ELEIÇÕES 2026

Eleitos no primeiro turno: quem são e como votaram os parlamentares do Cerrado?

Após o encerramento do primeiro turno, a representação política nos nove estados e no Distrito Federal, acompanhados pelo projeto Olho de Aceiro, apresentou uma redução drástica na diversidade de representações entre os candidatos quando se compara aos eleitos.

Na disputa por vagas na Câmara dos Deputados, as mulheres representavam 36,5% das candidaturas nas urnas. Entre os eleitos, esse índice passou para 21,3%, o que equivale a 51 das 239 cadeiras federais do recorte regional. O mesmo movimento ocorreu no recorte racial: pessoas autodeclaradas pretas ou pardas eram 48,1% dos candidatos à Câmara, mas garantiram 31,4% das vagas, somando 75 eleitos. A composição de quem consegue entrar na disputa não se reproduz na mesma proporção entre quem passa a decidir.

Para o cientista político Jorge Mizael, fundador da consultoria Metapolítica e colunista do ICL Notícias, a diferença é explicada pela estrutura partidária e pelas vantagens acumuladas por quem já ocupa cargos. “A regra brasileira cuida da porta de entrada, mas não do resultado”, afirma o especialista. Ele detalha que, na prática, os partidos cumprem as cotas de candidaturas, mas recursos como tempo de TV, dinheiro e apoio de lideranças são direcionados aos nomes que a legenda considera com mais chance de vencer. Esse mecanismo tende a reproduzir o perfil de quem já está no poder.

A proporção muda conforme o cargo em disputa. Nas assembleias estaduais dos nove estados, as mulheres eram 35% das candidaturas e ficaram com 20,5% das vagas, elegendo 86 representantes para as 419 cadeiras. As pessoas negras representavam 50,4% dos postulantes e conquistaram 33,4% do espaço. Na Câmara Legislativa do Distrito Federal, foram eleitas cinco mulheres e nove pessoas negras entre os 24 parlamentares.

A comparação entre as unidades da Federação também revela diferenças regionais. O Mato Grosso do Sul elegeu quatro mulheres para suas oito vagas na Câmara dos Deputados. Já o Distrito Federal e o Piauí não elegeram mulheres para as bancadas federais, que possuem oito e dez integrantes, respectivamente.

Trajetória política

Na Câmara dos Deputados, a média de idade é de 50,3 anos, e a ocupação “deputado” foi a mais declarada ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), informada por 94 pessoas.

O histórico eleitoral aponta que 142 dos 239 deputados federais eleitos possuíam uma vitória em 2022 para o mesmo cargo e estado. Mizael avalia que quem tem mandato concorre com vantagens construídas durante quatro anos, como visibilidade, equipes e relações com lideranças locais.

Ainda assim, há presenças documentadas que acrescentam outras dimensões à representação. Um levantamento da plataforma Vote LGBT identificou 19 candidaturas com sucesso nas urnas no recorte do projeto. A lista contém 18 registros individuais e uma candidatura coletiva (Paula da Bancada Feminista, de São Paulo).


As decisões sobre o bioma

É a partir dessa composição que serão disputadas as decisões sobre o Cerrado. O levantamento do Olho de Aceiro cruzou os nomes dos eleitos com registros legislativos sobre terras, licenciamento e manejo.

Entre os eleitos em 2026 com registro individual de voto no texto principal do Marco Temporal na Câmara (em 2023), 80 votaram a favor e 47 contra. Na votação da redação final do projeto de licenciamento ambiental (em 2025), o placar entre os eleitos do recorte foi de 67 votos favoráveis e 26 contrários. Jorge Mizael interpreta o resultado como um sinal de continuidade, avaliando que a experiência legislativa e as redes de articulação dessas pessoas permanecerão relevantes nas disputas ambientais.

Por outro lado, a campanha “Vote pelo Cerrado”, que defende a proteção das águas e dos territórios, conta com a adesão pública de 18 titulares eleitos: dez federais, cinco estaduais e três distritais. Mizael pontua que a assinatura de um compromisso público não basta para mudar uma votação, já que a influência depende da ocupação de espaços em comissões e da relação com lideranças. Segundo ele, o compromisso assinado serve para deixar pontos concretos para a cobrança pública voto a voto.

