SEGURANÇA ALIMENTAR

A memória e a realidade da fome deveriam ser determinantes para o seu voto

Dados da ONU mostram a queda da fome nos governos Lula e Dilma, o agravamento na administração Bolsonaro, após alertas sobre o enfraquecimento das políticas públicas, e nova saída do Mapa da Fome no terceiro mandato de Lula 

Fonte: Perfis de Países ODS

Quem cresceu no Brasil dos anos 1990 deve se lembrar das frequentes reportagens sobre a fome nas capas das revistas e nos telejornais. Já quem nasceu no início dos anos 2000, nos dois governos de Lula, cresceu com o país em um caminho diferente: um Brasil que reduzia a subalimentação e se preparava para deixar o Mapa da Fome. Parte dessa geração, porém, chegou à vida adulta diante de cenas que pareciam pertencer ao passado, como a fila do osso durante o governo Bolsonaro. 

Os dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO/ONU) registram essa mudança histórica. No triênio 2000–2002, nos três últimos anos do governo Fernando Henrique Cardoso, 10,5% da população estava subalimentada. Eram 18,4 milhões de pessoas passando fome no país.  

Após a posse de Lula em janeiro de 2003 e a priorização de políticas públicas de combate à fome e redução da desigualdade social, no final de seu primeiro mandato o índice foi reduzido a 5,1%, o que corresponde a 9,4 milhões de pessoas ainda sofrendo com insegurança alimentar. Reduzindo para 3,5%, representando ainda 5,8 milhões de pessoas, em 2010, último ano de seu segundo mandato. Em 2014, durante o governo Dilma Rousseff, o Brasil alcançou um marco emblemático: “O Brasil saiu do mapa da fome”. No período, a prevalência da subalimentação ficou abaixo de 2,5% da população. 

Em julho de 2017, durante o governo de Michel Temer, um relatório de monitoramento elaborado por cerca de vinte entidades da sociedade civil brasileira já alertava sobre o risco de retrocesso no combate à fome. Conforme reportagem do Nexo Jornal, reproduzida pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul, as preocupações envolviam o desemprego, o avanço da pobreza, os cortes de beneficiários do Bolsa Família e o congelamento dos gastos públicos por até vinte anos. 

O alerta antecedeu o agravamento registrado nos anos seguintes. Embora a prevalência de subalimentação ainda permanecesse abaixo de 2,5% em 2018 e 2019, a série da FAO voltou a registrar aumento nos anos seguintes, já durante o governo Bolsonaro. O enfraquecimento das políticas públicas de proteção social havia sido apontado pelas organizações como um fator de risco para a continuidade dos avanços conquistados. 

Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil

A mesma geração que cresceu durante a redução da fome assistiu, poucos anos depois, ao retorno do problema. A volta do país ao Mapa da Fome ocorreu em 2020 durante o governo Bolsonaro, a prevalência da subalimentação chegou a 2,8% e passou para 3,5% no ano seguinte. Em setembro de 2021, durante o governo Bolsonaro, a Folha de S.Paulo registrou: “Caminhão de ossos no Rio é disputado por população com fome”. O El País mostrou que ossos de boi, arroz e feijão quebrado compunham a alimentação de famílias empobrecidas. A fila do osso não substitui as estatísticas, mas dá uma dimensão humana aos números. A pandemia acelerou a crise, mas encontrou políticas de segurança alimentar desmanteladas. 

O Brasil voltou a sair do Mapa da Fome no terceiro governo Lula, iniciado em 2023. A série da FAO documentou a redução da subalimentação nos anos seguintes, ou seja, a prevalência da subalimentação permaneceu abaixo de 2,5%, conforme o relatório “O estado da segurança alimentar e nutrição no mundo” (SOFI 2026). 

A queda coincidiu com a reconstrução de políticas de transferência de renda, compras públicas, participação social e combate à insegurança alimentar. Em artigo publicado pelas Nações Unidas em agosto de 2025, o representante da FAO no Brasil, Jorge Meza, destacou a retomada das políticas de segurança alimentar, o fortalecimento da agricultura familiar e a redução da desigualdade social entre os fatores relacionados ao resultado. 

Entre a primeira saída do Mapa da Fome e a fila do osso, não existe apenas a passagem do tempo. Existem governos, leis, orçamentos, instituições e projetos políticos. 

Os dados da FAO não provam, isoladamente, que determinada política causou cada aumento ou redução. Eles mostram a trajetória da subalimentação. Compreendê-la exige examinar o que cada governo criou, manteve, enfraqueceu ou extinguiu. 

A memória da fome deveria ser determinante para o voto porque permite comparar projetos com base não apenas nos discursos, mas também nas leis aprovadas, nos orçamentos executados, nas instituições criadas ou destruídas e nos resultados deixados. 

A fome não é destino, acidente inevitável ou fenômeno sem responsáveis. Ela é resultado de decisões políticas. 

 

Katarine Flor e Elisangela Soldateli Paim são jornalistas. 

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