do debate público. Sua legitimidade foi erodida tanto no âmbito do campo progressista, como aquele que havia sido sagrado como “salvador da democracia”, quanto no âmbito da grande mídia (Folha, Estadão, O Globo), que pediu sua cabeça em editoriais publicados apenas 24h depois da revelação da troca de mensagens com Daniel Vorcaro. E a legitimidade do próprio STF diante da opinião pública está ameaçada caso se opte pela tentativa de um grande acordo. A questão é que estamos longe de uma conjuntura política que permita uma justa discussão sobre reforma política e reforma do Judiciário que levaria a sociedade a debater e deliberar como os três poderes poderiam reorganizar suas relações e regular seu envolvimento ilegal e corrupto com o poder financeiro das diferentes frações das classes dominantes.

Uma coisa é certa: de tudo que vimos e aprendemos com o Governo Jair Bolsonaro, todos os democratas deste Brasil deveriam saber que as melhores condições hoje para uma reorganização democrática do STF (transparência nas investigações doa a quem doer, Polícia Federal independente, imprensa livre) se dariam sob um Governo Lula 4. Um eventual Governo Flávio vai se inspirar nas autocracias de Orban, Erdogan e Trump: o manual da extrema direita prevê para o segundo mandato a destruição da independência do Judiciário.

O contexto imediato é, portanto, de incentivo ao assalto que a extrema direita planeja dar, esvaziando o Judiciário com relação aos demais poderes (com Flávio na presidência e o Centrão empoderado no nosso atual semi-presidencialismo). Além de subordinar o STF ao bolsonarismo, Flávio também revela ao final de seu discurso que em janeiro de 2027, ele vai acabar com “a polarização” porque “não vai mais ter PT”. Tudo isto alimenta a plausibilidade de uma mudança de regime político com relação ao que foi vigente no pós-1988, com sua mescla de méritos e falhas: Constituição democrática, presidencialismo de coalizão e institucionalização inédita de direitos sociais, mesmo que precarizados e subfinanciados.

Sempre considero relevante prestar atenção não apenas aos discursos (no carro de som, em cartazes ou em conversas informais), mas também aos símbolos que circulam em um protesto. Vários dos que compareceram no Sete de Setembro são velhos conhecidos para quem já frequentou ao menos uma vez ou viu fotos das manifestações das direitas: as bandeiras do Brasil monárquico, dos EUA, de Israel e, por fim, a Bandeira de Gadsden, símbolo anarcocapitalista e também mobilizado pelo trumpismo.

Já outros símbolos foram inéditos em minhas observações, o que pode nos revelar a distância entre o rotinizado e o que surge como elemento emergente no cenário da extrema direita brasileira. Em primeiro lugar, um boneco inflável do ministro André Mendonça, sintoma de seu protagonismo na atual crise institucional do STF na qual o bolsonarismo busca surfar.

Em segundo lugar, um pixuleco gigante de Trump segurando um pixulequinho de Lula em uma versão presidiário. O inusitado e indigesto da situação não se esgota na ode ao imperialismo, emulando e desejando que Trump faça algo similar ao que fez com Maduro: sequestrar, prender, humilhar e apequenar. A imagem original do presidente estadunidense é a cena fotografada e espetacularizada na qual ele cerra os punhos ao alto, logo após a tentativa de assassinato que ele sofreu em um comício na Pensilvânia, na campanha eleitoral de 2024. A cereja do bolo da presença trumpista no Dia da Independência é o surgimento de bonés vermelhos, cor do Partido Republicano, seja com a inscrição Make America Great Again, seja com os escritos “Trump 2028” – uma palavra de ordem golpista, que reivindica rasgar a Constituição estadunidense, que impede expressamente, na 22ª Emenda, que o atual presidente se candidate novamente.

Por fim, quando eu já iniciava meu retorno para casa, me afastando do quarteirão Trianon/MASP em direção à Estação Brigadeiro de Metrô, me deparei com um último símbolo inédito: um homem trajava a bandeira da Bolívia, amarrada em seu pescoço como uma capa de herói, fazendo o vídeo de uma mulher, trajando uma bandeira brasileira da mesma forma – ele então dirigia sua performance, perguntando repetidamente se ela votaria 22 em outubro. Ele parecia ser um imigrante boliviano, mas falava português sem sotaque aparente.

