O povo premiou a coragem: um casamento de gerações pela democracia
Não há garantia de que os próximos anos serão fáceis. A sociedade permanece dividida, as desigualdades seguem profundas e os desafios de governar não desapareceram com o resultado
Quando o medo tentou governar o futuro, gerações diferentes se encontraram nas urnas para afirmar que a democracia ainda pertence ao povo.
Há vitórias que produzem festa. Outras produzem uma espécie de silêncio antes do abraço. Um silêncio breve, atravessado pelo alívio de quem sabe que havia muito mais em jogo do que a escolha de um governante.
Na noite de 25 de outubro, quando a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva se confirmou, milhões de brasileiros tiveram diante de si uma sensação difícil de traduzir: a de que o futuro, por um instante, havia deixado de parecer uma ameaça incontornável. Chorou-se por Lula. Mas chorou-se também por aquilo que sua vitória representou para muita gente: a recusa de um país organizado pelo medo, pela violência como linguagem política e pela transformação do adversário em inimigo.
Chorou-se pelos que vieram antes. Pelos que resistiram quando a liberdade era perseguida. Pelos que abriram caminhos sem saber se viveriam o suficiente para atravessá-los. Chorou-se também pelos que ainda virão, na esperança de que possam herdar um país em que a diferença não seja sentença e a desigualdade não seja destino.
Uma eleição nunca resolve, sozinha, os dilemas de uma nação. Mas há eleições em que uma sociedade revela quais limites está disposta a defender. Em 2026, a vitória de Lula deu expressão a uma escolha política que ultrapassa sua trajetória individual: a afirmação de que o Brasil ainda pode enfrentar seus conflitos sem abdicar da democracia.

Essa afirmação não pertence a uma geração apenas. De um lado, estavam homens e mulheres que conheceram o preço do autoritarismo e aprenderam que a liberdade, quando retirada, não retorna por generosidade dos poderosos. De outro, jovens que nasceram sob a promessa democrática, mas cresceram testemunhando a fragilidade de direitos que pareciam assegurados.
Entre uns e outros, muitas diferenças: de linguagem, de repertório, de urgência, de experiência. Também havia divergências sobre os limites dos governos progressistas, sobre os caminhos da esquerda e sobre a velocidade das transformações necessárias. Ainda assim, essas gerações se encontraram diante de uma pergunta comum: que país seremos capazes de deixar de pé?
Nas urnas, parte do Brasil respondeu com um pacto. Um casamento de gerações pela democracia.
Não se tratou de um encontro sem conflitos. Houve jovens cobrando mais coragem, mais escuta, mais radicalidade no enfrentamento das desigualdades. Houve gerações mais velhas insistindo no valor da experiência, da negociação e da memória. E talvez a força desse encontro esteja justamente aí: na disposição de permanecer à mesa mesmo quando não se pensa da mesma maneira.
Uma democracia amadurece quando a experiência não sufoca a inquietação e quando a inquietação não despreza a memória. Quando os mais velhos podem dizer “nós já atravessamos o medo” e os mais jovens podem responder “nós queremos ir além da sobrevivência”. Quando uma geração oferece à outra não uma ordem, mas uma herança que possa ser questionada, ampliada e transformada.
A reeleição de Lula carrega essa dimensão simbólica. Sua trajetória, desde a organização dos trabalhadores até a Presidência da República, permanece ligada à possibilidade de que o povo ocupe espaços que lhe foram historicamente negados. Para uma parte do país, vê-lo vencer outra vez é também reencontrar a imagem de uma política em que a origem popular não precisa ser escondida para se tornar legítima.
Mas seria pequeno atribuir essa vitória apenas à força de um nome. O povo premiou a coragem de uma candidatura que voltou a disputar o futuro. E premiou, também, a coragem espalhada pelo país: a de quem enfrentou conversas difíceis sem desistir do diálogo; a de quem sustentou uma convicção em ambientes hostis; a de quem compareceu às urnas mesmo cansado, descrente ou ferido por tantas promessas não cumpridas.
Coragem é uma palavra que a política costuma associar à força. Como se fosse corajoso apenas quem grita mais alto, ameaça mais ou demonstra menos dúvida. Há, porém, outra forma de coragem: a de recusar a crueldade quando ela se apresenta como solução. A de defender direitos mesmo quando seria mais cômodo aceitar que algumas vidas valem menos. A de acreditar na possibilidade de um país comum quando tudo parece nos empurrar para a guerra permanente.
Foi essa coragem que encontrou expressão na vitória de Lula.
