A CGT na era dos “coletes amarelos”

DEBATES NO SEIO DA CENTRAL SINDICAL ÀS VÉSPERAS DE SEU CONGRESSO

A CGT na era dos “coletes amarelos”

por Jean-Michel Dumay
30 de Abril de 2019
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O 52º congresso da histórica central sindical francesa acontece entre 13 e 17 de maio. Empurrada pelos “coletes amarelos”, que assumiram a tocha da contestação social, e perdendo espaço entre os trabalhadores, a CGT dificilmente conseguirá fugir da necessidade de fazer um balanço, deixando mais claras suas linhas políticas e suas ações

Em um canto de seu escritório, na sede da Confédération Générale du Travail (CGT, Confederação Geral do Trabalho), em Montreuil, Philippe Martinez, secretário-geral da organização, exibe uma fotografia aérea da antiga fábrica da Renault em Boulogne-Billancourt. Na discussão, o técnico, ex-delegado sindical central, fala com frequência e com orgulho de sua “caixa”. O metalúrgico não esquece as metáforas automotivas. “Minha principal preocupação”, diz, às vésperas do 52º congresso da central (13 a 17 de maio), no qual vai disputar um novo mandato, “é que a gente não consiga engatar a segunda e a terceira.”

Para a central sindical, é urgente avançar. O número oficial de membros só diminui: de 695 mil em 2012, caiu para 636 mil em 2017, retrocedendo para o nível do início dos anos 1990. Além disso, sua pontuação nas eleições profissionais continua baixando: no fim de 2018, a CGT perdeu o primeiro lugar – considerando-se os setores público e privado juntos – para a Confédération Française Démocratique du Travail (CFDT, Confederação Francesa Democrática do Trabalho), principalmente por ter deixado de ter influência nas empresas privadas.1

Mais grave: foi um movimento surgido do nada, o dos “coletes amarelos”, com protestos feitos nos cruzamentos durante os fins de semana – e não nos locais de trabalho durante a semana –, que roubou a tocha da contestação social. Uma mobilização popular bastante radical e eficaz: 10 bilhões de euros liberados pelo governo em um mês! E sem a ajuda dos sindicatos! E não foi por falta de mobilização de tropas: em 2016 contra a lei do trabalho, em 2017 contra os decretos de Macron e em 2018 na Société Nationale des Chemins de Fer (SNCF, Empresa Nacional das Ferrovias).

 

Grandes desequilíbrios

Os militantes da “CGT de baixo”, nas uniões locais ou departamentais, não se aborrecem. Segundo eles, trata-se de um movimento “revigorante”, que “faz bem” e “restaura a confiança na ação coletiva”. Mas se, em campo, como em Rouen, Orleans ou Tourcoing, desde novembro de 2018, logo ficou claro que era preciso estar presente ao lado dos “coletes amarelos”, “para não deixar a ira popular entregue aos fascistas”, a “CGT de cima” causou problemas com sua lentidão. “Ninguém viu o movimento chegar, e sua magnitude foi surpreendente”, confessa Denis Gravouil, secretário-geral da CGT-Spectacles e membro da comissão executiva da confederação. Surpreendeu e confundiu, tanto por suas primeiras reivindicações (contra o aumento do imposto sobre combustíveis) como por sua composição. Em Porte de Montreuil, houve uma “instrumentalização da exasperação” por parte da extrema direita, segundo um comunicado de 29 de outubro de 2018. Desde o caso Fabien Engelmann, ex-membro da CGT expulso em 2014 após ser eleito prefeito pelo partido [de extrema direita] Front Nacional (FN, Frente Nacional) em Hayange (Moselle), a central sindical está obcecada com a penetração em suas fileiras das ideias da FN (rebatizada de Rassemblement National, RN, Reunião Nacional). Assim, levou dois meses para que se operasse, confusamente, uma verdadeira e franca convergência das mobilizações, efetivada no dia 5 de fevereiro. “Não concordamos com toda essa cautela”, diz Aurelio Ramiro, secretário-geral da união departamental de Loiret. “Talvez houvesse alguns fascistas, porém o que mais havia eram indignados. Era importante estar ao lado de pessoas que realmente não têm nenhum conhecimento do mundo sindical.”

