NÃO É UMA OBRA AGRADÁVEL, MUITO MENOS FÁCIL, MAS É NECESSÁRIA

“O desaparecimento de Josef Mengele” e o mal que vive em todos nós!

A HQ é uma leitura incômoda, porém fundamental e necessária para a preservação dos valores democráticos e o combate intransigente aos discursos de ódio

A publicação da obra O desaparecimento de Josef Mengele (2026), uma adaptação gráfica do livro homônimo escrito pelo jornalista Olivier Guez, realizada pelos autores Alexis “Matz” Nolent, responsável pelo roteiro, e Jörg Maillie, responsável pelos desenhos, e lançada no Brasil pela editora Pipoca e Nanquim, é uma daquelas edições que parecem dialogar com os tempos históricos contemporâneos. Vivemos em uma época em que os ideais nazistas se tornam cada vez mais comuns e presentes entre os jovens de todo o mundo, inclusive no Brasil, onde circulam por mídias alternativas ou propagadas como ideias ou valores morais, por vezes legitimados por vozes de políticos ou influenciadores extremistas. Essas ideias ganham cada vez mais espaço e visibilidade em sua trajetória de propagação daquilo que nunca mais deveria ser verbalizado, muito menos explicitado.

O de que somos nós mesmo, os geradores de nossos maiores e mais sombrios males, de que somos nós os maiores e mais perversos demônios. Força de destruição descomunal e sem limites… Com nenhum poder ou remorso. Potência destruidora que pode ser mais potencializada de acordo com os processos sociais, econômicos, políticos e culturais aos quais os seres humanos se encontram inseridos.

Os nazistas e, nesse caso, Mengele são tratados como seres humanos desprovidos de seu senso moral de pertença coletiva maior, o de pertencimento a uma ideia coletiva e global de humanidade, em troca de uma concepção ideológica reacionária – racista e discriminatória – de seletividade ao conceber, a partir de seus princípios particulares, quem é ou não seu semelhante, quem é de fato considerado ser humano ou rotulado e tratado como encarnação de uma inumanidade que deve ser perseguida e, ao final, exterminada. Mas, ao mesmo tempo, são representados como seres orgulhosos, reconhecidos como parte de uma elite em seus círculos sociais, como famílias-modelo e expoentes do que havia de melhor no padrão civilizacional europeu. Agiam como se fossem naturalmente superiores não apenas moralmente, mas também cultural e fisicamente.

© Renato Caetano

Uma onipresença perante os demais mortais, que dava aos nazistas – em especial aos seus agentes e dirigentes orgânicos – a sensação de que viviam em um eterno destino manifesto em plena execução. Uma peça operística wagneriana de purificação da humanidade, visando à sua edificação por um viés racial, para que esta, salva e guiada por sua raça superior – os arianos –, edificasse um novo império na Terra. Um novo Reich que duraria mil anos, semeando frutos econômicos, artísticos e sociais que seriam eternos em suas heranças.

Característica de uma amoralidade que é capturada pela dupla de autores da HQ, que retrabalha de forma magistral o prazer sádico e mórbido representado em cada ação de Mengele enquanto médico nazista. Cada dor, morte e atrocidade executada sob seu comando é retratada como um deleite burocrático de alguém plenamente consciente da importância de suas ações e legitimado por suas próprias perspectivas. Não havia dúvida – e, portanto, também não havia remorsos – nem vergonha em relação ao que pensava, defendia e executava. Isso acaba por nos contextualizar diante de sua ojeriza por alguns de seus pares de farda e ideologia, os quais considerava intelectualmente inferiores ou inaptos a dar cabo das missões que lhes haviam sido confiadas em nome do próprio Führer, Adolf Hitler. Eram, assim, incapazes de contribuir para transformar em realidade o ideário de uma Alemanha que voaria alto e acima de todas as demais nações!

Como se a vida fosse uma imposição natural e legítima dos superiores sobre os inferiores, dos verdadeiros e puros humanos que se opõem e lutam pela erradicação dos impuros, medíocres e sub-humanos… A defesa da eugenia enquanto método de validação e purificação da humanidade para sua existência contínua e inabalada. Uma trajetória que, para ele, era apenas uma questão de tempo e na qual, na nova ordem social que se faria constituir a partir de então, ocuparia um lugar de destaque, para orgulho do nome de sua família e de sua pátria.

