SOCIEDADE BRASILEIRA

Segundo turno

Os mais de 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas no primeiro turno constituem um grupo particularmente importante. A abstenção é maior entre pessoas de baixa renda, justamente o segmento no qual Lula teve ampla vantagem nas pesquisas. Portanto, a maior parte dos votos adicionais seria para ele e, se esses eleitores comparecerem no segundo turno, uma parcela significativa deles votará no petista 

Eu estava no Rio, hospedado na casa de uma amiga que queria que a neta dela, pré-adolescente, viesse visitá-la. Mãe e filha moravam em Nova Friburgo e a relação da minha amiga com a ex-nora não era das melhores. Minha amiga rascunhou uma mensagem para a mãe no WhatsApp e leu para mim. Aí eu disse que, com esse texto, a neta não viria. “Mas a mãe dela não colabora em nada, mais isso, mais aquilo…” 

Perguntei, “Você quer brigar com sua ex-nora ou quer que a menina venha ao Rio?” “É, mas ela…” E eu falei, “Você quer que eu repita a pergunta?” Ela respondeu, “Não precisa, quero que minha neta venha ao Rio.” Ótimo, disse eu, e ela corrigiu o texto. A nova versão ficou melhor que a anterior, mas continuava irascível. Perguntei de novo, “Você quer brigar com sua ex-nora ou quer que a menina venha ao Rio?” Em resumo, minha amiga só conseguiu escrever um texto não beligerante em sua quinta versão – e a menina veio visitá-la. 

Escrevi uma crítica à China e alguns amigos disseram que eu estava marcando gol contra, estava favorecendo o Trump e o Bolsonaro. “Quem dera a direita lesse nossos artigos – a gente só escreve para nos fortalecer uns aos outros.” 

No sábado, 3 de outubro de 2026, eu não fui à Paulista, mas o Lula veio a mim. Entrou na minha rua em cima de uma caminhonete, junto ao Haddad e companhia. Ao redor do Lula rolava uma energia contagiante. O povo estava eufórico, senti a vibração que sinto em manifestações religiosas, mesmo sendo agnóstico. As pessoas clamavam “Primeiro Turno! Primeiro Turno!” – a CNT/MDA havia acabado de publicar que o Lula estava com 48% dos votos e o Flávio com 42%. 

Chamou minha atenção que a maior parte da galera estava vestindo camiseta vermelha – um “mar de comunistas”. Pensei, “não tem conversa”. A direita acha que somos todos comunistas, leia-se stalinistas; e nós nos orgulhamos muito de sermos comunistas, apesar da grande maioria ser crítica a Stalin. Na campanha para a prefeitura de Nova York, quando as pessoas chamavam o Mamdani de comunista, ele, sorrindo, respondia “Já me chamaram de coisa pior”. 

O Lula e a comitiva desceram da caminhonete em frente ao meu prédio, cumprimentaram e falaram com o público que estava na área de segurança – a “ala vip”, a que tive direito porque morava no prédio – e depois saíram todos em automóveis blindados com vidros fumês. 

O Brasil encontra-se hoje dividido e exposto a administrações alternadas, ora do Partido dos Trabalhadores/Lula, ora da família Bolsonaro. Essa alternância no poder tem levado a um desgaste contínuo, que só aprofunda a polarização e reduz a capacidade dos políticos e da própria sociedade de diminuir as tensões e superar os conflitos. 

O regime político brasileiro é presidencialista, com forte viés parlamentarista. Embora disponha de poderes próprios do presidencialismo, o chefe do Executivo depende do Congresso para implementar grande parte de seu programa de governo. Mas há setores partidários do presidente em exercício que cobram dele que ignore metade da população do país – “afinal, nós elegemos o presidente para quê?” 

O Brasil enfrenta hoje um processo com duas características intrínsecas – a polarização e a personalização do poder. A maior parte dos votos da esquerda são votos para o Lula ou para pessoas por ele indicadas, a exemplo de Dilma Rousseff e Fernando Haddad. A família Bolsonaro, por sua vez, construiu uma identidade política que prescinde e ultrapassa a identidade partidária. 

Considero o regime parlamentarista mais sadio porque não personaliza o poder, não o concentra em uma só pessoa, enfrenta crises e flexibiliza mudanças de rumo com menor desgaste político. Além disso, uma vez instituído, o parlamentarismo certamente levará o Congresso a reduzir o ostracismo, o marasmo e o oportunismo que hoje têm caracterizado a atuação de grande parte dos políticos brasileiros. Evidentemente, não estou sugerindo mudar a Constituição do país em meio à atual conjuntura política. 

Crédito: Ricardo Stuckert/Lula Oficial/Flickr

A polarização do país 

A polarização do país é fundamentalmente ideológica, razão pela qual “não há conversa possível”. Os dois campos eleitorais, relativamente estáveis, com identidades políticas reconhecíveis e irreconciliáveis, atravessam uma sociedade heterogênea como a brasileira e agregam grupos sociais distintos, marcados por diferenças de classe social, interesses econômicos, diferenças territoriais, religiões, preconceitos, ressentimentos, redes de organização e desinformação. 

A incompatibilidade entre os dois campos ideológicos reúne e articula questões morais, econômicas e políticas. Em termos morais, culturais e de costumes, a sociedade se divide entre liberais e conservadores, que apoiam ou resistem à diversidade de orientação sexual e de gênero, aborto, uso de drogas, combate ao racismo, à xenofobia, à intolerância religiosa etc. Economicamente, a divisão se manifesta na valorização das políticas públicas, sociais e distributivas versus neoliberalismo e desregulamentação ambiental. Politicamente, a questão gira em torno do papel das instituições, diferentes concepções de democracia, uso da força policial e alinhamento aos Estados Unidos. 

Nesse leque de posicionamentos, o Partido Liberal, conservador nos costumes e liberal em economia, consegue reunir militantes críticos ao movimento LGBT+, políticos racistas, representantes trans e negros, todos falando em democracia e apoiando os candidatos responsáveis pela tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023, embora se mostrem extremamente críticos a outros países autoritários e igualmente conservadores nos costumes. 

Renda familiar 

As pessoas com maior renda familiar votaram preferencialmente no Bolsonaro. Mesmo assim, há que se considerar que 22 milhões de pessoas com renda familiar até 2 salários mínimos votaram no Bolsonaro – mais de metade da população brasileira tem renda familiar abaixo de 2 salários mínimos. 

Os mais de 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas no primeiro turno constituem um grupo particularmente importante. A abstenção é maior entre pessoas de baixa renda, justamente o segmento no qual Lula teve ampla vantagem nas pesquisas. Portanto, a maior parte dos votos adicionais seria para ele e, se esses eleitores comparecerem no segundo turno, uma parcela significativa deles votará no Lula.

Epílogo 

Quando você desembarca do metrô em Nova York, pode seguir pela saída nordeste, noroeste, sudeste ou sudoeste. Tenho uma amiga que morava com dois filhos na cidade. Quando eram crianças, o filho mais velho saía do metrô apressado, sem saber para onde estava indo; e a irmã mais nova dizia, “se você não sabe para que lado devemos ir, por que segue caminhando?” 

Para um turista, na rua, o visual das quatro saídas parece sempre o mesmo – um monte de prédios geminados. Então, o pai de um amigo meu comprou uma bússola que carregava no bolso… 

Uma sociedade pode estar em movimento, pode ter pressa, pode até saber que precisa chegar a algum lugar, mas, dependendo da direção que toma, cada passo pode apenas afastá-la cada vez mais de seu destino. 

 

Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política. Autor, entre outros livros, de 1968, sonhos e pesadelos.

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