Esta cena, exteriormente singela, pode ser mais bem compreendida se inserida em um contexto simbólico, discursivo e emocional mais amplo. Aquele mesmo trio de amigas que eu já me referi acima também conversou sobre os EUA, em mais um momento em que praticamente viraram de costas para o carro de som, absorvidas em sua própria sociabilidade informal. Uma delas, a mais articulada e extrovertida, afirmou efusivamente “os EUA ainda é a maior potência do mundo”. Em seguida, passou a explicar e enumerar, com grande admiração, como isto se refletia em diferentes âmbitos, como o maior poderio militar em termos de armamentos ou uma suposta liderança tecnológica. Não ficou claro para mim qual era o contexto anterior da conversa, mas, em termos analíticos, é inescapável contabilizar a ascensão da China na necessidade de ela reafirmar que os EUA ainda é o número um. Por último, a conversa foi por um caminho de elogiar enfaticamente como diferentes países na América do Sul estão “mudando”, tais como Colômbia e Venezuela – o primeiro país por conta da eleição de maio, na qual a extrema direita venceu o candidato de continuidade do Governo Petro; o segundo país devido ao já mencionado sequestro de seu então presidente e uma estranha permanência da cúpula bolivariana, mas agora em condições subordinadas a Trump.

Os novos símbolos – pixuleco e boné pró-Trump e bandeira boliviana – e os discursos – a veneração do poder estadunidense e a comemoração do realinhamento de Colômbia e Venezuela – compõem uma rede de significados bastante evidente: uma aguda consciência geopolítica por parte da base social da extrema direita que deseja participar ativamente do processo de subordinação do Brasil e da América Latina aos EUA de Trump (um projeto que Branko Milanovic chamou recentemente de “nacional-liberalismo de mercado” e outros chamam de neomercantilismo ou neoimperialismo). Como Flávio já formulou explicitamente, no encontro deste ano do CPAC (Conservative Political Action Conference), seu plano de política externa é o que os nacionalistas brasileiros dos anos 1950 chamavam, sem meias palavras, de entreguismo: “O Brasil vai ser o campo de batalha onde o futuro do hemisfério será decidido, porque o Brasil é a solução dos EUA para quebrar a dependência da China por minerais críticos, especialmente elementos de terras raras”.

O mais insólito de tudo no dia 07 de setembro, na Avenida Paulista, foi o clímax do discurso de Flávio Bolsonaro no carro de som. Logo depois de afirmar categoricamente que ele vai indicar 5 ministros do STF e que o dia 4 de outubro ficaria marcado como um “grito de liberdade”, ele vociferou, empoderado como eu nunca tinha visto ou ouvido: “Eu quero ser o libertador da pátria!”. No universo simbólico singular da extrema direita brasileira, independência (do Brasil) se transmuta em dependência (dos EUA) e a libertação dos poderes supostamente absolutistas do STF se transforma em subordinação do Judiciário ao presidente autocrata.

Mas e se Flávio não for eleito, como se comportarão as direitas? Em 2021 e 2022, já era evidente em minhas pesquisas de campo que o campo reacionário só reconheceria como legítima a vitória eleitoral de Jair. Já Flávio abriu seu discurso enumerando uma “primeira facada” (que seu pai recebeu em Juiz de Fora, em setembro de 2018), a “segunda facada” (o 8 de Janeiro e a posterior prisão de seu pai) e uma enigmática “terceira facada”: “vão tentar não só em mim, mas também em meus aliados. Não vai adiantar nada! Somos muito mais fortes do que eles”. O que seria, então, esta terceira facada? Entendo que este é um ensaio de enquadramento interpretativo com o objetivo de deslegitimar o possível cenário de sua derrota.

Sempre enfatizo que a firmeza do Governo Biden foi crucial para desarmar o golpe militar de 2022, ao bloquear qualquer aliança entre o Departamento de Estado dos EUA e as Forças Armadas brasileiras, notadamente americanófilas, o que rachou o Alto-Comando do Exército entre golpistas, “em cima do muro” e “legalistas” a ponto de impedir a unidade de ação. Conforme estamos sob Trump e a Doutrina Donroe, corremos o risco de uma real possibilidade de uma nova campanha de ação coletiva de “patriotas” que deslizaria da demanda por intervenção militar (como em 2022 e 2023) para uma reivindicação explícita por intervenção estrangeira, o que dobraria a aposta na subversão e na insurgência. O imaginário reacionário é notadamente escatológico e apocalíptico: caos, desordem e destruição são desejados tendo em vista uma restauração futura de uma ordem cujo parâmetro de progresso se tornou uma regressão neoextrativista selvagem e hiper-dependente, o que expande exponencialmente o que Letícia Cesarino chamou de “o mundo do avesso”.

Se a candidatura de Flávio Bolsonaro e todos os seus cúmplices no autoritarismo e no entreguismo não forem derrotados eleitoralmente em outubro e deslegitimados socialmente nos anos seguintes (com participação interna de centristas, direitistas e eleitores independentes e participação internacional de governos que reconheçam o resultado das urnas eletrônicas), quem precisará ser liberta e restaurada na década seguinte será a democracia do Brasil, assim como nossa soberania. Ainda há tempo para escrever, agora, outro futuro.

 

Jonas Medeiros é diretor de pesquisa do CCI/Cebrap (Centro para Imaginação Crítica). É cientista social com doutorado em Educação pela Unicamp. E co-autor do livro “The Bolsonaro Paradox: The Public Sphere and Right-Wing Counterpublicity in Contemporary Brazil” (Springer, 2021).

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