Houve um ano chamado 2020
Gostaríamos de acreditar que os 700 mil mortos da pandemia impediriam o retorno desse projeto ao poder. Mas como nos lembra Butler, nem todas as vidas são tratadas como passíveis de luto. Para que uma vida importe, é preciso que a sociedade a reconheça como tal e os fatos narrados neste texto mostram como esse reconhecimento é sempre disputado e, muitas vezes, contraditório
Era 27 de dezembro de 2020 quando escrevemos para o blog Morte sem Tabu da Folha de S.Paulo. Era um texto sobre o luto como política da resiliência. Era o fim de um ano no qual vivíamos algo até então inédito, a pandemia de Covid-19. Era um ano em que morreram mais de 194 mil pessoas por conta da doença e da crise sanitária que a acompanhou. Um número incalculável de mortes, e que ainda assim, mais do que dobrou no ano seguinte. Eram tempos em que olhávamos gráficos todos os dias nos jornais, e víamos linhas aflitivas que só subiam, que registravam mais óbitos, mais mortes, mais mortos. Não sabíamos até quando isso duraria. Eram tempos em que a vacina era uma promessa. Era o governo de Jair Bolsonaro, que desdenhou da doença, duvidou e atrasou a vacina, potencializou e banalizou as mortes.
Era um ano em que estávamos impedidas de circular, ver as pessoas que amamos, e que um medo rondava as ruas, as conversas, os dias. Um medo coletivo e desprezado pelo presidente do país. Foi um ano em que houve muitas perdas, inumeráveis, incontáveis, absurdas e irreparáveis. Tantas delas, que poderiam ter sido evitadas se Bolsonaro levasse a morte a sério, o que significa também levar a vida a sério. Foi um ano duro, um ano de um luto que nunca acabou.

Era um ano em que João Alberto foi assassinado pelos seguranças da rede de supermercados Carrefour, e Emily e Rebecca vitimadas pelo Estado enquanto brincavam na porta de casa no Rio de Janeiro. Era um ano que o genocídio da população negra seguiu aflitivamente desestruturando vidas, apesar da Covid, e com a Covid. Um ano em que a polícia dos Estados Unidos matou George Floyd durante o mandato de Donald Trump, um presidente que desdenhou da doença, duvidou e atrasou a vacina, potencializou e banalizou as mortes.
Também foi um ano em que as pessoas foram de máscaras para as ruas protestar contra o governo em curso. Aqui, e nos Estados Unidos. Era o ano em que George Floyd, que morreu dizendo que não conseguia respirar – não pela Covid, mas pelo sufocamento de um policial – levantou uma multidão mascarada que gritava que as vidas pretas importam.
Naquele mesmo ano, fazia dois anos que Marielle Franco havia sido assassinada. E que Anderson Gomes foi assassinado junto com ela, em um dia que levou milhares de pessoas às ruas do país em um estado de indignação absoluta. Em São Paulo, nós caminhamos pela Avenida Paulista sem palavras de ordem, mas em uma onda de silêncio. Vivíamos algo indizível, e ali iniciávamos um luto coletivo que não acabou.
Nós somos sobreviventes desse ano. Nós somos enlutados e enlutadas dos nossos mortos, dos mortos dos outros. Setecentos mil mortos. Mortos denunciantes, cujas mortes dolorosas, escandalosas e inconsoláveis pesaram contra a reeleição de Jair Bolsonaro em 2022.
Era 2022 quando Lula derrotou Bolsonaro nas urnas e que anunciamos um basta à devastação das vidas, das florestas, à violência praticada, estimulada e normalizada. Em 2025, no governo Lula, o Brasil saiu do mapa da fome pela segunda vez, depois de ter retornado a essa realidade durante o governo Bolsonaro, que desmontou políticas públicas e aumentou abissalmente as desigualdades sociais criminosas do país. Entre 2023 e 2025, 16,7 milhões de pessoas deixaram de viver em situação de insegurança alimentar.
No ano passado, Bolsonaro foi preso e segue preso desde então por tentativa de golpe de Estado, mas ainda não foi responsabilizado por suas práticas e discursos criminosos sobre a Covid, a população negra, as mulheres.
É impossível voltar a esse texto sem mencionar Marielle Franco. Em 2019, os executores do crime, Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, foram presos. No mesmo ano, a escola de samba Mangueira foi campeã do Carnaval do Rio levantando a bandeira com o rosto da Marielle. Em um desfile histórico, uma multidão cantava “Brasil teu nome é Dandara, Tua cara é de cariri, Não veio do céu nem das mãos de Isabel, A liberdade é um dragão do Mar de Aracati, Salve os Caboclos de Julho, Xetuá, Quem foi de aço nos anos de chumbo, Brasil, chegou a tua vez: de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, Malês”.
