ENTREVISTA

Ser mulher é carregar suas dores e reprimir seus desejos?

Arqueologia das dores é o primeiro romance de Lia D’Assis, publicado pela Editora Reformatório. Lia é doutora em Teoria e História Literária

Crédito: Divulgação

O livro conta com três narradores que vão explorar os sentimentos e as dores que sofreram ao longo de sua vida. Malu e Beto estão passando por uma crise no relacionamento, a qual é agravada com a chegada da mãe dele, Dona Lurdes, diagnosticada com demência. 

Malu é uma mulher que sonha com a liberdade, mas que vive presa em uma relação onde não é ouvida, vista ou desejada. Lurdes passou a vida toda trabalhando como empregada doméstica na casa dos Menezes, onde aprendeu a ficar calada e esconder suas dores, vontades e desejos. Um ponto em comum entre as mulheres é a violência. Ambas já foram abusadas e guardam as dores desse trauma dentro de si.  

Beto, o marido e o filho, tem dificuldade em aceitar os relatos das mulheres. Ele não gostaria de aceitar que a sua relação falhou ou que a sua infância foi uma mentira. O personagem é um exemplo de como os homens veem as mulheres e como eles lidam com os seus próprios sentimentos. 

 

Confira a entrevista completa: 

Ao longo do livro, observamos duas mulheres que acabam reprimindo as marcas da violência sexual que vivenciaram. Como você acredita que a sociedade faz com que as mulheres reprimam as suas dores? Qual a sua visão sobre?  

A repressão das dores das mulheres, nas mais variadas violências, mas a violência sexual é uma das mais destrutivas. Essa repressão acontece pela própria estrutura patriarcal. Para manter uma organização de poder, você precisa fazer com que as vítimas se calem. Se elas começarem a falar ou contar umas para as outras o que elas estão vivenciando possivelmente encontrarão nesse diálogo um caminho para sair dessa opressão. Assim, esse sistema de poder acaba.  

O patriarcado tem as mais variadas ferramentas para manter esse silêncio, essa repressão. Fazer as mulheres acreditarem que o que elas estão sofrendo não é uma violência, mas um comportamento justificado por elas mesmas, ou seja, fazer com que essas vítimas acreditem que elas são culpadas por esse sofrimento é um dos mecanismos mais fortes. Também é possível observar uma ajuda tanto de crenças religiosas, quanto de crenças sobre os papéis de gênero. O que compete ou não a uma mulher cria uma dinâmica de repressão que às vezes é mantida e reforçada pelas próprias mulheres.  

Durante o relacionamento de Malu e Beto, vemos que ela vai, aos poucos, reprimindo seus sonhos, desejos e seus prazeres para caber dentro da relação. Você acredita que isso é algo ensinado às mulheres?  

Sim, de maneira fácil, de maneira implícita, mas sim. Porque, na verdade, nós vivemos em uma sociedade bastante romântica. Vemos uma educação feminina muito justificada nas relações amorosas, para ser agradável ao homem, não só ao homem, mas a todas as pessoas. As mulheres são educadas, na verdade, para engolir seus desconfortos, para agradar as outras pessoas, para não deixar os outros desconfortáveis.  

Acredito que isso se reforça muito por esse ideal de que uma mulher só é completa quando ela tem um relacionamento amoroso com o homem. Muitas mulheres, assim como a Malu, acabam reprimindo seus desejos, deixando de lado seus sonhos e projetos pessoais, para poder caber numa relação. Porque sem essa relação amorosa com o homem, elas se sentem, às vezes, incompletas. Elas não são validadas e valorizadas socialmente. Quantas vezes a gente ouve, por exemplo, uma mulher ser considerada infeliz, apesar de todas as suas conquistas, porque ela não tem um relacionamento amoroso, quando, na verdade, ela pode estar em uma ótima profissão, numa ótima carreira, viajando, levando uma vida feliz, mas ela é vista aos olhos da sociedade como uma mulher infeliz porque ela não teve “sorte no amor”, vamos dizer assim.  

Quando escreveu os capítulos através da perspectiva de Beto, você criou o personagem com o objetivo de se basear em como a sociedade analisa o papel da mulher? Para você como escrita, quais são as consequências disso? 

A Malu foi a primeira personagem que surgiu e, no começo, ela era a dona dessa narrativa. Ao longo do processo de construção desse livro, eu percebi o quanto os outros personagens precisavam ganhar uma voz. Tanto a Lurdes quanto o Beto.  

Na narrativa do Beto, na construção desse personagem, o meu maior desafio foi colocar uma visão masculina sobre esses fatos, sobre essa crise principalmente. Existe uma crise conjugal e existem uma personagem feminina e uma personagem masculina que, obviamente, vão ter visões diferentes. 

