Nossa Senhora e a disputa do sagrado nacional na reta final da campanha de 2026
No Brasil, especialmente após a redemocratização, a expansão da presença evangélica na esfera pública e a formação de organizações político-religiosas produziram novas modalidades de articulação entre fé, representação política e disputa institucional
“Quase tudo o que eles faziam era por medo.
Eu conheço isso, porque convivi com homens:
começam com medo, coitados e terminam
por fazer o que não presta, quase sem querer”
(O Auto da Compadecida, Ariano Suassuna)
Nos últimos dias da campanha eleitoral de 2026, Nossa Senhora Aparecida ocupa o centro de uma disputa política em torno dos símbolos religiosos por meio dos quais a comunidade nacional é representada. A controvérsia foi desencadeada pela circulação de informações que associavam a candidatura de Flávio Bolsonaro à possibilidade de alteração do estatuto da santa como Padroeira do Brasil, embora essa associação tenha sido posteriormente negada pelo candidato e corrigida pela GloboNews. O episódio, contudo, não desapareceu com a correção, ao contrário, foi ampliado pelas manifestações do próprio Flávio, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e de Luiz Inácio Lula da Silva, recolocando no interior da disputa eleitoral um conflito sobre diferentes formas de interpretação do sagrado da comunidade nacional. Para compreender esse processo, a expressão “guerra dos deuses” possui uma origem conceitual mais precisa do que seu uso corrente como “metáfora para conflitos culturais”.
Na sociologia de Max Weber, a “guerra dos deuses” está relacionada ao processo de racionalização e à autonomização das diferentes esferas de valor na modernidade. Em A ciência como vocação, Weber observa que os “valores últimos” não podem ser reconciliados por meio de uma demonstração científica, pois diferentes ordens de valor entram em conflito umas com as outras: “diferentes deuses se combatem”, e esse combate não possui uma “solução definitiva produzida pela ciência” (Weber, 2010; 2011). A expressão não significa, portanto, uma simples divergência de opiniões, mas a existência de ordens valorativas incompatíveis, diante das quais indivíduos e grupos são obrigados a realizar “escolhas últimas”. A formulação está articulada ao que Weber denomina “desencantamento do mundo” quando à medida que a modernidade racionaliza a vida social, os antigos deuses não desaparecem simplesmente, mas reaparecem sob princípios e esferas de sentido que reivindicam validade própria. A “guerra dos deuses” corresponde, assim, ao conflito entre diferentes concepções acerca do que deve ser considerado verdadeiro, justo, legítimo ou digno de orientar a existência social (Weber, 2010; 2011).
A contribuição de Michael Löwy desloca essa formulação ao utilizá-la para interpretar as relações entre religião e política na América Latina. Em A guerra dos deuses: religião e política na América Latina, publicado em 2000, Löwy transforma a formulação weberiana em uma chave histórico-sociológica para compreender a presença das religiões na arena política latino-americana. A “guerra dos deuses” deixa, então, de se referir apenas à estrutura abstrata do conflito entre valores e passa a designar “disputas históricas concretas entre diferentes projetos religiosos e políticos” (Löwy, 2000, p. 99). Em sua análise sobre o cristianismo da libertação, as comunidades cristãs, os movimentos populares e as transformações políticas latino-americanas, o autor demonstra que a religião não deve ser compreendida como uma esfera isolada da sociedade, nem como simples reflexo das estruturas econômicas e políticas. As linguagens religiosas podem produzir projetos distintos de sociedade e participar ativamente das disputas pela definição do futuro coletivo (Löwy, 2000). Nesse sentido, a “guerra dos deuses” não corresponde simplesmente a uma “guerra cultural”, mas ao confronto entre diferentes formas de conferir significado último à ordem social e política, nas quais entram em disputa concepções de “bem comum”, “justiça”, “autoridade” e da própria legitimidade do poder são puxadas pela “experiência última”.
