Uma pintura feita de letras: a travessia de Peter Peuker entre a Áustria e o Brasil
Engenheiro, pintor e, agora, escritor aos 76 anos, Peter Peuker reúne sete décadas de deslocamentos entre dois países em Aventura Tropical, seu livro de estreia
Peter Istvan Wilhelm Peuker nasceu em Viena, na Áustria, em 1949, e chegou ao Brasil ainda criança, filho de imigrantes que deixaram a Europa devastada do pós-guerra em busca de recomeço. Cresceu no Leblon, no Rio de Janeiro, formou-se engenheiro civil em 1973 e passou décadas participando de obras estruturantes pelo país, da Ponte Rio-Niterói ao Projeto Grande Carajás, passando pela BR-262 no Pantanal do Mato Grosso. Paralelamente, desde 1969, cultiva uma trajetória como pintor autodidata.

Aos 76 anos, decidiu transformar essa travessia em livro. Aventura Tropical (Novo Arco Design & Editorial) nasceu de uma conversa de família sobre burocracias de um jazigo centenário no cemitério dos ingleses, na Gamboa, e do desconforto diante da própria finitude, a sensação de que, passadas algumas gerações, simplesmente deixamos de existir sem deixar rastros. Em sete décadas de memórias, Peuker atravessa ditaduras, transformações tecnológicas e a própria definição do que é pertencer a um lugar, sempre como um estrangeiro que fez do Brasil sua terra.
A seguir, o autor conta como decidiu escrever pela primeira vez na vida, o que herdou da geração de imigrantes de seus pais e por que, para ele, um livro pode ser uma pintura feita de palavras.

O que fez você decidir, aos 76 anos, transformar a própria história em livro, depois de uma conversa cotidiana com sua irmã sobre burocracias de família?
Houve um momento em que comecei a sentir um certo desconforto com a finitude, como os médicos chamam, a sensação de que, passadas três ou mais gerações, a gente simplesmente deixa de existir, não deixa rastros, não deixa vestígios. Foi justamente numa dessas conversas de família, resolvendo com minha irmã uma pendenga antiga sobre um jazigo no cemitério dos ingleses, na Gamboa, centro do Rio de Janeiro, que a ideia deste livro apareceu. Um papo vai, um papo vem, e dali nasceu a vontade de registrar tudo isso antes que se perdesse.
Aventura Tropical atravessa sete décadas, da infância no Leblon dos anos 1950 às obras de engenharia que você ajudou a erguer pelo Brasil, como a Ponte Rio-Niterói. Que tipo de jornada você quis propor ao leitor?
Quis contar deslocamentos, geográficos, culturais e existenciais. O livro vai das memórias de infância no Leblon até as obras que ajudei a construir pelo país, mas é, acima de tudo, um livro sobre identidade e pertencimento, sobre o que é ser estrangeiro na própria terra. É sobre atravessar ditaduras, mudanças tecnológicas gigantescas e perdas irreparáveis sem deixar de lado a vontade de continuar. Por isso gosto de pensar nele como uma jornada ao mesmo tempo profundamente pessoal e universal.
Como você organizou sete décadas de vida dentro do livro, da Europa dos seus pais até os dias de hoje?
São cinco movimentos, na verdade: as origens europeias da minha família, a infância e a adolescência que vivi aqui no Brasil, a fase de formação e das viagens, a vida em família e a trajetória profissional, e, por fim, a maturidade e as reflexões que vieram com os anos. Eles se conectam porque nenhum desses momentos existe isolado, um empurra o outro, e foi assim que fui organizando o índice do livro à medida que escrevia.
Seu pai, Emil, chegou ao Brasil com uma câmera Leica e a disposição de recomeçar a vida. O que essa geração de imigrantes trouxe consigo que você reconhece até hoje na sua forma de viver?
Meu pai trouxe na bagagem pouca coisa, além da Leica e da determinação de recomeçar a vida em terras tropicais. As dificuldades do início, língua, cultura, clima, foram muitas, mas sempre tive grandes e queridos amigos, em todas as fases da minha vida, e isso sempre facilitou essas diferenças. É essa mensagem que o livro carrega, a de que pátria é, antes de tudo, a simples convivência com as pessoas.
O livro levou cerca de quatro anos para sair do papel, entre longas pausas e madrugadas inteiras de escrita. Como foi encarar esse processo sem nenhuma técnica ou método definido de antemão?
Fui escrevendo sem estudo prévio, sem técnica nenhuma, simplesmente deixando sair. Foram uns quatro anos ao todo, mas com muitas paradas longas pelo caminho. Quando pegava para escrever, de fato, ia madrugada adentro. Com o tempo, já com algum material em mãos, formatei o índice do livro e fui completando e organizando o que já tinha, até fechar o texto.
Entre tantas leituras ao longo da vida, quais autores mais se fizeram presentes enquanto você escrevia suas memórias?
Sempre li muito, isso vem de muito antes do livro. Lima Barreto, Machado de Assis, Yuval Noah Harari, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Valter Hugo Mãe, Annie Ernaux, Stefan Zweig, entre tantos outros que fui acumulando ao longo da vida. Não saberia dizer exatamente quais influenciaram cada página, mas certamente todos estão ali, de alguma forma.
Aventura Tropical pode ser definida como uma pintura feita de palavras? Como a pintura, que você pratica desde 1969, dialogou com o processo de escrever suas memórias?
Acho que sempre escrevi livros, só que com tintas coloridas, através da pintura. E de repente percebi que estava fazendo uma pintura com letras. Um livro, assim como uma pintura, sempre transforma quem o faz, porque ali fica registrado o seu pensamento, pelo menos momentaneamente. Pinto desde 1969, de forma autodidata, até hoje, então escrever estas memórias foi, de certa forma, uma continuação natural desse mesmo impulso.
O livro reúne episódios como o de uma onça-pintada e o de uma sucuri durante os trabalhos de campo no Pantanal. Pode contar um pouco mais dessas aventuras?
Tenho boas histórias do Pantanal do Mato Grosso, dos tempos de obra na BR-262. Comentaria com gosto essas aventuras, os episódios de uma onça-pintada e de uma sucuri que chegou a fazer a Kombi capotar. São lembranças que ainda hoje me vêm com muita clareza, de um Brasil que poucos têm a chance de atravessar como eu atravessei.
Além da sua trajetória pessoal, o livro também atravessa setenta e seis anos de transformações do Brasil e do mundo. O que mais você quis deixar registrado nessas páginas?
O livro é também um retrato de setenta e seis anos de evolução da humanidade, tecnológica, econômica e de hábitos. Não escrevo só sobre mim, ao longo do livro minha história se entrelaça com a imigração europeia no pós-guerra, com a implantação da ginástica rítmica no Brasil, trabalho que minha mãe, Ilona, ajudou a desenvolver, com a própria história do Brasil vista por quem participou dela de dentro, com a engenharia brasileira e com as transformações sociais e tecnológicas que o país viveu nesse período.
Isabelle Rieger é jornalista e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Também é licenciada em Letras – Português (PUCRS). Tem interesse em literatura, imagem, educação e cultura.

