Religião, poder e disputa pelo imaginário nacional
Nos últimos tempos, o debate público brasileiro tem sido atravessado por controvérsias envolvendo a figura de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil. Diante desse cenário, impõe-se uma questão fundamental: por que uma disputa aparentemente religiosa em torno de Nossa Senhora Aparecida adquiriu dimensão política?
A disputa em torno de símbolos religiosos vai além da fé: em uma sociedade onde religião e vida pública se cruzam, ela também expressa diferentes projetos de nação. Associada à própria identidade brasileira ao longo do século XX, Nossa Senhora Aparecida ocupa um lugar singular nessa disputa, fazendo com que qualquer controvérsia em torno de sua figura alcance o campo do imaginário nacional.
Esse movimento ocorre em meio à crescente presença de setores evangélicos na política e no debate público. Embora o evangelicalismo seja diverso e a participação religiosa na política não represente, por si só, uma ameaça ao Estado laico, a questão ganha outra dimensão quando determinadas correntes passam a defender a reorganização da sociedade a partir de uma visão religiosa específica. Assim, a controvérsia ultrapassa o campo devocional: o que está em jogo é também a definição simbólica do Brasil, seus valores e os limites da relação entre religião e poder público.
Para compreender esse movimento, é necessário recorrer a um conceito que ganhou espaço no debate sobre a relação contemporânea entre cristianismo e política: a teologia do domínio. Mais do que identificar automaticamente essa corrente com qualquer grupo religioso ou movimento político, interessa compreender suas origens, seus fundamentos e a concepção de sociedade e de poder que ela expressa. É a partir dessa perspectiva que podemos examinar em que medida determinadas ideias sobre a presença do cristianismo na esfera pública ajudam a iluminar as disputas que vêm ocorrendo no Brasil.
O que é a Teologia do domínio
A Teologia do Domínio emergiu nos Estados Unidos na segunda metade do século XX, inicialmente vinculada ao chamado Christian Reconstructionism e, posteriormente, reelaborada por diferentes correntes do evangelicalismo e do movimento carismático. Seu desenvolvimento ocorreu em meio às profundas transformações sociais e culturais que atravessaram a sociedade norte-americana a partir das décadas de 1960 e 1970, incluindo o avanço da secularização (maior separação entre o Estado e as instituições religiosas), a luta pelos direitos civis, a revolução sexual, o feminismo e a transformação do papel da religião na educação e na vida pública. Em oposição à ideia de que a fé cristã deveria permanecer restrita à esfera privada ou eclesial, essa corrente passou a defender que os cristãos teriam um mandato bíblico para ocupar, influenciar e transformar as principais estruturas da sociedade, como governo, educação, mídia, economia e cultura, segundo princípios considerados derivados da Bíblia.
É nesse mesmo período histórico, embora em contexto geográfico e social completamente distinto, que ganha força na América Latina outra importante corrente cristã: a Teologia da Libertação. Enquanto esta se desenvolveu a partir da realidade de pobreza, desigualdade e exclusão social latino-americana, propondo uma leitura da fé orientada pelo compromisso com os pobres e pela transformação das estruturas de injustiça, a Teologia do Domínio partiu de outra premissa: a necessidade de recuperar a influência cristã sobre as estruturas que organizam a sociedade.
São, portanto, duas respostas teológicas distintas às grandes transformações de seu tempo e duas concepções diferentes sobre o lugar do cristianismo na vida social: uma privilegia a transformação da realidade a partir dos grupos socialmente marginalizados; a outra enfatiza a transformação das estruturas de poder a partir da presença cristã em suas instâncias de autoridade.
Essa perspectiva ajuda a compreender uma mudança importante na relação entre religião e política: a política deixa de ser vista apenas como espaço de representação de interesses religiosos e passa a ser concebida como parte de uma missão espiritual de transformação da sociedade. É nesse deslocamento que a ideia de uma “guerra espiritual” pode adquirir dimensão política: adversários deixam de representar apenas projetos diferentes de sociedade e passam, em determinadas narrativas, a ser identificados com forças que ameaçariam uma determinada ordem moral cristã.
No Brasil, essa linguagem encontrou expressão particularmente visível no campo político recente. Em fevereiro de 2024, durante um ato na Avenida Paulista, a então ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro afirmou:
“Por um bom tempo fomos negligentes ao ponto de falarmos que não poderíamos misturar política com religião, e o mal ocupou o espaço. Chegou o momento da libertação. Eu creio em um Deus todo-poderoso capaz de restaurar e curar nossa nação.”
A fala é reveladora porque apresenta a presença religiosa na política não apenas como uma escolha de participação cidadã, mas como resposta a uma suposta ocupação do espaço público pelo “mal”. Pesquisadores e analistas ouvidos à época interpretaram o discurso como expressão de uma concepção de supremacia cristã e de tensão com a laicidade do Estado.
É importante, contudo, não transformar essa relação em uma equivalência automática: nem todo evangélico, nem todo pentecostal e nem todo político que mobiliza referências cristãs adere à Teologia do Domínio. A questão é identificar quando determinadas ideias, como a necessidade de “ocupar” a política, a concepção de uma batalha entre o bem e o mal e a associação entre a restauração nacional e uma determinada ordem cristã, aproximam o discurso político de uma lógica dominionista.
