AS RUAS, AS REDES E O MEDO

As três mobilizações que explicam a vitória de Lula

O voto deixou de ser apresentado exclusivamente como uma escolha entre dois projetos políticos e passou a incorporar uma pergunta mais imediata: o que posso perder se o outro candidato vencer?

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva para seu quarto mandato presidencial, aos 81 anos, certamente ocupará um lugar particular na história política brasileira. Não apenas pelo resultado, mas pelas circunstâncias em que foi construída. Depois de um primeiro turno marcado pelo desempenho expressivo da direita, pela eleição de parlamentares conservadores e pela demonstração de força do bolsonarismo, o segundo turno parecia oferecer poucas possibilidades de reversão da vantagem política conquistada por Flávio Bolsonaro.

Mas a política, como fenômeno social, não é uma ciência das inevitabilidades. Resultados eleitorais são produzidos por estruturas, conjunturas, estratégias, comportamentos e decisões. E, sobretudo, pela capacidade dos atores políticos de identificar oportunidades e transformar condições desfavoráveis em possibilidades concretas de vitória. Foi exatamente isso que aconteceu.

A meu ver, a campanha de Lula conseguiu mobilizar três dimensões fundamentais que, articuladas, contribuíram decisivamente para a vitória: mobilizou as ruas, mobilizou as redes e mobilizou o medo. Essas três mobilizações não explicam isoladamente o resultado, mas oferecem um caminho consistente para compreender como uma campanha que parecia acuada conseguiu reorganizar suas forças, ampliar sua capacidade de comunicação e disputar o comportamento de um eleitorado que ainda não havia consolidado sua decisão.

A primeira mobilização: as ruas

Há um aspecto particularmente importante nessa eleição que merece ser observado com atenção: a esquerda voltou às ruas. Não estou afirmando que a esquerda tenha conquistado a hegemonia das manifestações populares. Tampouco que a direita tenha perdido sua capacidade de mobilização. O bolsonarismo continua demonstrando enorme competência para ocupar espaços públicos e transformar manifestações em demonstrações de força política. O que aconteceu foi diferente: a rua deixou de ser um território quase exclusivo da direita.

Desde as manifestações de junho de 2013, a esquerda brasileira vinha enfrentando dificuldades para disputar a mobilização popular em larga escala. Isso não significa que tenha deixado de organizar grandes manifestações, mas que, progressivamente, perdeu protagonismo na ocupação simbólica das ruas para os movimentos conservadores. O crescimento das manifestações de direita, especialmente a partir de 2015, consolidou uma percepção de que o conservadorismo havia conquistado maior capacidade de transformar insatisfação social em ocupação dos espaços públicos. Durante muito tempo, as grandes concentrações populares passaram a ser identificadas predominantemente com movimentos conservadores, enquanto a esquerda parecia cada vez mais dependente das estruturas partidárias, sindicais e dos movimentos sociais tradicionais.

No segundo turno de 2026, entretanto, essa dinâmica começou a mudar. Recordo-me particularmente de uma mobilização estudantil organizada por universitários da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, no dia 7 de outubro de 2026, apenas três dias depois do primeiro turno. A manifestação percorreu o centro do Rio de Janeiro, entre a Candelária e a Cinelândia, reunindo estudantes, jovens e cidadãos que não estavam necessariamente vinculados às estruturas tradicionais do Partido dos Trabalhadores.

Eu estava ali e pude observar uma disposição espontânea de participação política que há muito não presenciava com aquela intensidade. Havia uma necessidade coletiva de ocupar os espaços públicos e demonstrar que o resultado eleitoral ainda estava em disputa. Esse movimento tem importância sociológica. A presença nas ruas não representa apenas uma demonstração numérica de força. Ela produz pertencimento, reforça identidades coletivas, estimula a participação e ajuda a romper a percepção de isolamento político.

Quando um eleitor percebe que outras pessoas compartilham suas preocupações e estão dispostas a se manifestar publicamente, sua própria disposição para participar pode ser fortalecida. A rua, portanto, não é apenas um espaço físico. É também um território simbólico de construção de legitimidade. A campanha de Lula compreendeu, ou pelo menos conseguiu aproveitar, essa oportunidade. A esquerda voltou a disputar as ruas, e essa disputa contribuiu para modificar o ambiente político do segundo turno.