É pouco dizer que o movimento dos “coletes amarelos” questiona a CGT em sua identidade, organização, linha e modos de ação. É raro o movimento social se desenvolver tão longe dos sindicatos e com tanta hostilidade em relação a eles. Em 2016, na Place de la République, em Paris, o movimento Nuit Debout recebeu muito melhor o secretário-geral [da CGT], que foi expressar seu apoio.

Com 59 mil seções sindicais e sindicatos de base, cerca de 800 uniões locais, 96 uniões departamentais e algo em torno de trinta organizações profissionais (federações ou sindicatos nacionais), a central sindical de Martinez sofre grandes desequilíbrios. Entre seus membros, 42% são do serviço público e hospitalar, setor que não representa mais do que 20% dos empregos na França. No setor privado, a esmagadora maioria dos efetivos (68%) está em empresas com mais de quinhentos funcionários – nas quais se concentra apenas um terço dos empregos e os salários médios mais elevados, em todos os níveis. Ao contrário, apenas 9% trabalham em empresas com menos de cinquenta funcionários.

A CGT se afastou dos mais precários, exatamente os que inflaram as fileiras dos “coletes amarelos”, “a faixa de trabalhadores com salários inferiores a 1.500 euros, que antes era justamente seu público”, observa o historiador Stéphane Sirot. Ela sofre para seduzir eventuais trabalhadores isolados, como os das microempresas. E também não consegue vencer a aposta de atrair os desempregados (apenas 5 mil estão organizados sob sua bandeira). Por fim, a confederação “reflete mal sobre a pobreza e não compreende a miséria”, acrescenta um fiel militante aposentado, Christian Corouge, 68 anos, funileiro e pintor que passou a vida na linha de montagem da Peugeot, em Sochaux.

Os “velhos” militantes são os que melhor falam sobre o principal problema que atinge a CGT. “Depois de 1968, as comunidades de trabalho explodiram”, diz Marcel Croquefer, 65 anos, ex-representante sindical de uma refinaria em Dunquerque. “Houve um impacto direto nos salários, nas condições de trabalho e na representatividade sindical.” Com a desindustrialização, os grandes batalhões de trabalhadores – das minas, da siderurgia, da metalurgia, do setor têxtil – derreteram como neve ao sol (a CGT tinha 4 milhões de membros no pós-guerra). “O universo do trabalho caminhou rumo à terceirização”, constata Frédéric Karas, secretário regional, na Alsácia, da Fédération des Salariés du Secteur des Activités Postales et de Télécommunications (FAPT, Federação dos Funcionários do Setor de Atividades Postais e Telecomunicações). Isso equivale a dizer que o sindicalismo se dissolveu. Na [empresa de telecomunicações] Orange, há 80% de executivos, 20% de não executivos, “80% de funcionários acionistas!”. “O capital muda, os trabalhadores mudam, a organização não muda”, resume Sophie Binet, secretária-geral adjunta da Union Générale des Ingénieurs, Cadres et Techniciens (UGICT-CGT, União Geral dos Engenheiros, Executivos e Técnicos) e mais jovem membro da comissão executiva da CGT.

Jean-Marie Pernot, pesquisador do Institut de Recherches Économiques et Sociales (Ires, Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais), é ainda mais direto: “A CGT se amarrou sozinha em sua própria burocracia. Ela manteve as grandes verticalidades profissionais do passado – por exemplo, transporte rodoviário, ferroviário, marítimo, um universo que se reorganizou em torno de uma função que agrega e desagrega tais verticalidades: a logística. Na CGT, as referências são antigas e não se encaixam mais na realidade do trabalho assalariado”. Na CFDT, elas foram corrigidas há muito tempo. A divisão territorial também precisa ser revista. Mas as federações só seguem a própria cabeça, agindo, pode-se dizer, como “corporações”, “clãs”, “feudos”. Cada uma define seus dias de mobilização. Cada uma tem suas estratégias de alianças entre sindicatos. Cada uma faz sua comunicação. E, se nada disso for realmente compartilhado no nível da confederação, azar.

