A extrema direita decolando no Uruguai - Le Monde Diplomatique Brasil

Conservadorismo

A extrema direita decolando no Uruguai

Acervo Online | Uruguai
18 de outubro de 2019
compartilhar
visualização

Os discursos conservadores sobre costumes e neoliberalismo na esfera econômica começaram a dominar as propostas de candidatos presidenciais na América do Sul. Por um lado, esse tipo de discurso se tornou hegemônico. Por outro lado, os governos de direita que alcançaram o poder não mostraram resultados bem sucedidos, tanto na esfera econômica e muito menos no âmbito social. O clima regional chegou ao Uruguai.

 

 

O Uruguai está atravessando um cenário eleitoral apertado, com vistas às eleições presidenciais de 27 de outubro. Os candidatos dos três principais partidos políticos do país, a Frente Ampla (coalizão de centro-esquerda atualmente no governo), o Partido Nacional e o Partido Colorado (centro-direita), estão no meio da campanha eleitoral. Neste cenário emerge um novo partido político, o Cabildo Abierto (CA), que tem uma evidente inclinação militar e conservadora, que se posiciona como a quarta força política, detendo o poder de inclinar o equilíbrio eleitoral e uma governabilidade futura do país.

O cenário regional e nacional

Nos últimos anos, governos de direita e de extrema direita chegaram ao poder na América do Sul. No Brasil, as eleições presidenciais de 2018 transformaram Jair Bolsonaro em presidente, empoderando e fortalecendo setores da sociedade que estavam à margem das eleições presidenciais nos países da região.

Os discursos conservadores sobre costumes e neoliberalismo na esfera econômica começaram a estar presentes na maioria das propostas de candidatos presidenciais na região. Por um lado, esse tipo de discurso se tornou hegemônico. Por outro lado, os governos de direita que alcançaram o poder não mostraram resultados bem sucedidos, tanto na esfera econômica e muito menos no âmbito social. O maior exemplo disso é o caso da Argentina e o naufrágio de Mauricio Macri e sua proposta neoliberal.

O clima regional chegou ao Uruguai. Por um lado, a Frente Ampla, governando continuamente nos últimos 15 anos, começou a sentir o desgaste natural de tanto tempo à frente do Poder Executivo. Por outro lado, os discursos conservadores nos costumes e a pauta neoliberal na economia tornaram-se habituais nos programas dos candidatos da oposição. Nesse processo, o partido político Cabildo Abierto começou a captar um importante fluxo de votos, tornando-se, nas últimas primárias, a quarta força política nacional.

Cabildo “recém” Abierto

O partido Cabildo Abierto não tem nem um ano de existência, tendo sido registado no Tribunal Eleitoral em março de 2019. Sua criação é justificada pelo apoio à candidatura à presidência do militar (aposentado) Guido Manini Ríos.

Manini Ríos vem de uma família influente na política uruguaia, com uma tradição Colorada, riverista1, católica, conservadora e proprietária de terras. Foi treinado como soldado no 14º batalhão de pára-quedistas de Infantaria. Fora da carreira militar, formou-se em História em 2010 pela Universidade Católica do Uruguai. Foi nomeado Comandante-Chefe do Exército uruguaio pelo então Presidente José Mujica em 2015.

CA tomou como seu “guia espiritual” nada mais nada menos que a figura de José Gervasio Artigas, além de querer cooptar parte do simbolismo do herói oriental.

Na época, Artigas foi acusado de anarquismo por promover uma reforma agrária em 1815, em benefício dos mais vulneráveis. Ele foi traído e lutou até o exílio pela oligarquia reacionária proprietária de terras de seu tempo. É irônico que hoje, o ex-militar Manini Rios, se autointitule herdeiro da ideologia artiguista, representando melhor os interesses dos setores que condenaram o herói ao exílio.

Encontre as diferenças

Embora Manini Ríos tente se afastar do estilo histriônico e grotesco do presidente brasileiro Jair Bolsonaro, há pontos-chaves que os tornam irremediavelmente relacionados.
Em termos de coincidências substanciais, ambos têm problemas com a revisão do passado recente na área dos direitos humanos. Bolsonaro se manifestou a favor da tortura e seu herói é Brilhante Ultra. Enquanto Manini Rios, como comandante-chefe das Forças Armadas, disse que era a favor de virar a página porque “não é história recente, é história distante”, em referência à reivindicação de mães e familiares 2 sobre a verdade e justiça por crimes contra a humanidade durante a última ditadura.

