Pertencimento e amor-próprio na vivência com autismo
O romance, que traz elementos de fantasia, trata de uma experiência ainda pouco abordada na literatura: a subjetividade atravessada pelo diagnóstico tardio de autismo
Uma estudante de biologia marinha passa por uma crise de saúde mental e, por isso, é obrigada a trancar o curso, mudando-se temporariamente para Paraty, onde passa a morar na pousada de sua avó, e vive uma grande reviravolta. Esta sinopse descreve a história de Nina Meireles, protagonista do livro Beijada pela maré, de Thainá Fernandez, que venceu o edital Literatura do Rio ao RJ.
O romance, que traz elementos de fantasia, trata de uma experiência ainda pouco abordada na literatura: a subjetividade atravessada pelo diagnóstico tardio de autismo. No início, a obra explora o sentimento de invisibilidade vivenciado por Nina, cujas dificuldades parecem ser ignoradas por todos. Conforme a narrativa avança, porém, a protagonista vai amadurecendo, entrando em contato consigo mesma e com o que ama.
Thainá Fernandez, autora do livro, nasceu no Rio de Janeiro e afirma que escreve para jovens que, assim como ela, encontraram acolhimento na literatura. É mestra em Ciências e pós-graduada em Escrita Criativa, tendo publicado dois livros best-sellers da Amazon, Minha vida improvisada e Mensageiro do legado, além de ter sido finalista do concurso Livros do Futuro do TikTok.

O que a levou a escrever Beijada pela maré? Pode nos contar um pouco do processo de criação?
A ideia surgiu há muito tempo. O primeiro vislumbre desse livro veio com apenas dois elementos. Uma jovem que, de alguma forma, se apaixona por um ser marinho misterioso. Mas foi só no ano passado, quando surgiu a oportunidade de submeter o projeto ao edital Literatura do Rio ao RJ, que essa ideia se transformou em uma premissa e depois em um enredo completo de livro. Naquela época, vi uma notícia sobre uma jovem autista, estudante universitária, que foi muito negligenciada pela sua universidade. Suas necessidades não foram atendidas, e a sobrecarga de não ter apoio dentro de uma instituição de ensino a levou a recorrer a uma saída trágica para sua dor. Eu quis que essa história tivesse um final diferente. Aquela jovem mulher, assim como eu, deveria ter sido tratada melhor pela universidade, sim, mas também por todas as pessoas ao nosso redor. E então eu me lembrei: eu sou escritora. É basicamente meu trabalho reimaginar a realidade de uma forma mais gentil. Perguntar “e se acontecesse de outra forma?” Se eu considerar desde o primeiro vislumbre da ideia, este livro está em gestação há anos. No entanto, só comecei a escrever o primeiro rascunho quando recebi a notícia de que havia sido contemplada no edital. Por isso, tem sido um processo ao mesmo tempo muito rápido e muito lento, especialmente considerando tudo o que precisava ser realizado dentro do prazo de 180 dias do edital. Também é o maior projeto que já desenvolvi desde que comecei a escrever, e me proporcionou oportunidades que eu jamais imaginei, graças ao orçamento viabilizado. De forma geral, tem sido um grande impulso para a minha carreira.
Quais são os temas principais do livro?
Falo sobre amadurecimento, afeto, amor-próprio e a sensação de não pertencer completamente a lugar nenhum, mas ainda assim encontrar amor e a possibilidade de conexão onde menos se espera. Falo sobre encontrar um lugar onde não queiram mudar quem você é para que se encaixe em um molde preconcebido considerado mais aceitável. E, sim, é um livro sobre como uma jovem autista passa pelos primeiros anos da vida adulta, mas quero que meu livro seja visto como literatura, não como um “livro sobre autismo”. Beijada pela maré é um livro de romance, de amadurecimento, que tem como protagonista uma jovem autista.
O que você quis transmitir com a obra?
Somos dignas de amor mesmo quando pensamos que não o merecemos e sobre como, depois de sermos amadas do jeito certo, aprendemos a não aceitar menos do que descobrimos merecer. O propósito deste livro é dizer às pessoas que vão ler que existe um lugar para nós e existem pessoas por aí que vão enxergar você como você é e que vão ser corajosas o suficiente para ficar ao seu lado, não importa o que aconteça.