“Faz três congressos, dez anos, que se fala em reestruturação, e nada é feito!”, solta, amargo, Emmanuel Vire, secretário-geral do Syndicat National des Journalistes (SNJ-CGT, Sindicato Nacional dos Jornalistas). Martinez, que dirigiu a Fédération des Travailleurs de la Métallurgie [Federação dos Metalúrgicos], poderia fazer algo a respeito? “Não!”, ele responde, “porque na CGT cada um é dono de si. Esse é o princípio do federalismo. É por isso que não gosto que me chamem de ‘chefe’! Os chefes – eu sei, porque já cruzei com alguns [sorriso] – fazem o que querem! Eu sou apenas o chefe da confederação.” Rigor jurídico ou astuta prudência? A organização precisa de estabilidade desde a fracassada sucessão de Bernard Thibault, em 2013, que viu a inesperada eleição de Thierry Lepaon e, um ano depois, sua igualmente inesperada derrubada, em um contexto de tensões internas e despesas extraordinárias em seu escritório e em sua residência funcional (despesas incorridas sem que ele fosse responsável, segundo uma auditoria interna).

Ao contrário do clichê alimentado pela mídia, que não lhe dá folga, a CGT não é monolítica, mas plural, caleidoscópica, e muito menos centralizada que a CFDT. Seria melhor falar não de uma, mas de várias CGTs.2 Então, qual é a unidade por trás desse rótulo? “Valores fortes, essenciais: justiça social, antirracismo, solidariedade internacional, feminismo”, responde espontaneamente Martinez. Claro, mas que sindicato não se reconheceria em palavras de ordem tão consensuais?

 

Armadilhas do diálogo social

Em fevereiro, batemos aleatoriamente à porta de uma união local, a de Villefranche-sur-Saône (Rhône), escondida na Bourse du Travail [Bolsa do Trabalho], no topo da providencialmente batizada Rue Gagnepain [Rua Ganha-Pão]. Ela reúne 1.200 sindicalizados. Ali se faz panfletagem regularmente no Pôle Emploi [posto de emprego do governo]. Organizam-se escritórios de recrutamento, por exemplo, em frente ao correio, para ajudar os desempregados a encontrar trabalho. Qual é sua ligação com a CGT? Alguns sorriem ao redor da mesa. Depois, como quem exibe uma prova: “A luta de classes!”, respondem em coro militantes de diferentes sensibilidades políticas: Parti Communiste (PC, Partido Comunista), La France Insoumise [França Insubmissa], Europe Écologie-Les Verts [Europa Ecologia – Os Verdes]. “A consciência do conflito de interesses entre o empregador e o empregado”, explica Christian Ritton, secretário-geral da união local. A luta de classes, da qual também falam depois, a 2 quilômetros dali, os funcionários da Bayer, postados dia e noite durante dois meses em frente à fábrica, em Limas: seu delegado sindical está prestes a ser demitido por ter “assediado” a direção. Em apenas dois anos, sob sua liderança, a seção da CGT cresceu de 35 para 110 sindicalizados.

A consciência de classe, lamentam os militantes da união local, perdeu a “batalha ideológica” para “o individualismo e o egoísmo”. Ela cresce com o nível de formação3 – portanto, é menor entre os menos educados, os socialmente mais frágeis. Mas a ação dos “coletes amarelos” eleva o moral. Laços foram estabelecidos. Fantasmas se dissiparam. Todos puderam se conhecer. Por meio de reuniões, um trabalho de educação popular foi iniciado.

