PRIMOGÊNITO DO MESSIAS

Do voto católico ao voto cristão

As eleições de 2026 mostram uma erosão da vantagem da esquerda em territórios mais católicos, e uma disputa crescente sobre quem pode falar politicamente em nome desse campo religioso  

Durante anos, o voto evangélico ocupou o centro das análises sobre religião e eleições no Brasil. Em 2026, porém, um movimento diferente merece atenção: a mudança entre os católicos. Enquanto o apoio mais expressivo de eleitores evangélicos à direita já se consolidou nas últimas disputas presidenciais, Lula perdeu terreno justamente nos municípios com maior presença católica. Isso não significa uma conversão desse eleitorado à extrema direita. Às vésperas do primeiro turno, Lula ainda mantinha vantagem sobre Flávio Bolsonaro nesse segmento. As urnas mostram, porém, uma erosão importante de sua votação nos municípios de maior presença católica em relação a 2022. Talvez estejamos diante, portanto, não de uma simples “virada conservadora” do catolicismo, mas do enfraquecimento de uma associação eleitoral que durante muito tempo diferenciou católicos e evangélicos no Brasil. Se o voto evangélico se consolidou nas últimas eleições como um terreno favorável à direita, o voto católico permanece mais dividido e aberto à disputa. A campanha de Flávio Bolsonaro ajuda a compreender esse processo. 

Crédito: Ricardo Stuckert/PR

Pesquisa realizada pela Casa Galileia sobre as alianças religiosas de Flávio Bolsonaro mostrou que o candidato herdou do pai uma extensa rede de relações com atores cristãos, mas não automaticamente a autoridade política construída por Jair Bolsonaro nesse campo. No catolicismo, essa limitação ficou particularmente evidente. Flávio estabeleceu pontes com parlamentares, sacerdotes, influenciadores e movimentos conservadores, mas essas aproximações não produziram uma coalizão católica organizada em torno de sua candidatura. Na reta final do primeiro turno, a controvérsia em torno da falsa alegação de que Flávio apoiaria a retirada de Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil e, posteriormente, o embate com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) expuseram essas tensões. O episódio é relevante porque revelou que a disputa eleitoral também se tornou uma disputa sobre quem pode falar em nome dos católicos. 

De um lado, setores conservadores defenderam Flávio e criticaram a CNBB. De outro, bispos, organismos católicos e diferentes atores ligados à Igreja reafirmaram valores como democracia, soberania, combate à pobreza e bem comum, além da autonomia da instituição em relação às candidaturas. A controvérsia não dividiu um campo antes unido. Tornou pública uma fragmentação que já existia. Esse talvez seja um dos fenômenos políticos mais importantes do catolicismo contemporâneo. A instituição não dispõe de uma autoridade eleitoral centralizada capaz de definir o voto dos fiéis. CNBB, dioceses, movimentos, comunidades, sacerdotes, parlamentares e influenciadores disputam interpretações distintas sobre o significado político da identidade católica. E essa disputa ocorre em um momento em que setores católicos conservadores se aproximam cada vez mais de uma gramática política que ganhou força inicialmente no universo evangélico: guerra cultural, batalha espiritual, defesa da família, combate ao comunismo e à chamada “ideologia de gênero”, proteção da infância e apresentação dos “cristãos” como um sujeito político comum. 

Isso não significa que católicos e evangélicos estejam se tornando indistinguíveis. A própria controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida mostrou o contrário. Quando um símbolo especificamente católico foi atingido, diferenças confessionais que pareciam secundárias voltaram imediatamente ao centro da disputa. Mas talvez esteja se formando algo intermediário: uma identidade política cristã conservadora capaz de aproximar segmentos católicos e evangélicos sem apagar suas diferenças religiosas. É nesse sentido que as eleições de 2026 podem indicar uma transformação mais profunda. Durante muito tempo, observar religião e política significava perguntar como igrejas, lideranças e denominações orientavam seus fiéis. Hoje é necessário acompanhar também redes de influenciadores, parlamentares, movimentos digitais e produtores de conteúdo que constroem uma identidade cristã politizada para além das estruturas institucionais. 

A eleição de novos personagens conservadores ajuda a perceber essa mudança. Lideranças jovens alcançaram projeção mobilizando temas como aborto, feminismo, gênero, família, liberdade e autoridade parental. Nem sempre precisam apresentar-se prioritariamente por sua denominação religiosa. A religião pode circular politicamente por meio de outras linguagens. Esse processo é particularmente importante para compreender o catolicismo. Parte de sua inflexão conservadora talvez não ocorra pela adesão direta a candidatos que se apresentam como “católicos”, mas pela expansão de agendas e formas de interpretação do mundo que aproximam determinados católicos de um universo político mais amplo da direita cristã. 

A queda da votação de Lula nos municípios mais católicos não permite estabelecer uma relação causal direta entre religião e comportamento eleitoral. Classe, renda, região, avaliação do governo e outras variáveis também atravessam esses territórios. Ainda assim, a concentração dessa mudança justamente onde o catolicismo é mais presente coloca uma questão política relevante: mais do que perguntar se os católicos estão ficando mais conservadores, é preciso observar qual catolicismo está adquirindo maior capacidade de produzir identidade política.  

O que está em disputa não é somente o voto. É a própria definição pública do que significa ser católico e de quais agendas podem reivindicar legitimamente essa identidade. Durante muito tempo, a diferença entre o comportamento político de católicos e evangélicos ajudou a explicar a geografia eleitoral brasileira. As urnas de 2026 sugerem que essa fronteira pode estar se tornando menos nítida. Ainda é cedo para falar em um “voto cristão” homogêneo. Mas talvez já seja hora de perguntar se, para uma parcela crescente dos eleitores, ser politicamente cristão está começando a importar mais do que ser eleitoralmente católico ou evangélico. 

 

Ana Carolina Marsicano é pós-doutoranda pela UNICAMP e doutora em Sociologia pela UFPE. 

Andréa Laís é doutora em Ciências Sociais pela UFBA, mestra em Sociologia pela UFAL e assessora de Campanhas e Pesquisa de Casa Galileia.   

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