A beleza e a Preguiça do direito à cidade
Em 31 de outubro, comemora-se o Dia Mundial das Cidades. A data simboliza a centralidade do espaço urbano nas sociedades contemporâneas e sua importância para o desenvolvimento humano. No entanto, as imagens que costumam ilustrar postagens e outros materiais sobre a ocasião frequentemente destacam paisagens grandiosas, marcadas por arranha-céus ou patrimônios arquitetônicos
Que tipo de cidade é celebrada no “Dia Mundial das Cidades”? Ano passado, ao retornar da Cúpula de Líderes da COP30, em Belém, o chanceler alemão, Friedrich Merz, demonstrou um preconceito comum – inclusive entre brasileiros. Em discurso no Congresso Alemão do Comércio, em Berlim, comentou: “Senhoras e senhores, nós vivemos em um dos países mais bonitos do mundo. Perguntei a alguns jornalistas que estiveram comigo no Brasil na semana passada: ‘Quem de vocês gostaria de ficar aqui?’ Ninguém levantou a mão. Todos ficaram contentes por termos retornado à Alemanha, na noite de sexta para sábado, especialmente daquele lugar onde estávamos”.
Não há nada de errado em querer retornar ao seu país, mas a fala deixa implícito seu desdém pela cidade ao hierarquizar a beleza de lugares completamente distintos. O candidato derrotado à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, também foi deselegante e demonstrou preconceito no último debate de presidenciáveis no debate da TV Globo, na noite de sexta-feira (23/10), destacando que Belém possuía um “cheiro ruim”. As posturas refletem uma construção social que tem profundos impactos urbanos e sociais: existe hoje um determinado tipo de cidade que é considerada bonita.

Há anos venho recolhendo e guardando postagens do Instagram e tweets (sim, sou da época em que o X era chamado de Twitter) que se referem às belezas e paisagens que São Paulo não tem. Antes de fechar o texto e revirar os olhos, atenção: esta não é uma defesa de São Paulo. No entanto, em muitas dessas brincadeiras, há uma verdade incômoda: valorizamos esteticamente de maneira muito díspar cidades que são completamente diferentes e, com isso, reforçamos desigualdades que prejudicam a vida de milhões de pessoas. O antídoto para isso? A leitura da obra de Evanilton Gonçalves e uma visita à Ladeira da Preguiça, de Nilma e Marcelo.
Comemorada pela ONU, desde 2014, a data simboliza a centralidade do espaço urbano para as sociedades contemporâneas e para o desenvolvimento humano, mas muitas vezes as imagens reiteradas em postagens e outros materiais dão destaque a paisagens grandiosas, compostas de arranha-céus ou de patrimônios arquitetônicos. Mas quem escolhe o que é um patrimônio arquitetônico relevante o suficiente para estampar um cartaz? Quais são os valores estéticos subjacentes à escolha de um skyline de prédios para representar imageticamente as cidades? Por que isso é considerado bonito e uma favela não?
O padrão estético estabelecido gera distorções num mundo em que se acredita que as cidades devem competir por atenção. Faz com que algumas partes das cidades sejam valorizadas em detrimento de outras; orienta investimentos públicos – usando recursos de todos os cidadãos – para fortalecer cartões-postais (ou paisagens instagramáveis) acessíveis apenas a turistas e às classes mais altas; invisibiliza territórios e dinâmicas populares constitutivas das cidades; ou seja, aprofunda desigualdades urbanas históricas.

Da mesma forma que algumas celebridades têm insistido na crueldade dos requisitos de beleza que impõem procedimentos estéticos e o uso constante de maquiagens ou filtros nas redes sociais, as cidades precisam ser reconhecidas pelo que são, não por um padrão estético preconcebido. Belém, na COP30, mostrou que é uma cidade impressionante e que merece ser (re)conhecida: com florestas e rios esplendorosos, com uma população acolhedora, com uma gastronomia riquíssima e com diversos problemas urbanísticos. Sim, os problemas fazem parte da beleza. E é exatamente aí que entram a relevância e a atualidade de um livro como Ladeira da Preguiça, de Evanilton Gonçalves.
A obra é intensa e curta, como são as boas ladeiras. E, mesmo breve, o livro sobra. Sobra arte e política, humanidade e violência, direito à cidade e elitização do centro histórico, vida e morte. Aconselho lê-lo num fôlego só, do jeito que se sobe a Ladeira da Misericórdia, no frevo do carnaval de Olinda; a Porto Geral, em São Paulo, quando se está cheio de compras; ou a própria Ladeira da Preguiça, no cotidiano de Salvador. Ainda que intenso, o livro consegue ser suave: lá em cima, a obra de Evanilton pinta a vista da janela de um casarão, de onde se observa a vizinhança e se reflete sobre o entrelaçamento do tempo, do espaço e da cultura que conformam suas vidas – em contraste com o processo capitalista que tenta sempre fagocitar cidades inteiras.
Há na novela a intensificação contemporânea dessas dinâmicas urbanas excludentes já mencionadas, e elas quase se plasmam nas paredes dos casarões da Ladeira da Preguiça. Se, ao tocá-las, sua protagonista, Adelaide Presepeira, atravessa os limites fictícios do tempo, também pode sentir a vibração do mercado imobiliário em marcha para expulsar os moradores daquele território. Ao mesmo tempo em que se conecta com outras pessoas em outros tempos, ela está também imersa na segregação, no racismo e na violência policial, na desigualdade econômica – e resiste.