Dentro dessa proposta de colocar os dois narradores, as duas partes desse casal dialogando, foi também essa proposta de colocar as disparidades de uma relação heteroafetiva. As relações heteroafetivas são muito desiguais numa sociedade patriarcal, obviamente. Como o Beto coloca a sua visão sobre o trabalho de cuidado, o trabalho doméstico, o casamento, a sua visão sobre a sexualidade. Todas essas visões que o Beto está colocando no seu relato, elas, obviamente, traduzem também uma ideia geral que as pessoas têm sobre as mulheres. Acaba que o Beto expressa muitas das ideias que a sociedade tem, muitas das imagens da mulher dentro da sociedade, em relação a todos esses temas que mencionei agora.  

A minha intenção com isso era, primeiro, tirar o maniqueísmo da narrativa, ou seja, não colocar a Malu como a voz da verdade. Pulverizar esse relato é uma maneira de colocar diferentes visões e dizer: existem diferentes visões e não necessariamente uma está correta e a outra está errada. Mas, colocar essas diferentes visões, na minha intenção, foi fazer com que também a gente refletisse o fato de que essas ideias difundidas sobre os papéis de gênero realmente estão internalizadas nas pessoas.  

O Beto não planeja enxergar a mulher nesse lugar, ele simplesmente reflete o que uma sociedade está colocando. Obviamente que isso, alguém poderia dizer assim: “Nossa, ali está passando pano para os machistas”, mas não é nesse sentido. Colocar isso não significa que eu faço apologia desse comportamento, mas sim que eu estou evidenciando que, se a gente quiser olhar para os papéis de gênero e a violência produzida por esses papéis de gênero e quiser modificar isso, a gente precisa analisar como isso se forma, como isso se internaliza e precisa dialogar tanto com homens quanto com mulheres.  

Beto acredita que as falas da mãe são apenas delírios e considera a possibilidade de seres reais somente após ver o comportamento suspeito de Dr. Augusto no funeral. Baseado na história, é possível compreender que a violência relatada pela mulher só é validada quando se vê um “remorso” do homem que a cometeu? 

O fato de o Beto ficar em negação, porque o que acontece é um constante estado de negação. Quando a violência sexual ou a violência doméstica está numa família, depois que a denúncia acontece, é uma reação bem comum das pessoas à negação. Isso também acontece porque reconhecer que aquilo aconteceu é muito difícil. 

No caso do Beto, se ele reconhece que tudo que a mãe dele está dizendo é verdade, ele vai ter que questionar muitas coisas que se apresentaram como verdade na vida dele. É como se a negação do Beto fosse uma tentativa desesperada de manter as coisas do jeito que elas estão. Porque o Beto, na verdade, não quer olhar para a sua própria história, porque ela é extremamente dolorosa. Ele foi uma criança explorada, ele não construiu um vínculo afetivo com a própria mãe. Ele não dá conta de olhar para esse passado. E ele faz o que acho que boa parte dos homens faz: não acessa as próprias emoções. Deixa ali algo completamente enterrado, recalcado. Porque reconhecer o que aconteceu é mais difícil. 

A morte da Lurdes, esse estado de choque, na verdade, em que o Beto fica, e ele não usa essa palavra porque não reconhece que está nesse estado, mas esse estado de choque faz com que, de repente, a realidade já tenha desmoronado. Aquela realidade com que ele tentou se agarrar. 

A visão do Dr. Augusto no velório, o comportamento que ele acha diferente do doutor, e a constante lembrança dos relatos da mãe, fazem com que ele comece a cogitar que isso é verdade. Mas, ainda assim, ele não vai assumir completamente. 

Agora, quanto a essa ideia de que um homem só reconhece que existiu uma violência quando isso é verbalizado ou demonstrado por outro homem, a gente também tem que reconhecer que a palavra de uma mulher ao denunciar uma violência é invalidada muitas vezes. Isso ocorre quando as vítimas sofrem retaliações pelas denúncias. A gente está cansada de ver, ao nível institucional, o quanto as mulheres, às vezes, são punidas quase pelo seu próprio relato, pela sua própria denúncia. O Alberto desqualifica a fala da mãe, a fala da própria Malu. Ao longo da conversa que eles tentam ter como casal, ele está constantemente invalidando os sentimentos dela e o que ela diz.  

A relação de Malu e Beto está em crise, mas, ao longo do livro, vemos apenas ela lutando para que algo seja resolvido. Por quê? 