Em conversa com a equipe do Olho de Aceiro, o deputado federal Fabrício Rosa destaca: “Assinei a carta-compromisso da campanha Vote pelo Cerrado porque entendo que não existe justiça social sem justiça ambiental. O Cerrado não é apenas uma paisagem ou uma reserva de recursos naturais. É o território onde vivem milhões de pessoas, onde nascem rios fundamentais para o abastecimento do país e onde comunidades indígenas, quilombolas, camponesas e tradicionais constroem suas histórias e seus modos de vida.”

O parlamentar também afirma que pretende se posicionar contra propostas que enfraquecem a legislação ambiental “Vamos nos posicionar contra projetos que representam retrocessos ambientais, inclusive iniciativas do governo estadual que comprometam a preservação do Cerrado”, declarou.

Nos governos estaduais, os resultados repetem um perfil semelhante ao do Legislativo. Os oito governadores da região definidos no primeiro turno são homens. Jerônimo Rodrigues (PT), na Bahia, declarou-se indígena ao TSE, enquanto os outros sete governadores eleitos declararam-se brancos.

O que cobrar dos parlamentares a partir de 2027?

A composição do Congresso após as eleições de 2026 estabelece um novo cenário para o debate sobre a proteção do Cerrado. No entanto, a capacidade de promover mudanças não depende exclusivamente dos nomes eleitos, mas também, será determinada pelas articulações partidárias, pela distribuição das presidências de comissões e pela definição das prioridades legislativas.

É nesse contexto que a observação e fiscalização da atuação parlamentar se torna indispensável. A partir de 2027, será possível acompanhar se os representantes que assumiram compromissos públicos com o bioma apresentarão propostas relacionadas à proteção ambiental, à garantia de direitos territoriais e à fiscalização de atividades que provocam impactos socioambientais. Diante disso, será necessário observar a destinação de recursos orçamentários, a atuação em comissões temáticas e o posicionamento diante de projetos que alterem a legislação ambiental brasileira.

Para os parlamentares que já exerceram mandatos, o histórico de votações funciona como um referencial, ele permite comparar decisões anteriores com os compromissos assumidos durante o processo eleitoral e identificar eventuais mudanças de posicionamento.

A análise das eleições de 2026 não se encerra com a divulgação dos resultados, mas serve como ponto de partida para uma trajetória que nos próximos quatro anos representaram politicamente a conquista nas urnas e o acompanhamento de ações concretas em relação ao Cerrado.

Para além de identificar quem chegou ao Congresso, a questão que permanece é como esses representantes utilizarão o poder recebido dos eleitores, e quais interesses serão priorizados quando a proteção do bioma entrar em conflito com outras agendas políticas e econômicas.

A equipe do Olho de Aceiro procurou os deputados Arthur Oliveira Maia (União Brasil-BA), relator do projeto sobre o marco temporal na Câmara dos Deputados em 2023, e Zé Vitor (PL-MG), relator do projeto sobre licenciamento ambiental na votação de 2025, para que comentassem suas atuações nas respectivas propostas. Até o fechamento desta reportagem, os dois parlamentares não haviam respondido aos questionamentos.

 

Realizada pela Articulação Agro é Fogo com apoio da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), a série Olho de Aceiro: examina quem ocupa e quem disputa o poder no Cerrado e como essas escolhas pesam sobre a terra-território e os povos que o defendem. Os textos são possíveis graças a parceria OJU/UFG, pelo levantamento de dados públicos sobre as candidaturas e a atuação parlamentar entre 2023 e 2026, lado a lado com organizações parceiras que levam para a série a experiência e as lutas de quem vive no Cerrado.

 

Ana Beatriz Milhomem é discente de Jornalismo na Universidade Federal de Goiás (UFG) e membra do Observatório de Jornalismo Universitário (OJU).

Gabrielle Lopes é discente de Jornalismo na Universidade Federal de Goiás (UFG) e membra do Observatório de Jornalismo Universitário (OJU).

Renato Cândido é discente de Jornalismo na Universidade Federal de Goiás (UFG) e membro do Observatório de Jornalismo Universitário (OJU).

 

 

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