EMPREENDEDORISMO E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO

Prosperar é também ser dona do próprio tempo

De um próximo governo Lula, espero uma resposta mais ambiciosa: transformar autonomia em uma possibilidade sustentada por direitos, serviços públicos e distribuição de riqueza. Isso exige atualizar a agenda do empreendedorismo e reconhecer que proteção social também cria condições para assumir riscos, inovar e construir um negócio 

Prosperidade não é apenas ganhar mais: é ter autonomia para decidir como usar o próprio tempo. É poder acompanhar os filhos, criar, descansar e construir um futuro sem viver permanentemente submetida à urgência de sobreviver. Há quase 25 anos construo a Feira Preta, uma iniciativa brasileira que conecta cultura, empreendedorismo e desenvolvimento econômico da população negra. Nesse percurso, acompanhei de perto essa mudança do significado de prosperar. Nas conversas com empreendedores, escuto o desejo de aumentar a renda, mas também de recuperar o controle sobre a própria vida. 

Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

É por isso que a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro também é uma disputa sobre o que entendemos por liberdade. Sou uma mulher negra, empreendedora social e de esquerda. Compartilho da visão de desenvolvimento com inclusão do governo Lula, mas considero necessário que nosso campo político escute com mais atenção as aspirações de autonomia que atravessam as periferias. Quem trabalha quer direitos e proteção, mas também quer tempo, escolha e poder para decidir os rumos da própria existência. 

A prosperidade ganhou espaço no vocabulário bolsonarista. O programa de Flávio Bolsonaro dedica uma seção ao tema e associa liberdade no trabalho à flexibilização da jornada e à negociação direta entre trabalhador e empresa. Essa promessa merece ser examinada à luz de uma pergunta: quanto poder de negociação tem alguém que precisa aceitar o trabalho disponível para pagar a alimentação e o aluguel? 

A esquerda tem história e responsabilidade nessa discussão. Em dezembro de 2008, Lula sancionou a lei que criou o microempreendedor individual, o MEI, implementado em 2009. A medida reconheceu uma realidade que já existia: pessoas trabalhando por conta própria, muitas delas na informalidade, precisavam de caminhos acessíveis para formalizar suas atividades e ingressar na proteção previdenciária. 

Quase dezoito anos depois da criação dessa política, precisamos discutir seu próximo capítulo. Um registro empresarial pode abrir portas, mas não assegura clientes, crédito adequado, renda estável ou capacidade de acumular patrimônio. Tampouco podemos aceitar que a contratação como empresa sirva para esconder uma relação de emprego e retirar direitos. 

Na Feira Preta, aprendi a reconhecer a potência de quem empreende e os limites de celebrar essa potência sem enfrentar suas condições materiais. Talento, criatividade e disposição para trabalhar não resolvem, sozinhos, as barreiras de acesso a capital e mercados. Para negócios negros, enfrentar o racismo precisa fazer parte da política econômica. 

Vejo também uma distância entre algumas respostas do campo progressista e os desejos que escuto. Há quem queira um emprego protegido; há quem queira construir um negócio; há quem transite entre essas situações. Precisamos assegurar que essas escolhas sejam possíveis e que nenhuma delas signifique desamparo. 

O debate sobre a escala 6×1 torna essa disputa ainda mais concreta. Para quem trabalha seis dias e descansa apenas um, o tempo não é uma abstração, é o intervalo entre uma jornada e outra, muitas vezes insuficiente para cuidar da casa, acompanhar os filhos, estudar, descansar ou simplesmente viver. A pergunta que precisa ser dirigida à direita é: que liberdade existe quando quase toda a semana é consumida pelo trabalho e o descanso se reduz ao mínimo necessário para voltar à jornada? Não basta falar em negociação direta ou em escolher o horário de início do trabalho quando a organização da jornada mantém a pessoa disponível até a exaustão. Liberdade também é ter dias de descanso, previsibilidade e tempo para participar da própria vida. 

As plataformas digitais tornam essa contradição visível. A flexibilidade convive com formas de controle sobre remuneração, distribuição de tarefas e acesso aos clientes. Mas de quanto tempo uma pessoa realmente dispõe se precisa trabalhar continuamente para sobreviver? 

Por isso, considero perigosa uma promessa de autonomia que ignore as desigualdades de poder. Vejo na ênfase de Flávio Bolsonaro na negociação direta o risco de ampliar a responsabilidade individual sem assegurar força equivalente para negociar. Não trato esse risco como destino inevitável; trato-o como uma escolha política que precisa ser confrontada. 

De um próximo governo Lula, espero uma resposta mais ambiciosa: transformar autonomia em uma possibilidade sustentada por direitos, serviços públicos e distribuição de riqueza. Isso exige atualizar a agenda do empreendedorismo e reconhecer que proteção social também cria condições para assumir riscos, inovar e construir um negócio. 

Creches, saúde, educação e transporte de qualidade fazem parte dessa economia. São condições para que uma mulher possa trabalhar sem carregar sozinha toda a responsabilidade pelo cuidado. Crédito acessível, compras públicas e oportunidades nas cadeias de grandes empresas também precisam alcançar os pequenos negócios negros. Queremos participar da produção da riqueza e das decisões sobre sua distribuição. 

A economia criativa oferece um caminho concreto. Música, gastronomia, moda e artes visuais podem gerar renda e patrimônio quando quem cria consegue reter parte justa do valor produzido. Para mim, uma política cultural consistente deve assegurar condições de criação, circulação e remuneração, com atenção a quem historicamente encontrou as portas fechadas. 

Essa visão de prosperidade precisa acolher formas coletivas de produzir e viver. Para povos indígenas e comunidades quilombolas, direitos territoriais, proteção ambiental e autodeterminação são fundamentais. Cabe ao Estado garantir condições para que essas comunidades decidam seus próprios caminhos, sem impor o sucesso empresarial individual como medida universal de desenvolvimento. 

É assim que penso uma economia progressista. Com mais gente tendo acesso a capital, patrimônio, tempo e poder. Cooperativas, negócios comunitários e empreendimentos individuais podem integrar esse horizonte. O desafio é distribuir as condições de prosperar e impedir que a concentração econômica transforme liberdade em privilégio. 

Meu apoio a Lula vem acompanhado dessa expectativa de futuro. Seu legado oferece um ponto de partida, mas a realidade do trabalho mudou e exige novas respostas. A esquerda precisa reconhecer o desejo de autonomia como parte da luta por igualdade. 

Quero um Brasil em que a população negra possa construir patrimônio, realizar seus projetos e viver para além da urgência. Em que trabalhar permita sustentar a vida e também desfrutá-la. Para mim, prosperidade é ter futuro e tempo para viver esse futuro. 

 

Adriana Barbosa é fundadora do Instituto Feira Preta.

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