A ebulição libanesa - Le Monde Diplomatique

EDITORIAL

A ebulição libanesa

por Ignacio Ramonet
1 de julho de 2005
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O assassinato de Rafic Hariri propiciou a Washington um pretexto suplementar para aumentar a pressão sobre Damasco. Teriam seus assassinos consciência de que estavam oferecendo de bandeja, à “comunidade internacional”, o destino de regime sírio?Ignacio Ramonet

Seria a Síria culpada pelo assassinato, no dia 14 de fevereiro de 2005, de Rafic Hariri, ex-primeiro-ministro do Líbano? Ainda em estado de choque, uma parte da opinião pública libanesa está convencida disso. E a denúncia do presidente da Síria, Bachar al-Assad, dos “autores deste crime repugnante e seus mandantes” não dissipou – é o mínimo que se pode dizer – as acusações que lhe são feitas. Para a maioria dos meios de comunicação internacionais, a culpa do regime ba?athista parece fora de dúvida. Jornalistas enumeraram vários presumíveis motivos para o assassinato. Em primeiro lugar, o desejo de Damasco de manter o Líbano sob seu controle quando são previstas eleições legislativas para o próximo mês de maio. Também mencionaram as queixas da Síria contra Rafic Hariri, acusado de financiar e tentar organizar uma espécie de frente anti-síria. E, por fim, se acrescentaria uma última reclamação: suspeitava-se que o ex-primeiro-ministro tivesse mobilizado seus amigos (entre os quais, o presidente francês Jacques Chirac) para fazer com que fosse votada em setembro de 2004 pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, com o apoio de Paris e Washington, a resolução 1559 que exige a realização de uma eleição presidencial livre no Líbano e solicita que “se retirem do Líbano todas as forças estrangeiras que ainda ali se encontram […] e o desarmamento das milícias, libanesas ou não” (ou seja: as milícias do partido xiita Hezbollah, apoiadas pela Síria e pelo Irã, e as milícias palestinas dos campos de refugiados).

Alguns observadores se perguntam se a culpa “demasiado evidente” da Síria não seria, justamente, o objetivo pretendido pelos assassinos de Rafic Hariri

O crime propiciou a Washington um pretexto suplementar para aumentar a pressão sobre Damasco. O embaixador dos Estados Unidos na Síria foi convocado “para consultas urgentes”. E o secretário de Estado adjunto para o Oriente Médio, William Burns, presente em Beirute para o funeral do ex-primeiro-ministro assassinado, aproveitou a oportunidade para declarar à imprensa: “A morte de Rafic Hariri deveria reforçar o esforço por um Líbano livre, independente e soberano. Isto significa a adoção imediata da resolução 1559 do Conselho de Segurança e a retirada total e imediata das forças sírias do Líbano.” Burns parece ter esquecido que, sem mandato da ONU, os Estados Unidos invadiram e ocuparam o Iraque.

Isolamento da Síria

É necessário lembrar que, desde que foi desencadeada a invasão norte-americana do Iraque, Damasco avaliava que um dos principais objetivos dessa guerra era o isolamento da Síria1. O ministro da Defesa norte-americano, Donald Rumsfeld, acusou Damasco de ajudar o exército de Saddam Hussein durante as operações de invasão, assim como de servir de retaguarda aos diversos grupos de resistência que atacam constantemente as tropas de ocupação norte-americanas. Em maio de 2003, o ex-secretário de Estado Colin Powell visitou a Síria e expôs pessoalmente ao presidente Al-Assad essas acusações e outras, mais antigas, tais como a aliança com o Irã e o apoio às milícias do Hezbollah, grupo inscrito pelos Estados Unidos (mas não pela União Européia) na lista das “organizações terroristas”.

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É possível construir uma “verdadeira democracia” no Líbano, sem os xiitas, sua principal comunidade e maciçamente aliada a Damasco?

Em tal contexto – a menos que quisesse o suicídio -, o regime sírio não teria interesse algum em agravar sua situação. Por isso, alguns observadores se perguntam se a culpa “demasiado evidente” da Síria não seria, justamente, o objetivo pretendido pelos assassinos de Rafic Hariri. Eyal Zisser, por exemplo, especialista em assuntos da Síria no Instituto Dayan da Universidade de Tel-Aviv, afirma: “É completamente ilógico que a Síria o tenha feito. Teria sido uma decisão imbecil de sua parte. O mundo inteiro está de olho na Síria e ela não teria interesse algum em desestabilizar o Líbano2.”

Manobras obscuras

Após a guerra do Iraque, as grandes manobras se reiniciam simultaneamente contra dois outros objetivos que estão há muito na alça de mira: o Irã e sua aliada, a Síria

Seja como for, é necessário questionar quais são os objetivos que orientam Washington e Paris em relação ao Líbano. Se seu objetivo é o de estabelecer uma “verdadeira democracia” no Líbano, seria possível construí-la sem os xiitas, sua principal comunidade e maciçamente aliada a Damasco? Seria possível garanti-la por meio de partidos de oposição que rejeitam o princípio de “um homem, um voto” e defendem um sistema confessional retrógrado? Se o objetivo é a retirada de tropas do “Líbano ocupado”, teria a comunidade internacional condições de esquecer que, naquela mesma região, a região síria do Golan continua ocupada desde 1967, assim como a Cisjordânia, a Faixa de Gaza – que poderá ser desocupada nos próximos meses – e Jerusalém Oriental, apesar das inúmeras resoluções do Conselho de Segurança? Assistiríamos, uma vez mais, a dois pesos, duas medidas?

Voltam os tempos das manobras obscuras. E parece evidente que, no teatro do Oriente Médio, já passamos ao segundo ato, inclusive com o risco de uma retomada da guerra civil no Líbano, o que não parece comover os defensores desse país. Após a guerra do Iraque – e apesar do desastre da ocupação e da derrota acachapante da lista defendida por Washington nas eleições -, as grandes manobras se reiniciam simultaneamente contra dois outros objetivos que estão há muito na alça de mira: o Irã e sua aliada, a Síria, que constitui o elo mais fraco da corrente. Teriam os assassinos de Rafic Hariri consciência de que estavam oferecendo de bandeja, à “comunidade internacional”, o destino de regime sírio?

(Trad.: Jô Amado)

1 – Ler, de Paul-Marie de La Gorce, “A Síria sob pressão”, Le Mon

Ignacio Ramonet é jornalista, sociólogo e diretor da versão espanhola de Le Monde Diplomatique.



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