Ao se deparar com a história de Vênus, uma menina escravizada que morreu a bordo de um navio negreiro, a historiadora Saidiya Hartman propõe recontar as vidas que foram reduzidas às mortes violentas que sofreram. Diante do terror, ela se pergunta: como narrar histórias impossíveis? Foi o que a Mangueira, no limite do indizível, tentou propor naquele momento. Através do samba enredo, Marielle encontrou seu modo de ser falada, lembrada, festejada, apesar de tudo.
Em 2024, Domingos Brazão, Chiquinho Brazão e Rivaldo Barbosa foram presos acusados de mandar matar Marielle e Anderson. Em fevereiro deste ano, o Supremo condenou os irmãos Brazão como mandantes da execução de Marielle e Anderson. Rivaldo Barbosa, ex-chefe da Polícia Civil responsável pela investigação do caso, foi condenado por corrupção e por obstruir a investigação. A família, que assistiu da primeira fileira e que desde o primeiro momento lutou para impedir que o crime caísse no esquecimento, ouviu a resposta para a pergunta que ecoava no país inteiro: quem mandou matar Marielle?
É 2026. Jair Bolsonaro segue preso e inelegível. Seu filho, Flávio Bolsonaro, é candidato à presidência, com um projeto de continuidade da destruição iniciada pelo pai. Com uma bandeira fortemente armamentista, foi um dos autores de um projeto de lei que, em sua versão original, acabava com a obrigatoriedade de marcação de munições. Foi exatamente essa marcação que permitiu que a origem das balas que mataram Marielle fosse rastreada. Sua equipe de campanha também estuda revogar o Estatuto do Desarmamento.
Em maio, veio a público que a Polícia Federal investiga uma emenda de quase 200 mil reais que ele destinou, em 2023, a uma ONG na Zona Oeste do Rio. Segundo a investigação, o pedido chegou ao gabinete do senador Robson Calixto, assessor de Domingos Brazão, condenado no caso Marielle. Embora não seja alvo de acusações formais, o episódio não é o único que aproxima o candidato das milícias, ele também homenageou na Alerj o ex-capitão Adriano da Nóbrega, apontado como chefe do Escritório do Crime e empregou em seu gabinete a mãe e ex-mulher dele.
É no eleitorado feminino que Flávio encontra sua maior resistência. Para tentar reverter o quadro, acena às mulheres com promessas de mais punição para os agressores e castração química para autores de crimes sexuais. O esforço soa como bravata eleitoral, já que estamos falando do parlamentar que chamou de “pedaço de papel” a Lei Maria da Penha, votou contra a lei de igualdade salarial entre homens e mulheres e foi um dos autores do pedido que adiou a votação do projeto que criminaliza a misoginia. Em 2009, ainda deputado estadual, também votou contra a ampliação da licença maternidade de servidoras no Rio de Janeiro.
No primeiro turno das eleições, Flávio terminou à frente de Lula por menos de dois pontos e o PL elegeu as maiores bancadas da Câmara e do Senado. Em São Paulo, a deputada estadual mais votada é uma jovem de 23 anos que afirmou que o feminicídio não existe. Entre janeiro e julho deste ano, 848 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil.
O quadro geral preocupa, mas as urnas contam também outras histórias. O número de deputadas federais negras subiu de nove para pelo menos quinze, em sua maioria jovens. Erika Hilton, mulher trans e negra, tornou-se a mulher mais votada da história da Câmara dos Deputados. Foi ela, aliás, quem levou ao Congresso a proposta pelo fim da escala 6×1, que nasce de um movimento com o belíssimo lema: vida além do trabalho.
Gostaríamos de acreditar que os 700 mil mortos da pandemia impediriam o retorno desse projeto ao poder. Mas como nos lembra Butler, nem todas as vidas são tratadas como passíveis de luto. Para que uma vida importe, é preciso que a sociedade a reconheça como tal e os fatos narrados neste texto mostram como esse reconhecimento é sempre disputado e, muitas vezes, contraditório.
No dia 25 de outubro, ainda temos chance de fazer do Brasil um país que recusa a continuação das mortes, da tortura, de um passado que não acabou. Temos a chance de reeleger Lula para construir outras histórias deste país que é também das “Marias, Mahins, Marielles, Malês”. Um país de história injusta, mas que busca por um futuro que não apaga o seu passado, que respeita os seus mortos, que reivindica o luto, a justiça, uma outra realidade para os mortos, uma outra vida para os vivos.
Beatriz Prates é mestre em Direito Político e Econômico (Mackenzie) e doutoranda em Filosofia e Teoria Geral do Direito (FDUSP).
Julia Ferry é psicanalista e psicóloga (PUC-SP) e mestre e doutoranda em Psicologia pela USP.

