A experiência da escassez no audiovisual feito na e pela periferia

Cinema

A experiência da escassez no audiovisual feito na e pela periferia

por Wilq Vicente
19 de janeiro de 2021
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Que sujeitos poderão contar o que estamos vivendo? O audiovisual, mais do que nunca, nos tempos de consumo cultural virtual, tem colaborado para a reflexão e assimilação, no âmbito artístico, do contexto atual e seu impacto na vida das pessoas, principalmente moradores das periferias

Desde o início dos anos 2000, principalmente nas cidades de Rio de Janeiro e São Paulo, foi possível verificar o crescimento da produção de vídeos e ações audiovisuais desenvolvidas em bairros periféricos. O audiovisual, nessas experiências, não estava restrito ao dito cinema de mercado e à indústria cultural, mas também passou a ser tido como uma “ferramenta” no interior de ações sociais, culturais e de juventude. Algumas ações pontuais, tanto de esferas governamentais, quanto da iniciativa privada, por meio de organizações não governamentais (Ongs), buscaram contemplar essas experiências, reconhecendo o papel formativo, social, de estímulo ao empreendedorismo e à cidadania que exercem. Ainda durante os anos 2000, o governo federal intensificou sua ação e repercussão no campo cultural, seja por meio de políticas culturais ou de políticas educacionais.

Nesse cenário de mudanças pontuais, seria a produção de filmes periféricos, sobre a periferia, capaz de articular um discurso cinematográfico inventivo, do “nós por nós mesmos”, que efetivamente traduz os interesses desses novos atores? É possível visualizar a presença de temáticas identitárias, de gênero, territoriais, sobre o racismo, a pobreza, a violência, a mobilização política coletiva e a produção cultural popular, além de escolhas artísticas e posicionamentos político-culturais diversos, em produções diversas, num amplo espectro. É possível promover o debate a partir de curtas-metragens independentes produzidos no âmbito de projetos culturais de coletivos de jovens, como o curta Qual Centro? (2010), do Coletivo Nossa Tela, que busca debater o projeto de revitalização da região central da cidade de São Paulo, mas também, em um contexto totalmente distinto de produção, a partir de filmes como 5x favela, agora por nós mesmos (2010), dividido em cinco episódios, escrito e dirigido por jovens cineastas moradores das periferias do Rio de Janeiro, mas com produção profissional apadrinhada por um consolidado cineasta como Cacá Diegues.

Já ao longo da década de 2010, uma nova safra de títulos aparece no cenário nacional, já não circunscrito ao eixo Rio-São Paulo, vindo de estados como Minas Gerais, Pernambuco e Distrito Federal, entre outros, já no âmbito do cinema independente de baixo orçamento, e não mais do vídeo oriundo de coletivos criados a partir de oficinas. Outras representações periféricas surgem em arranjos produtivos distintos, com produções com uma certa estrutura de financiamento e circulação, especialmente dedicada ao circuito de festivais, mas certamente herdeiros de toda discussão e movimentação da década anterior.

Desse contexto mais recente é possível destacar: Era uma vez Brasília (2017), de Adirley Queirós, filme que poderia ser visto como um Mad Max da periferia candango, com um território devastado, onde as pessoas sobrevivem de restos de coisas e empregam seu tempo em lutas e conflitos e; Bonde (2019), do Coletivo Gleba do Pêssego, que conta a história de três moradores negros LGBTQIA+, de Heliópolis, zona sul de São Paulo, que buscam refúgio da discriminação social na noite da cidade. Filmes de realizadores oriundos da periferia formados em cursos de audiovisual reconhecidos, cursos técnicos livres ou cursos de Ongs, respectivamente, mas que a todo tempo evocam a periferia num esforço de compartilhar suas memórias, vivências e percepções locais.

Gravação da produção dos alunos da Oficina Querô (Crédito: Divulgação)

Esses novos arranjos envolvendo jovens da periferia e estruturas de produção cinematográficas mais sólidas também aparece em um filme como Sócrates (2019), produzido pelas Oficinas Querô, da cidade de Santos, no caso sob o alinhave do cineasta Alex Moratto – um “cinema de oficina” colaborativo e sem grandes recursos de editais públicos, apesar da produção executiva de Fernando Meirelles. É curioso que passados 19 anos de Cidade de Deus (2002), nota-se que, diferentemente deste, em que a tradicional Ong de formação em teatro na favela do Vidigal foi mobilizada para conferir autenticidade ao filme através de seus atores, no caso de Sócrates parece ser a profundidade do trabalho de formação desenvolvido localmente pelo Instituto Querô em Santos que motiva a própria construção do filme, junto aos jovens.

É importante ressaltar que, diferentemente dos anos 2000, a partir da década de 2010, parece se arrefecer e se estabilizar a presença de ONGs no cenário de produção audiovisual da ou sobre a periferia. É possível observar nessas narrativas que um “movimento ascendente desses jovens pertencentes às classes populares estimula a reflexão contundente sobre sua história e sobre os lugares onde moram ou moraram”, como menciona Esther Hamburger, professora e pesquisadora que há mais de uma década pesquisa o assunto. Fazendo um paralelo sobre o Cinema Novo e a Estética da Fome, abordada por Ismail Xavier no livro seminal Alegorias do subdesenvolvimento, temos “um processo de comunicação com o país real, o reconhecimento de uma alteridade (do povo, da formação social, do poder efetivo), antes inaparente”.

