Quem controla a tecnologia e quem paga por ela?
Por trás da promessa de inovação, a expansão da inteligência artificial depende de enormes quantidades de energia, água, minerais e terra. Enquanto grandes empresas de tecnologia concentram capital e poder, comunidades enfrentam os impactos sociais e ambientais de uma infraestrutura digital cada vez maior
A expansão da inteligência artificial (IA) está transformando nossas sociedades em um ritmo que parece superar a capacidade das instituições de compreender, regular e, sobretudo, democratizar seus efeitos. Embora seu uso seletivo e crítico possa oferecer benefícios significativos em determinadas aplicações, a escala de sua expansão suscita questões que ultrapassam o campo da inovação tecnológica: quem estabelecerá seus limites? Quem arcará com seus custos? Quem terá o poder de decidir seus rumos?

À medida que as grandes empresas de tecnologia concentram capital, infraestrutura, dados e capacidade de influenciar governos e instituições públicas, torna-se necessário compreender a inteligência artificial não apenas como uma inovação tecnológica, mas como parte de relações mais amplas de poder e acumulação de capital.
Nessa perspectiva, a questão central não é simplesmente o que a IA será capaz de fazer, mas quem controla os recursos necessários ao seu desenvolvimento, quem se apropria dos benefícios gerados e quem suporta seus custos sociais e ambientais.
Essas contradições são examinadas na coleção Empire of Extraction: Capital, Crisis, and Struggles for Climate Justice, publicada pela Fundação Rosa Luxemburgo em parceria com a Editora Funilaria. Reunindo quatro volumes dedicados ao extrativismo, à transição energética, à infraestrutura digital e à justiça climática, a coleção investiga as relações entre a expansão do capital, a exploração de recursos naturais e os conflitos socioambientais em diferentes territórios.
Um dos volumes se dedica à infraestrutura digital e à economia de dados, reunindo análises e investigações sobre o Brasil, os Estados Unidos e o Paraguai. Os trabalhos demonstram que, por trás da aparente imaterialidade das tecnologias digitais, existe uma infraestrutura que depende de recursos naturais, investimentos públicos, trabalho e transformações territoriais.
A infraestrutura material da inteligência artificial
A expansão da infraestrutura de inteligência artificial, particularmente dos centros de dados (data centers), revela uma dimensão material frequentemente negligenciada nos debates sobre inovação.
A concentração de enormes volumes de capital depende do acesso à energia, à água, à terra, à infraestrutura pública e à força de trabalho. Os custos e impactos associados a esse processo, entretanto, são distribuídos de maneira desigual entre diferentes grupos sociais e territórios.
A expansão da IA também evidencia um aspecto fundamental da relação contemporânea entre poder econômico e poder político: a capacidade do capital de influenciar decisões públicas e moldar as condições institucionais que viabilizam sua própria acumulação.
A limitada responsabilização dos super-ricos, a crescente concentração de riqueza e poder e a capacidade das grandes corporações de influenciar as políticas que regulam os mercados nos quais atuam revelam mais do que falhas de governança. Expressam uma disputa fundamental sobre quem detém o poder de definir as prioridades econômicas e tecnológicas da sociedade.
Não existe nuvem sem terra
No artigo Da nuvem ao chão (From the Cloud to the Ground), publicado na coleção Empire of Extraction, da Fundação Rosa Luxemburgo e da Editora Funilaria, os pesquisadores Joana Barros e Juan Rodrigues apresentam uma análise crítica da infraestrutura digital a partir de suas dimensões materiais e territoriais.
Ao examinar os centros de dados como pontos de interseção entre sistemas de informação, produção de energia, mineração, logística e dispositivos de segurança, os autores questionam a ideia de uma “nuvem” imaterial.
O crescimento da computação em nuvem e da inteligência artificial, demonstram, depende de enormes quantidades de terra, água, minerais e eletricidade, além de investimentos estatais e regulamentações que transformam os territórios.
A concentração de centros de dados no Centro-Sul do Brasil está vinculada à expansão de redes energéticas e logísticas situadas, em grande parte, no Nordeste. Essa configuração evidencia a geografia desigual da economia digital, na qual diferentes territórios desempenham funções distintas na produção e na sustentação da infraestrutura tecnológica.
Ao relacionar essa infraestrutura a programas de desenvolvimento, à transição energética, à securitização e aos conflitos fundiários, os autores argumentam que a transformação digital deve ser compreendida como uma forma contemporânea de expansão e acumulação de capital.
A aparente imaterialidade dos serviços digitais oculta uma realidade concreta: não existe nuvem sem infraestrutura física, nem infraestrutura física sem terra.
Estados Unidos: a resistência à expansão dos centros de dados
Também publicado na coleção Empire of Extraction, o artigo Resistência contra os centros de dados nos Estados Unidos (Resistance Against Data Centres in the US), de David Williams, diretor do Programa Internacional de Justiça Climática da Fundação Rosa Luxemburgo, examina a rápida expansão da infraestrutura necessária ao desenvolvimento da inteligência artificial nos Estados Unidos e seus impactos ambientais, climáticos e sociais.
O país atravessa uma onda de construção de centros de dados impulsionada por investimentos de centenas de bilhões de dólares e por políticas governamentais que associam a expansão da inteligência artificial à segurança nacional e energética.
O aumento do consumo de eletricidade e água, acompanhado das emissões de gases de efeito estufa associadas a essa infraestrutura, evidencia as contradições ambientais desse modelo de desenvolvimento tecnológico.
