ELEIÇÕES 2026

A extrema direita e a instrumentalização dos desejos

Defender a democracia, inclusive pelo voto, é fundamental para conter o avanço autoritário e preservar as condições políticas necessárias para seguirmos disputando o presente e construindo outros futuros

Explicações que reduzem o voto na extrema direita à ignorância, à loucura ou à manipulação são simplistas e moralmente reconfortantes, mas pouco explicativas. O pensamento crítico exige que desconfiemos até mesmo das verdades amplamente aceitas, como a ideia, hoje dominante, de que a desinformação constitui o maior problema da humanidade. Não se trata de negar seus efeitos, mas de reconhecer os limites de uma análise que toma a circulação de informações falsas como explicação para fenômenos políticos complexos.

É preciso incluir nas análises sociais a produção das subjetividades e compreender como o desejo é produzido, orientado e mobilizado por determinados imaginários do mundo. Análises sociais mais complexas demandam o reconhecimento de que a colonização está para além da exploração econômica e do domínio dos corpos: trata-se também de compreender como a violência colonial incide sobre a própria capacidade de viver, desejar, estabelecer vínculos e imaginar outros mundos possíveis.

É a partir dessa perspectiva que podemos pensar a construção do imaginário de nação. A marginalização histórica cinde e hierarquiza o Brasil entre o moderno e o arcaico, sustentando a ilusão de que existe apenas um Brasil: o do progresso, europeizado, branco, habitado por pessoas protegidas em condomínios fechados. Esse imaginário estabelece quem é reconhecido como parte da nação e quem permanece à margem, como se determinados grupos fossem obstáculos à realização de um projeto nacional que nunca nos contemplou plenamente. A exclusão é uma das condições históricas de realização desse projeto de modernização e não seu desvio. Exclui, expropria, humilha, tortura e mata populações historicamente marginalizadas – pessoas pobres e racializadas, povos originários, comunidades tradicionais, dissidentes políticos e sexuais, entre tantos outros sujeitos cujas existências desafiam a ordem dominante –, reiterando, sob diferentes formas, a lógica colonial do extermínio.

Esse imaginário se atualiza em projetos políticos que mobilizam símbolos e instrumentaliza desejos, através de promessas de pertencimento. No Brasil, essa disputa tem uma história que não deve ser ignorada. A Ação Integralista Brasileira (AIB), fundada em 1932 sob a liderança de Plínio Salgado, constituiu o maior movimento fascista da América Latina e uma das experiências de mobilização fascista de maior alcance fora da Europa. Seu lema, “Deus, Pátria e Família”, sintetizava um imaginário político que articula fé, identidade nacional e ordem social.

Essa tradição ajuda a compreender o bolsonarismo como uma das expressões contemporâneas

da extrema direita brasileira que reelabora repertórios autoritários historicamente disponíveis. Mais do que palavras de ordem, o lema fascista e bolsonarista, condensa uma promessa de pertencimento: oferece a imagem de uma comunidade moral supostamente ameaçada, convocam a defesa de uma pátria idealizada e apresentam determinados modelos de família e de organização social como fundamentos de uma ordem a ser restaurada.

Símbolos políticos organizam afetos, produzem identificações e delimitam as fronteiras entre aqueles que pertencem à comunidade imaginada e aqueles que passam a representá-la como ameaça. A promessa de unidade pode produzir pertencimento para uns justamente porque define outros como inimigos, desviantes ou corpos que não correspondem ao ideal de nação. No bolsonarismo, essa dinâmica precisa ser examinada também à luz de sua atuação antidemocrática: os ataques à legitimidade das eleições e as mobilizações que culminaram na invasão e depredação das sedes dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023, demonstram que essa disputa simbólica articula-se à contestação das próprias regras democráticas.

Se quisermos compreender a força política da extrema direita no Brasil, precisamos investigar os mundos que promete, os afetos que convoca e as fronteiras de humanidade que estabelece.

Ato em apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República reúne apoiadores na Avenida Paulista.
Crédito: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

O sistema colonial desumaniza, enfraquece conexões, rompe vínculos comunitários e nos afasta de nossa potência de vida. A instrumentalização do desejo é parte desse regime de dominação, que ameaça não apenas os seres humanos, mas também as condições de reprodução da vida no planeta. Nesse sentido, a colonialidade pode ser compreendida como um regime de destruição que atravessa nossos corpos, desejos, relações e os mundos que somos capazes de criar.

