A eleição silenciosa que pode redefinir a democracia brasileira
Com 54 das 81 cadeiras em disputa, a eleição de 2026 pode entregar à direita o controle da instituição responsável por julgar ministros do Supremo, aprovar autoridades e estabelecer os limites políticos do Judiciário. O perigo não se restringe à possibilidade de impeachment. Está também no uso cotidiano dos instrumentos constitucionais como forma de pressão e revanche
A campanha presidencial ocupa os debates, as pesquisas e o noticiário, enquanto isso, outra eleição, menos visível, pode produzir efeitos mais duradouros sobre a democracia brasileira. Em 4 de outubro, cada eleitor poderá escolher dois senadores. Estarão em disputa 54 das 81 cadeiras do Senado Federal, o equivalente a dois terços da Casa. Os dois candidatos mais votados em cada estado e no Distrito Federal serão eleitos para mandatos de oito anos, sem segundo turno.
Essa renovação ocorre em um ambiente institucional particularmente tenso. O Brasil chega à reta final da eleição atravessado por uma crise entre integrantes do Supremo Tribunal Federal, pelas repercussões das investigações relacionadas ao Banco Master e por uma campanha permanente da direita e da extrema direita contra ministros da Corte, sobretudo Alexandre de Moraes.
Moraes tornou-se o principal antagonista do bolsonarismo desde que assumiu investigações sobre redes de desinformação, ataques às instituições e a articulação que tentou impedir a alternância de poder após as eleições de 2022. Jair Bolsonaro foi condenado, em 2025, a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros quatro crimes. Sua condenação decorreu da trama montada para mantê-lo no poder, dentro da qual os ataques de 8 de janeiro de 2023 ocuparam lugar importante, mas não exclusivo.
O caso Banco Master acrescentou novos elementos a essa crise. Informações reveladas durante as investigações levantaram suspeitas sobre contatos entre o banqueiro Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes. O episódio provocou pedidos de apuração, reações dentro do próprio Supremo e uma disputa aberta entre Moraes e André Mendonça.As suspeitas ainda precisam ser investigadas e submetidas ao contraditório. Não podem ser apresentadas como prova antecipada de culpa. Politicamente, no entanto, seus efeitos já são perceptíveis. As revelações deram novo impulso aos grupos que procuram apresentar os problemas envolvendo integrantes do STF como demonstração de que toda a Corte estaria corrompida ou teria ultrapassado os limites de suas atribuições.
É nesse contexto que a disputa pelo Senado deixa de ser uma eleição legislativa secundária. A composição da Casa poderá definir tanto a capacidade de fiscalização sobre o Judiciário quanto os limites entre controle institucional e perseguição política.
A construção de uma maioria de direita – A projeção elaborada para este artigo parte das estimativas estaduais divulgadas pela Genial/Quaest, em agosto de 2026. O levantamento nacional foi realizado entre 31 de julho e 3 de agosto, com 2.004 entrevistas presenciais e margem de erro geral estimada em dois pontos percentuais, para um nível de confiança de 95%. A amostragem envolveu 120 municípios, selecionados por conglomerados em três estágios, com posterior calibração dos dados e utilização de modelo de regressão multinível e pós-estratificação, conhecido pela sigla MRP, para produzir estimativas de subgrupos da população1.
Os resultados estaduais devem ser interpretados como estimativas derivadas da modelagem estatística nacional, e não como 27 pesquisas estaduais independentes. A própria Genial/Quaest informa margens maiores para os recortes regionais e sociodemográficos, que podem chegar a seis pontos percentuais em determinados grupos. Isso recomenda cautela nas disputas empatadas ou separadas por poucos pontos.
Se o retrato de agosto se confirmar nas urnas, a direita poderá eleger entre 22 e 24 dos 54 novos senadores. O centro conquistaria entre 14 e 15 cadeiras, enquanto a esquerda ficaria entre 16 e 17.
Observados isoladamente, esses números não indicam domínio completo da direita. O quadro muda quando se consideram os 27 senadores eleitos em 2022, cujos mandatos seguem até 2031. Pela classificação partidária adotada nesta análise, 19 desses parlamentares pertencem ao PL, PP, Republicanos ou União Brasil. Quatro estão em partidos de centro e somente quatro pertencem a legendas de esquerda.