Eu vivi uma experiência de separação conjugal recentemente, e várias pessoas me questionam se eu representei o meu casamento dentro desse livro. Eu gosto de relatar que quando eu tive essa experiência de separação, eu entrei em grupos de mulheres. Uma amiga minha estava em um grupo de discussão, eram mulheres que tinham se conhecido em um curso de psicologia e uma delas teve essa iniciativa de montar um grupo para mulheres, separadas, que quisessem dialogar sobre isso. Uma das coisas que eu mais escutei conversando com mulheres, foi essa dificuldade de dialogar. 

Eu passei por essa dificuldade, e muitas mulheres também passaram por essa dificuldade. A dificuldade de conseguir que o seu parceiro, o seu marido, expresse os seus sentimentos, expresse as suas vulnerabilidades. Porque a gente tem dentro dos papéis de gênero constituídos, tradicionalmente, a mulher que elabora, que mantém a relação em termos emocionais e afetivos. O homem, ele não é educado para lidar com as suas próprias emoções, e ele joga em cima das suas parceiras, a maioria deles, esse trabalho de elaboração e manutenção da vida afetiva do casal. E, às vezes, isso acontece até quando se tem filhos. 

Eu não conseguia dialogar com o meu pai, e quando eu precisava, o que eu fazia? Eu recorria à minha mãe, a gente conversava com a mãe, que fazia esse meio de campo, era um trabalho de estratégia para conseguir esse diálogo, mas isso era muito comum na geração da minha mãe. E também é comum, vamos dizer, na geração da Malu. A gente tem aí os homens entre 50 e 60 anos, eles, espero que hoje, os meninos estejam sendo socializados de uma forma um pouco melhor, mas eu tenho as minhas preocupações ainda. Mas assim, não existia esse trabalho com as emoções, e uma pessoa que não aprendeu a lidar com as suas emoções, ele não vai sabendo dialogar sobre elas.  

Então, quando um casal entra em crise, você tem inclusive essa imagem pejorativa da mulher, que nossa, a mulher só quer fazer DR, só quer discutir a relação. Não é que a gente quer, é necessário, às vezes você precisa ter conversas difíceis, você precisa ter conversas que não são agradáveis e a maioria dos homens foge desse diálogo. Esse impasse, as mulheres insistindo para dialogar e os homens fugindo, só pode resultar em duas coisas: ou a mulher realmente desiste do diálogo, mas ela se conforma com a relação que ela tem e ela continua, porque muitas vezes ela vê que o casamento é uma instituição importante para ela – muitas mulheres gostam do papel social de ser casada, e se sentem, não saberiam viver sem casamento – ou a mulher realmente desiste, mas, quando ela desiste do diálogo, ela desiste da relação, porque ela conclui que uma relação sem diálogo não é possível, que ela merece outra coisa, e ela chegou no limite das tentativas dela de diálogo, que é o caso da Malu. 

Ela tentou dialogar de todas as formas e chegou um dia que ela não quis mais, que é quando o próprio Beto se assusta, porque ele estava esperando que ela de novo fosse falar dos sentimentos. Quando a Malu se cala, é o ponto de virada, porque é o momento que ele percebe que aquela mulher que ele conhecia tinha ido embora, ela não estava mais ali, ela não queria mais conversar, agora ela desistiu. Porém, eu não deixei de representar no livro o quanto que esse momento da desistência de uma relação é um momento doloroso, porque muitas pessoas, homens e mulheres, constroem relações porque constroem projetos de vida com essas pessoas. O amor tem uma dimensão muito importante na vida das pessoas, os vínculos amorosos para além das questões sociais, dos papéis de gênero, eles são reais e eles preenchem muito da nossa vida e a gente tem a necessidade real desses vínculos. 

Então, quando existe essa desistência, isso é um momento doloroso, mas, ao mesmo tempo, como existe uma analogia no livro entre a morte da Lurdes e a morte da relação dos dois, nós precisamos deixar morrer aquilo que já não tem mais vida. Por isso que eu quis representar dessa forma essa relação, essa ausência de diálogo, para mim, é o grande motivo pelo qual as relações acabam, eu acho que é um dos principais, se não o principal. 

Beto afirma: “A nossa mãe, mesmo, a gente nunca enxerga como mulher. Mãe é mãe, é como se não tivesse corpo nem sexo”. Por que a mulher passa a ser vista somente pela função de mãe, deixando de lado sua paixão, seus desejos e suas ambições? 