Tanto Bolsonaro como Manini Rios tiveram uma saída conflituosa da âmbito militar e, é claro, por diferentes razões. Recordemos que para Bolsonaro sua partida foi motivada principalmente por ter tentado realizar um atentado contra o exército pedindo um aumento salarial.

Por sua vez, Manini Ríos foi aposentado pelo atual presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, após questionar o Poder Judiciário sobre o procedimento em casos de crimes contra a humanidade pelos ex-militares Jorge “Pajarito” Silveira Quesada, José Nino Gavazzo e Luis Alfredo Maurente Mata, realizados durante a ditadura civil militar. Nesse sentido, foi convocado para testemunhar por não ter denunciado que José Nino Gavazzo declarou em um Tribunal de Honra do Exército que tinha feito desaparecer o corpo do estudante militante Roberto Gomensoro, no Rio Negro, em 1973.

É importante ressaltar que antes de ser aposentado, Manini Rios teve fortes desentendimentos com os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, tendo sido submetido a prisão por 30 dias, violando repetidamente os regulamentos que impedem os militares de “tentar influenciar ou intervir, com o descaso das autoridades militares correspondentes, no estudo e sanção de projetos, regulamentos, decretos e todo tipo de decisões para a consideração dos poderes do Estado.”

Diz-me com quem andas a sair

Embora Manini Rios não tenha as formas grosseiras de Jair Bolsonaro, seu entorno próximo sela o perfil de extrema direita da sua agrupação. Um de seus principais colaboradores, Eduardo Radaelli foi condenado no Chile pelo sequestro de Eugenio Berríos, em 1992, embora esteja atualmente em liberdade condicional.

O sequestro e posterior assassinato de Berríos é considerado uma das últimas operações conjuntas do Plano Condor, perpetrado por comandantes militares no Cone Sul do continente durante o governo de Luis Lacalle (pai de Luis Lacalle Pou, atual candidato do Partido Nacional).

Os membros da liderança do partido e aqueles que promoveram a candidatura do ex-comandante são oficiais militares aposentados, em sua grande maioria. Dentro deste círculo militar, além de Radaelli, está Enrique Mangini, ex-membro da Juventude Uruguaia do Pé (JUP) nos anos 70. O JUP, um grupo extremista de direita, foi então presidido por Hugo Manini Ríos (irmão de Guido), que hoje também é proprietário do semanário La Mañana (mídia de direita). Aqui reside outra coincidência com Bolsonaro, a família está sempre presente.

Quando Manini Rios foi consultado sobre a presença complicada de Radaelli e Mangini em suas listas, o general aposentado afirmou que “os ataques contra eles e o partido mostram a impotência das pessoas que veem um perigo no Cabildo Abierto porque não é mais do mesmo”. Assim, Manini Rios desmentiu as investigações e os processos contra essas personalidades. Mas, eles não são os únicos do seu entorno que complicam sua nova agrupação e o transformam no Bolsonaro uruguaio.

debate estrutural na América Latina

Vitimização por supostas notícias falsas

Seu assessor de segurança, Antonio Romanelli (também militar aposentado), foi publicamente denunciado pela tortura de 41 ex-prisioneiros políticos  durante a última ditadura civil-militar. Romanelli, por seu lado, apresentou uma denúncia contra os meios de comunicação depois de vários dos ex-prisioneiros divulgaram uma carta pública, na qual sinalizam o tratamento que foram vítimas quando Romanelli era guarda na prisão de Libertad, entre 1978 e 1979. Manini Ríos defendeu o seu conselheiro com toda a sua força, alegando que são “manipulação da mídia”. Além disso, em um recente vídeo publicado por ele mesmo, afirmou que eles irão contra “a manipulação da justiça e da mídia” e que ” não será exitosa a campanha de distorção e difamação que começou no mesmo dia que o início o caminho do Cabildo Abierto.

Para completar, recentemente os alarmes soaram quando, entre os membros do seu partido, foi identificado um antigo membro de uma organização neonazista local. Há que acrescentar que esta não é a primeira vez que os apoiantes de Manini Ríos estão associados a símbolos e ideias nazis.

Um jovem militante do partido CA aparece numa fotografia, onde exibe uma camiseta com a legenda “HKNKRZ”, abreviatura de “Hakenkreuz”, o nome da suástica em alemão. Manini Ríos e outros correligionários estavam na foto. O candidato se distanciou do militante e dissociou-se o grupo desta ideologia, rejeitando-os num comunicado. No entanto, o que é alarmante reside nas simpatias que o seu discurso recolhe em pessoas com ideias de extrema direita. Não parece a estratégia de um líder populista de direita?

