RELIGÃO E POLÍTICA

Fogueira eleitoral: Por que a religião “pegou” em 2026?

Avaliação do governo em baixa e temperatura morna das campanhas explicam a presença da religião em 2026 

Nossa Senhora: do Rio Parnaíba ao mar das redes sociais 

O tema da religião em eleições presidenciais não é novo na história política brasileira. Desde o final da ditadura civil-militar, o assunto esteve presente em todas as eleições, de 1989 a 2026. No entanto, em algumas conjunturas eleitorais, a religião “pegou mais”; ou seja, tornou-se agenda eleitoral (foi assim em 2010, 2018 e, agora, em 2026). Já em outras, “pegou menos”, ocupando, no máximo, o papel de coadjuvante. Isso ocorreu em 1989, 1994 e 2014. De 1998 a 2006, houve uma trégua, no bojo da aproximação entre o PT e setores evangélicos. Ao mesmo tempo, a filiação religiosa dos eleitores se cristalizou como uma predisposição de longo prazo, com católicos escolhendo majoritariamente a esquerda e evangélicos, a direita. 

Até agora, o clima eleitoral era de tédio generalizado. Lula (PT) fazia campanha com a segurança de quem está com a máquina pública nas mãos e disputa a sua sexta eleição, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) administrava o espólio político do pai e a ligeira vantagem nas simulações de segundo turno, como um time de futebol que toca a bola de lado apenas esperando o juiz apitar o fim do primeiro tempo. Porém, assim como no futebol, me perdoem o clichê, as eleições são caixinhas de surpresas e podem ser decididas em um único lance. Nossa Senhora Aparecida, a mais importante santa do catolicismo brasileiro – negra, é necessário enfatizar –, surgiria novamente. Dessa vez, não nas águas do Rio Paraíba do Sul, em São Paulo, como narra a crença religiosa, mas, sim, no mar de quase 280 milhões de smartphones existentes no Brasil. 

Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

Provando do próprio veneno 

A proposta, atribuída equivocadamente ao candidato Flávio Bolsonaro, de retirar o título de Padroeira do Brasil dado à santa católica na década de 1930, animou as redes sociais em uma campanha esvaziada de conteúdo político e eclipsada por denúncias de corrupção envolvendo todos os poderes da República. A tática não é nova: desde 1989, circula a informação de que Lula fecharia igrejas e perseguiria cristãos; em 2010, foi a vez de Dilma ser acusada de abortista; em 2018, Haddad voltaria a pagar os seus pecados respondendo sobre o suposto “pacto com o diabo” e o famigerado “kit gay”, apenas para citar alguns exemplos. Se o conteúdo não é novo, a novidade está no campo político que o utiliza e dele se beneficia. Pela primeira vez na história brasileira, a esquerda colhe frutos de uma fake news religiosa contra o seu principal adversário da direita. 

Como todo boato, não é possível determinar a sua origem. Pode ter sido o acaso ou a criação de algum marqueteiro merecedor do Cannes Lions, conhecido como o Oscar da publicidade. Não importa. O fato é que Flávio Bolsonaro se viu diante da constrangedora situação de ter que se explicar publicamente para um país cristão e em processo de transição religiosa. Confirmar a retirada significaria perder votos de católicos; negá-la suscitaria o rancor dos evangélicos. Mas ao que parece, Flávio perdeu votos dos dois lados, tanto de católicos quanto de evangélicos. Foi esse o impacto do episódio nas primeiras medições da Quaest. 

Terreno fértil 

Quais seriam, então, as condições que possibilitaram a presença da religião de modo tão intenso em 2026? Em meu livro recém-lançado, O Deus das urnas: evangélicos e católicos em eleições presidenciais, uma das hipóteses sustenta que a avaliação do governo possui papel fundamental nesse processo. Ao que tudo indica, avaliações de governo demasiadamente positivas ou negativas abrem espaço para que temas alheios aos grandes debates nacionais emplaquem como agenda eleitoral. Nas três eleições em que a religião dominou a agenda, a conjuntura era muito semelhante. Em 2010, Lula deixava o governo com recordes de aprovação. Em 2018, Temer registrava recordes de rejeição. Já em 2026, o governo Lula é mais reprovado do que aprovado. Porém, somam-se a isso a inanição das campanhas, as denúncias de corrupção abafando o noticiário e o amplo conhecimento dos eleitores sobre os dois principais candidatos: Lula buscando a sua segunda reeleição e Flávio significando a volta do bolsonarismo ao governo. Não há novidades para os eleitores. A religião, nesse caso, ocupou a função de sinalizar o espectro ideológico de cada candidato ao eleitorado. 

Assim, a religião “pegou” em 2026 devido a uma conjunção de fatores: a avaliação do governo Lula em baixa, a morosidade das campanhas, o noticiário sequestrado pelo tema da corrupção e o amplo conhecimento, por parte dos eleitores, das principais candidaturas em jogo. Resta saber se ela terá o poder de eleger ou derrotar algum dos candidatos. Mas, independentemente disso, é necessário questionar tais métodos, que podem trazer consequências negativas no futuro. Em vez de fomentar o debate sobre liberdade religiosa, o papel da religião nas eleições e a promoção do respeito e da tolerância, o “Fla-Flu” divino pode levar ao acirramento das disputas entre católicos e evangélicos, que já acontecem no campo simbólico e político há anos, levando-as à violência física e demais formas de preconceito social. Nesse sentido, qualquer que seja o resultado da eleição, toda a sociedade brasileira teria uma derrota acachapante. 

 

Alexandre Landim é Dr. em Sociologia, autor do livro “O Deus das urnas: evangélicos e católicos em eleições presidenciais no Brasil” (Telha, 2026).

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