É nesse ponto que a utilização do conceito para compreender a política brasileira recente permite uma ampliação teórica. No Brasil, especialmente após a redemocratização, a expansão da presença evangélica na esfera pública e a formação de organizações político-religiosas produziram novas modalidades de articulação entre fé, representação política e disputa institucional. A emergência de partidos, parlamentares e movimentos que apresentam determinadas pautas políticas como defesa de “valores cristãos” permite observar a transformação de questões políticas em questões de ordem moral e, em determinadas circunstâncias, em questões de ordem sagrada. O conflito não ocorre apenas em torno de políticas públicas ou de diferenças culturais, mas envolve a tentativa de estabelecer quais valores devem ocupar uma posição superior na organização da vida coletiva. A disputa política passa a envolver não somente interesses materiais ou posições ideológicas, mas também diferentes regimes de sacralização da vida pública.
No caso aqui analisado, tomo a “guerra dos deuses” como um conceito analítico, e não como uma metáfora equivalente à noção contemporânea de “guerra cultural”. A diferença é substantiva. A noção de “guerra cultural” pode descrever a polarização em torno de costumes, identidades, comportamentos e valores. Já a “guerra dos deuses”, em sentido weberiano e löwyano, permite perguntar de que maneira determinados valores são investidos de uma autoridade transcendente e passam a ser apresentados como fundamentos últimos da ordem política. Em trabalhos anteriores sobre o “cristofascismo brasileiro”, argumentei que a articulação entre categorias teológicas, práticas políticas e estratégias de poder não pode ser reduzida à instrumentalização eleitoral da religião. Determinadas linguagens políticas passam a operar por meio de categorias religiosas que conferem sentidos de missão, perseguição, eleição, sacrifício e salvação às disputas públicas (Py, 2020). O que se propõe, portanto, é tomar a “guerra dos deuses” como uma situação na qual diferentes projetos político-religiosos procuram estabelecer a definição do legítimo mediante a apresentação de seus próprios valores como valores últimos. Ela constitui, assim, uma forma historicamente situada de disputa pela hegemonia na sociedade, na qual a arena eleitoral funciona como espaço privilegiado de tradução política de conflitos religiosos.
Nas eleições brasileiras contemporâneas, essa perspectiva permite compreender por que determinadas disputas ultrapassam aquilo que normalmente se denomina polarização ou “guerra cultural”. A campanha eleitoral pode converter-se em espaço de atualização de antagonismos religiosos nos quais candidatos, igrejas, pastores, parlamentares e movimentos procuram definir quem representa a verdadeira ordem moral, quem encarna determinados valores cristãos e quem deve ser identificado como ameaça à comunidade política. A mobilização de categorias como perseguição religiosa, defesa da família, proteção das crianças, autoridade pastoral, liberdade religiosa, nação cristã ou “restauração moral” não constitui necessariamente apenas uma linguagem eleitoral instrumental. Em determinadas conjunturas, ela participa da construção de universos de sentido nos quais a escolha política adquire uma dimensão soteriológica ou escatológica. É justamente nesse ponto que a noção de “guerra dos deuses” se torna mais produtiva do que uma descrição genérica de “guerra cultural”, pois ela permite investigar como a disputa eleitoral articula instituições religiosas, partidos, lideranças e públicos em torno de diferentes concepções acerca da ordem legítima do mundo. Assim, entre Weber e Löwy, o conceito pode ser reconstruído como ferramenta para analisar a passagem do conflito entre valores últimos à sua inscrição histórica nas instituições, discursos e práticas políticas brasileiras, especialmente no ciclo eleitoral contemporâneo.
1.O projeto de Lei 2.623/2007 colocando Nossa Senhora como padroeira do “país católicos”
Um episódio particularmente significativo para compreender o reposicionamento da “guerra dos deuses” no Brasil ocorreu ainda em 2007, com o Projeto de Lei 2.623. Apresentado pelo então deputado federal e pastor evangélico Victório Galli, à época filiado ao PMDB de Mato Grosso, o projeto propunha alterar a Lei nº 6.802, de 1980, substituindo a denominação de Nossa Senhora Aparecida como “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O projeto foi arquivado em agosto de 2008, e não possui relação com Flávio Bolsonaro. Sua formulação, entretanto, permite observar, já naquele momento, uma disputa em torno dos fundamentos religiosos da representação nacional.