A segunda mobilização: as redes

Se a mobilização das ruas representou a recuperação de um território político, a mobilização das redes significou uma mudança importante na estratégia de comunicação da campanha. Durante muitos anos, setores expressivos da esquerda brasileira demonstraram dificuldades para compreender a dinâmica das plataformas digitais.

Enquanto a direita, especialmente o bolsonarismo, desenvolveu uma comunicação baseada na velocidade, na linguagem emocional, na produção contínua de conteúdos e na capacidade de transformar acontecimentos cotidianos em disputas políticas, parte da esquerda permaneceu presa a modelos tradicionais de comunicação. A campanha de 2026 parece ter compreendido, ainda que tardiamente, que não seria possível enfrentar a estrutura digital bolsonarista utilizando exclusivamente os instrumentos convencionais da propaganda eleitoral.

Nesse contexto, a atuação do deputado André Janones merece atenção. Sua participação na reorganização da militância digital, inclusive por meio da mobilização identificada como Exército de Lula, demonstrou a possibilidade de construir, em poucas semanas, uma rede de apoiadores capaz de produzir, compartilhar e disputar narrativas em velocidade semelhante àquela utilizada pela direita. A campanha passou a disputar não apenas o conteúdo das mensagens, mas também sua circulação. E essa diferença é fundamental.

Nas redes sociais, não basta produzir uma informação considerada correta ou politicamente relevante. É necessário compreender os mecanismos de atenção, engajamento, identificação e compartilhamento. A comunicação digital contemporânea funciona cada vez mais por meio de disputas afetivas. Indignação, humor, medo, esperança e identificação são elementos capazes de impulsionar conteúdos e ampliar seu alcance. A campanha de Lula conseguiu incorporar parte dessa lógica.

Mas existe aqui uma contradição que não pode ser ignorada. Ao adotar estratégias de comunicação semelhantes às utilizadas por setores da direita, a esquerda também passou a transitar por uma zona de risco ético e político. A simplificação excessiva, a exploração de conflitos pessoais, o uso de provocações e a transformação da disputa política em confrontos permanentes podem produzir resultados eleitorais, mas também contribuem para deteriorar a qualidade do debate público.

Não se trata de estabelecer equivalência automática entre estratégias distintas, nem de afirmar que todos os atores utilizem desinformação. Trata-se de reconhecer que os mecanismos de comunicação orientados pelo engajamento podem estimular comportamentos que ultrapassam os limites desejáveis de uma disputa democrática. Essa questão precisará ser enfrentada pela esquerda. A vitória eleitoral não elimina a necessidade de discutir os custos políticos e institucionais das estratégias utilizadas para conquistá-la.

Ainda assim, seria um erro ignorar o papel decisivo da reorganização digital na campanha. Em três semanas, a esquerda demonstrou que também poderia disputar um ambiente que, durante muito tempo, parecia dominado pela comunicação bolsonarista.

A terceira mobilização: o medo

A terceira mobilização talvez seja a mais interessante do ponto de vista da sociologia política e do comportamento eleitoral. A campanha de Lula conseguiu mobilizar o medo.

Para compreender a importância dessa estratégia, vale recuperar um episódio emblemático da eleição presidencial de 2002. Naquela disputa, quando Lula enfrentava José Serra, a atriz Regina Duarte participou de uma propaganda eleitoral afirmando sentir medo diante da possibilidade de uma vitória do candidato petista. A campanha de Serra procurava associar a eleição de Lula à insegurança econômica, à instabilidade política e às incertezas sobre o futuro do país.

A resposta do PT foi construída em torno de uma mensagem que se tornaria histórica: a esperança venceria o medo. Naquele momento, a candidatura de Lula procurou neutralizar o sentimento de insegurança mobilizado pelos adversários, apresentando-se como uma alternativa de mudança responsável. Vinte e quatro anos depois, a lógica se inverteu. Em 2026, foi a campanha de Lula que conseguiu transformar o medo em um dos elementos centrais da disputa eleitoral.