O ponto crítico, portanto, não está na participação dos religiosos na política, que é legítima em uma democracia pluralista, mas na possibilidade de que uma determinada interpretação religiosa passe a reivindicar autoridade para definir a moral pública, a identidade nacional e os próprios limites de atuação do Estado. É nessa fronteira entre fé, poder e projeto de sociedade que a Teologia do Domínio se torna uma chave de leitura para compreender parte das disputas políticas e culturais que vêm ocorrendo no Brasil.
Nossa senhora e o imaginário nacional
Nossa Senhora Aparecida ocupa um lugar singular na história brasileira porque seu significado ultrapassa as fronteiras da devoção católica. Ao longo do século XX, especialmente a partir de sua proclamação oficial como Padroeira do Brasil em 1930, a imagem foi progressivamente incorporada pelo Estado e pelas narrativas oficiais como um dos pilares da construção simbólica da nacionalidade.
A Padroeira passou a representar não apenas um dogma eclesial, mas uma síntese cultural da própria brasilidade, associada ao acolhimento, à coesão social, ao pertencimento coletivo e à ideia de proteção e unidade nacional.
É justamente por carregar essa dimensão simbólica que as controvérsias em torno de sua figura adquirem densidade política. A rejeição ao culto de santos e ao uso de imagens é uma objeção teológica histórica em determinadas tradições protestantes, fundamentada na interpretação do Segundo Mandamento bíblico sobre a proibição da idolatria. No entanto, quando atravessadas pela lógica da Teologia do Domínio, essas divergências doutrinárias mudam de escala: a “idolatria” deixa de ser apenas uma discordância de fé individual e passa a ser apresentada como um obstáculo espiritual que impediria o pleno alinhamento e a restauração da nação.
A disputa também envolve os sentidos sociais atribuídos à própria imagem de Aparecida. Negra e encontrada quebrada nas águas do Rio Paraíba do Sul por pescadores, sua trajetória foi incorporada à tradição da religiosidade popular brasileira e associada, ao longo do tempo, a experiências de proteção, sofrimento e pertencimento de parcelas amplas da população. A imagem tornou-se, assim, parte de uma memória religiosa que não se limita às instituições eclesiais, mas atravessa diferentes grupos sociais e dimensões da experiência brasileira.
É nesse ponto que a disputa pelo símbolo religioso se aproxima da disputa pelo imaginário nacional. De um lado, está uma tradição que reconhece em Aparecida uma expressão histórica da religiosidade popular e da formação cultural brasileira. De outro, determinadas correntes cristãs podem interpretar essa mesma tradição a partir de categorias como idolatria, batalha espiritual e necessidade de restauração moral. Não se trata, portanto, de uma simples oposição entre católicos e evangélicos, mas de diferentes formas de interpretar a relação entre religião, cultura, identidade e poder.

Por isso, a controvérsia em torno de Nossa Senhora Aparecida não deve ser compreendida como um episódio isolado. Ela expressa uma disputa mais ampla sobre quem possui autoridade para definir os símbolos, os valores e as referências que representam a nação. Se Aparecida foi historicamente incorporada ao imaginário nacional, contestar seu lugar nesse imaginário significa também disputar o próprio significado de Brasil. A questão deixa de ser apenas quem pode venerar uma santa e passa a envolver uma pergunta mais profunda: quem tem o direito de definir o que é o Brasil?
Conclusão
Ao término desta análise, torna-se evidente que as controvérsias contemporâneas em torno de Nossa Senhora Aparecida dizem muito menos sobre a figura da santa ou sobre dogmas marianos do que sobre quem pretende arrogar para si o direito de definir o que é o Brasil. A Padroeira, enquanto patrimônio cívico, histórico e afetivo, torna-se o terreno onde se confrontam duas visões distintas sobre o país: uma assentada na memória plural, na religiosidade popular e na diversidade cultural; outra pautada pela restauração moral, pela lógica da batalha espiritual e pela ocupação institucional do Estado.
A questão fundamental não é saber se o Brasil deve ou não ser uma sociedade religiosa. A presença da religião na vida pública faz parte de sua própria história, e a participação de pessoas e grupos religiosos na política é legítima em uma democracia. Em uma sociedade plural, nenhum grupo religioso precisa abandonar sua fé para participar da vida pública. Mas nenhum grupo pode transformar sua própria interpretação da fé em sinônimo da identidade nacional.
É exatamente nessa fronteira que o debate sobre a Teologia do Domínio se torna decisivo. A questão não é a existência de convicções religiosas nem sua atuação na política, mas o risco de uma interpretação teológica específica querer definir, sozinha, a moral pública, a identidade nacional e os limites da cidadania. Quando isso acontece, a disputa deixa de ser religiosa e passa a atingir a própria natureza do espaço público.
Nesse sentido, a laicidade do Estado não representa uma barreira à religião, mas uma condição para que diferentes crenças, e também a ausência delas, possam participar da vida pública em condições de igualdade. Preservar essa dimensão plural não significa negar a importância histórica e cultural da religiosidade, significa assegurar que no Brasil as diferentes crenças possam coexistir sem que uma visão teológica específica se imponha como valor universal da brasilidade.
Talvez seja justamente por isso que a disputa em torno de Nossa Senhora Aparecida seja tão reveladora. A questão não é apenas quem pode venerar uma santa, mas quem tem o poder de dizer quais símbolos, valores e crenças podem falar em nome do Brasil.
Mauricio Alfredo é Mestre em Educação, Professor de Geografia, Geopolítica e Atualidades no Ensino Médio e Superior