Em termos weberianos, não se tratava simplesmente de uma divergência entre grupos religiosos, mas de uma concorrência entre diferentes ordens valorativas que buscavam estabelecer os limites entre religião, Estado e nação. A iniciativa de Galli de deslocar Nossa Senhora Aparecida do lugar de símbolo religioso nacional para o de símbolo específico dos católicos revelava, assim, que setores evangélicos já participavam da disputa pela definição dos símbolos da comunidade política brasileira. O próprio argumento apresentado pelo autor do projeto recorria à condição laica do Estado brasileiro e defendia a alteração da legislação para evitar, em sua interpretação, um privilégio religioso.
É nesse sentido que o episódio de 2007 pode ser localizado como parte de um processo mais amplo de reconfiguração do universo político-religioso brasileiro, anterior à configuração política que ganharia maior visibilidade com o bolsonarismo. A disputa em torno de Nossa Senhora Aparecida não deve ser reduzida àquilo que posteriormente passou a ser denominado “guerra cultural”, pois incide sobre os símbolos religiosos da comunidade nacional. De um lado, encontrava-se a permanência de Nossa Senhora Aparecida como símbolo religioso associado à história do catolicismo no país; de outro, emergia uma formulação evangélica que, mobilizando o princípio constitucional da laicidade, procurava restringir o alcance nacional desse símbolo. A “guerra dos deuses” aparecia, portanto, não como desaparecimento do religioso diante da secularização, mas justamente como sua reentrada no conflito político por meio da disputa acerca de quais símbolos poderiam ocupar o espaço público e representar a nação. Assim, o episódio de 2007 é relevante porque permite perceber que essa reconfiguração não nasceu com o bolsonarismo, mas já se expressava anteriormente como deslocamento dos conflitos religiosos para o interior da disputa pela própria definição simbólica do Brasil.
2. Os conflitos eleitorais de 2026: Nossa Senhora na GloboNews e Flávio
É nesse momento que a noção de “guerra dos deuses” ganha visibilidade nas eleições de 2026, a partir da controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida. O episódio não corresponde simplesmente a uma “guerra cultural”, mas envolve uma disputa sobre o lugar do religioso na definição da comunidade nacional. A controvérsia ocorreu em uma conjuntura na qual Flávio Bolsonaro havia declarado que, caso fosse eleito, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”, ao mesmo tempo, em que pastores como Silas Malafaia e outros segmentos evangélicos ampliavam sua presença na disputa eleitoral de 2026. Por outro lado, setores da Igreja Católica passaram a se manifestar publicamente em torno de democracia, soberania e eleições. Bispos do Regional Norte 1 da CNBB, que reúne Amazonas e Roraima, por exemplo, divulgaram uma mensagem defendendo a soberania, a democracia e o voto consciente, sem citar candidatos.
Nesse contexto, de um lado encontram-se atores evangélicos e políticos associados ao setor bolsonarista que mobilizam uma linguagem da teologia do domínio; de outro, setores católicos que reafirmam a presença de Nossa Senhora Aparecida como símbolo nacional que ultrapassa os limites confessionais. A disputa dos deuses adquire, assim, uma dimensão particularmente expressiva quando a imagem de Nossa Senhora Aparecida (a Padroeira Negra do país, cuja força simbólica articula catolicismo, nacionalidade e uma longa história de devoção popular) aparece tensionada no interior de uma disputa sobre os símbolos religiosos da comunidade nacional.
A questão central, portanto, não é estabelecer se Flávio Bolsonaro pretendia ou não retirar Nossa Senhora Aparecida do lugar de Padroeira do Brasil (intenção que ele negou e cuja associação com o PL de 2007 não encontra sustentação documental), mas observar como diferentes tradições religiosas disputam, em uma conjuntura eleitoral, a autoridade para sacralizar a própria ideia de Brasil. A associação entre Flávio e o projeto de 2007 surgiu a partir de uma controvérsia midiática posteriormente corrigida pela GloboNews e disseminou-se nas redes sociais, tornando-se um objeto político em si mesmo. É nesse ponto que a “guerra dos deuses” assume sua forma mais densa quando, de um lado, uma linguagem evangélica procura inscrever o nome de Jesus Cristo no próprio fundamento político da nação e encontra, no campo eleitoral, atores como Flávio Bolsonaro e pastores mobilizados como Silas Malafaia. De outro, a defesa de Nossa Senhora Aparecida como símbolo nacional recoloca em questão a possibilidade de circunscrever um símbolo mariano ao universo exclusivamente confessional. O que se disputa são diferentes formas de inscrição do religioso no nacional. Assim, a “guerra dos deuses” se constitui justamente nessa concorrência pela definição do que pode ser sagrado e nacional no Brasil, em um regime no qual igrejas, lideranças religiosas, candidaturas, redes sociais e meios de comunicação participam simultaneamente da produção e da circulação desses símbolos.