Mas não se tratava exatamente do mesmo medo mobilizado em 2002. O medo de 2002 estava associado à possibilidade de mudança. O medo de 2026 foi construído principalmente em torno da possibilidade de perda. Medo de perder benefícios sociais. Medo de perder o Bolsa Família. Medo de perder direitos trabalhistas. Medo de mudanças constitucionais que pudessem comprometer garantias sociais. Medo de retrocessos em políticas públicas e de alterações nas condições materiais de existência.

Essa distinção é fundamental. A literatura sobre comportamento eleitoral demonstra que a percepção de risco e de perda pode exercer influência importante sobre as decisões individuais. Na psicologia política, a aversão à perda ajuda a compreender por que indivíduos frequentemente atribuem maior peso à possibilidade de perder algo que já possuem do que à expectativa de conquistar um benefício equivalente. Isso significa que o eleitor pode reagir de maneira mais intensa à ameaça de perder um direito ou uma proteção social do que à promessa de conquistar uma vantagem futura.

A campanha de Lula soube explorar essa dimensão. Ao deslocar parte do debate para as consequências concretas de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro, conseguiu estabelecer uma conexão entre a escolha eleitoral e a segurança material de parcelas importantes da população. O voto deixou de ser apresentado exclusivamente como uma escolha entre dois projetos políticos e passou a incorporar uma pergunta mais imediata: o que posso perder se o outro candidato vencer?

Essa mudança de enquadramento tem enorme importância. O medo, nesse contexto, não precisa ser compreendido como uma reação irracional. Pode constituir uma resposta politicamente orientada à percepção de ameaças, sejam elas reais, potenciais ou construídas discursivamente. A mobilização do medo não ocorreu apenas no plano retórico. Ela integrou a estratégia de comunicação da campanha e, na minha avaliação, produziu efeitos sobre o comportamento eleitoral, especialmente entre segmentos da população mais sensíveis à possibilidade de perda de proteção social.

O medo da perda aproximou a disputa eleitoral das preocupações concretas da vida cotidiana. E foi justamente nessa dimensão que a campanha conseguiu transformar uma emoção individual em um poderoso instrumento de mobilização política.

A força da vocação: quando a política transforma a realidade

Há outro elemento dessa eleição que merece ser considerado: a força da determinação humana e da vocação política. Ao observar as manifestações nas ruas, a reorganização das redes e a disposição de milhares de pessoas para participar de uma disputa que parecia extremamente difícil, é impossível não recordar Max Weber e sua clássica conferência A Política como Vocação, proferida em 1919.

Weber compreendia a política como uma atividade que exige muito mais do que a ocupação de posições de poder. Para ele, a verdadeira vocação política pressupõe uma combinação de paixão, senso de responsabilidade e capacidade de julgamento. A paixão representa a dedicação a uma causa. A responsabilidade exige que o indivíduo considere as consequências de suas ações. E o senso de proporção permite avaliar a realidade sem perder a capacidade de agir sobre ela.

Essas três qualidades ajudam a compreender uma dimensão importante do processo eleitoral de 2026. A vitória de Lula não foi produzida exclusivamente pelas estruturas partidárias, pelos recursos de campanha ou pelas estratégias de comunicação. Houve também uma disposição coletiva de participar, resistir a uma conjuntura desfavorável e tentar modificar um resultado que muitos consideravam praticamente definido. Foi a força da vocação política se manifestando na prática.

O sociólogo também estabeleceu uma distinção importante entre viver da política e viver para a política. Quem vive da política encontra nela sua fonte de sustento. Quem vive para a política orienta sua atuação por uma causa, por convicções e pelo desejo de interferir nos rumos da sociedade. Essa distinção não representa uma oposição absoluta entre profissionalização e compromisso político. O próprio Weber reconhecia que as duas dimensões podem coexistir.

Mas ela nos ajuda a compreender a energia que mobilizou milhares de pessoas durante o segundo turno. Muitos daqueles que ocuparam as ruas, produziram conteúdos nas redes e participaram da campanha não estavam defendendo empregos, cargos ou posições institucionais. Estavam movidos por convicções, por expectativas e pela percepção de que sua participação poderia contribuir para alterar o curso dos acontecimentos.

Existe algo de extraordinário nessa disposição. A política deixa de ser percebida apenas como uma disputa entre dirigentes e passa a ser experimentada como uma possibilidade concreta de intervenção na realidade.