Um dos casos analisados é o Projeto Jupiter, complexo de centros de dados em construção na região norte do Deserto de Chihuahua, no estado do Novo México, segundo o artigo.
Embora tenha recebido apoio de autoridades locais e estaduais, incluindo incentivos fiscais, o empreendimento provocou forte oposição de moradores e comunidades da região. Entre os principais questionamentos estão a transparência do processo de aprovação e os possíveis impactos sobre os já escassos recursos hídricos locais.
O conflito evidencia uma contradição central da expansão da inteligência artificial. Enquanto governos e empresas apresentam esses investimentos como motores do crescimento econômico, da inovação e da segurança estratégica, seus custos ambientais e sociais frequentemente recaem sobre comunidades específicas.
Assim como ocorre em outras regiões dos Estados Unidos, a formação de grupos de resistência ao Projeto Jupiter demonstra que a expansão da infraestrutura digital também se tornou um campo de disputa política.
Estão em jogo o uso dos recursos naturais, a distribuição dos custos e benefícios do desenvolvimento tecnológico e o direito das comunidades de participar das decisões que afetam seus territórios e seu futuro.
Paraguai: mineração de criptomoedas e conflitos socioambientais
No Paraguai, a expansão da economia digital também provoca conflitos em torno do acesso à energia e dos impactos de grandes instalações tecnológicas sobre as comunidades.
A reportagem investigativa Rebelião contra a fazenda de criptomoedas (Rebellion Against the Crypto Farm), do jornalista Josué Congo, integra a coleção Empire of Extraction, publicada pela Fundação Rosa Luxemburgo, em parceria com a Editora Funilaria. O trabalho examina os efeitos da mineração de Bitcoin na cidade de Villarrica.
A investigação parte da experiência dos moradores do bairro Santa Lucía, submetidos durante quase seis meses ao ruído constante de uma instalação de mineração de criptomoedas operada pela empresa canadense Bitfarms.
A reportagem documenta os efeitos da poluição sonora sobre a saúde e o cotidiano da população e examina irregularidades nos procedimentos da administração municipal e do Ministério do Meio Ambiente que permitiram o funcionamento da instalação em uma área residencial.
O caso é situado no contexto mais amplo da expansão da mineração de criptomoedas no Paraguai, impulsionada pela disponibilidade de eletricidade renovável e de baixo custo.
Embora essa disponibilidade energética tenha favorecido o crescimento da atividade, seus impactos sociais e ambientais levantam questionamentos sobre a distribuição dos benefícios econômicos e dos custos suportados pelas comunidades.
A mobilização dos moradores resultou, segundo a reportagem, na apresentação de acusações contra um representante da empresa e na reabertura de procedimentos administrativos municipais.
O conflito explicita a tensão entre os interesses da indústria de criptomoedas e os direitos da população ao descanso, à saúde e à qualidade de vida.
A nova geografia da economia digital
Os três trabalhos reunidos no volume dedicado à infraestrutura digital da coleção Empire of Extraction convidam a uma reflexão crítica sobre os fundamentos, as características e as implicações da expansão dos centros de dados, impulsionada pela economia de dados e pelos avanços da inteligência artificial.
Longe de representar uma transformação imaterial, esse processo está produzindo uma nova geografia da infraestrutura digital.
Nela, os investimentos das grandes corporações de tecnologia, a desregulamentação e as disputas pelo uso da água, da energia e da terra se entrecruzam em territórios já marcados por profundas desigualdades socioambientais, particularmente no Sul Global.
As experiências analisadas permitem compreender como essa infraestrutura se materializa em diferentes escalas e contextos, quais relações de poder sustentam sua expansão e quem arca com seus custos.
Mais do que discutir as possibilidades técnicas da inteligência artificial, é necessário examinar as condições materiais, econômicas e políticas que tornam seu desenvolvimento possível.
Os conflitos apresentados neste volume ajudam a revelar as dimensões concretas da inteligência artificial e da economia de dados, assim como as relações de poder que determinam seus rumos, seus limites e seus impactos sobre os territórios e a vida social.
Compreender essas relações é fundamental para recolocar no centro do debate uma questão decisiva: quem deve ter o poder de definir o futuro tecnológico da sociedade?
A coleção Empire of Extraction: Capital, Crisis, and Struggles for Climate Justice, é uma publicação da Fundação Rosa Luxemburgo em parceria com a Editora Funilaria, desenvolvida no âmbito do Programa Latino-Americano de Clima e Energia da Fundação Rosa Luxemburgo. A coleção reúne quatro volumes que abordam criticamente as relações entre extrativismo, economia digital, transição energética, financiamento climático e justiça socioambiental.
Elisangela Soldateli Paim é coordenadora do Programa Latino-Americano de Clima e Energia da Fundação Rosa Luxemburgo no Brasil e no Paraguai e uma das organizadoras da coleção Empire of Extraction: Capital, Crisis, and Struggles for Climate Justice. Doutora em Ciências Sociais pela Universidade de Buenos Aires, Argentina, é pesquisadora de pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CPDA/UFRRJ).
Katja Voigt é geógrafa, assessora sênior de Política Climática Internacional da Fundação Rosa Luxemburgo, na Alemanha, onde atua desde 2016, e uma das organizadoras da coleção Empire of Extraction: Capital, Crisis, and Struggles for Climate Justice. Seu trabalho concentra-se na política climática internacional, no acompanhamento do movimento global por justiça climática e na análise crítica das negociações climáticas das Nações Unidas.
Os quatro volumes estão disponíveis gratuitamente para leitura e download: https://rosalux.org.br/empire-of-extraction/