3. A manifestação de bispos católicos e a intriga entre Flávio Bolsonaro e a CNBB
A controvérsia ganhou nova dimensão quando, na mesma semana, bispos do Regional Norte 1 da CNBB, que reúne Amazonas e Roraima, divulgaram um vídeo com orientações aos eleitores. A mensagem abordava a conjuntura eleitoral a partir de temas como soberania nacional, democracia, voto consciente, proteção da Amazônia e uso político das igrejas. Os religiosos também alertavam contra a transformação das igrejas em espaços de pedido de votos e afirmavam que a Igreja Católica não apoiava partido político.
Destaca-se que a manifestação ocorreu em um ambiente no qual soberania e democracia já ocupavam lugar importante no discurso eleitoral de Lula e foi rapidamente incorporada à disputa em torno de Nossa Senhora Aparecida. Como registrou a imprensa, a circulação do vídeo contribuiu para que surgisse, nas redes sociais, a interpretação de que setores da Igreja Católica estariam reagindo à possibilidade de uma vitória de Flávio Bolsonaro e a uma eventual tentativa de restringir o caráter nacional atribuído à Padroeira do Brasil. Contudo, o conteúdo divulgado pelos bispos não fazia referência a Flávio Bolsonaro nem afirmava que o candidato pretendesse alterar o estatuto de Nossa Senhora Aparecida.
A partir daí, a disputa assumiu a forma de uma controvérsia política entre Flávio Bolsonaro e a CNBB. O candidato passou a afirmar que setores da entidade estariam auxiliando o PT na disseminação da informação sobre a suposta retirada do título de Padroeira do Brasil. A CNBB respondeu negando ter produzido, autorizado ou participado da elaboração ou divulgação de desinformação relacionada ao processo eleitoral e afirmou que “a mentira não se combate com outra mentira”. A entidade também reiterou que não integra estruturas político-partidárias e que suas manifestações eleitorais decorrem de sua missão pastoral e de princípios como dignidade humana, bem comum, democracia e liberdade de consciência.
É nesse deslocamento que a “guerra dos deuses” ganha uma dimensão iluminadora. Já não se trata apenas da disputa em torno de um símbolo católico, mas da concorrência entre diferentes autoridades religiosas e políticas pela definição do lugar da religião na comunidade nacional. De um lado, uma candidatura de fortes traços evangélicos no qual mobiliza uma linguagem de sacralização cristã da nação e, diante da controvérsia, confronta publicamente a principal instância de representação institucional do episcopado católico; de outro, uma instituição católica reafirma sua autonomia diante da acusação e preserva a defesa da democracia e da soberania como referências de sua intervenção pública. A controvérsia, portanto, revela uma disputa pela legitimidade de falar em nome da nação, fazendo com que a questão de Nossa Senhora Aparecida ultrapasse o campo estritamente devocional e se converta em um conflito sobre quem possui autoridade para definir os vínculos entre o divino, a política e a democracia no Brasil.
4. Lula na Band, em 27/09/2026: a defesa de Nossa Senhora
A controvérsia em torno de Nossa Senhora Aparecida alcançou, no dia 27 de setembro de 2026, uma nova versão com a entrevista de Luiz Inácio Lula da Silva ao programa Canal Livre, da BandNews TV. Novamente, em meio à circulação das notícias que associavam Flávio Bolsonaro à possibilidade de alteração do estatuto da santa como Padroeira do Brasil, Lula afirmou que “mexer com Nossa Senhora Aparecida não é aceitável”. Também disse respeitar a religião evangélica e defendeu que as religiões católica e de matriz africana fossem igualmente respeitadas. Em seguida, diante da pergunta sobre a veracidade da informação, afirmou não saber se se tratava de fake news, mas sustentou que Nossa Senhora permaneceria como Padroeira do Brasil porque “o povo brasileiro quer e tem fé”.
