TEMPO DEMAIS PARA CONTINUAR DIZENDO QUE NÃO SABÍAMOS

Três anos de genocídio em Gaza: o que ainda resta de nós?

Uma das maiores lições de Gaza é que a linguagem nunca é apenas linguagem quando pessoas estão sendo exterminadas 

Em outubro, completam-se três anos. 

Três anos. 

É difícil escrever essa frase sem perceber a monstruosidade que ela contém. 

Três anos assistindo a crianças serem retiradas dos escombros. Três anos vendo hospitais transformados em ruínas, famílias desaparecerem, pessoas procurando água, comida, remédios, seus mortos. Três anos aprendendo nomes de cidades, campos de refugiados e hospitais não porque queremos conhecê-los, mas porque os vemos serem destruídos. 

O que aconteceu conosco? Três anos é tempo demais para continuar dizendo que não sabíamos. No início, ainda se podia alegar confusão. Falava-se em guerra, resposta, retaliação, direito à autodefesa. Discutia-se obsessivamente qual palavra seria permitida para descrever aquilo que nossos olhos já estavam vendo. 

Depois vieram os mortos. Os mutilados. Os órfãos. Os hospitais destruídos, a fome, o deslocamento repetido, as mães parindo em condições inimagináveis. 

E vieram os documentos. 

Em dezembro de 2024, a Anistia Internacional concluiu, após investigação, que Israel estava cometendo genocídio contra os palestinos em Gaza.1 Em julho de 2025, duas organizações israelenses de direitos humanos, B’Tselem e Physicians for Human Rights–Israel, chegaram também à conclusão de que as ações de Israel constituíam genocídio.23 A Comissão Internacional Independente de Inquérito das Nações Unidas chegou posteriormente à mesma conclusão.4 

Antes disso, em janeiro de 2024, a Corte Internacional de Justiça, no processo apresentado pela África do Sul contra Israel, já havia reconhecido como plausíveis direitos dos palestinos de Gaza à proteção contra atos de genocídio e determinado medidas provisórias.5 

Quanto tempo uma sociedade precisa esperar para reconhecer aquilo que está acontecendo diante dela? 

Uma das maiores lições de Gaza está justamente aí. A linguagem nunca é apenas linguagem quando pessoas estão sendo exterminadas. 

Os grandes crimes da história raramente receberam seus nomes enquanto aconteciam. A deportação para os centros de extermínio nazistas foi escondida também sob eufemismos administrativos. O genocídio armênio foi perpetrado sob a linguagem da deportação e da segurança. Em Ruanda, o genocídio dos tutsis ocorreu em meio à narrativa de guerra civil. A destruição e assimilação forçada de povos indígenas foram durante séculos justificadas em nome da “civilização”. 

As palavras também moldam aquilo que aprendemos a tolerar. Uma criança morta se torna “dano colateral”. A fome, “crise humanitária”. A expulsão, “evacuação”. A destruição de uma cidade, “operação militar”. O extermínio, “autodefesa”. 

A linguagem prepara o terreno para que possamos conviver com ela. Essa é uma das dimensões mais perturbadoras desses três anos: assistimos à destruição de Gaza, e assistimos uma disputa permanente pelas palavras capazes de nomeá-la. 

Por isso é tão importante repetir que a história palestina não começou em 7 de outubro de 2023. Isso não significa apagar os civis israelenses mortos naquele dia, nem os crimes cometidos contra eles. Significa recusar uma cronologia politicamente conveniente que transforma décadas de ocupação, expulsão, cerco e violência em um vazio histórico. 

Antes de outubro de 2023 houve 1948. Houve a Nakba. Houve 1967. Houve ocupação. Houve assentamentos. Houve bloqueio. Houve Gaza cercada durante anos antes que o mundo aprendesse novamente a pronunciar seu nome. 

Retirar essa história da narrativa é produzir uma história mutilada na qual a violência palestina possui origem, data e contexto, enquanto a violência que a antecede aparece como paisagem. 

Crédito: Ukberri/Flickr

As mulheres e aquilo que ainda poderia nascer 

Existe outra dimensão dessa destruição sobre a qual ainda falamos pouco. A das mulheres. 

Quando mulheres grávidas atravessam deslocamentos sucessivos procurando um lugar onde parir; quando faltam medicamentos, água limpa, alimento e acompanhamento pré-natal; quando unidades neonatais trabalham acima de sua capacidade; quando mães não conseguem se alimentar adequadamente para amamentar; quando a infraestrutura de saúde reprodutiva de uma população é destruída, a violência já não alcança apenas as vidas que existem. Alcança as próprias condições para que outras vidas possam existir. 

