A ausência de políticas públicas e as consequências na vida das famílias atingidas pelas chuvas

RECIFE E REGIÃO METROPOLITANA

A ausência de políticas públicas e as consequências na vida das famílias atingidas pelas chuvas

por Neilda Pereira
21 de setembro de 2022
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Cidades precisam se adaptar às mudanças climáticas, com o objetivo de conter as consequências devastadoras desses eventos extremos, que serão cada vez mais frequentes

Vivenciamos no Recife e Região Metropolitana, capital do estado de Pernambuco, dias de angústia, dor e sofrimento, em 28 de maio de 2022. Acordamos com vídeos e imagens chocantes, de famílias inteiras soterradas, barreiras deslisando, comunidades ilhadas, pais tentando resgatar os próprios filhos nos escombros do que restou das casas, bairros cobertos pela água e milhares de famílias sendo resgatadas e levadas para abrigos improvisados em escolas, igrejas e associações locais. As fortes chuvas, um fenômeno que, apesar de natural, trouxe efeitos de devastação em massa deixando a sensação no povo recifense de uma tragédia anunciada.

Nos últimos meses, tivemos situações similares em outras regiões do Brasil, como em Petrópolis, no Rio de Janeiro, além das chuvas que trouxeram transtornos semelhantes no sul da Bahia e Minas Gerais, no final do ano passado. De acordo com o Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas (IPCC, na sigla em inglês), entre os anos de 2010 a 2020, o número de mortes causadas por inundações, tempestades e secas foi quinze vezes maior que o normal.

Foto: Acervo da Cáritas Brasileira Regional Nordeste 2

O que se mostra entre a lama e o desespero é que milhares de famílias tiveram suas vidas mudadas. Segundo dados da Secretaria de Defesa Social do estado de Pernambuco (SDS), foram 129 vítimas fatais dos impactos causados pelas fortes chuvas no fim de maio e começo de junho em Pernambuco; 71 eram mulheres e 58 homens. A maioria das mortes (64) ocorreu no município de Jaboatão dos Guararapes, seguida do Recife, com 50 óbitos. Outras mortes foram registradas, sendo sete em Camaragibe, seis em Olinda, uma em Paulista e uma em Limoeiro.

Os deslizamentos de barreiras e as enxurradas provocadas pelas chuvas ameaçam muitos bairros, e evidenciam ainda mais a ausência de políticas públicas de habitação, saneamento, prevenção e contenção de desastres ambientais e climáticos.

De acordo com o Portal da Transparência da Prefeitura da cidade do Recife, “em dez anos, Recife usou 17% do previsto para melhorias em áreas de risco”, deixando mais evidente a ausência de políticas públicas estruturantes para resolver efetivamente essas situações. E o que os impactos causados pelas fortes chuvas, especialmente na Região Metropolitana de Recife, demonstram, é que as cidades precisam se adaptar às mudanças climáticas, com o objetivo de conter as consequências devastadoras desses eventos extremos, que serão cada vez mais frequentes. A cidade do Recife é a capital brasileira mais vulnerável ao aquecimento global, e a 16ª cidade do mundo mais ameaçada com as mudanças do clima, de acordo com o IPCC. Além do mais, o painel da ONU indica que, caso não ocorram adequações a essas mudanças, as mortes causadas pelas inundações podem aumentar globalmente em cerca de 130%, em comparação com o período de 1976-2005.

Foto: Acervo da Cáritas Brasileira Regional Nordeste 2

Como agentes da Cáritas Brasileira Regional Nordeste 2, com atuação direta nos estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, diante do estado de calamidade instaurado na cidade, demos prioridade às visitas nos bairros atingidos, ouvindo as famílias e vivenciando o cenário assustador de desastre que veio junto à chuva. Pisamos na lama, vimos barreiras deslizando, casas e vidas destruídas; ao presenciar essas cenas que marcaram profundamente nossas vidas, várias perguntas foram feitas. “É preciso que aconteça uma grande tragédia para que os governos olhem para essas realidades? O que falta para nortear com maior precisão as políticas públicas? Como ter planos de prevenção e contenção de desastres ambientais e climáticos que envolvam as comunidades?”.

Tantas questões apontam que a mudança do clima será um fator fundamental para determinar a qualidade de vida e a segurança dos pernambucanos, principalmente dos recifenses. Contudo, essa informação não minimiza o papel da gestão pública. É perante esse desafio que as gestões estadual e municipal precisam se mobilizar para colocar em prática políticas que preparem as cidades para encarar a mudança do clima, causando o menor impacto possível na população, principalmente na mais vulnerável, que se encontra em sua grande maioria nas periferias, locais mais atingido e afetados por essas tragédias.

 

Neilda Pereira, da Cáritas Brasileira Regional Nordeste 2.



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