A variação não decorre de uma tendência nacional uniforme, mas de disputas estaduais muito próximas. Em Minas Gerais, Carlos Viana, do PSD, e Domingos Sávio, do PL, aparecem com 8% das intenções de voto combinadas, disputando a segunda vaga. Caso o candidato do PL avance, a direita ganha uma cadeira atualmente contabilizada para o centro.
No Rio Grande do Sul, Pimenta, do PT, e Marcel Van Hattem, do Novo, aparecem com 9%. Uma vitória de Van Hattem acrescentaria uma cadeira à direita e retiraria uma da esquerda. Em Rondônia, Sílvia Cristina, do PP, e Bruno Bolsonaro Scheid, do PL, estão empatados com 11%, mas o resultado não altera a distribuição ideológica, pois ambos foram classificados à direita.
Esses empates explicam a faixa de variação apresentada no quadro. A projeção principal aponta 41 senadores de direita, 19 de centro e 21 de esquerda. No cenário mais favorável à direita, com vitórias do PL em Minas Gerais e do Novo no Rio Grande do Sul, esse campo poderia alcançar 43 cadeiras, enquanto o centro recuaria para 18 e a esquerda para 20.
A direita teria, portanto, entre 41 e 43 cadeiras. Alcançaria a maioria absoluta do Senado, embora permanecesse abaixo dos 54 votos correspondentes a dois terços da Casa.
Essa diferença é importante. A direita não teria, sozinha, os votos necessários para condenar e afastar um ministro do Supremo. Teria, contudo, força para controlar a agenda, comandar comissões, influenciar a eleição da Mesa Diretora e manter pedidos de impeachment como fonte permanente de constrangimento sobre a Corte.
As fronteiras entre direita e centro também não são rígidas. MDB, PSD e Podemos reúnem parlamentares que se movimentam de acordo com o governo, o tema em discussão, os interesses estaduais e as negociações por espaços institucionais. Para alcançar 54 votos, um bloco de direita com 41 a 43 senadores precisaria atrair entre 11 e 13 integrantes de outras legendas. Em um ambiente de crise, como o que se formou em torno do STF, essa possibilidade não é remota.
O poder de uma maioria desse tipo não se mede somente pela capacidade de aprovar um impeachment. O controle da pauta, a escolha do presidente do Senado, a condução das comissões e a ameaça de abertura de processos também interferem na relação entre os poderes. Um tribunal cujos ministros passam a decidir sob ameaça política constante pode continuar formalmente independente, mas atuar dentro de um espaço cada vez mais estreito.
A projeção partidária exige cautela. União Brasil, PP e Republicanos não funcionam como blocos ideológicos inteiramente homogêneos. Neles convivem lideranças regionais, setores governistas, parlamentares pragmáticos e grupos claramente identificados com o bolsonarismo.
Também não é correto considerar todo senador de direita uma ameaça automática à democracia. A existência de maiorias conservadoras faz parte da disputa democrática. O problema surge quando a vitória eleitoral passa a ser interpretada como autorização para subordinar instituições, criminalizar adversários e afastar autoridades por causa do conteúdo de suas decisões.
Uma eleição que o eleitor ainda conhece pouco - A pesquisa Genial/Quaest expõe uma contradição importante. Enquanto as elites políticas tratam a disputa pelo Senado como estratégica, grande parte da população desconhece as próprias regras da votação.
Somente 34% dos entrevistados sabiam que poderiam escolher dois senadores. Outros 22% acreditavam ter direito a apenas um voto, 10% respondiam que poderiam escolher três candidatos e 34% não sabiam ou não responderam. Dois terços do eleitorado, portanto, desconheciam ou não conseguiam indicar corretamente quantos votos poderão dar para o Senado2.
O desconhecimento não se distribui de maneira uniforme. Entre os homens, 39% sabiam que poderiam votar em dois candidatos, enquanto entre as mulheres esse percentual era de 28%. A informação também variava segundo renda, escolaridade, região e posicionamento político. Os dados sugerem que o segundo voto tende a ser ainda mais aberto entre os grupos com menor acesso às informações sobre o funcionamento da eleição3.
