O cinema e o direito de imaginar o futuro
A capilaridade dos discursos sobre o fim do mundo contaminou a juventude. Mas, uma vez roubada a capacidade de sonhar, o que resta àqueles que só agora exercitam o direito de falar?
Desde 2016, venho alternando a minha atuação no audiovisual brasileiro entre a realização e a prática educativa. Comecei como professora na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, no Rio de Janeiro, trabalhei a relação entre Cinema e Agroecologia na Universidade Rural de Pernambuco e, hoje, atuo na escola Porto Iracema das Artes, no Ceará. Sempre orbitei a discussão em torno do que chamamos de cinema do real – para quem não está familiarizado com os jargões do mundo do cinema, o bom e velho documentário.
Há dez anos, a turma estava muito preocupada com o registro dos saberes tradicionais: a maior parte dos projetos propunha filmar uma comunidade em risco de expropriação imobiliária, ou alguma prática social simbólica em vias de extinção. Ou seja, nesses anos, o cinema documental foi usado enquanto instrumento – mesmo que inconsciente, a princípio – de intervenção na nossa realidade. “Desejo filmar dona Fátima, de 97 anos, mestre artesã de Camaragibe, Pernambuco, que criou a primeira cooperativa de mulheres costureiras. Ela é minha vizinha e está perto de falecer; as pessoas precisam conhecer a sua história” (A Linha e a Semente, filme de 2018, parte do acervo da TV Pernambuco). Era uma vontade latente de contornar os livros de História; de fazer com que a memória de dona Fátima, e suas ações, que impactaram toda uma comunidade por décadas, tivessem o seu registro salvaguardado, de alguma forma. Um exercício de construção de memória e de futuro e, mais ainda, de crença no amanhã. Muitas vezes, ao perguntar aos estudantes por que eles desejavam contar esta ou aquela história, ouvia: “para que possam inspirar outras pessoas a agir, para que elas saibam que não estão sozinhas”.
Houve também a explosão das narrativas autobiográficas, logo em seguida. Filhos e filhas, netas e netos desejosos de investigar a sua árvore genealógica, em um país acostumado a só chamar de família com F maiúsculo quem carrega um sobrenome estrangeiro, melhor dizendo, europeu. “De repente”, havia projetos e mais projetos sobre a avó Eurides que foi “pega no laço” (expressão infeliz para designar a prática criminosa, porém registrada até os anos 2000, de sequestrar mulheres indígenas para servirem como esposas e donas-de-casa, especialmente nas regiões Norte e Nordeste), criou os filhos, netos e bisnetos e, após a morte do marido, fez uma grande festa no bairro, celebrando, finalmente, a sua liberdade.

A verdade é que nada acontece de repente: estamos falando de uma parcela majoritária da sociedade brasileira cujo direito à fala foi negado por centenas de anos. E, como a psiquiatra Neusa Santos Souza escreve: falar, escrever, filmar, enfim, sobre as escolhas de vida enquanto se vive é um processo incontornável para as pessoas negras criarem autonomia sobre si. Estamos falando de uma linguagem presa na garganta há mais de 500 anos. O resultado dessa elaboração foram filmes investigadores de temas caros à nossa elaboração enquanto sociedade, mas abordados desde um ponto de vista íntimo, trazendo à tona a violência existente nas relações familiares. De grande parte de autoria jovem, de primeiros realizadores, esses curtas, médias e longas-metragens buscaram uma perspectiva reclamante de uma memória invisibilizada no cinema brasileiro, e alcançaram a tela grande, em cinemas ao ar-livre, cineclubes ou na tela do YouTube.
E, mais uma vez, quando perguntava aos estudantes, nas diferentes formações, por que falar de si, da própria família diante das câmeras, recebia como resposta o desejo de conhecer mais profundamente a si, mas, principalmente, o próprio país, a própria região, a própria paisagem. Falar de dona Eurides que celebrou o começo da sua nova vida aos 73 anos era falar, também, das filhas que recusaram a perspectiva de escassez e conseguiram estudar e conquistaram a independência financeira; do neto que pôde cursar Teatro em uma universidade pública federal, por meio do sistema de cotas, e em uma paisagem que sofreu profundas transformações ao longo dessas gerações.
Falar da própria mesa de jantar era virar a câmera para um Brasil que se modificou e exige se ver, se compreender, se inventar. Principalmente, se reinventar. Porque, sim, existe uma sensação de que hoje todo mundo pode falar; como nunca antes, aliás. Mas o que se espera que uma população posta à margem da sociedade por centenas de anos fale? Ou, talvez, uma pergunta ainda mais capciosa: o que se permite que essa juventude, pronta para desafiar imaginários de escassez, aborde em seus filmes?
Em outra ocasião, fui convidada para ministrar, mais uma vez, o curso de escrita criativa; agora, para jovens adultos do agreste de Pernambuco – uma região que sente muita falta de se ver, de se compreender, de ter suas histórias contadas. Geograficamente, a faixa territorial correspondente ao agreste começa quando a Zona da Mata termina e o Sertão ainda não começou. Ou seja, temos um pujante cinema ambientado na região litorânea, praieira, e no interior mais árido. Mas tudo o que fica no meio ainda não foi contado.
Contudo, as vontades de cinema que estavam em jogo por essa juventude vinham cheias de interesse pelos finais: o fim das tradições, o fim da música, o fim da vida. Agora, o que estava em jogo não era mais documentar algo pela manutenção da memória, mas ficcionalizar o fim do mundo, essa narrativa difundida aos quatro ventos, onde não há mais tempo para nada. Estamos todos à beira do abismo, avistando, incólumes e impotentes, o relógio que indica a data e hora quando a vida acabará. Para que registrar algo para as gerações futuras se elas não existirão?
Meus estudantes, à exceção de dois, tinham, no máximo, 25 anos. E paulatinamente contaram ter a sensação de terem nascido na época errada, no momento em que já não daria para fazer mais nada. Argumentos há vários: em 13 de outubro de 2025, o segundo Relatório Global sobre Pontos de Inflexão apontou que o planeta teria atingido o primeiro ponto de não-retorno, a partir do esfacelamento dos recifes de corais de águas quentes. O avanço das políticas governamentais de extrema-direita. O avanço da desigualdade social no mundo, com o avanço dos bilionários e das big techs. Os argumentos existem e partem de fatos concretos. Todavia, há algo em jogo ainda mais perverso: estão tirando a capacidade dos nossos jovens de sonhar. De imaginar realidades em que eles caibam, exerçam a felicidade, se vinguem dos seus algozes. Ficções científicas onde algo novo surge, após muita dor, confronto e embate. Os nossos heróis e as heroínas estão ficando para trás ou nem precisam existir, já que tudo vai se acabar em um segundo, logo mais.
O mundo não vai acabar. Nem hoje e nem amanhã. E, ao mesmo tempo, o mundo como conhecemos está mesmo se acabando o tempo todo: as mudanças climáticas, tecnológicas e sociais estão cada vez mais velozes, e o avanço de políticas conservadoras é uma realidade global. Mas o que nos manteve vivos, ao longo de toda a história da humanidade, especialmente quando falamos de nós, latino-americanos, colonizados, racializados, foi a nossa capacidade imaginativa, criativa, associativa.
João José Reis, historiador que se dedica a pesquisar e narrar as táticas de revolta e fuga da população escravizada no século XIX, escreveu um livro chamado Ganhadores – A Greve Negra de 1857 na Bahia, que conta como, por meio da música, das canções de trabalho, a população escravizada urbana conseguiu se organizar e parar uma cidade inteira por um dia. Com a greve, conseguiram alterar uma lei e garantir que 10% do que eles vendessem na cidade de Salvador ficassem com eles, para que conseguissem comprar sua carta de alforria. Essas pessoas, homens e mulheres, sonharam e cantaram a liberdade nas condições mais exíguas de suas vidas. Alcançaram uma condição inédita e escreveram a História porque imaginaram. Nunca pararam de imaginar.
A capacidade imaginativa produz a nossa emancipação, seja ela simbólica ou material. Da mesma forma que os ganhadores de 1857 usaram a música para pavimentar um caminho pela conquista de alguma liberdade, os estudantes que filmaram mestras artesãs ou abriram a câmera para escutar suas avós usaram o Cinema para reivindicar o seu lugar na História. Se outrora o desejo era documentar o passado para não sermos esquecidos, o desafio da juventude de agora é ainda mais urgente: imaginar o futuro para garantirmos que ele vai chegar. Tanto se fala, há décadas, sobre o Brasil ser um país de pouca lembrança; pois bem, é na formação ativa do imaginário da juventude, que se pode semear um outro olhar sobre o passado, propondo novos futuros. Recusar a narrativa do fim do mundo e voltar a sonhar um país pela imagem; isso nos permitirá seguir construindo a nossa História.
Letícia Simões é cineasta, pesquisadora e artista, com formação e investigação em cinema, história social e artes visuais. Integra o Núcleo de Revisão Crítica da NICHO54. Sua trajetória articula imagem, memória, escrita e investigação crítica das relações entre cinema e sociedade. “A Vida Secreta de Meus Três Homens” é seu último longa-metragem.