Em abril de 2025, a Organização Mundial da Saúde estimava que aproximadamente 55 mil mulheres estavam grávidas em Gaza e que uma em cada três enfrentava uma gestação de alto risco. Cerca de 20% dos recém-nascidos nasciam prematuros, abaixo do peso ou com complicações que exigiam cuidados especializados.6 

A situação se deteriorou ainda mais. Em agosto de 2025, OMS, UNICEF, Programa Mundial de Alimentos e FAO alertaram que aproximadamente 55 mil gestantes e lactantes poderiam enfrentar níveis perigosos de desnutrição até meados de 2026, e que um em cada cinco bebês estava nascendo prematuro ou abaixo do peso.7 

Em setembro de 2025, o UNFPA relatava que quatro hospitais e 23 clínicas que atendiam aproximadamente 23 mil gestantes na Cidade de Gaza estavam ameaçados de interrupção das atividades. 40% das gestantes atendidas naquele contexto apresentavam desnutrição grave.8 

Já em 2026, mesmo após o cessar-fogo de outubro de 2025, o UNFPA continuava registrando uma em cada três gestações como de alto risco e acesso severamente limitado à saúde sexual e reprodutiva.9 

Não se trata de transformar mulheres palestinas apenas em corpos reprodutivos. Seria outra forma de apagá-las. Trata-se de compreender que a destruição de um povo alcança também os lugares onde a vida é gestada, cuidada e transmitida. 

Existe uma violência dirigida ao presente. E existe uma violência dirigida ao futuro. Gaza nos obriga a compreender ambas. 

Os números, embora necessários, são também insuficientes. 

Quantos mortos bastam? 

Quantas crianças? 

Quantos amputados? 

Quantos órfãos? 

Quantos médicos? 

Quantos jornalistas? 

Quantas mães? 

Existe algum número a partir do qual uma vida deixa de ser estatística e recupera, diante de nós, o direito de ser uma vida? 

O direito de se cansar 

A psicologia conhece alguma coisa sobre os mecanismos que tornam possível suportar o insuportável. Nós nos habituamos. Criamos distância. Desviamos o olhar. Transformamos sofrimento em informação. Depois transformamos informação em excesso de informação. 

E, finalmente, chamamos nossa incapacidade de continuar olhando de cansaço. 

Existe hoje algo que poderíamos chamar de fadiga de Gaza. As imagens já não circulam como antes. Os algoritmos mudam. Outros acontecimentos ocupam as manchetes. As pessoas dizem que não conseguem mais assistir. Eu compreendo o esgotamento. 

O que não podemos fazer é confundir o nosso esgotamento com o fim do sofrimento. O fato de termos parado de olhar não significa que eles tenham parado de sofrer. Há um privilégio brutal em poder cansar-se da tragédia que outra pessoa é obrigada a continuar vivendo. 

Para um palestino em Gaza, não há aplicativo a fechar, palavra a silenciar ou distância possível da própria realidade. Não há descanso do corpo, da fome, do luto, da ausência. Não há sequer como falar em estresse pós-traumático quando o “pós” ainda não chegou. O trauma não está apenas naquilo que aconteceu. Está naquilo que continua acontecendo. 

Nós podemos interromper as imagens. Eles não podem interromper a realidade. 

E é aqui que esses três anos dizem alguma coisa terrível sobre nós. 

Porque atrocidades dessa escala não dependem apenas daqueles que executam diretamente a violência. Dependem de estruturas políticas, econômicas e militares que permitem sua continuidade; de governos que fornecem apoio; de instituições que legitimam ou não conseguem impedir; de meios de comunicação que selecionam quais mortos terão biografia e quais serão apenas números; e de sociedades que pouco a pouco aprendem a considerar determinada quantidade de sofrimento aceitável. 

A desumanização nunca começa com cadáveres. Começa muito antes. 

Começa quando algumas vidas precisam provar permanentemente sua inocência para merecer luto. Começa quando uma criança deixa de ser criança e passa a ser apresentada como ameaça potencial. Começa quando a identidade de alguém funciona como justificativa antecipada para aquilo que poderá ser feito contra seu corpo. Começa quando aprendemos a perguntar o que uma população fez para que aquilo acontecesse com ela. 

Depois de três anos, já não há dúvida de que informação nunca nos faltou. 

Tínhamos. 

Vimos. 

Lemos. 

Ouvimos. 

Os próprios palestinos nos disseram. 

Jornalistas palestinos mostraram suas cidades enquanto elas desapareciam. Médicos narraram hospitais funcionando em condições extremas. Mães apresentaram seus filhos mortos às câmeras como se até mesmo o luto palestino precisasse apresentar provas. 

