O que queremos para nós, nossos filhos e nosso país
Ao entrar na cabine de votação, não escolheremos apenas um governante, mas o próprio país em que viveremos
A importância histórica desta eleição
Toda eleição é importante, mas algumas marcam a história por definir o rumo de toda uma geração. A eleição de 2026 é uma delas. Ao entrar na cabine, não escolheremos apenas quem ocupará a Presidência nos próximos quatro anos, mas o país em que queremos viver. Definiremos um projeto de nação que impactará nossa economia, empregos, saúde, educação, segurança, meio ambiente e custo de vida.
É por isso que o voto exige responsabilidade. Além das simpatias, das antipatias, das ideologias, das opções religiosas, dos preconceitos ou das emoções momentâneas; ele exige reflexão.
Votar conscientemente significa ir muito além da espuma das acusações mutuas e das promessas vazias de campanha. Significa comparar projetos de país, analisar resultados de governos anteriores e perguntar quais propostas respondem aos desafios que o Brasil enfrenta hoje e nas próximas décadas.
Dois projetos de país
O segundo turno desta eleição contrapõe duas visões distintas de futuro, de Estado e de país. A divergência mais profunda entre esses projetos transcende os modelos econômicos e sociais; ela reside na forma como concebem dois pilares essenciais para o Brasil: a democracia e a soberania.
A democracia supera o mero ato de votar. Trata-se do respeito contínuo às instituições, à Constituição, à separação entre os Poderes, à imprensa livre e à convivência pacífica entre pensamentos divergentes. É a estrutura democrática que permite corrigir rumos, solucionar conflitos via diálogo, rejeitando a imposição e o uso da força.
A soberania é a capacidade de qualquer país de guiar o próprio destino e resguardar seus interesses estratégicos. De estabelecer suas prioridades sob a ótica dos interesses nacionais e de seu povo – sem se submeter ao jugo de potências estrangeiras ou de grupos econômicos. Proteger ambos os pilares é condição fundamental para garantir um futuro de nação
Por isso, é altamente lamentável, perigoso e até vergonhoso presenciar a submissão explícita de um candidato a uma potência estrangeira. Chega a ser inacreditável ver atos que ostentam bandeiras de outros países e chegando ao extremo de clamarem por intervenções contra nossa própria nação.
A crise climática: a grande ausente do debate
Talvez uma das maiores lacunas desta campanha eleitoral seja o silêncio em torno de um dos temas que mais influenciará o futuro do Brasil nas próximas décadas: a emergência climática. Os debates, dominados por acusações mútuas, disputas ideológicas e promessas genéricas, praticamente não deixam espaço para temas que determinarão o futuro do país: sua capacidade do país de produzir e distribuir alimentos, gerar energia a preços acessíveis, proteger sua população e manter sua economia funcionando em um mundo cada vez mais afetado pelas alterações climáticas.
É justamente aqui que o Brasil possui uma vantagem extraordinária e, ao mesmo tempo, uma enorme responsabilidade: suas riquezas naturais. a Amazônia, que não é apenas a maior floresta tropical do planeta – é também a maior infraestrutura natural do Brasil.
Enquanto hidrelétricas geram energia e rodovias transportam mercadorias, a floresta produz as chuvas que abastecem o Centro-Oeste e o Sudeste. Por meio dos “rios voadores”, a grande floresta conduz bilhões de toneladas de vapor d’água que produzem chuvas que sustentam a agricultura, os reservatórios e a economia nacional. Nenhuma infraestrutura humana gera tanto valor econômico quanto uma floresta preservada em pleno funcionamento.
Quando essa infraestrutura natural é degradada, os prejuízos afetam toda a sociedade. A seca reduz safras, encarece alimentos e energia. Enchentes destroem estradas e moradias, exigindo reconstruções bilionárias, enquanto queimadas e ondas de calor inflamam graves crises de saúde pública. Os custos econômicos e sociais são altíssimos.

O que a experiência recente nos mostra
Se toda eleição representa uma escolha sobre o futuro, a melhor forma de avaliá-la é, além das propostas, verificar os resultados de decisões passadas. Na pauta ambiental e climática, essa comparação é bastante esclarecedora. Durante o governo de Jair Bolsonaro, a política ambiental foi marcada pelo enfraquecimento dos órgãos de controle, flexibilização de normas e questionamento da ciência. Consequentemente, o desmatamento cresceu, o garimpo ilegal expandiu-se e a violência contra povos indígenas aumentou.
Em contrapartida, a gestão de Lula promoveu uma mudança substancial ao retomar a fiscalização, reestruturar as instituições ambientais e restabelecer a cooperação internacional. Os indicadores oficiais comprovaram o impacto dessas ações: o desmatamento na Amazônia caiu para 3.335 km², o menor patamar desde o início da série histórica do INPE em 1988, acumulando uma queda superior a 70%. No Cerrado, a redução aproximou-se de 50%, atingindo também nível recorde.
Esses dados confirmam que a presença do Estado, a ciência e a fiscalização geram resultados concretos. Por isso, as propostas do candidato Flávio Bolsonaro exigem análise rigorosa. Ao defender o abrandamento do licenciamento, criticar normas do Código Florestal e continuar a linha de seu pai, o candidato reacende alertas de retrocesso.
Um fato recente ilustra essa sensibilidade: na semana seguinte ao primeiro turno eleitoral, enquanto o governo anunciava quedas históricas do desmatamento, os focos de queimadas na Amazônia praticamente dobraram. Dados do INPE registraram 3.695 focos de calor na semana pós-eleição, contra 1.854 na anterior – uma alta de 99,3%. O episódio reflete o impacto imediato das sinalizações políticas na proteção dos nossos biomas.
Conclusão
A verdadeira pergunta desta eleição vai muito além de quem vencerá: trata-se de qual futuro queremos construir. Desejamos um país onde as riquezas sejam compartilhadas por toda a população ou apropriadas por uma minoria e por outras nações? Queremos um Brasil devidamente preparado para enfrentar a emergência climática ou uma nação que continue tratando a crise climática como um tema secundário e pague um alto preço por isso?
Ao entrar na cabine de votação, não escolheremos apenas um governante, mas o próprio país em que viveremos. O voto dura poucos segundos, mas suas consequências diretas moldarão as próximas décadas. A escolha é de cada um, mas o futuro será de todos nós. Daí nossa responsabilidade. A escolha é nossa!
Sérgio Guimarães é engenheiro civil, especialista em políticas ambientais e Secretário Executivo do GT Infraestrutura e Justiça Socioambiental.