Diante da crise que o ano de 2020 apresentou e o ano de 2021 apresenta, apontamos algumas experiências de cunho coletivo, perante as incertezas, a falta de recursos financeiros e alguns editais emergenciais, olhando como essas experiências articulam, dentro do espaço audiovisual, a escassez, a precariedade, os corpos e as periferias a partir dos desafios do agora e do porvir.

 

A experiência da escassez

“Vivemos num mundo confuso e confusamente percebido”, observa o professor Milton Santos em Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Ele prossegue afirmando que “cada dia acaba oferecendo uma nova experiência da escassez. Por isso não há lugar para o repouso e a própria vida acaba por ser um verdadeiro campo de batalha”.

No contexto agravado pela pandemia de Covid-19, a crise tem levado o setor cultural a experimentar novos formatos de produção e de entrega de produtos e conteúdos ao público final. O audiovisual é um desses segmentos. Neste período, ações emergenciais pontuais foram lançadas para buscar minimizar os impactos negativos do vírus, como, por exemplo, o Projeto Curta em Casa do Instituto Criar, com o patrocínio da SPcine, ação de fomento para a realização de filmes por profissionais de audiovisual das periferias de São Paulo. O projeto contemplou duzentos curtas com visões sobre o isolamento social e os desdobramentos da pandemia em diversas quebradas da cidade. O curta Dádiva (2020), dirigido por Evelyn Santos, é uma destas produções. Outra iniciativa voltada a coletivos periféricos foi o IMS Convida, do Instituto Moreira Salles, que expõe o trabalho de realizadores de audiovisual de várias cidades, tais como o Cineclube Mate com Angu, de Duque de Caxias (RJ) e o Coquevídeo, de Recife (PE), por exemplo. E vale lembrar que a Lei Aldir Blanc foi lançada no final de 2020, dispondo sobre ações emergenciais destinadas ao setor cultural e resultando em ação de apoio à cultura de volume inédito, contemplando algumas iniciativas audiovisuais periféricas em diversos estados e municípios.

Para o IMS Convida, o Cineclube Mate com Angu produziu dois vídeos sobre a região da Baixada Fluminense. As produções foram intituladas Mate reverbera: ensaios audiovisuais criados na doideira da pandemia. O coletivo atua em três frentes distintas no universo do audiovisual: exibição, produção e formação, como, em geral, é a prática dos coletivos audiovisuais de periferia desde a década de 2000. Também o Coquevídeo, que atua nas áreas de produção de arte e comunicação na comunidade do Coque desde 2006, produziu a série Narrativas periféricas do fim desse mundo. O grupo trabalha com uma pedagogia popular, que estimula as subjetividades dos jovens do projeto.

Nota-se nas produções um tipo de baliza entre o olhar para fora e o olhar para dentro. Precariedade, escassez, às vezes um certo olhar convencional, mas uma busca por refletir o tempo das incertezas e as expectativas de possíveis recomeços. As pessoas comuns não são apenas tema dos filmes. Antes anônimos, agora apontam suas câmeras para representarem o fim das invisibilidades dos corpos negros, LGBTQIA+, indígenas, de jovens comuns.

O atual interesse em apontarem a câmera para o mundo parece se constituir a partir da busca e da consciência de que desse confronto possam surgir outras estruturas narrativas, estéticas e políticas. O audiovisual periférico surge como uma prática social que, em sua forma, se desenvolve por meio da arte e do exercício da linguagem. De toda forma, a ideia de “nossa realidade representada por nós mesmos” se coloca o tempo todo como pauta da ação, apontando sobretudo para uma disputa cultural por representatividade. Almeja, principalmente, vocalizar suas visões de mundo e experiências de vida através de um meio de expressão interpretado como fundamentalmente artístico e não somente no campo da comunicação.

Alguns filmes evidenciam o que podemos denominar uma certa estética da precariedade ou aquilo que o professor Milton Santos chama de “experiência da escassez”, que é “a ponte entre o cotidiano vivido e o mundo”, ao tentarem criar um olhar diverso sobre territórios precários, no caso as periferias, gerando conhecimento e novas maneiras de compreensão.

Que sujeitos poderão contar o que estamos vivendo? O audiovisual, mais do que nunca, nos tempos de consumo cultural virtual, tem colaborado para a reflexão e assimilação, no âmbito artístico, do contexto atual e seu impacto na vida das pessoas, principalmente moradores das periferias. Que caminhos os realizadores vão criar para continuar produzindo, agora que o mundo mudou? Estarão as grandes instituições culturais sensíveis ao apoio a estes novos agentes em 2021, considerando o término das políticas culturais emergenciais? Torna-se extremamente importante, no contexto de uma interação social fragilizada pelo isolamento, reconhecer e apoiar produções que tem atuado como importantes instâncias de debate e elaboração da experiência, construção de conhecimento, novos olhares e vislumbre de novos caminhos, trazendo à luz para o debate social estes elementos, dentro e fora das comunidades.

Wilq Vicente é doutorando em Ciências Humanas e Sociais (UFABC) e mestre em Estudos Culturais (USP). É organizador do livro Quebrada? Cinema, vídeo e lutas sociais (2014).



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