Certeza repassada ao público leitor, através de um equilíbrio entre o texto, tão ponderado entre passar todas as informações e discursivas necessárias para termos a devida concepção da voz em pensata de Mengele, mediada por uma arte estupenda em nos revelar o mal em sua totalidade arrogante, que se dá nos detalhes de um rosto sempre entre ironia, soberba e nojo. Tanto em momentos públicos do personagem título ou quando em momentos de autorreflexão. Sem dó de se arriscar num processo artístico-narrativo que poderia se dar enquanto maniqueísta, mas que nos desnuda estarmos diante de alguém desde sempre destituído de qualquer empatia, mesmo pelos seus. Um ser nascido para triunfar e ser reconhecido em louvor, pelo seu brilhantismo em luta contra o mal das sub-raças e do comunismo. Edificando a vitória do nazismo perante os seus inimigos ao mesmo tempo em que se dá o exercício de uma medicina livre e sem pudor de regras morais em realizar experiências científicas visando a melhoria genética do pretenso “povo superior”. O que fazia com que ele não tivesse nenhum remorso ou mesmo percepção de suas práxis médicas enquanto formas de torturas sádicas e mortais. Se comparando a um artista exercendo livremente os seus dons, em busca de manifestações máximas de expressões representativas de seu talento!

Uma segurança existencial que marcou sua vida desde antes de seu nascimento, oriunda de um ideário que circulava pelas regiões europeias desde a Idade Média – envolvendo antissemitismo, fanatismo religioso, racismo e xenofobia – e que, a partir do final do século XIX, passou a incorporar a fomentação ideológica contra os ideários vermelhos (anarquismo, comunismo e socialismo). Tratava-se de ser como era e viver em meio a uma realidade regida por um padrão de moralidade de poucos e para poucos, como se estivesse alheio a qualquer risco de punição ou fracasso.

O que nos revela um dos momentos mais brilhantes da narrativa dessa obra, de quando Mengele, passa a culpar a tudo e a todos, menos a si, pela derrota nazista na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Incapaz em lidar com a realidade a sua volta. Um ser moralmente inapto em, dali por diante, refletir acerca de suas ações ou de manifestar compreensão e, algum, sentimento de vergonha pelos seus atos criminosos de guerra. Além de haver uma mistura entre incredulidade quase pueril e falta de entendimento histórico ante aos fatores políticos e militares que deram fim ao sonho de supremacia mundial nazista.

Pessoa perdida em meio ao fracasso de seu sonho, que foi aumentando o seu ódio e desprezo pelos judeus, negros, mestiços e comunistas, como se estes fossem os culpados por ter vivido em fuga e escondido, longe de sua família e distanciado de sua esposa e de seu filho. Isolado da convivência direta – embora sempre em contato com seu pai e irmão, sendo protegido e financiado por estes em seu desterro – e dos negócios familiares. Sempre enxergando, entendo o mundo por lentes de puro rancor. Embora sempre vivendo com medo de ser capturado pelos agentes israelitas e acabar julgado e condenado a morte como Eichmann, em 1962.

Mas vivendo em total segurança – embora por vezes quase sendo capturado – sustentado por uma rede de cooperação nazi transnacional, que teve na América do Sul, em especial Argentina e Brasil, como uma grande terra prometida a estes agentes do caos e morte. Em que os nazistas aqui alocados, viveram publicamente na Argentina, com nomes e passaportes falsos, mas acolhidos e protegidos até pela estrutura governamental e pela alta burguesia industrial e política local. O que não foi tão diferente do que houve no Brasil, com agentes nazistas que para cá vieram protegidos pelas elites burguesas políticas e industriais. Além de relações com agentes governamentais locais que se faziam institucionalmente “cegas, surdas e mudas” em relação a estas pessoas. Como se não soubessem que aqui eles habitavam e transitavam de lado a lado do país.