Essa desinformação ajuda a compreender os percentuais elevados de indecisão, votos brancos e nulos encontrados nas estimativas estaduais. Também abre espaço para candidaturas apoiadas por estruturas partidárias, máquinas estaduais, lideranças religiosas, famílias políticas e personagens com alto reconhecimento público.
A experiência de 2018 reforça a preocupação. Na última eleição em que cada cidadão teve dois votos para senador, aproximadamente 63 milhões de votos foram deixados em branco, anulados ou não utilizados na segunda escolha. O fenômeno ficou conhecido como “voto incompleto”.
A escolha de dois nomes produz uma dinâmica eleitoral própria. O primeiro voto pode expressar uma preferência ideológica consolidada. O segundo, muitas vezes definido mais tarde, tende a ser entregue a uma candidatura conhecida, indicada por uma liderança ou associada à capacidade de levar recursos ao estado.
O eleitor pode escolher candidatos situados em campos políticos diferentes. Não há contradição formal nisso. Há, porém, uma oportunidade para que organizações com maior capacidade de mobilização conquistem a segunda vaga mesmo sem liderar a preferência política mais geral da população.
A Genial/Quaest mostra que a escolha para o Senado continua fortemente relacionada à intermediação de recursos. Para 31% dos entrevistados, o atributo mais importante de um candidato é ter foco em trazer emendas e obras para o estado. A indicação de Lula aparece com 15%. O compromisso com o fim da escala de trabalho 6×1 alcança 13%. A independência em relação à polarização registra 12%. O apoio ao impeachment de ministros do STF chega a 11%, enquanto a indicação de Bolsonaro aparece com 8%4.
O Senado permanece associado à figura do representante capaz de abrir portas em Brasília, garantir recursos e destravar obras. Suas funções institucionais mais amplas recebem menos atenção. Entre elas estão o julgamento de autoridades, a aprovação de ministros dos tribunais superiores, a sabatina de dirigentes de órgãos públicos, a autorização de operações financeiras e a revisão das decisões da Câmara.
As médias nacionais escondem diferenças ideológicas consideráveis. Entre os bolsonaristas, 31% valorizam prioritariamente a indicação de Bolsonaro e 24% destacam o apoio ao impeachment de ministros do STF. Entre aqueles que se definem como direita não bolsonarista, o impeachment é mencionado por 22%. Entre os lulistas, 50% preferem um candidato indicado por Lula5.
Há, portanto, duas formas de personalização da escolha. A primeira passa pela fidelidade ao líder político. A segunda transforma o confronto com o Supremo em identidade eleitoral.
Embora apenas 11% do conjunto dos entrevistados aponte o impeachment de ministros como principal atributo, essa preferência alcança quase um quarto do eleitorado bolsonarista. Trata-se de um grupo politicamente mobilizado, para o qual a eleição do Senado já está ligada à possibilidade de punir o STF.
Entre a fiscalização e a revanche - A Constituição atribui ao Senado a competência para processar e julgar ministros do Supremo por crimes de responsabilidade. Esses crimes são definidos pela Lei nº 1.079, de 1950, e abrangem, entre outras hipóteses, condutas incompatíveis com a honra, a dignidade e o decoro da função.
Qualquer cidadão pode apresentar uma denúncia. A tramitação, porém, depende de decisões internas do Senado e começa pela Presidência da Casa. Até hoje, nenhum pedido de afastamento de ministro do STF foi aprovado.
Esse mecanismo faz parte do sistema constitucional de controle. A independência judicial não coloca os ministros acima da lei. Contratos, relações privadas, conflitos de interesse e possíveis interferências em investigações precisam ser apurados com transparência.
O risco aparece quando a responsabilização deixa de se apoiar em fatos individualizados e passa a funcionar como punição pelo conteúdo de decisões judiciais. Nesse caso, o impeachment perde seu caráter excepcional e se converte em instrumento para disciplinar o Judiciário.
Nem sequer seria necessário afastar vários ministros para modificar o funcionamento da Corte. A existência de uma maioria disposta a abrir processos ou manter ameaças recorrentes poderia influenciar votos, prioridades e decisões.