A formulação de Lula é muito significativa para a “guerra dos deuses” porque desloca a defesa de Nossa Senhora do âmbito exclusivamente católico para o terreno do nacional de parte dos afetos nacionais amplos. O argumento não se limita à preservação de uma devoção religiosa, mas associa a permanência do título à fé popular e, desse modo, reinscreve Nossa Senhora Aparecida em uma gramática na qual religião popular, nacionalidade e soberania se aproximam. A Santa Negra é reativada para ocupar o centro da disputa sobre quem pode definir os símbolos por meio dos quais a nação se reconhece, a poucos dias do primeiro turno.
Para sustentar sua posição, Lula recuperou ainda o episódio de 1995, quando o bispo da Igreja Universal do Reino de Deus Sérgio Von Helder chutou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante um programa de televisão. Ao retomar aquele acontecimento no contexto da disputa eleitoral de 2026, Lula aproxima dois momentos distintos da história recente das relações entre religião e política no Brasil por meio da memória da violência contra um símbolo religioso. A referência desloca a controvérsia atual para uma memória mais longa de conflitos entre diferentes tradições cristãs em torno dos símbolos religiosos nacionais. O passado é, assim, mobilizado para conferir espessura histórica ao conflito presente. Isso porque a disputa não se limita à oposição entre candidatos, partidos ou projetos eleitorais, mas envolve diferentes formas de compreender o lugar do sagrado na comunidade nacional e a maneira pela qual determinadas práticas de violência religiosa são lembradas e politicamente atualizadas.
Com isso, Lula desenha uma oposição entre, de um lado, setores evangélicos politicamente mobilizados em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro e de lideranças como Silas Malafaia, associados a uma linguagem na qual o Brasil pode ser pensado como pertencente ao “Senhor Jesus”. De outro, a defesa de Nossa Senhora Aparecida recoloca a imagem da Padroeira Negra como símbolo que, para seus defensores e devotos, ultrapassa fronteiras confessionais e integra a memória nacional brasileira. É uma defesa de algo mais singelo, é a defesa da “mãe sagrada”, é um messianismo de Nossa Senhora. Quando Lula afirma que “o povo quer e tem fé”, portanto, sua sinalização não apenas responde à controvérsia, mas participa da própria disputa messiânica em torno das maternidades, as famílias, as tradições populares que representam o Brasil.
O discurso de Lula também amplia o campo da controvérsia ao mencionar o respeito às religiões de matriz africana. Com isso, a disputa em torno de Nossa Senhora deixa de aparecer somente como oposição entre catolicismo e evangelicalismo e pode ser lida no interior de uma paisagem religiosa brasileira mais ampla, na qual diferentes tradições disputam, negociam e compartilham linguagens de proteção, maternidade, ancestralidade e pertencimento. Nesse sentido, a “guerra dos deuses” potencializada pelas eleições de 2026 não se reduz a uma oposição binária entre setores evangélicos e católicos, mas ela envolve diferentes formas de inscrição do sagrado no imaginário nacional e diferentes maneiras de definir quais símbolos podem falar em nome do Brasil. A controvérsia coloca, assim, no centro da disputa eleitoral a delicada questão de quem pode diminuir a “mãe sagrada” mesmo em uma sociedade cada vez mais plural em termos de religião.