A construção dessa imagem santificada da mãe, essa idealização da maternidade, ela também tem um propósito de submissão das mulheres. Quando você coloca o relacionamento amoroso, o casamento, a construção da família e a maternidade como coisas fundamentais na construção da identidade feminina e como as coisas mais importantes da vida delas, você está submetendo essa mulher nesse papel doméstico enquanto os homens estão na vida pública. Isso já foi falado por várias feministas, como que essa aura da família e da maternidade e do amor romântico submete as mulheres a um trabalho não remunerado. Nós exercemos um trabalho incessante de cuidado e dentro das casas que não é pago e, enquanto isso, nós mantemos a vida de homens que estão lá fora de casa ganhando dinheiro, acumulando patrimônio, exercendo poder, inclusive sobre os nossos corpos, formulando leis que legislam sobre os nossos corpos e aí a mulher fica submetida a esse lugar.  

A aura da mãe também contribui para isso, porque a mulher, para ser mãe, ela tem que abdicar desses desejos todos e tem que servir a essa família. A coisa mais importante da vida dessa mãe tem que ser o quê? Alimentar esse filho, cuidar desse filho, cuidar do pai desse filho e o seu próprio cuidado, cuidado com a sua saúde, com a sua carreira, com os seus projetos, isso tudo fica em segundo plano. Se você, como mãe, coloca isso no mesmo patamar de importância da sua família, você é uma mulher má, você é uma mulher fria e calculista e aí você vai ser representada, inclusive, como essa mulher que não é a verdadeira mãe. 

Quando eu coloquei essa frase na boca do Beto foi também uma forma de representar como os filhos homens, principalmente, não veem as suas mães como mulheres. Elas são mães. E se tornando mães é como se elas tivessem que abdicar principalmente da sua sexualidade. Tem uma escritora que eu conheci recentemente, a Letícia Bassit, que trabalha bastante com essa questão da maternidade e da relação entre maternidade e desejo. Entre o corpo feminino, como que esse corpo está dentro dessa maternidade real. Ela tem um livro muito interessante chamado Mãe ou Eu Também Não Gozei, que trabalha com isso. Toda vez que eu vou falar do meu livro, na verdade eu acabo falando de outros livros, porque a gente está sempre numa conversa com outros autores.  

A relação fria entre Beto e Dona Lurdes se dá devido à circunstância que ela o teve? 

Eu quis colocar dentro da personagem da Lurdes um tema que eu acho muito complicado na sociedade atual: a maternidade compulsória. Lurdes não escolhe a maternidade, ela é uma criança que é violentada e engravida. E hoje em dia a gente está vendo um movimento, um grande retrocesso, um movimento que quer tirar das crianças estupradas o direito de abortar. Eu perco meu sono pensando nessas meninas.  

Quis colocar na história da Lurdes essa maternidade compulsória, esse sofrimento imenso que essa mulher tem, essa menina tem, primeiro, com todo o abuso que ela sofre e depois o medo que ela tem de ser jogada na rua. Isso é uma coisa que transparece o livro inteiro. Como Lurdes repete o tempo inteiro essa frase: “Se a patroa escuta, põe nós na rua”. É um bordão dela no livro todo, praticamente. Ela tem medo de ser largada, de ser posta na rua. Ela não tem ninguém. Ela tem essa infância vulnerável, na qual ela sofre esse abuso e engravida. Por fim, ela é obrigada a ficar nessa casa e essa “caridade” que é feita a ela justifica o seu silenciamento. É como se fosse uma troca.  

Eu queria colocar na personagem da Lurdes, sim, essa questão, porque eu acho cruel, muito cruel, que você obrigue as meninas grávidas a terem esses filhos os seus estupradores e ainda haja uma expectativa de que haverá uma construção de vínculo com essa criança como se constrói com qualquer outra. Eu não vejo, eu não vou dizer com isso que eu acho impossível que o filho de um estuprador seja amado pela sua mãe. Eu acho que tudo é possível dentro das emoções humanas e dentro da capacidade de superação das pessoas. Mas eu acho cruel isso ser colocado como uma regra, isso ser exigido das mães. É triste que elas sejam cobradas a esse ponto de amar os filhos dos seus estupradores, tendo uma gestação e uma maternidade nessas condições. 

Então, a Lurdes, ela não queria ser mãe, mas tendo Alberto, óbvio que ela se sente culpada por não querer pegar esse menino no colo, por não querer dar o peito, porque a experiência da gravidez e do parto para a Lurdes é uma experiência aterrorizante. Esse vínculo, na verdade, nunca é construído, embora ela cumpra a sua obrigação, como ela diz. Ela criou o Alberto, mas ela não consegue estabelecer esse vínculo, que é o vínculo que ela também não teve com a sua própria mãe.  

 

Helena Brambilla é estagiária de jornalismo do Le Monde Diplomatique Brasil. 

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