A erosão democrática nem sempre ocorre por meio do fechamento do Congresso, do cancelamento das eleições ou de uma ruptura militar. Ela também avança quando instrumentos previstos na Constituição passam a ser utilizados para perseguir adversários, constranger órgãos de controle e enfraquecer a autonomia entre os poderes.
A eleição de uma maioria conservadora, por si só, não caracteriza esse processo. A ameaça está na transformação dessa maioria em uma força que deixe de reconhecer a legitimidade dos adversários e considere qualquer limite institucional uma forma de conspiração.
Uma direita comprometida com a democracia pode fiscalizar o STF, exigir transparência, investigar suspeitas e propor reformas. Outra coisa é pretender submeter a Corte, remover ministros por divergência política ou reescrever retroativamente os limites da legalidade para absolver os responsáveis por uma tentativa de ruptura institucional.
As estimativas utilizadas nesta projeção também não devem ser tomadas como antecipação do resultado. A Genial/Quaest ressalta que os dados refletem um retrato válido no momento da coleta e estão sujeitos a alterações provocadas pelo cenário político, econômico e eleitoral. A presença de grandes contingentes de indecisos nas disputas estaduais torna a projeção ainda mais instável6.
Mesmo assim, a tendência merece atenção. Apenas 18 dos 54 senadores que encerram seus mandatos aparecem atualmente nas duas primeiras posições das estimativas. Caso o quadro se mantenha, cerca de dois terços das vagas serão ocupadas por novos nomes. Muitos chegarão ao Senado sem histórico que permita antecipar seu comportamento diante de uma crise institucional.
A direita começa a disputa em posição privilegiada. Dos 27 senadores que permanecerão no cargo, 19 pertencem aos quatro partidos classificados nesta análise como de direita. Antes da abertura das urnas, esse campo já reúne quase um quarto de todas as cadeiras do Senado.
A Casa que tomará posse em 2027 poderá ser mais conservadora e mais hostil ao Supremo. Também encontrará uma sociedade que cobra esclarecimentos sobre suspeitas envolvendo integrantes do Judiciário. Ignorar essa cobrança seria tão prejudicial quanto aceitar condenações políticas sem investigação e sem provas.
Defender a democracia não significa proteger ministros de qualquer escrutínio. Significa impedir que a fiscalização institucional seja capturada pela lógica da vingança.
A eleição para o Senado não pode continuar sendo vista como complemento da disputa presidencial. O eleitor escolherá quem controlará a pauta da Casa, sabatinará autoridades, decidirá sobre crimes de responsabilidade e participará da definição dos limites entre os poderes da República.
O segundo voto para senador talvez seja o mais esquecido da urna em 2026. Justamente por isso, poderá ser um dos mais decisivos para o futuro da democracia brasileira.
Marcio Ferreira é doutorando em Sociologia Política pelo PPGSP/IUPERJ | UCAM, jornalista e pesquisador do Grupo de Estudos Religião e Cidades (RE-CID). E-mail: [email protected].
Referências
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília: Presidência da República, 1988.
BRASIL. Lei nº 1.079, de 10 de abril de 1950. Define os crimes de responsabilidade e regula o respectivo processo de julgamento. Brasília, 1950.
SENADO FEDERAL. Eleitor escolherá dois senadores neste ano: veja como votar. Brasília: Agência Senado, 14 jul. 2026.
SENADO FEDERAL. Pedido de impeachment contra ministro do STF. Brasília: Assessoria de Imprensa do Senado Federal, 25 set. 2024.
TRIBUNAL REGIONAL ELEITORAL DE SÃO PAULO. Eleições 2026: eleitor escolherá dois senadores; veja como votar corretamente. São Paulo, 3 fev. 2026. Atualizado em 5 fev. 2026.
Notas de Rodapé
1GENIAL INVESTIMENTOS; QUAEST. Eleição para o Senado Federal: 28ª rodada. Pesquisa nacional, agosto de 2026. Coleta realizada entre 31 de julho e 3 de agosto de 2026. Registro BR-06591/2026 e BR-07661/2026.
2GENIAL/QUAEST, 2026, p. 7
3GENIAL/QUAEST, 2026, p. 8-16
4GENIAL/QUAEST, 2026, p. 17
5GENIAL/QUAEST, 2026, p. 26
6GENIAL/QUAEST, 2026, p. 37