Weber descreveu a atividade política como um trabalho persistente de perfurar tábuas duras, realizado com paixão e senso de proporção. A imagem é especialmente apropriada para compreender essa eleição. A vitória não surgiu de um gesto isolado, de uma manifestação específica ou de uma mensagem que viralizou nas redes. Foi construída pela persistência, pela organização e pela capacidade de transformar pequenas ações em um movimento político mais amplo.

A força da vontade humana, entretanto, não deve ser confundida com uma capacidade ilimitada de produzir resultados. A determinação política não elimina as estruturas sociais, as desigualdades de poder ou os condicionamentos históricos. Mas pode modificar a maneira como essas condições se articulam.

É nesse sentido que a vocação política ajuda a compreender o caráter extraordinário da vitória de Lula. Não como um triunfo inexplicável da vontade, mas como demonstração de que a ação coletiva, quando encontra condições favoráveis e capacidade de organização, pode alterar trajetórias que pareciam consolidadas.

O extraordinário também pode ser explicado – há, entretanto, uma questão que considero indispensável nessa análise. A vitória de Lula foi extraordinária. Foi surpreendente. E, considerando as condições políticas existentes depois do primeiro turno, pode ser compreendida como um resultado de baixa probabilidade. Mas isso não significa que tenha sido um acontecimento irracional ou inexplicável.

Tenho observado interpretações que atribuem o resultado a uma espécie de triunfo absoluto da vontade popular, como se a mobilização coletiva tivesse produzido algo próximo de um milagre político. Essa interpretação, embora compreensível diante da emoção provocada pelo resultado, apresenta um problema: ela desloca a explicação do campo da análise política para o terreno da crença.

A vontade humana tem importância nos processos históricos. A disposição para participar, a capacidade de organização e a determinação dos atores políticos podem alterar trajetórias que pareciam consolidadas. Mas essas ações não acontecem fora das estruturas sociais. Elas são condicionadas por oportunidades políticas, recursos organizacionais, relações de poder, comportamentos eleitorais e circunstâncias históricas.

A mobilização das ruas, por exemplo, não surgiu de uma força inexplicável. Foi produzida por redes de sociabilidade, organizações estudantis, militantes, movimentos sociais e cidadãos que identificaram a necessidade de participar. A reorganização da comunicação digital não aconteceu por acaso. Resultou de decisões estratégicas, da utilização de ferramentas tecnológicas e da mobilização de atores capazes de compreender a dinâmica das plataformas. Da mesma forma, o medo da perda de direitos não apareceu espontaneamente. Foi mobilizado por discursos, mensagens, experiências sociais e percepções sobre as consequências da escolha eleitoral.

Existe, portanto, uma racionalidade nesse processo. Isso não significa que todos os comportamentos individuais tenham sido racionais no sentido estrito do termo. Significa que o resultado pode ser compreendido a partir de variáveis políticas e sociais identificáveis. A própria imprevisibilidade dos fenômenos sociais faz parte do campo de investigação das ciências sociais.

Reconhecer que determinado resultado era improvável não significa afirmar que ele era impossível. E reconhecer a importância da ação humana não exige abandonar os instrumentos teóricos e metodológicos que utilizamos para compreender a política. A lição de Weber permanece atual: a paixão política precisa caminhar ao lado da responsabilidade e do senso de proporção. Celebrar a vitória não significa abandonar a análise crítica das condições que a produziram.

As pesquisas e os limites da previsão  

Essa eleição também deverá provocar uma discussão importante sobre as pesquisas eleitorais e os modelos de previsão. As dificuldades enfrentadas pelos institutos para captar determinadas movimentações do eleitorado precisam ser examinadas com rigor.

É necessário investigar se houve alterações relevantes nas preferências eleitorais nos últimos dias, dificuldades de mensuração, problemas amostrais, limitações na identificação de determinados segmentos ou combinações desses fatores. Mas a crítica às pesquisas não pode ser confundida com a rejeição da pesquisa científica.

