LITERATURA

Bianca Loureiro investiga a sensibilidade e as camadas do krump em espetáculo da BAJ

Em NUANCE, diretora propõe um olhar para além da força e da intensidade da dança e coloca em cena as singularidades de mulheres que constroem suas identidades em um movimento historicamente dominado por homens 

O que existe por trás de um corpo que dança? Quais histórias, sentimentos e experiências estão inscritos em cada movimento? Essas são algumas das questões que orientam NUANCE, espetáculo da BAJ, companhia de krump formada por mulheres e criada pela diretora e produtora executiva Bianca Loureiro. Em cartaz no Sesc 24 de Maio, em São Paulo, a montagem reúne seis artistas e investiga as diferentes possibilidades expressivas de uma dança frequentemente associada à força, à intensidade e à violência. 

Nascido nas comunidades de Los Angeles, nos Estados Unidos, o krump se desenvolveu como uma linguagem corporal de movimentos explosivos, contrações, pisadas e gestos marcados, em diálogo com experiências de enfrentamento das tensões do cotidiano. Com uma identidade própria dentro da cultura Hip Hop e das danças urbanas, a modalidade também se caracteriza pela autoexpressão. É justamente essa amplitude que Bianca busca explorar, deslocando o olhar para dimensões menos evidentes da dança, como a sutileza, a vulnerabilidade e a sensibilidade. 

Criada em 2025, após a realização de sua dissertação de mestrado, a BAJ surgiu do desejo de ampliar o protagonismo feminino no universo do krump. Para Bianca, a presença das mulheres nessa cena é atravessada por contradições: ao mesmo tempo em que a dança pode oferecer um espaço de expressão e reconhecimento, existe a pressão constante de provar a própria capacidade em um ambiente historicamente dominado por homens. Em NUANCE, essa experiência se transforma em matéria dramatúrgica, valorizando as identidades e trajetórias de cada artista. 

A montagem foi construída a partir da convivência entre as integrantes da companhia e de um processo criativo que incorporou suas diferentes realidades. Entre as cenas, estão referências às Valquírias, figuras guerreiras da mitologia nórdica, reflexões sobre o feminicídio e o silenciamento de gênero, além de elementos que exploram códigos sutis de comunicação entre mulheres. A proposta também amplia as possibilidades da linguagem ao aproximar o krump de outras expressões artísticas, incluindo a participação de uma cantora lírica no espetáculo. 

Nesta entrevista, Bianca Loureiro fala sobre sua aproximação com o krump, os desafios de construir uma companhia feminina, as experiências que atravessam a criação de NUANCE e a importância de reconhecer as diferentes camadas que existem em cada corpo. Mais do que apresentar outras possibilidades para a dança, a diretora propõe uma reflexão sobre como mulheres são vistas em cena – e sobre o que pode surgir quando elas não precisam se limitar às expectativas construídas a seu respeito. 

Crédito: Divulgação

Como o krump surgiu na sua vida? O que te fez se identificar com essa linguagem? 

O krump surgiu para mim graças a uma mulher, chamada Bárbara Lima, uma dançarina brasileira que atualmente mora em Oregon, nos Estados Unidos. Ela foi a pessoa que me introduziu a dança e a todo esse universo. E eu me identifiquei muito com essa linguagem por causa da beleza e da intensidade. Mesmo que seja uma dança que tem seus princípios básicos, ela se complexifica a partir do momento em que se une outras linguagens corporais. 

O krump é uma dança historicamente marcada pela presença masculina. Como você percebe a relação das mulheres com essa linguagem e o que muda quando ela é experimentada por corpos femininos? 

A linguagem muda porque elas naturalmente já são excluídas do mundo krump, os homens dominam bastante a cena. Então elas trazem essa carga, que de um lado tem certo alívio por estarem se sentindo vistas e ouvidas, mas também um peso por precisarem se provar o tempo todo. Tem um limiar entre dançar se espelhando nos corpos masculinos que nós aprendemos e achar nossa própria identidade feminina. 

Como surgiu a ideia de criar o espetáculo NUANCE? Que inquietação você quer investigar com a montagem? 