Situação que ganha destaque seminal no corpo da obra, ao se pontificar como um dos elementos mais absurdos e assustadores dessa narrativa historiográfica, que é retratar de maneira nada sutil, a atuação por décadas de uma rede internacional nazista, de forma atuante e constante, que emergiu no centro nevrálgico europeu após o final da Segunda Guerra Mundial e se espalhou pelo mundo, inserindo seus protegidos e familiares a vidas novas, regularizadas, seguras e protegidas em terras distantes. O que explica em muito o quanto esse mal ainda se perpetua e se revela contemporâneo em nossa era política, até mesmo numa sociedade tão complexa e dinâmica, racialmente e culturalmente miscigenada, além de geograficamente distante da Europa, quanto a brasileira.

Um mal sem limites, capaz de qualquer atrocidade, que os autores da HQ não temem expor e discutir ao longo das páginas. Mas que revela residir também no interior daqueles que negam e combatem sua existência. Nos agradecimentos finais, Matz expressa seu espanto e sua repulsa diante de atrocidades que ocorreram em plena Europa cosmopolita, como se ela fosse imune a tais situações por representar aquilo que de melhor e mais civilizado existia na humanidade. No entanto, são justamente esses sentimentos que podem potencializar a erupção do que de pior habita e faz parte de qualquer ser humano, de qualquer povo ou cultura. Ao normalizar seu estranhamento e sua revolta diante do fato histórico de o nazismo ter sido concebido e se espalhado em pleno continente europeu, lança-se uma questão provocativa – e inquietante: por qual motivo, em outras partes do mundo e entre outros povos e culturas, tal fenômeno seria considerado “mais” aceitável ou “menos” inquietante do que de fato foi? E, se assim fosse, sua confrontação e seu repúdio teriam ocorrido na mesma escala? O eurocentrismo, enquanto bússola ideológica civilizatória do mundo, carrega uma superioridade moral extremamente danosa, que acaba por escamotear os preconceitos e racismos que essa visão impõe ao se buscar compreender e se posicionar perante o mundo.

É lógico que não estamos apontando o roteirista enquanto racista de fato, longe disso. Mas como inserido a um contexto histórico-cultural que sempre teve dificuldade em assumir o mal representado pelos nazistas como algo inerente a qualquer civilização humana, mas que se deu na Europa devido as conjunturas históricas, políticas e culturais que permearam as disputas industriais capitalistas e colonialistas, influenciadas por um antissemitismo crônico de séculos – profundamente arraigado a um ideário religioso cristão profundamente reacionário – que tinham como epicentro aquele continente.

E se até mesmo uma pessoa socialmente engajada, consciente e publicamente contrária dessa ideologia de antivida acaba por reproduzir – de maneira inconsciente – uma pretensa superioridade civilizacional europeia em relação as suas contrapartes continentais, isso nos revela que o mal ao qual Mengele serviu de bom grado, existe habita e pode se reproduzir em cada um de nós.

Cada vez mais revivido e manifestado por todas as partes do mundo. Inclusive no Brasil, um dos países com maior atuação neonazista, em especial por sua população mais jovem! O que só reafirma a importância e o significado da publicação, circulação e debate que obras como essas da “Pipoca e Nanquim” representam para defesa e preservação dos valores humanistas e democráticos que devem reger e nortear os conjuntos das relações sociais e culturais que nos formam enquanto país, enquanto nação.

Esta HQ postula que não há espaço para tolerância ao intolerante nem para diálogo diante de discursos de ódio e morte! De que o mal é o mal e deve sempre, a toda hora e a todo momento, ser combatido e erradicado. De que toda alienação e neutralidade são, na verdade, formas de cooptação ou concordância com tais mantras de horror. Os ventos contemporâneos nos desafiam a não reproduzir os erros e as atitudes de nossos antepassados, para que essa escória maldita nunca mais se sinta livre para destilar seu odor anticivilizacional. E que os bichos escrotos voltem para os esgotos da História, de uma vez por todas, para que de lá nunca mais saiam!