Conclusão: Nossa Senhora e sua “diminuição” no âmbito do cenário eleitoral
A trajetória construída neste artigo permite observar que a “guerra dos deuses” não constitui uma metáfora ocasional para nomear a polarização religiosa brasileira, mas uma forma situada de disputa pela definição dos valores últimos que podem organizar a comunidade nacional. Do PL 2.623/2007, apresentado pelo pastor Victório Galli, à controvérsia de setembro de 2026, em torno da permanência de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil, é possível acompanhar o deslocamento de uma disputa inicialmente localizada entre diferentes tradições cristãs para o centro da competição eleitoral. Em 2007, a proposta de circunscrever Nossa Senhora ao universo dos “brasileiros católicos apostólicos romanos” já colocava em questão a extensão nacional de um símbolo católico; em 2026, essa antiga controvérsia foi reativada pela circulação digital, pela intervenção da GloboNews, pelo confronto entre Flávio Bolsonaro e a CNBB e, posteriormente, pela intervenção de Lula.
A manifestação dos bispos em defesa da soberania e da democracia, a afirmação de Flávio de que o Brasil deveria ser reconhecido como pertencente ao “Senhor Jesus Cristo” e a resposta de Lula de que Nossa Senhora “vai ser padroeira do Brasil porque o povo quer e tem fé” revelam diferentes modos pelos quais as disputas religiosas atravessam a política nacional. A questão, portanto, não se encerra na existência ou não de um projeto legislativo contemporâneo contra Nossa Senhora Aparecida (projeto que não se comprovou e cuja associação com Flávio Bolsonaro foi desmentida), mas se desloca para uma questão mais profunda quando atores religiosos e políticos disputam a autoridade para definir os símbolos por meio das quais o Brasil pode ser representado como comunidade nacional, disputam também a própria definição do sagrado nacional.
A dimensão eleitoral dessa disputa tornou-se ainda mais evidente na reta final do primeiro turno. A pesquisa Quaest divulgada em 28 de setembro, registrou Lula passando de 43% para 48% entre os eleitores católicos, enquanto Flávio Bolsonaro oscilou de 27% para 29% nesse segmento; no cenário geral de primeiro turno, Lula apareceu com 39% e Flávio com 34%. O levantamento ouviu 2.004 eleitores, entre 24 e 27 de setembro. A pesquisa foi realizada em meio à circulação da controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida, mas seus dados, por si sós, não permitem estabelecer uma relação causal entre o episódio religioso e a alteração das intenções de voto.
O movimento das campanhas, entretanto, mostra que o símbolo de Nossa Senhora Aparecida passou a ser tratado como elemento relevante da disputa. Em 28 de setembro, Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas ergueram juntos uma imagem da santa durante um ato político no centro de São Paulo, depois da controvérsia e da manifestação da CNBB. O gesto ocorreu após Flávio ter acusado setores da entidade de participação na disseminação da informação falsa e depois de a CNBB negar essa acusação.
O gesto pode ser compreendido, no plano da disputa simbólica, como uma tentativa de recompor a relação da candidatura com o imaginário católico justamente depois de sua associação pública à controvérsia sobre a Padroeira. Não é necessário, contudo, atribuir uma intenção subjetiva aos atores para observar o significado político do gesto: ao erguer a imagem de Nossa Senhora, a campanha reinscreveu a santa no centro da própria cena eleitoral. Desse modo, a imagem de Nossa Senhora Aparecida termina o percurso analisado aqui ocupando uma posição paradoxal quando de um lado, é objeto de uma disputa entre diferentes projetos de sacralização do Brasil e do outro, converte-se em símbolo cuja força política é reconhecida pelos próprios atores que estiveram no centro da controvérsia.
A “guerra dos deuses”, na reta final das eleições de 2026, revela-se, assim, como uma disputa pela definição do sagrado nacional. Nossa Senhora Aparecida, a Padroeira Negra do Brasil, torna-se uma das imagens privilegiadas dessa luta pela autoridade de dizer o que é, afinal, o Brasil. Mas sua força não deriva apenas do título jurídico ou da tradição institucional que a reconhece como Padroeira, mas ela se encontra também na capacidade de sua imagem circular entre devoção, memória, território, maternidade e pertencimento popular.
Afinal, não se mexe impunemente com a “mãe sagrada” de um país cortado por rios e atravessado pelas águas doces: Nossa Senhora Aparecida, em diálogo com os múltiplos imaginários de maternidade, proteção e cuidado que também encontram em Oxum uma de suas expressões mais profundas, habita uma memória religiosa que transborda fronteiras confessionais e póvoa diferentes lugares, tradições e comunidades do Brasil. Por isso, seja justamente no ambiente da “guerra dos deuses”, mexer com a Padroeira seja também tocar em uma das águas mais sensíveis do imaginário popular brasileiro.