Quais livros ou filmes tiveram influência na criação do livro?
A Pequena Sereia e A Forma da Água foram influências importantes para a atmosfera e para alguns elementos centrais de Beijada pela maré. Gosto muito de histórias que misturam romance, estranhamento, criaturas não totalmente humanas, personagens fora do comum. Mas eu queria trazer isso para um contexto brasileiro, então ambientar a história em Paraty foi muito importante para a identidade do livro. Acho que ele acabou se tornando uma mistura dessas referências com um tempero brasileiro, tanto na ambientação quanto na identidade da narrativa.
Como a bagagem dos livros anteriores que você escreveu ajudou na construção da obra?
Sendo autora independente há quase seis anos, aprendi um pouco sobre muitas áreas do mercado editorial. Precisei me envolver diretamente em tudo o que faz parte da criação de um livro e aprender a ser mais do que apenas escritora. Tive que entender de marketing, divulgação, formas de alcançar o público dos meus livros e até de como me posicionar como autora. Além disso, estudei muito sobre escrita criativa até encontrar minha voz autoral e compreender melhor o que eu queria expressar através das minhas histórias. É uma trajetória cheia de altos e baixos, com momentos de dúvida e vontade de desistir, mas também com conquistas e notícias que me deram força para continuar. Ser autora independente é cansativo e, muitas vezes, exige mais do que eu imaginava ser capaz de oferecer. Ao mesmo tempo, acredito que toda essa trajetória influenciou profundamente a construção desta obra. Minhas histórias carregam muito das minhas experiências pessoais, porque sinto a necessidade de que cada livro que publico seja significativo para mim e, consequentemente, para as pessoas que vão ler. Além disso, também trouxe um pouco da minha experiência de formação como bióloga para construir a trajetória acadêmica da minha protagonista Nina, que estuda biologia marinha em Beijada pela maré.
Como você definiria seu estilo de escrita? Fale um pouco sobre seu processo criativo no geral
Eu definiria meu estilo de escrita como emocional e intimista, muito focado nas relações entre os personagens e na forma como eles percebem a si mesmos e o mundo ao redor. Gosto de trabalhar sentimentos de pertencimento, afeto e estranhamento de uma forma bem sensível, mas sem perder o aspecto de entretenimento e envolvimento da narrativa. Em relação à estrutura, gosto de construir a narrativa de forma cronológica, acompanhando os acontecimentos conforme eles surgem na trama e na jornada emocional da protagonista. Me identifico muito com a estrutura Save the Cat, que influencia bastante a maneira como organizo minhas histórias. Também busquei equilibrar os elementos românticos, fantásticos e universitários para que todos se desenrolassem juntos ao longo da história. Em todas as minhas histórias, dou um enfoque especial à jornada interior das minhas protagonistas, mas sem deixar de lado, é claro, os acontecimentos externos que tornam a trama envolvente.
O que você busca com a escrita?
Desde que comecei a escrever, eu sabia que queria escrever para adolescentes e adultos mais jovens. Sinto que, para essas faixas etárias, tudo é muito mais intenso e significativo, e que tenho muito a dizer a um público mais jovem. Acredito que escrever literatura para jovens é muito mais difícil do que muitas pessoas imaginam, mesmo que autores do gênero sejam constantemente subestimados. É bastante difícil equilibrar a quantidade certa de entretenimento e a quantidade certa de significado necessária para transmitir a mensagem que quero passar sem perder o envolvimento com a história. Além disso, também quero oferecer aos mais jovens o que eu não tive quando era mais nova e procurava livros com protagonistas parecidas comigo, com quem eu pudesse me identificar. Quero que pessoas como eu possam se ver nas histórias e entendam que ser quem somos nunca deveria ser motivo de vergonha ou de nos escondermos.
Laura Redfern Navarro (2000) é poeta, jornalista de formação, pesquisadora e fotógrafa experimental nascida em São Paulo. Graduada em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, é mestranda em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, onde estuda as intersecções entre a linguagem poética e o fenômeno dos espaços liminares. Vencedora do ProAC/2022 na categoria poesia com o livro “O Corpo de Laura”, publicado pela Mocho Edições, possui seis livros publicados. Criadora da página @matryoshkabooks, dedicada à divulgação da poesia contemporânea, também mantém a newsletter Matryoshkaletter no Substack.