A inquietação é justamente essa: trazer todos os nuances que existem dentro desses corpos, o que eles fazem, o que que eles criam, como eles criam… porque, aparentemente, a gente pode achar que são mulheres extremamente brutas e marcadas pela violência, mas são mulheres extremamente sensíveis, vulneráveis, que precisam ser cuidadas, que precisam se provar o tempo inteiro, e isso pesa muito. Então, a ideia de criar o NUANCE veio da minha perspectiva de querer valorizar cada passo movimento e quem elas são. Porque, convivendo com elas, eu comecei a ver a sensibilidade e a profundidade que cada uma tinha, sem romantizar mesmo. 

O espetáculo propõe olhar para além da força e da intensidade que costumamos associar ao krump. O que existe por trás dessa potência? Que outras dimensões do corpo e da dança você quer revelar? 

NUANCE propõe olhar para além do que elas mostram, para além da capa que elas criaram para sobreviver no mundo krump. Por exemplo, fizemos uma cena inspirada nas Valquírias, que são guerreiras nórdicas, guerreiras muito fortes, mas que nem sempre precisam ser fortes. Temos outra cena sobre feminicídio, não de maneira explícita, mas de maneira sutil, que nasceu de textos que as mulheres da companhia escreveram sobre como elas acreditam que o silenciamento de gênero passam pela vida delas. Tem outra cena, no solo da Joanna Olegário, em que inserimos a palavra “sutileza” em libras. O krump tem muita relação com os códigos, e trazer códigos femininos – como o código universal que as mulheres usam quando se sentem ameaçadas – é mostrar essas sutilezas, extremamente sensíveis e muitas vezes tensas, que revelam camadas da vida feminina que não são tão óbvias. 

NUANCE é construído a partir das singularidades das seis artistas. Como essas diferentes personalidades, trajetórias e experiências foram incorporadas ao processo de criação e à dramaturgia do espetáculo? 

As diferenças de personalidades, trajetórias e experiências vieram durante o processo criativo. São mulheres que, no seu dia a dia, já têm realidades completamente diferentes, inclusive da minha. Então, a peça foi construída lentamente. Uma vez por semana, eu ia para São Paulo para ensaiar com elas. Dentro disso, milhares de coisas aconteceram. A singularidade da realidade de cada uma se sobrepôs: uma mora muito longe de São Paulo, no ABC paulista; a outra também mora longe, e a gente teve que ensaiar em parque, ensaiar em gramado, ensaiar no frio, ensaiar no calor… Então, fazer um espetáculo nascer a partir disso foi o grande desafio. São mulheres que às vezes são o pilar financeiro da própria família ou vieram de contextos familiares violentos e estão reconstruindo isso agora… E isso tudo foi sendo incorporado ao processo criativo, pois essas bagagens precisam ser trabalhadas de maneira muito cuidadosa. Quando tínhamos algum problema de comunicação, eu começava a trazer exercícios bem sutis para o processo criativo, como a escritura de textos ou reuniões on-line, para a gente ficar debatendo algumas temáticas que poderiam ser sensíveis, sejam elas pessoais, raciais ou de qualquer tipo, para todas se abrirem. 

O que você espera que o público perceba ou leve consigo depois de assistir a NUANCE? Existe algum olhar sobre o krump ou sobre os corpos que você gostaria de deslocar? 

Eu quero que as pessoas percebam cada detalhe que existe em cada corpo e que consigam ver que o krump é uma dança versátil. Ela não precisa ser crua para ser considerada krump, mas também pode se misturar com outras milhões de vertentes e dramaturgias, que vai continuar sendo krump, porque ela é a base dramatúrgica. Então, eu queria que as pessoas vissem o quão delicado o krump é, o quão bonito ele é, independentemente da sua forma: seja na forma bruta, seja na forma sutil, seja na forma explícita, implícita, sensível, em todas as formas que ele tem… Existe o estigma de o krump ser muito violento, mas nem sempre. Ele tem camadas, intensidades e nuances, e isso fica muito mais nítido no corpo dessas mulheres. E que essas mulheres possam ser valorizadas pelo que são, e não pelo que fingem ser. O “NUANCE” é só uma vírgula do que elas podem fazer. Então, eu quero que o público leve um pouco do que é o krump. Quero que repensem o que é ver mulheres em cena dançando numa companhia e se questionem sobre a necessidade de termos companhias no Brasil que juntem linguagens e complexifiquem movimentos através de suas sensibilidades e ternuras. 

 

Gabriel Dias é jornalista e doutorando na Universidade Federal Fluminense. Pesquisa samba e branquitude.  

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