CONDOMÍNIOS

Seu condomínio te faz odiar a cidade

A lógica do condomínio (e do carro também) azeda as relações sociais e a possibilidade de um projeto político maior de coletividade. É perversa na escala urbana e regional, por corromper o espaço público e coletivo. É opressora no espaço privado, por controlar e domesticar o outro. É a lógica perfeita para dar vazão aos interesses corporativos e conservadores, com franca expansão do neopentecostalismo, mesmo que seu condomínio tenha pinta de moderninho

Voltando de um bar próximo de casa com amigas, na região do Tatuapé, zona leste de São Paulo, uma delas me deu carona e, ao parar em frente à minha casa, ela reparou nas obras do condomínio de dois prédios, com 22 andares cada, logo em frente.

“Nossa, a portaria ficará assim exposta? Achei estranho. Não parece seguro”.

O condomínio em questão foi construído em uma área de 10 mil metros quadrados, onde por quase 20 anos foi uma escola de futebol inaugurada por um famoso jogador de futebol. Conta com ampla área de lazer e enorme quantidade de vagas de garagem, se colocando quase uma como um colosso no meio do antigo bairro de sobrados, pequenas fábricas e comércio local, abrindo espaço no tecido social vigente. Mesmo com as leis do Plano Diretor (2014) e do Zoneamento (2016) buscando enfrentar a cultura do condomínio-clube, super recuado da rua e repleto de muralhas para forjar segurança (privada) e dar as costas às ruas (públicas), o mercado imobiliário deu os seus pulos para seguir produzindo esse tipo de empreendimento que se tornou o padrão residencial de quem busca viver em apartamento, ou mesmo em grandes casas de condomínio, ao estilo Alphaville e similares. Afinal, se eu me mudar, quero ir para um clube e não para uma simples moradia: com piscina, academia, sauna, espaço gourmet (churrasqueira), com todo o lazer possível dentro do meu quadrado, para não me misturar com a gentalha, como diria o Kiko (personagem do seriado mexicano, do Chaves). É uma percepção necessária no debate sobre habitação e moradia digna, uma vez que o desejo de morar em um clube não pode ser confundido com a urgência por dignidade mínima daqueles que sequer vivem em um espaço adequado. E mais: é necessário entender que, embora o clube se enquadre como produto a ser consumido, existe um preço coletivo a ser pago pelos seus impactos na cidade, sobretudo quando atrelado ao uso residencial.

Muros e cercas elétricas de condomínios-clube na Vila Regente Feijó, modelo ainda persistente na verticalização da cidade. Acervo de Lucas Chiconi Balteiro, 2026.

A lógica do condomínio (e do carro também) busca promover o máximo controle entre seus iguais (ou quase isso): a portaria serve de filtro social, onde apenas os autorizados podem bater à porta dos apartamentos. É diferente de uma casa ou um prédio antigo e menor sem portaria, sujeitos àquela brincadeira antiga de tocar a campainha e sair correndo. Os “riscos” atribuídos às ruas, aos espaços públicos, ficam distantes do ambiente doméstico. Em momentos de celebrações, é comum o uso do salão de festas do prédio, que substituiu o antigo centro comunitário do bairro, onde a vizinhança poderia sociabilizar mais de igual para igual. Hoje, com os aparatos de controle, os visitantes do condomínio passam pelo crivo social dos moradores via portaria, com direito a vidros escuros e duas etapas de portões que tentam te engaiolar antes de entrar finalmente no espaço privado. Uma vez lá dentro, passamos por jardins, “halls de entrada”, elevadores e corredores dos apartamentos – áreas de circulação que conformam a vigilância contínua. Não é mero acaso que nossas calçadas sejam tão vergonhosamente quebradas, uma vez que o espaço público no domínio da lógica privada é algo que não presta e deve ser desprezado. O mesmo ocorre com o Sistema Único de Saúde (SUS), tratado como sentença de morte por quem detém convênios médicos.

Em um ambiente controlado, não há livre circulação e direito ao inesperado, às coincidências do espaço público. Aliás, não existem coincidências quando existe projeto para integração dos “iguais”, o que também significa afastar os “diferentes”. O controle é uma arma utilizada de diferentes maneiras, escalas e intensidades: mulheres em relações abusivas sabem (ou deveriam saber) do que se trata. O espaço físico controlado é o abrigo ideal para a reprodução do controle nas relações interpessoais: aqui só entra quem eu autorizo – seja no condomínio, seja na vida pessoal de quem vive na lógica do condomínio (e do carro também). É a lógica da previsibilidade, ou seja, não permite surpresas e imprevistos, barrando qualquer possibilidade daquilo que é extraordinário – que foge do comum, que é fora do normal, excepcional ou surpreendente. Qualquer semelhança com a Inteligência Artificial e seus meandros, não é mera coincidência.

Por exemplo: a caminho de um compromisso com outra amiga, dessa vez na região do Tucuruvi, na zona norte, quando o motorista da Uber desacelerou, comentei sobre o quanto gosto de cobogós em muros baixos de casas antigas. Essa amiga, acrescentou: “adoro casas abaixo do nível da rua. Casas pra baixo!”. Ela ainda acrescentou que, ao olhar para casas antigas e desejar uma para morar, sua visão de arquiteta enxerga além do que outras pessoas enxergam em possíveis deteriorações nesse tipo de imóvel. Na lógica do condomínio (e do carro também) esses momentos imprevisíveis são mais restritos, pois o objetivo é de restringir tudo aquilo que possa fugir do controle, o que inclui, principalmente, pessoas indesejadas que possam provocar incômodos e abalos a essa estrutura de vida. Em um sistema tão obcecado por controle privado, quem anseia liberdade e não caminha sob as regras do que dita a indústria do medo (vulgo, da segurança privada), causa medo.