Isso não significa dizer que todos os brasileiros que votaram em seu adversário desejem o autoritarismo. Os votos de uma eleição não podem ser reduzidos a uma única motivação, assim como milhões de pessoas não cabem em uma caricatura. Há dores reais, frustrações legítimas e expectativas que a política democrática precisa saber ouvir.
Mas escutar a sociedade não exige relativizar o valor da democracia. Ao contrário: exige defendê-la como o espaço em que essas dores podem ser nomeadas, essas frustrações podem se tornar reivindicações e o poder pode ser contestado sem que a violência seja apresentada como resposta.
A democracia não pede que deixemos de disputar projetos. Ela existe porque há projetos diferentes. O que ela exige é que a disputa tenha um limite: o reconhecimento de que o outro continua pertencendo ao país, ainda que tenha perdido a eleição ou escolhido um caminho diferente do nosso.
Essa distinção importa. Nos últimos anos, aprendemos o quanto é perigoso quando a política deixa de se perguntar como vencer um argumento e passa a desejar que o adversário desapareça. Quando a divergência é tratada como ameaça à própria existência, a convivência se torna um campo de suspeição permanente. E uma sociedade que aprende a olhar para o outro apenas como inimigo começa a destruir as condições de sua própria liberdade.
A vitória de domingo abre uma possibilidade de interromper essa lógica. Não por decreto. Não por uma convocação abstrata à união. E tampouco pela exigência de que pessoas feridas pela desigualdade se calem em nome da harmonia.
A reconstrução democrática começa quando a dignidade deixa de ser uma promessa distante e passa a orientar as escolhas de governo. Quando a mulher não precisa escolher entre trabalhar e proteger os filhos. Quando a juventude negra pode imaginar o futuro sem que seu corpo seja permanentemente confundido com uma ameaça. Quando o trabalhador consegue viver do que ganha. Quando a escola, a saúde, a moradia e a segurança não dependem do lugar que cada pessoa ocupa na hierarquia social.
É nesse terreno concreto que a democracia será julgada, porque há uma distância dolorosa entre ser reconhecido como cidadão no texto da lei e ser tratado como cidadão na vida cotidiana. Para milhões de brasileiros, a democracia ainda convive com a porta fechada, a abordagem violenta, o salário insuficiente, a ausência de oportunidade e a sensação de que o Estado chega tarde, quando chega.
Celebrar Lula é também desejar que essa distância seja reduzida. É esperar que o governo reeleito compreenda a grandeza da confiança recebida e a transforme em responsabilidade. Que saiba ouvir as gerações que o elegeram, inclusive quando elas o cobrarem. Que acolha a crítica como parte da vitalidade democrática, e não como ingratidão.
Por isso, a emoção desta vitória não precisa nos tornar menos rigorosos. Pode nos tornar mais comprometidos. Podemos comemorar e cobrar. Podemos sentir orgulho e reconhecer os erros que precisam ser enfrentados. Podemos acreditar na força simbólica de Lula sem esquecer que nenhum líder, por maior que seja sua história, substitui um povo politicamente vivo.
Talvez uma das imagens mais fortes desta eleição seja justamente aquela que não cabe em uma fotografia: a de gerações que se encontram diante da urna levando consigo histórias diferentes e uma responsabilidade compartilhada.
A pessoa idosa que vota lembrando de um tempo em que a liberdade era incerta. A mulher que pensa nos direitos pelos quais precisou lutar. O jovem que deseja viver em um país onde seu futuro não seja definido pela renda, pela cor da pele ou pelo endereço. O trabalhador que conhece o peso de cada aumento no preço da comida. Todos chegam à urna por caminhos próprios. Nenhum deles pode ser tomado como símbolo de uma geração inteira. Mas, quando seus votos se encontram, a democracia revela sua dimensão mais profunda: a de um destino que precisa ser construído em comum.
Não há garantia de que os próximos anos serão fáceis. A sociedade permanece dividida, as desigualdades seguem profundas e os desafios de governar não desapareceram com o resultado. A vitória não é o fim do trabalho democrático. É a oportunidade de continuá-lo com coragem, responsabilidade e escuta.
Na noite de 25 de outubro, o Brasil não encontrou uma solução para todos os seus problemas. Encontrou, nas urnas, uma direção. E, para muitos, encontrou também a coragem de voltar a imaginar.
Que a alegria dessa vitória não se esgote na festa. Que ela se transforme em compromisso com os que ainda esperam, com os que ainda sofrem e com os que ainda não conseguem enxergar a democracia na própria vida.
O povo premiou a coragem.
Fernanda Macedo é advogada, pós-graduada em Ciências Criminais e Segurança Pública pela Uerj, professora universitária e autora de Letramento Racial nas Forças de Segurança.