Gaza tornou-se uma atrocidade acompanhada praticamente em tempo real. E nunca existiu uma distância tão pequena entre testemunhar e continuar vivendo normalmente. Essa contradição deveria nos assombrar. 

Durante décadas perguntamos como sociedades inteiras puderam conviver com as grandes atrocidades do século XX. 

Como não perceberam? 

Como permitiram? 

Como continuaram suas vidas? 

Gaza retirou de nós o conforto dessas perguntas. Agora sabemos uma parte da resposta. 

A recusa de desaparecer 

E ainda assim, há algo que Gaza não permitiu destruir. 

Há três anos os palestinos insistem em existir. 

Continuam ensinando crianças. Continuam cozinhando quando existe algo para cozinhar. Continuam registrando nomes. Continuam escrevendo. Continuam contando histórias. Continuam amando. Continuam enterrando seus mortos quando conseguem encontrá-los. 

Continuam dizendo: estamos aqui. 

É aqui que chega o sumud, com tudo o que cabe dentro dessa palavra. Permanecer quando tudo trabalha para produzir desaparecimento. Continuar existindo quando a própria existência se torna uma forma de resistência. 

É afirmar humanidade justamente quando existe uma máquina política, militar e discursiva trabalhando para negá-la. Em outubro, quando completarmos três anos, haverá novamente números, retrospectivas, fotografias, discursos. Mas eu gostaria que fizéssemos outra coisa. 

Que disséssemos seus nomes. 

Que contássemos suas histórias. 

Que preservássemos seus livros, seus poemas, suas fotografias, suas receitas, suas universidades, suas casas, seus bairros, seus sotaques, suas memórias. 

Destruir um povo é também tentar apagar os vestígios de sua passagem pelo mundo, seus nomes, suas histórias, seus lugares, suas memórias, e uma das formas de resistência que ainda nos restam é justamente esta, não permitir o apagamento. 

Depois de três anos, ninguém poderá dizer que não sabia. 

A pergunta que ficará para nós será muito mais difícil. 

Sabíamos. E o que fizemos com aquilo que sabíamos? 

 

Rima Awada Zahra é libanesa-brasileira, psicóloga, escritora e coordenadora da pós-graduação em Psicologia e Migração da PUC Minas. É também coordenadora do PSIMIGRA, e da SOUT – Vozes em Movimento, iniciativas voltadas à atuação em saúde mental, migração e direitos humanos. 

 

Leituras complementares 

B’TSELEM. Clinging to What’s Left of Life: Palestinian Women Under Genocide in Gaza. 8 mar. 2026. 

COOK, Jonathan. How Israel Planned the Gaza Genocide Decades Ago. 11 jun. 2026. 

FINKELSTEIN, Norman G. Gaza’s Gravediggers: An Inquiry into Corruption in High Places. New York: OR Books, 2026. 

UNITED NATIONS POPULATION FUND – UNFPA. Gaza GBV Trend, January–December 2025. 29 jun. 2026. 

UNITED NATIONS. Convention on the Prevention and Punishment of the Crime of Genocide. 1948.

 

Notas de rodapé

1AMNESTY INTERNATIONAL. “You Feel Like You Are Subhuman”: Israel’s Genocide Against Palestinians in Gaza.
Londres: Amnesty International, 2024.

2B’TSELEM. Our Genocide. Jerusalém: B’Tselem, jul. 2025.

3 PHYSICIANS FOR HUMAN RIGHTS–ISRAEL. Genocide in Gaza: A Health-Centered Analysis. jul. 2025.

4UNITED NATIONS. Independent International Commission of Inquiry on the Occupied Palestinian Territory,
including East Jerusalem, and Israel. Relatório e análise jurídica sobre Gaza, 2025.

5 INTERNATIONAL COURT OF JUSTICE. Application of the Convention on the Prevention and Punishment of the
Crime of Genocide in the Gaza Strip (South Africa v. Israel). Order of 26 January 2024. Haia: ICJ, 2024.

6WORLD HEALTH ORGANIZATION. Healthy Beginnings, Hopeful Futures: On World Health Day WHO calls for an immediate ceasefire in Gaza. 7 abr. 2025.

7WORLD HEALTH ORGANIZATION; FAO; UNICEF; WFP. Famine confirmed for first time in Gaza. 22 ago. 2025.

8UNITED NATIONS POPULATION FUND – UNFPA. Attacks on Gaza City are destroying health and protection
services for pregnant women and survivors of violence. 15 set. 2025.

9UNITED NATIONS POPULATION FUND – UNFPA. Holding on to life: Restoring essential sexual and reproductive
health care in Gaza. 16 abr. 2026.

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