Não é por acaso que ouço, com certa frequência, comentários sobre meus hábitos de caminhada no bairro e na cidade em geral, como se estivesse fazendo algo fora da lei – do condomínio, é claro (e do carro também). É uma lógica que busca, a todo momento, nos adequar, ou adestrar, ao que é considerado como o padrão desejado do sistema normativo. Por essa razão é tão oportuna a comparação com certas igrejas, onde existe uma tentativa de estabelecer regras morais de convívio social e hábitos que constroem uma cultura: não ande a pé, não vá sozinha, peça permissão, não questione, espere aqui dentro, se vista melhor. É uma cultura do medo que se vale das porções de realidade da violência que acomete o país, mas que em São Paulo, em termos proporcionais, é diminuta perto de outras capitais e cidades médias e pequenas dos interiores que explodem nos índices que registram e avaliam ações criminosas – sem subestimar o aumento da violência, ou da sensação de insegurança, da qual o governo estadual tenta se eximir.

A violência existe, é um fato. Contudo, ela também alimenta uma indústria que ganha dinheiro (e poder) com a insegurança (pública), pois se o Estado não resolve, o privado entra no lugar, seja em formato de empresas de aparatos como portarias eletrônicas, grades, muros, cercas elétricas, funcionários com porte de arma, monitoramento por câmeras; seja no modelo de milícias, onde certos grupos misturam o privado e o público sem qualquer constrangimento – tão conhecidas no Rio de Janeiro. Talvez a zona de contato entre a milícia e o condomínio fechado (um pleonasmo vicioso, eu diria), seja aquela pessoa contratada para fazer a segurança do bairro, financiado por alguns moradores que, nos dias de hoje, usam das redes sociais para realizar um monitoramento mais ostensivo. São perfis conhecidos dos moradores por suas publicações quase midiáticas e sensacionalistas, na tentativa de se forjar algo “jornalístico” (que tempos para o jornalismo), normalmente com ações próximas da Polícia Militar e de certos parlamentares do município (vereadores) e do estado (deputados estaduais), com efeito dos conselhos municipais de segurança (pública?).

Condomínio “Península Lazer & Urbanismo”, entre Águas Claras e Taguatinga, no Distrito Federal. Acervo de Lucas Chiconi Balteiro, 2024.

A famosa expressão “a grama do vizinho é sempre mais verde” ganhou nova dimensão: a lógica do condomínio (e do carro também) é a da diferenciação moral que se vale das desigualdades às quais estamos submetidos. Ela tanto invoca a superioridade daquele que vive em condomínio e se desloca somente por carro (em especial, pela comemoração em torno da moralidade de “tirar a carta” de motorista), quanto aprofunda o controle de alguns sujeitos sobre outros, como a violência doméstica (física, psicológica, sexual, patrimonial e moral) que se ampara no antigo ditado “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Inclusive, não é uma contradição que tantos que falam em liberdade estejam pregando por condomínios e segurança privada, uma vez que existem forças sociais que se beneficiam dessa estrutura.

Os anseios por liberdade dentro da lógica privada, quase sempre, tentam corromper a esfera pública, como quando os motoristas se sentem no direito de cometer infrações no trânsito, como se fosse legítimo ao possuir um carro particular. Se o espaço público é tratado como escória a ser desprezada, então ele não é digno de respeito e, portanto, não carece de regras coletivas. Não muito diferente é o condomínio fechado, que endurece a vigilância do outro que vem de fora, de uma suposta contaminação da rua. O condomínio fechado e seu aparato de segurança privada é a corrupção da segurança pública, dos seus investimentos que deveriam ser destinados ao conjunto social. Tanto é que ainda vemos o tratamento diferenciado da Polícia Militar a depender de onde se está na cidade, já que as áreas de perigo são sempre determinadas do ponto de vista dos que têm mais dinheiro e poder.

Ao atender o ímpeto do consumo imediato por distinção e segurança privada, a lógica do condomínio (e do carro também) nos imobiliza em coletivo e nos impede de cultuar outros futuros possíveis. “Quero morar em um clube porque eu mereço”, “quero um carro porque cansei de ser humilhada (pelo transporte público e pelas calçadas)”. O condomínio e o carro são as respostas rápidas, tal qual o analgésico para sanar dores de cabeça da ressaca e do estresse cotidiano. O resultado é uma realidade urbana em que rios foram violados para a construção de ruas e avenidas que sofrem com a inundação em períodos de chuvas. Ao invés de prefeitos e governadores intervirem para o bem-estar socioambiental, escolhem conservar o problema, porque sabem que teriam que enfrentar a reprovação da população que vive na lógica do carro (e do condomínio também).

A surpresa de muitos que vivem nessa lógica em relação a quem abre mão de controle, demonstra que estamos afundados, mais do que nunca, em um processo que retrocede a construção das relações sociais. É uma corrosão de dentro para fora que nos desorganiza como grupos sociais e coletivos, que precisam uns dos outros para emergir socialmente. Ao afastar o outro por muros ou certas atitudes interpessoais, cavamos a própria derrota frente ao universo do “vale tudo” ao qual estamos submetidos. O plano é claro: sinta ódio de tudo aquilo que está do lado de fora – do seu condomínio, do seu carro, da sua família e do seu grupo de zap.

 

Lucas Chiconi Balteiro é arquiteto e urbanista, mestre em História e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo pela FAU/USP e membro dos grupos de pesquisa “Cultura, Arquitetura e Cidade na América Latina” (CACAL, FAU/USP) e “Cidade, Arquitetura e Preservação em Perspectiva Histórica” (CAPPH, EFLCH/UNIFESP). É um dos coordenadores do GT Paisagem Urbana do Instituto de Arquitetos do Brasil de São Paulo (IABsp).

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