Não é uma obra agradável, muito menos fácil, mas é necessária ante aos desafios de nosso tempo, de nossa época. A leitura é tensa, incômoda, lhe tira de seu lugar de neutralidade protetora enquanto leitor.  É a arte mais uma vez indo além de sua concepção enquanto produto de rápido consumo ou de sua ideológica concepção de funcionalidade alienante e escapista. Para ela ser contestatória, incomoda e radicalmente libertária, ante aos temores e atrocidades que circulam pelo mundo! Uma opção artística e de narrativa arriscada de seus autores. Como um lembrete constante para sermos melhor do que nossas convenções ou convicções nos habituam, para não nos deixarmos (sobre)viver, ou sermos iludidos, pela mediocridade da nossa vida corriqueira e conformista.

De que o mal nunca dorme, está entre nós e não deve ser nunca subestimado. Pois relevarmos a existências de reacionarismos é a porta de entrada para que este tome posse dos destinos de nossas vidas! E que um dos capítulos mais sombrios da humanidade ocorra novamente, não mais como “por acaso” ou de maneira “inesperada”, mas como tragédia anunciada.

Mesmo com uma transposição temporal na parte final, que poderia ser mais detalhada e menos abrupta. É uma obra em seu conjunto, bem desenvolvida. Que vence ao seu duplo desafio de trabalhar uma temática tão perigosa pelo seu potencial de pender em uma história de cunho essencialmente piegas. Ou, por outro lado, panfletária, sem desenvolver nenhuma profundidade moral e ética no decorrer de sua narrativa e discursiva. Além de conseguir adaptar uma obra literária renomada, sem se tornar refém dos caminhos estéticos ou argumentativos já apontados pelo livro original.

Uma HQ, que corajosamente, ao mesmo tempo que esmiuça a trajetória de Mengele, o humanizando no sentido não de expor as suas particularidades ou fraquezas emocionais. Por situá-lo enquanto um ser resultante de todo um conjunto de valores legitimado, aceito e estimulado nos conjuntos de nações europeias, que se politizaram e radicalizaram como práxis de extermínio a partir de meados do século XX naquela parte do mundo, mas aplicada em suas colônias africanas e asiáticas já por séculos. Colonizadas e sedimentadas também em terras americanas pelas nações metrópoles europeias. O que resultou no decorrer do tempo, na constituição de uma rede de apoio que daria proteção e suporte ao médico nazista em sua fuga pelo mundo. Ao qual morreria sem se arrepender e sem pagar efetivamente por seus crimes, dando ao final do quadrinho um gosto reflexivo e amargo. Pela sensação de que apesar de viver escondido e tendo que constantemente mudar de esconderijo, ele nem foi julgado de fato, pelas suas atrocidades. A nos lembrar que o nazismo não é uma pessoa em si. É um conceito, um ideário que se manteve nas sombras, escondido e envergonhado, mas não inteiramente derrotado, se fortalecendo e aumentando o seu ódio, à espera de andar novamente pelo mundo.

O que nos pontua o tão difícil e urgente se faz necessário essa eterna (auto)vigilância para conter as malditas sementes do mal, que insistem ainda em irromper não só ao nosso redor, mas até mesmo a partir de nossas melhores intenções. É preciso estarmos atentos e fortes, sempre! Pois, o que vale é o compromisso de mesmo com nossas imperfeições, sempre buscarmos romper os ideários e falácias teóricas que possam avalizar o injustificável e o indefensável. Sendo necessário, por vezes a começarmos por nós mesmos a enfrentar o mal que, com razão, combatemos e apontamos nos outros.

Para que a história não se repita enquanto tragédia. E que mentiras não se tornem verdades e nem que vilões se tornem heróis!

Que os ventos de morte nunca mais soprem as rotas de nosso destino! Nunca, mais! Pisemos nos malditos ovos de serpente, não deixemos que se multipliquem livremente…

E que seus adoradores não tenham um segundo de paz ou de sossego! Pois eles estão entre nós.

 

Christian Ribeiro é doutor em Sociologia. Professor titular da SEDUC-SP, pesquisador das áreas de negritudes, movimentos negros e pensamento negro no Brasil. Membro do grupo de pesquisa “Pensamento social: contextos, instituições, intelectuais e movimentos” do IFCH/Unicamp.

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