Sindicato de valores ou sindicato de luta? Vinte anos de abertura, sob o comando de Louis Viannet (1992-1999), depois de Thibault (1999-2013), modificaram os espíritos.4 Ao domínio do PC sucedeu um sindicalismo que a direção da organização desejava “crível e eficaz”.5 Dele sobraram resíduos. O essencial da veia anticapitalista foi expurgado dos estatutos nos anos 1990, deixando espaço apenas para críticas aos desvios do sistema. O documento de orientação do próximo congresso, em Dijon, não fala em “luta”, mas em “oposição” de classes.6

“Sempre houve combativos e reformistas na CGT”, analisa a historiadora marxista Annie Lacroix-Riz. “Unitaristas” e “confederalistas”. “Mas, após a queda do Muro [de Berlim], era preciso existir em um capitalismo que duraria duzentos anos. Precisávamos de outro sindicalismo, de outra CGT. Isso se traduziu em progressos consideráveis para o campo reformista.” Já a cientista política Sophie Béroud e a linguista Josette Lefèvre observam que o discurso mudou: “A partir de então ‘agente da regulação social’, ansiosa para tomar seu lugar na negociação coletiva, a CGT [não hesitou] em se dizer ‘cidadã’ […]. Seu discurso [aproximou-se] objetivamente ao da CFDT”.7

A adesão ao “diálogo social” – ignorado pelas reformas de Macron – e sua participação nas múltiplas instâncias de diálogo, criadas principalmente com as Leis Auroux (1982), teriam sido fatais? Os membros da CGT que partilham os cruzamentos com os “coletes amarelos” têm clareza do segundo mal que atingiu a organização: a institucionalização. “Para eles, nós os traímos”, lamenta Croquefer. “Já tínhamos esse problema com as coordenações há alguns anos.” Após o rompimento com o PC, “que instilava uma reflexão sobre o futuro na sociedade”, analisa Sirot, a CGT teria sido absorvida pela prática desse diálogo erigido em ideologia, “cujo objetivo pacificador era também desconstruir e destruir o sindicalismo de luta de classes”.8 “Foi ainda a força do sistema que conseguiu incutir a ideia de que um sindicato que faz política necessariamente deve fazê-la por meio de um partido”, diz Sirot.

Um evento ocorrido no início do movimento dos “coletes amarelos” ilustra a anestesia. No dia 6 de dezembro de 2018, uma grande reunião intersindical, à qual a CGT (mas não a [Union Syndicale] Solidaires [União Sindical Solidários]) era associada, emitiu uma declaração chamando o governo para o “diálogo” e “condenando toda forma de violência na expressão de reivindicações”.9 Ao tomarem conhecimento da declaração, muitos membros da CGT engasgaram de estupefação ou incompreensão. A Fédération Nationale des Industries Chimiques (FNIC, Federação Nacional da Indústria Química, com 23 mil membros), entre as mais combativas, considerou a declaração “indigna da CGT”: “Seu papel é estar com os trabalhadores, não servir de substituto do poder patronal e governamental chamando à calma quem não tem outra alternativa a não ser lutar”. Duas horas depois, a confederação corrigiu a rota e, em uma dramática reviravolta, indicou qual era a origem da violência: “O governo age como um incendiário social: é irresponsável!”. Em seguida, a entidade recusou-se a responder um convite do [Palácio de] Matignon [residência oficial do primeiro-ministro francês]. Desde então, a CGT tem dito “não” ao “amplo debate” e organizou sua própria consulta.

Assim como os outros sindicatos, a central de Montreuil estaria separada da base, burocratizada, profissionalizada, com sindicalistas que pouco a pouco foram se afastando de sua base profissional. E, nos últimos 25 anos, teria deixado de questionar o sistema, passando a integrá-lo. “O problema era arriscar perder todos os benefícios”, diz Monique Dabat, uma grande personalidade do sindicalismo ferroviário na Gare du Nord, em Paris, e ex-membro da CGT expulsa em 2007 e hoje na Solidaires Unitaires Démocratiques (SUD, Solidários Unitários Democráticos).

Isso porque a central tem muito a ganhar financeiramente com o “diálogo social”. A fragmentação e a opacidade de seus recursos encobrem mal a fragilidade das contribuições em comparação com os subsídios públicos e os recursos oriundos do regime paritário e dos acordos de direitos sindicais nas empresas. Em 2017, apenas para o orçamento da confederação, as contribuições representavam 29% das receitas, e as “subvenções e contribuições” eram responsáveis por 62% delas – o que “coloca claramente a questão da nossa independência […] em relação às instituições e ao patronato”, observa o relatório financeiro preparado para o próximo congresso.10

Com a institucionalização, a central teria perdido vigor: embora não assine mais do que 30% dos acordos em nível nacional, nas empresas ela subscreve 80% deles. “Mas acordo não significa necessariamente submissão!”, argumenta Gravouil, que recentemente liderou as negociações (fracassadas) com o patronato sobre o seguro-desemprego. Isso porque, “na CGT, não se dialoga, se negocia”, insistem, junto com ele, vários de nossos interlocutores: “As organizações patronais e sindicais têm interesses divergentes. É um confronto, às vezes com concessões. E é bom que exista uma relação de forças”.

Com a crise dos “coletes amarelos”, Martinez convida os membros da CGT a “pensar diferente”.11 Ele se inspira, por exemplo, no breviário do ex-secretário-geral (1982-1992) Henri Krasucki, que defendia a manutenção de um sindicalismo preocupado com “a folha de pagamento e o vidro quebrado”. Tradução: “Próximo das pessoas, útil e eficaz”, explica Martinez. “Porque, quando não somos capazes de consertar um vidro quebrado, não sei se conseguimos ter credibilidade nas questões importantes, como a mudança para uma sociedade mais justa.” Ele defende uma CGT “menos ideológica”, ou, digamos, “com um pouco mais de equilíbrio entre a ideologia e a gestão do cotidiano”. E um modo de ação “costurado à mão”, ou seja, propondo que todos se mobilizem com base em suas próprias reivindicações, “atuando juntos ao mesmo tempo, e não em palavras de ordem globalizantes”. A ideia é, portanto, “generalizar as greves”, em vez de chamar uma hipotética “greve geral”. Desse modo, haveria uma atualização das “duas tarefas” inscritas na carta de Amiens (1906), documento fundador do sindicalismo francês: a defesa de reivindicações imediatas e cotidianas, e a transformação da sociedade para o futuro.

Não se sabe se, internamente, a mensagem se difunde com fluidez. “Há um déficit de análise”, avalia o historiador Stéphane Sirot. “O balanço dos últimos 25 anos está por ser elaborado, o que faz que não exista uma linha clara. A CGT retomou recentemente uma prática baseada na relação de forças, permanecendo profundamente institucionalizada no contexto do diálogo social, com uma forma de protesto altamente ritualizada.” Os dias de mobilização repetidos, ineficazes, são prova disso.

Mas “há um trabalho de renovação ideológica a ser feito”, considera, por exemplo, Florent Coste, eleito da CGT na fabricante de equipamentos aeronáuticos Latécoère, em Toulouse. Pouco interessado em partidos políticos, esse engenheiro de gabinete quadragenário pensa, como muitos, que a central precisa “ser capaz de propor um outro mundo”: “Não fazemos mais ninguém sonhar. Estamos cheirando a guardado. Ideologicamente, somos um fracasso”.

Militantes lamentam o desaparecimento das grandes ideias. “Ninguém mais fala na questão da propriedade das empresas”, destaca Charles Hoareau, criador, na década de 1990, dos comitês de desempregados da CGT. Nem em sua contraparte: o fim do assalariado e do patronato. “Na área da saúde, no pós-guerra, o fim da medicina liberal foi uma reivindicação histórica da CGT”, recorda Karas. “Ambroise Croizat [membro da CGT e um dos fundadores da Previdência Social] deve se revirar no túmulo!” “O trabalho em linha de produção deveria ser abolido!”, acrescenta Corouge, o funileiro e pintor de Sochaux. “Éramos uma geração mais politizada. Representávamos uma força. Queríamos mudar a sociedade.” Há o projeto de “Seguridade Social Profissional”, ligado ao “novo estatuto do trabalhador assalariado”, que a confederação relança a cada congresso. “Mas ninguém consegue explicar esse projeto a ninguém”, zomba Coste. Na verdade, ninguém ouve falar dele na mídia, pois esta, quando não ignora a CGT, concentra-se em slogans mais fáceis: a transição para 32 horas de trabalho semanal ou o salário mínimo bruto de 1.800 euros.

A fragilidade da militância, até mesmo sua resignação, também é apontada. Mas como indignar-se? “Os mais jovens só conhecem fracassos!”, destaca Croquefer. E os mais velhos, apenas as hostilidades dos governos, como o de Nicolas Sarkozy, muito diligente, em 2007, para estabelecer um serviço mínimo de transporte dedicado a neutralizar o efeito das greves. Também houve líderes que, por meio de suas estratégias gerenciais, fragmentaram os coletivos de trabalho,12 ou que, como na SNCF, questionaram, em acordos de fim de conflito, as regras tácitas que permitiam escalonar as deduções por greve sobre os salários. “O que predomina é o medo: medo do chefe, medo de perder o emprego, medo do futuro”, observa Coste. Se outrora os militantes se guiavam pela ideia de progresso, “hoje há um muro à sua frente”, resume a ex-representante da confederação Maryse Dumas. “A sensação é que, do ponto de vista econômico e ambiental, amanhã será pior que hoje.” Na [companhia automotiva] PSA, Jean-Pierre Mercier, delegado sindical central (e dirigente do [partido] Lutte Ouvrière [Luta Operária]), corrige: “Isso não é resignação. Os caras não confiam neles mesmos, em sua força coletiva. Os ‘coletes amarelos’ foram premiados por Macron – é o que ocorre quando a luta é maciça, determinada, consciente!”.

Muitos questionam. “A resignação não seria resultado de uma falta de espírito combativo à frente da organização?”, indaga Isabelle Bosseman, secretária-geral da CGT dos médicos, engenheiros e técnicos do Centre Hospitalier Universitaire (CHU, Centro Hospitalar Universitário) de Lille. Seu sindicato é um dos que continuaram lutando na justiça (ganhando em alguns pontos), sem o apoio da confederação, para contrariar as disposições da lei trabalhista. Com outros vinte sindicatos – entre eles o da Goodyear e o da Infocom, cujos métodos radicais não gozam de unanimidade no interior da CGT –, ele obrigou o congresso a avaliar um texto alternativo, mais ofensivo, a fim de ancorar novamente a organização no anticapitalismo.13 “Há uma tensão ideológica dentro da CGT”, diz seu companheiro de estrada, o advogado Fyodor Rilov. “Essa tensão precisa ser elaborada.” Ele pede mais combatividade, especialmente no nível judicial.

“Com o colapso do PC, houve um enfraquecimento da reflexão dos membros da CGT”, lamenta Corouge, militante de longa data desse partido. Em declínio, o próprio universo comunista passou por esse apagamento dos discursos, com a redução de sua base municipal e associativa, bem como do apoio entre os militantes, que antes conferia resistência à luta.14 “A confederação não pensa mais. Ou melhor, pensa uma espécie de miscelânea por uma sociedade mais justa”, acrescenta outro membro da CGT, não filiado a nenhum partido político (hoje, haveria menos de 10% de membros com filiação partidária, segundo a confederação). Há uma pobreza de análise nas sessões de formação sindical, com a “novilíngua” que tomou conta da central, falando-se em “desenvolvimento humano sustentável”, “capitalismo humanizado” e “qualidade de trabalho” (e não mais em “periculosidade”). O sindicalista continua: “O combate à desigualdade não serve para nada se não estiver atrelado a um projeto político”.

 

A organização mais eficaz

As perguntas não param: qual é o projeto político da CGT? E, antes disso, ela ainda é um movimento de trabalhadores? Os trabalhadores autônomos, “uberizados”, têm lugar dentro dela? E qual é o lugar dos executivos (cuja sindicalização a confederação gostaria de elevar)? Todos notaram que, pela primeira vez, o cargo de secretário-geral não está mais ocupado por um trabalhador. Isso sem falar dos temas delicados: a busca por unidade de ação com a CFDT, às vezes considerada sistemática demais, ou a adesão, ainda não digerida, à institucionalíssima Confédération Européenne des Syndicats (CES, Confederação Europeia dos Sindicatos), símbolo, para alguns, de submissão à União Europeia. Todos lembram que, em 2005, a base, comprometida com o “não” no referendo sobre o Tratado Constitucional Europeu, afrontou a cúpula, que pregava a neutralidade.

“Com o enfraquecimento da cultura política”, reconhece Binet, da comissão executiva federal, “hoje é muito mais complexo encontrar o ponto em comum entre as entidades da organização”. Há quem se pergunte sobre o papel da confederação. “Se ela se contenta em coordenar, portanto em ser apenas uma resultante das lutas, de que serve ser confederado?”, pergunta a FNIC, desejando que a cúpula se comporte como uma “locomotiva reivindicativa” e “forneça perspectivas políticas interprofissionais”.15 Mas não espera resposta: com oito uniões departamentais e a Fédération du Commerce et des Services [Federação do Comércio e dos Serviços], ela tomou a iniciativa de chamar, para 27 de abril, uma manifestação nacional em Paris. No entanto, os críticos também podem ser criticados. “Às vezes é mais fácil dizer que a confederação está derrapando do que admitir como é difícil segurar o volante!”, observa Croquefer. Ele, por exemplo, considera o secretário-geral “atento e pragmático”.

Essa é uma virtude facilmente atribuída a Martinez – seja para o bem, como forma de louvar seu “realismo”, seja para o mal, como forma de estigmatizar sua “navegação visual”. Pragmático, ele próprio tem consciência de que é “sempre o ‘duro’ de alguém e o ‘frouxo’ de outro”. E, principalmente, ele não ignora a imagem do sindicato nem as expectativas que pesam sobre ele. Se a CGT tem dificuldades, também tem trunfos. Em 2018, os entrevistados de duas pesquisas a consideraram muito claramente a mais eficaz em todos os assuntos que lhe dizem respeito: defesa do emprego e da aposentadoria, aumento do poder de compra, igualdade entre homens e mulheres etc. Quase três a cada quatro entrevistados a consideraram “combativa” e “presente” (aliás, 73% deles apoiaram seu chamado da segunda greve convergente, com a Força Operária e o Solidários, em 19 de março).16

Para ganhar influência, os entrevistados acham que a prioridade, segundo uma lista de escolha forçada, é ela ser “mais realista nas negociações” (portanto, menos ideológica, como defende Martinez), “mais atenta ao que dizem os trabalhadores” (portanto, interessada no vidro quebrado) e “desvinculada de qualquer influência política”. Sobre esse ponto, o secretário-geral reafirma: “A carta de Amiens significa, mais do que nunca [ele repete isso três vezes], uma CGT independente dos partidos políticos”. E atender aos apelos de Jean-Luc Mélenchon, fundador da França Insubmissa, de romper com o “dogma do movimento social independente”.17 Então perguntamos como ele vê sua central: reformista ou revolucionária? “Somos reformistas por excelência!”, exclama Martinez. “Querer mudar a sociedade é querer reformar! E, como não pretendemos tomar o poder, é por meio de reformas sociais que alimentamos a mudança da sociedade!” E assim entendemos, portanto, que há também belas engrenagens retóricas na caixa de ferramentas do metalúrgico.