Seria possível desmantelar essa ordem, que naturaliza a exploração e hierarquiza a humanidade, sem raiva? Não seria a raiva também um sinalizador, um agenciador, um fio vital de uma transformação política necessária? As lutas por justiça que emergem da zona do não ser, como sugere Frantz Fanon, são frequentemente deslegitimadas antes que nossas reivindicações sejam consideradas. A indignação de quem vive sob a violência colonial é lida como descontrole; nossa revolta, como ameaça à ordem; nossa reivindicação por dignidade, como excesso.

A disputa por um projeto de sociedade mais justo e igualitário não é nova para nós, habitantes das margens, como nos lembra Rosane Borges em seu mais recente livro Imaginários emergentes e mulheres negras: representação, visibilidade e formas de gestar o impossível. Por isso, compreender a extrema direita exige ir além da identificação de informações falsas e da denúncia de seus discursos. É necessário investigar como a extrema direita mobiliza diferentes afetos: o ódio, o ressentimento, o rancor e o medo, mas também o orgulho, a lealdade e o desejo de pertencimento. Como discute Rosana Pinheiro-Machado em seu artigo Raiva, sonhos e insubordinação: como a extrema direita e as mídias digitais mobilizam a classe trabalhadora plataformizada, essas mobilizações não podem ser compreendidas sem considerar os desejos, as aspirações e as formas de identificação que atravessam a experiência social. O pertencimento prometido, contudo, se constitui pela produção de um outro a ser excluído, cuja presença passa a representar uma ameaça à comunidade imaginada. Pertencimento a quê? Lealdade a quem? E contra quem se constitui essa comunidade?

O desejo de pertencimento pode abrir caminhos para a ação coletiva ou produzir comunidades cuja coesão depende da exclusão de determinados grupos. É justamente por isso que precisamos compreender como os afetos são organizados politicamente, quais formas de vida prometem realizar e quais sujeitos autorizam a existir.

Para construir estratégias de transformação mais efetivas, precisamos abandonar a ideia de que a adesão à extrema direita se explica necessariamente pela burrice, pela loucura ou pela alienação de seus apoiadores. Isso não significa desconsiderar a manipulação, a desinformação ou as contradições presentes nesses movimentos, mas reconhecer que sua força política também reside na capacidade de produzir desejos, oferecer pertencimento e organizar respostas para angústias e ressentimentos socialmente existentes. A extrema direita não precisa ser irracional para produzir projetos de exclusão. Ela pode mobilizar, de maneira articulada, afetos, símbolos e promessas de ordem para disputar os sentidos da nação e da vida coletiva.

O projeto de sociedade em disputa, afinal, não começou ontem. Suas raízes atravessam mais de cinco séculos de colonização, hierarquização racial e expropriação da vida. Enfrentá-lo exige compreender quais desejos a extrema direita mobiliza, mas também construir formas de disputá-los. Isso significa fortalecer vínculos comunitários, produzir outros imaginários de pertencimento e criar condições para que nossos desejos se orientem não pela exclusão, mas pela solidariedade, pela justiça e pela afirmação da vida. A raiva que emerge das margens pode ser a recusa da naturalização da violência e a força que impulsiona a construção de outros mundos. É preciso ampliar nossa capacidade coletiva de imaginar e construir alternativas. A luta pela dignidade não é nova para nós, habitantes das margens. Neste momento, defender a democracia, inclusive pelo voto, é fundamental para conter o avanço autoritário e preservar as condições políticas necessárias para seguirmos disputando o presente e construindo outros futuros. Trata-se de abrir caminhos para que outros mundos possam existir.

 

Ana Carolina Dias Ramos é psicóloga, pesquisadora e professora mestra em Psicologia Social, com mais de 10 anos de experiência. A trajetória reúne liderança e coordenação de projetos voltados à promoção da justiça social, atuação em políticas públicas de saúde mental, articulação institucional, gestão de equipes e iniciativas voltadas à justiça social, equidade racial e de gênero e direitos humanos. Também possui ampla experiência em mediação de conflitos e gestão de crises, atuando na construção de estratégias de cuidado, diálogo e tomada de decisão em contextos complexos. Prática orientada por uma perspectiva interseccional e pelo compromisso com o cuidado integral e a transformação social, articulando conhecimentos em Psicologia Social, saúde mental, direitos humanos, gênero, raça, gestão pública e inovação social. Colabora em projetos interdisciplinares que buscam fortalecer práticas de cuidado, equidade e justiça social.

Leia mais sobre o tema: