A difícil afirmação homossexual na Argélia - Le Monde Diplomatique Brasil

PESO DO CONTROLE SOCIAL, PERSISTÊNCIA DOS PRECONCEITOS

A difícil afirmação homossexual na Argélia

Edição - 145 | Argélia
por Rose Schembri
1 de agosto de 2019
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Em um país marcado por restrições sociais e religiosas, assim como por uma visão congelada da virilidade, a homossexualidade masculina segue clandestina e, em teoria, reprimida pela lei. Entretanto, a abertura para o mundo, especialmente graças à internet e às redes sociais, permite aos homens envolvidos vencer o obstáculo da autorrejeição

Nas ruas de Oran, um carro passa, janelas fechadas, tocando uma canção de raï a todo volume: “Você me ama, ok, bebê / Finjo que acredito, habib / Meu coração me diz para te amar, mas eu sei que você é mau”. Para o jovem que dirige o carro e que se diz heterossexual, a orientação sexual de Cheikh Mamidou, que transparece através das letras de suas músicas e de sua aparência física, não causa nenhum problema. “Normal”, ele diz, “a música é boa, é só isso que conta, né?” Todos sabem que alguns cantores têm comportamentos particulares, mas isso faz parte do folclore dos cabarés, essas boates de raï consideradas locais onde álcool, prostituição e homossexualidade se cruzam, e onde são tolerados enquanto permanecerem à margem da boa sociedade.

Todo mundo sabe que a homossexualidade existe, mas os gays devem ficar restritos ao meio ao qual foram designados, e prefere-se evitar o assunto. A sociedade argelina é fortemente heteronormativa: a família, a escola, a religião, a lei, tantas instituições que inculcam desde o berço em meninos e meninas a obrigação de se conformar à norma, com o casamento e a procriação sendo considerados a realização final de uma vida adulta. A homossexualidade, quando evocada, é apresentada como uma patologia que necessita dos cuidados de um psiquiatra ou do imã. Pode acontecer de o Ocidente ser apontado como um local que tenta exportar uma “identidade gay” desconhecida na Argélia, com o risco de atiçar a homofobia das autoridades e das fileiras mais conservadoras da população.1 Em julho de 2018, uma parte da imprensa árabe denunciou, assim, o fato de a embaixada do Reino Unido na Argélia ter levantado a bandeira LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e trans) para celebrar a organização de uma parada do orgulho em Londres.

A maioria dos gays junto aos quais realizamos nossa pesquisa testemunha que, na adolescência, se sentiu sozinha no mundo. Quando sentiram pela primeira vez desejo por um homem, ou depois de sua primeira experiência sexual, eles se consideraram uma anomalia da natureza – pois, até os anos 1990, não se falava em homossexualidade, ainda menos aos adolescentes.

Originário de Mostaganem (oeste), Slimane, de 35 anos, vive em Argel. Ele é advogado e planeja viver na Espanha com seu companheiro. Falando um francês perfeito, ele analisa de maneira muito lúcida as razões pelas quais experimentou um sentimento de isolamento durante sua adolescência. “Como não temos outros exemplos de homossexuais, temos esse sentimento de sermos únicos, então sentimos medo. E num primeiro momento, durante as primeiras relações sexuais, eu estava o tempo todo no papel do passivo, então nesse ponto também eu era diferente: meus parceiros representavam a normalidade, em um sentido, e eu era diferente até nisso.” Foi bem mais tarde, graças aos canais de televisão ocidentais, que ele teve acesso a um discurso sobre a sexualidade que lhe permitiu compreender melhor seu desejo. “Havia um sentimento de culpa também”, acrescenta. “Eu me dizia que era contra a natureza, que não era normal. Fazia escondido, porque era proibido. A gente fazia e pronto, depois não falava a respeito.”

Arte: Freepik

Discurso desculpabilizador

Mas com que palavras falar do desejo homossexual no contexto norte-africano? Segundo Mariem Guellouz, doutora em Linguística, “todos os termos para expressar a homossexualidade em árabe carregam uma carga semântica negativa. Isso quer dizer que a própria língua, em seu sistema, carrega a ferida da discriminação. A língua não seria apenas um sinal de homofobia; ela mesma é homofóbica”.2 Por exemplo, um homossexual ganhará um nome feminino ou será chamado de attay, uma injúria que significa literalmente “aquele que dá”. Quando o insulto é a única palavra para pensar em si mesmo, é frequentemente doloroso se construir na adolescência. Para as jovens gerações, nascidas depois dos anos duros da Guerra Civil (1992-2000), na era da internet e da TV a cabo, a situação foi bem diferente. As novas mídias, às quais elas estão constantemente conectadas, lhes oferecem um discurso que não é culpabilizador e apresenta modelos positivos. “Marco, o personagem de Degrassi [série canadense que aborda de maneira realista as questões e os problemas da adolescência], mudou minha vida: eu entendi que isso existia, ser gay”, confessa brincando Amine, um estudante de 23 anos.

Cafés, hammams, cinemas, bares, cabarés, discotecas e até mesmo a rua: tantos espaços de encontro possíveis entre dois homens. Se basta um simples olhar para encontrar um parceiro, as coisas se complicam quando se busca um “canto”, quer dizer, um local para ter uma relação sexual.3 Para os que dispõem de um apartamento, as coisas são simples, mas os salários são baixos e os aluguéis, caros; a falta de autonomia econômica tem um impacto direto sobre a vida sexual e afetiva dos indivíduos. Os mais pobres encontram-se inevitavelmente mais vulneráveis, pois, quando o espaço público é o único local onde se pode ter uma relação sexual, eles enfrentam muitos riscos: a polícia, as agressões homofóbicas, os roubos, mas também o risco sanitário, quando a relação é improvisada e os parceiros não têm preservativos, sem falar da falta de higiene.

Quanto às práticas sexuais, elas revelam uma relação de gênero muito marcada. “Aqui tem uma coisa. Quando encontramos uma pessoa no exterior, com base no seu físico, sua cor de pele, seus traços, sua maneira de falar, determina-se sistematicamente se ela é ativa ou passiva. Isso tudo não é verdade, mas quando você encontra alguém, se você é mais oulid familia [filho de (boa) família], você é passivo. E, quanto mais marginal você é, mais você é ativo. Isso é ridículo, mas, enfim, é assim. Se você é mais jovem, sem barba, não é vulgar, você representa a mulher, então você é passivo.” Slimane resume assim um conjunto de traços de oposição – que poderíamos completar enumerando clichês sobre a virilidade – que, no imaginário coletivo, definem os indivíduos em uma relação de gênero que influencia a atribuição dos papéis. A hierarquia dos sexos e a dominação masculina se encontram até nas relações homoeróticas, já que muitos têm tendência a se apresentar como ativos: uma maneira de conservar sua dignidade de homem e construir sua virilidade sobre a exclusão de tudo o que poderia ser vinculado à feminilidade. No entanto, na intimidade da alcova, os papéis se invertem mais frequentemente do que se imagina…

Enquanto na rua a paquera passa pelo olhar, às vezes sem troca verbal, e os papéis se determinam pela aparência, a internet e os sites de encontros autorizam uma comunicação mais franca, como se a desencarnação permitisse à linguagem se fazer mais precisa, mais livre. Sites e aplicativos especializados, como Grindr e GayRomeo, assim como as redes sociais, oferecem a possibilidade de travar contatos com menos riscos, ao mesmo tempo que preservam o anonimato. Assim, a relação sexual não está mais sujeita aos acasos dos encontros fortuitos.

 

O exílio, uma solução possível

Em 2005, a demógrafa Zahia Ouadah-Bedidi escreveu em um artigo sobre o celibato: “O casamento, na tradição muçulmana e na legislação argelina, constitui o princípio de base da família e serve de plataforma para qualquer organização das relações entre os indivíduos e a sociedade. Ele é considerado ao mesmo tempo um dever religioso, um ato social e jurídico e um ato pessoal tendo por objetivo amor e afeto. Na sociedade argelina, o casamento sempre foi tido como uma etapa incontornável da vida de um indivíduo, principalmente de uma mulher”.4

Muitos homens confirmam essa constatação. Para Karim, engenheiro solteiro que se aproxima dos 30 anos e planeja se casar, “é toda uma pirâmide que é construída sobre o casamento, em relação ao desejo de ter uma família e uma mulher, mas também em relação à religião. Dizem que o casamento na religião é uma coisa benéfica do ponto de vista relacional, amoroso, psicológico e em relação à sociedade”. Além do fato de que cumprir assim um dever religioso que equivale à metade do que devem ao criador, os homens projetam no casamento sua aspiração a uma forma de estabilidade social, de sucesso e de realização. Ao contrário, eles imaginam a vida dos gays como uma existência de abusos, vergonha e solidão. Ao antagonismo implacável desses dois modos de vida (que se vincula essencialmente à representação social) se acrescenta o fato de os modelos de casais gays argelinos que vivem juntos serem muito raros.

Esse conjunto de representações conduz muitos homens a se conformar à norma social, ainda mais porque a obediência à vontade dos pais é incondicional. A preponderância da autoridade familiar, ligada frequentemente a uma dependência financeira, constitui um dos principais freios para a realização dos desejos individuais. Para poder viver na Argélia como gay, segundo Slimane, uma solução possível é uma forma de exílio: “Para mim, vir de Mostaganem para viver em Argel já foi uma forma de exílio. Isso me distanciou da minha família e de meus próximos. Mudar de cidade ou de país, o processo é o mesmo. Na Argélia de hoje, para que você possa ter sua vida, você deve sair desse modelo do ‘arch [o vilarejo, a grande família ou até o clã tribal]. Eu estou convencido de que é preciso ter a coragem de abandonar essa família que te engole. E, se houvesse uma economia e um mercado de trabalho que funcionassem, com acesso a trabalho e moradia, e uma mobilidade mais fácil, as pessoas acabariam assumindo mais sua homossexualidade. Mas, culturalmente, vivemos aglutinados: no seio da mesma família, uns sobre os outros. E existe uma dependência financeira: o papai tem uma parcela de terreno, ele te dá um pedaço, você constrói sua casa ao lado da dele, é assim. Continuamos mantendo esse modo de vida”. Em seu raciocínio, Slimane se aproxima das conclusões do historiador norte-americano John D’Emilio, para quem o surgimento de uma identidade gay nos Estados Unidos coincidiu com as condições econômicas que permitiram que isso acontecesse: trabalho assalariado, independência em relação ao núcleo familiar.5

Só que o longo processo que D’Emilio descreve começou no século XVIII, com a Revolução Industrial, e continua hoje em um espaço cultural bem diferente do da Argélia, ainda que o país seja muito aberto para o mundo e que o processo de globalização seja inevitável. Fundamentalmente, as relações que o indivíduo mantém com a sociedade, em particular com a família, são diferentes nas sociedades ocidentais e nas sociedades magrebinas. Apesar de os conceitos de identidade gay e de orientação sexual que serviram desde 1969 e da revolta por direitos dos clientes de um bar gay de Nova York, o Stonewall, serem às vezes funcionais para algumas pessoas, como Slimane, não acontece a mesma coisa para uma grande maioria dos homens, que não procura fazer que suas práticas coincidam com uma identidade sexual.

Resta então a questão problemática dos direitos LGBT+ na Argélia. Ainda que não haja campanhas de repressão comparáveis às observadas em certos países subsaarianos, os atos homossexuais são passíveis de uma multa de 500 a 2.000 dinares (R$ 15 a R$ 60) e de dois meses a dois anos de prisão, segundo o código penal (as penas são agravadas se um dos parceiros for menor). Além disso, o Estado impede a criação de associações de defesa dos direitos humanos; os coletivos sofrem, então, para se constituírem na clandestinidade. O movimento de 22 de fevereiro permitiria uma revolução para os LGBT+? Em todo caso, a contestação já estremeceu um sistema político desgastado. Se a população se une para lutar contra o patriarcado e o peso das proibições religiosas que oprimem (inegavelmente) a sexualidade de todos, então os gays se sentem mais livres para reivindicar sua diferença. Principalmente em 10 de outubro, dia dos LGBT+ na Argélia desde 2007, cuja celebração por enquanto permanece confinada às redes sociais.

Rose Schembri é socióloga.

1 Sobre essa tese e sua refutação, cf. Joseph Massad, Desiring Arabs [Desejando árabes], The University of Chicago Press, 2007, e Frédéric Lagrange, Islam d’interdits, islam de jouissance [Islã de proibições, islã de prazeres], Téraèdre, Paris, 2008.

2 Mariem Guellouz, “Homosexualité masculine dans les pays du monde arabe: une question linguistique?” [Homossexualidade masculina nos países do mundo árabe: uma questão linguística?], Miroir/Miroirs, n.6, Paris, 2016.

3 A questão também aparece nos casos de relações heterossexuais fora do casamento. Ler Pierre Daum, “Sexe, jeunes et politique en Algérie” [Sexo, jovens e política na Argélia], Le Monde Diplomatique, ago. 2014.

4 Ouadah-Bedidi Zahia, “Avoir 30 ans et être encore célibataire: une catégorie émergente en Algérie” [Ter 30 anos e ainda ser solteiro: uma categoria emergente na Argélia], Autrepart, n.34, Paris, 2005.

5 John D’Emilio, “Capitalism and gay identity” [Capitalismo e identidade gay]. In: Henry Abelove, Michèle Aina Barale e David M. Halperin (dir.), The Lesbian and Gay Studies Reader, Routledge, Nova York, 1993.



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