Junto a outros artistas e formas de expressão locais e internacionais, que vão de BaianaSystem a Bad Bunny, o narrador nos convoca a não fetichizar Salvador. Apresenta uma cidade que não está reduzida a cartão-postal turístico, embora atravessada por ele, já que “no começo do ano, parece que todo mundo desembarca nesta cidade”. Contra a metonímia hegemônica que reduz cidades a pedaços plastificados para o consumo ou para o turismo – a Av. Paulista e o MASP, em São Paulo; o calçadão de Copacabana e o Cristo, no Rio; o Pelourinho, em Salvador; e tantos centros históricos plastificados e embalados em marketing urbano –, o livro propõe outra leitura: a partir da Ladeira da Preguiça, apreender o que de fato é Salvador. Usa como artifício não somente a exposição da dinâmica de expulsão perversa promovida pelo mercado imobiliário em territórios populares, mas também a memória contida no espaço urbano. Para isso, o livro explora o tempo como dimensão narrativa.
Se o espaço está marcado já no título, o tempo também se torna elemento central desde a epígrafe, um poema de Alex Simões: “respeitar o tempo / o tempo do tempo / o tempo / o meu tempo / o seu tempo / o tempo de todo mundo / o tempo de cada um”. A princípio, a passagem do tempo pode soar estranha — Adelaide parece superar Zigue rápido demais. Mas logo percebemos que se trata de um artifício: Evanilton brinca com o tempo e seus atravessamentos no espaço histórico vivido pela Ladeira da Preguiça. Vários tempos coexistem ali, superando cronologias lineares. É apenas Adelaide tentando dar sentido ao que vive? É o fluxo de memórias guardado pelas construções? Ou testemunhamos as curvas do tempo, muito menos lineares do que acreditamos? Como lembra Nego Bispo: o tempo é começo, meio e começo. O tempo é encaracolado, e o livro faz bom uso dessa característica para manter um elo entre Adelaide e o objeto de sua perda.
Essa densidade temporal e espacial se combina a uma escolha narrativa habilidosa. O narrador é onisciente, mas próximo aos personagens. Há momentos de grande intimidade estética – quando aconselha o leitor a não chamar Adelaide de Presepeira, quando testemunha o “chamego” dela e de Zigue no banho, ou quando a personagem, brava, só consegue chamá-lo mentalmente de “Fulaninho Ai-Ai”. A estética ganha força justamente na intencionalidade – lapidar o texto, esculpindo cada palavra, sentença e parágrafo. Desde o primeiro parágrafo, Evanilton mostra domínio do ofício: planejado, expressivo, representativo, instigante. Impossível não fazer uma série de anotações diante das portas e janelas que ele abre a cada frase.
Ao longo do livro, contudo, algumas (pouquíssimas) escolhas vocabulares destoam aqui e ali. Termos como “causas sociais”, “dia da ação cultural”, “revitalização do espaço” e “engajamento pelo lugar” soam deslocados. Meu alto percentual emocional de ativista se deleitou ao encontrar uma obra literária que expressamente usa “direito à cidade”, mas, com uma nota melancólica, senti o uso explicativo demais, didático demais. De forma nenhuma isso diminui o brilho da obra, mas demonstra como o bate-bola da edição pode fazer grande diferença. E tenho certeza de que isso nos fala mais sobre o contexto editorial atual do que sobre a habilidade do autor, que é indiscutível.
Sua destreza e sensibilidade ficam nítidas no uso da cultura como fio da trama: a festa do Dois de Julho, o Banho de Mar à Fantasia, a comida. Tudo no livro se ancora no que é vivo e vivido coletivamente pelos moradores da Ladeira e da cidade, conferindo identidade a eles. E aí está talvez o centro da defesa que leio na obra: trata-se de uma cultura construída e vivida pela e para a população local, e não para a venda turística. É a beleza da cidade real e popular, com toda sua pulsão e vicissitudes.
A estética literária emerge da realidade concreta, bebendo do cotidiano da Ladeira com suas contradições e disputas. Uma das primeiras ladeiras abertas em Salvador, ainda no século XVII, para ligar o porto à Cidade Alta, a Preguiça está hoje num lugar cobiçado pelo mercado imobiliário, vizinha de um centro histórico que se reinventa com hotéis de luxo e descontos de IPTU. Seus moradores, majoritariamente negros e de baixa renda, convivem há anos com ameaças de expulsão: reintegrações de posse movidas por supostos herdeiros de antigos proprietários, leilão de prédio ocupado por famílias desde os anos 1990 – enquanto cerca de um terço dos imóveis da área segue desocupado.
Foi contra isso que, em 2013, moradores e ativistas criaram o Centro Cultural “Que Ladeira é Essa?”, hoje animado por Nilma Santos e Marcelo Teles. Ali, a beleza não é filtro: o grafite pode denunciar o descaso do poder público e a especulação; no “Política, Futebol e Cerveja” mulheres negras da Ladeira desconstroem o racismo, o sexismo e outras formas de discriminação; no “Ladeira Sonora” a música dita o ritmo da cidade. Particularmente, desde que conheci Nilma e Marcelo, sonho com um fevereiro em que eu possa mergulhar no “Banho de Mar à Fantasia” que produzem. Pessoas como Nilma e Marcelo são guardiões desse nosso patrimônio vivo, sonhado e tecido coletivamente. Está aí a beleza de uma cidade: cuidar da própria população local e de sua cultura, produzindo direito à cidade. Nada é mais bonito que a felicidade do povo.
Rodrigo Iacovini é doutor em planejamento urbano pela USP e diretor executivo do Instituto Pólis.