Fábio Py é doutor em História pela UERJ e em Teologia pela PUC-RIO. Coordenador do RE-CID – Grupo de Estudos Religião e Cidade, professor adjunto do PPGSP – IUPERJ -UCAM.
Referências bibliográficas:
AGÊNCIA CÂMARA DE NOTÍCIAS. Projeto torna Nossa Senhora padroeira apenas dos católicos. Brasília, DF, 14 mar. 2008. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/114726-projeto-torna-nossa-senhora-padroeira-apenas-dos-catolicos/. Acesso em: 28 set. 2026.
BRASIL. Câmara dos Deputados. Projeto de Lei nº 2.623, de 2007. Altera a redação da Lei nº 6.802, de 30 de junho de 1980. Brasília, DF: Câmara dos Deputados, 2007. Disponível em: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=380897. Acesso em: 28 set. 2026.
BBC NEWS BRASIL. “Soberania” no altar: falas de bispos católicos e rumor sobre Nossa Senhora viralizam e viram ativo da campanha de Lula na reta final da eleição. São Paulo, 26 set. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/. Acesso em: 28 set. 2026.
FOLHA DE S.PAULO. Imagem de Nossa Senhora apanha na TV. São Paulo, 31 dez. 1995. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/12/31/revista_da_folha/13.html. Acesso em: 28 set. 2026.
FOLHA DE S.PAULO. Flávio Bolsonaro desmente informação sobre Nossa Senhora. São Paulo, 25 set. 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/09/campanha-de-flavio-bolsonaro-ve-estrago-com-noticia-falsa-sobre-nossa-senhora-e-tenta-conter-danos.shtml. Acesso em: 28 set. 2026.
FOLHA DE S.PAULO. Flávio Bolsonaro ergue imagem de Nossa Senhora e acena à CNBB após atribuir fake news à entidade. São Paulo, 28 set. 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/09/flavio-bolsonaro-ergue-imagem-de-nossa-senhora-e-acena-a-cnbb-apos-atribuir-fake-news-a-entidade.shtml. Acesso em: 28 set. 2026.
LÖWY, Michael. A guerra dos deuses: religião e política na América Latina. Petrópolis: Vozes, 2000.
PY, Fábio Murta de Almeida. Bolsonaro’s Brazilian Christofascism during the Easter period plagued by Covid-19. International Journal of Latin American Religions, v. 4, n. 2, p. 318-334, 2020. DOI: 10.1007/s41603-020-00120-4.
UOL. Entenda a polêmica envolvendo Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida. São Paulo, 25 set. 2026. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/09/25/globonews-corrige-fala-e-nega-ligacao-de-flavio-a-projeto-sobre-padroeira.ghtm. Acesso em: 28 set. 2026.
UOL. CNBB reage a Flávio: “Mentira não se combate com outra mentira”. São Paulo, 27 set. 2026. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/09/27/cnbb-reage-a-flavio-mentira-nao-se-combate-com-outra-mentira.ghtm. Acesso em: 28 set. 2026.
UOL. “Mexer com Nossa Senhora Aparecida não é aceitável”, diz Lula. São Paulo, 27 set. 2026. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2026/09/27/lula-esse-negocio-de-mexer-com-nossa-senhora-aparecida-nao-e-aceitavel.htm. Acesso em: 28 set. 2026.
UOL. Quaest: Lula avança entre católicos, evangélicos e mulheres após polêmica sobre Nossa Senhora Aparecida. São Paulo, 28 set. 2026. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/09/28/lula-avanca-entre-catolicos-evangelicos-e-mulheres-apos-fim-das-bets.ghtm. Acesso em: 28 set. 2026.
WEBER, Max. Ciência e política: duas vocações. São Paulo: Cultrix, 2011.
WEBER, Max. A ciência como vocação. Em: WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. Rio de Janeiro: LTC, 2010. p. 90-110.