Uma pesquisa eleitoral não é uma profecia. É uma estimativa construída a partir de informações disponíveis em determinado momento, sujeita a margens de erro, limitações metodológicas e mudanças posteriores no comportamento dos eleitores. Da mesma forma, a ciência política não existe para garantir previsões infalíveis. Seu papel é identificar relações, compreender processos, formular hipóteses e aperfeiçoar continuamente seus instrumentos explicativos.

O resultado de 2026 deve estimular esse esforço, não desqualificá-lo. Talvez algumas variáveis tenham recebido atenção insuficiente. Talvez a intensidade das mobilizações tenha sido subestimada. Talvez a reorganização digital e os efeitos da comunicação política sobre determinados segmentos do eleitorado precisem ser examinados com maior profundidade. São questões que exigirão investigação empírica.

O importante é não substituir os erros de previsão por explicações místicas construídas depois do resultado.

Manifestação em apoio a reeleição do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, organizada pela Juventude na Rua pela Democracia, na Candelária.
Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil

A vitória foi construída  

A campanha de Lula conseguiu fazer algo que parecia muito difícil depois do primeiro turno: modificar a dinâmica política da disputa. E isso aconteceu porque identificou espaços de atuação que ainda poderiam produzir efeitos sobre o comportamento eleitoral.

As ruas contribuíram para reconstruir a percepção de força coletiva e devolver à esquerda a capacidade de disputar os espaços públicos. As redes permitiram ampliar a circulação de mensagens, reorganizar a militância e enfrentar a capacidade de comunicação digital do bolsonarismo. O medo aproximou a escolha eleitoral das preocupações materiais da população, transformando a possibilidade de perda de direitos e benefícios em um elemento importante da decisão do voto.

Essas três mobilizações não atuaram de maneira independente. Elas se reforçaram mutuamente. As manifestações nas ruas produziram imagens e acontecimentos que circularam nas redes. As redes ampliaram a visibilidade das mobilizações presenciais e estimularam novas formas de participação. E a percepção de risco contribuiu para oferecer uma motivação concreta àqueles que ainda não haviam decidido participar ou votar. Formou-se, assim, um processo de retroalimentação política.

É evidente que outros fatores também precisam ser considerados, entre eles os erros estratégicos de Flávio Bolsonaro, a rejeição ao bolsonarismo, as características regionais do eleitorado, a força da candidatura de Lula e a própria reorganização da campanha. Mas as três mobilizações ajudam a compreender uma dimensão decisiva do resultado: a capacidade de transformar uma conjuntura desfavorável em uma disputa efetivamente aberta.

A reflexão de Max Weber acrescenta uma dimensão importante a essa interpretação. As estruturas políticas condicionam os acontecimentos, mas não determinam integralmente seus resultados. A ação humana, quando orientada por convicções, responsabilidade e capacidade de organização, pode produzir mudanças significativas. Foi essa combinação entre condições objetivas, estratégias políticas e determinação coletiva que tornou possível uma vitória considerada improvável.

O quarto mandato de Lula nasce, portanto, de um resultado que merece ser estudado para além da celebração ou da frustração partidária. A eleição demonstra que a política continua sendo um espaço de disputa, no qual estruturas e tendências não eliminam a capacidade de ação dos indivíduos e das organizações.

A vitória foi difícil, surpreendente e histórica. Mas não foi um milagre. Lula venceu porque sua campanha conseguiu mobilizar as ruas, disputar as redes e transformar o medo em comportamento eleitoral. E, porque milhares de pessoas compreenderam que a política, como ensinou Weber, também exige paixão, responsabilidade e determinação para enfrentar aquilo que parece impossível.

O extraordinário não é necessariamente inexplicável. O improvável não é impossível.

A vitória de Lula não foi um triunfo da vontade sobre a razão. Foi a demonstração de que a vontade política, quando encontra organização, estratégia e condições históricas favoráveis, também faz parte da racionalidade que explica os acontecimentos sociais.

 

Marcio Ferreira é doutorando em Sociologia Política pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política (PPGSP/IUPERJ – UCAM), jornalista e pesquisador do Grupo de Estudos Religião e Cidades (RE-CID). E-mail: [email protected]

 

Referência bibliográfica

WEBER, Max. Ciência e política: duas vocações. Tradução de Leonidas Hegenberg e Octany Silveira da Mota. São Paulo: Cultrix, 2011. Texto original: Politik als Beruf (1919).

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