 

*Jean-Michel Dumay é jornalista.

 

1 Ler Karel Yon, “Malaise dans la représentativité syndicale” [Mal-estar na representação sindical]; e Jean-Michel Dumay, “CFDT, un syndicalisme pour l’ère Macron” [CFDT, um sindicalismo para a era Macron], ambos em Le Monde Diplomatique, jun. 2017.

2 Cf. Françoise Piotet, La CGT et la recomposition syndicale [A CGT e a reorganização sindical], Presses Universitaires de France, Paris, 2009.

3 “Les Français et la lutte des classes” [Os franceses e a luta de classes], Ifop, Paris, jan. 2013.

4 Cf. Leïla de Comarmond, Les Vingt ans qui ont changé la CGT [Os vinte anos que mudaram a CGT], Denoël, Paris, 2013, e a obra coletiva Histoire de la CGT. Bien-être, liberté, solidarité [História da CGT. Bem-estar, liberdade, solidariedade], Éditions de l’Atelier/Institut d’Histoire Sociale, Ivry-sur-Seine/Paris, 2016.

5 Bernard Thibault, “Pour un syndicalisme crédible et efficace” [Por um sindicalismo crível e eficaz], La Nouvelle Vie Ouvrière, Montreuil, 8 fev. 2002.

6 “Spécial 52e congrès, document d’orientation” [Especial 52º Congresso: documento de orientação], Le Peuple, publicação não periódica, n.1, jan. 2019.

7 Sophie Béroud e Josette Lefèvre, “Vers une démocratie économique et sociale? Redéploiement et banalisation du discours syndical” [Rumo à democracia econômica e social? Amplitude e banalização do discurso sindical], Mots, les langages du politique, n.83, Lyon, 2007.

8 Cf. Stéphane Sirot, “‘Démocratie sociale’ et ‘dialogue social’ en France depuis 1945. Construction idéologique et politique d’une pratique sociale” [“Democracia social” e “diálogo social” na França pós-1945. Construção ideológica e política de uma prática social], Problématiques sociales et syndicales (brochura publicada pelo autor), Mons-en-Barœul, maio 2017.

9 Comunicado intersindical da CFDT, CGT, FO, CFE-CGC, CFTC e UNSA FSU.

10 Demonstrações financeiras anuais em 31 de dezembro de 2017, disponíveis no Journal Officiel.

11 Erwan Manac’h, “Philippe Martinez: ‘Nous devons réfléchir autrement’” [Philippe Martinez: “Precisamos pensar diferente], Politis, Paris, 30 jan. 2019.

12 Ler Danièle Linhart, “Hier solidaires, aujourd’hui concurrents” [Ontem solidários, hoje concorrentes], Le Monde Diplomatique, mar. 2006.

13 “Proposition de réflexions pour l’orientation du 52e congrès CGT” [Proposta de reflexão para a orientação do 52º Congresso da CGT]. Disponível em: <https://syndicollectif.fr>.

14 Ler Julian Mischi, “Comment un appareil s’éloigne de sa base” [Como uma entidade se afasta de sua base], Le Monde Diplomatique, jan. 2015.

15 “Éléments de réflexions sur les enjeux et documents du 52e congrès confédéral de la CGT” [Elementos de reflexão sobre os desafios e documentos do 52º Congresso Confederal da CGT]. Disponível em: <www.fnic-cgt.fr>.

16 Pesquisas Harris Interactive, nov. 2018, e Odoxa, 19 mar. 2019.

17 Jean-Luc Mélenchon, “‘Avoir le point’ ou pas” [Ter ou não ter razão], L’Ère du peuple, 31 out. 2017. Disponível em: <https://melenchon.fr>.



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