As propostas de Cabildo Abierto: uma agenda regressiva

O discurso conservador e patriarcal está se espalhando por toda a região. Nesse sentido, Manini Rios lidera e representa essas linhas de forma visível, enfática e direta. Com relação às conquistas de direitos reconhecidos nos últimos 15 anos, como a Lei que regula a maconha, o aborto legal e, recentemente, a Lei Integral de pessoas Trans, Manini Rios se manifestou contra todas elas.

Como Bolsonaro, a defesa da família tradicional é o guarda-chuva sob o qual se propõem retrocessos em termos de pluralidade, diversidade e direitos humanos. As declarações de seu candidato a vice-presidente Guillermo Domenech, são eloquentes ao afirmar: “em breve a homossexualidade será obrigatória”, em referência à Lei sobre casamento igualitário e à aprovação recentemente da Lei Integral para pessoas transgêneros (Lei Trans).

O próprio Manini Ríos foi votar no recente pré-referendo que, sem sucesso, buscou a revogação desta lei. Nesse caso, o candidato declarou à imprensa que não concordas com a ideologia de gênero que desejam impor. Mais uma coincidência com o discurso de Bolsonaro.

Sobre a questão da segurança, o partido CA propõe a revogação da recente Lei da Propriedade Responsável de Armas de Fogo, a fim de flexibilizar a sua aquisição e utilização por civis. Embora o Uruguai seja atualmente o país latino-americano com o maior número de armas de fogo nas mãos de civis e está entre os 10 melhores do mundo. Uma política pública que é um dos objetivos de Jair Bolsonaro. O programa do Cabildo Abierto é enfático na revogação da Lei que regula a produção e o uso da maconha, com foco na produção e aquisição de maconha para fins recreativos.

O cenário que se aproxima

Segundo pesquisas realizadas entre agosto e setembro, para as eleições de outubro, a Frente Ampla obteria entre 13 e 14 cadeiras no Senado, o Partido Nacional entre 8 e 9, o Partido Colorado 6 cadeiras e o Cabildo Abierto 2. Para a Câmara dos Deputados a representação poderia ser mais variada, com até 9 partidos representados. Em ambas as câmaras, a quarta força política que determina o número de assentos estaria nas mãos do CA.

Para aumentar as expectativas, nos últimos dias houve um rumor de que em um eventual governo de Luis Lacalle Pou, candidato do Partido Nacional, o líder do CA poderia ser nomeado ministro do Interior. Lacalle Pou mais tarde negou. No entanto, é evidente que existe esforços para seduzir o novo líder político para possíveis futuras votações no Parlamento.

Em suma, pode se vislumbrar para Uruguai coalizões de direita e extrema direita e um Poder Legislativo muito provavelmente sem maiorias. A irrupção do Cabildo Abierto na oferta eleitoral deu lugar aos anseios de uma parte do eleitorado com inclinações reacionárias. Os críticos da nova agenda de direitos, bem como aqueles que negam a luta pela verdade, memória e justiça por crimes contra a humanidade cometidos durante a última ditadura civil-militar, veem a CA como uma opção eleitoral promovida por um candidato antipolítico.

Manini Ríos caracteriza-se em sua curta carreira política por ter um estilo outsider de tipo “messiânico”, como Bolsonaro. Como sinal, o candidato uruguaio conseguiu reunir-se com o vice-presidente do Brasil, Hamilton Mourão, exibindo suas coincidências sobre questões-chave.

Neste processo, a Frente Ampla está mobilizando suas bases, reposicionando-se na campanha e aumentando seu caudal de votos com um horizonte diferente ao do início do ano.

As eleições se aproximam e a influência dos interesses nacionais e internacionais fazem parte da disputa. Influenciarão as eleições da Argentina e a saída pela porta dos fundos do governo de direita de Macri? Até que ponto o discurso da família tradicional e suas pautas conservadoras podem seduzir o eleitorado no Uruguai? O tempo dirá.

 

Mauricio Vázquez é consultor uruguaio de direitos humanos, mestrando em Estudos Latino-Americanos na Universidade da República (UDELAR) no Uruguai.  Andrés del Río é doutor em Ciência Políticas IESP-UERJ e professor UFF.



Artigos Relacionados

Guilhotina

Guilhotina #85 – Juliana Borges

O aborto legal no caso de estupro

O retorno do Brasil de 2020 à “moral e bons costumes” do Estado Novo

Online | Brasil
por Érika Puppim
Informalidade

Seminário debate imigrantes e o trabalho ambulante em São Paulo

Online | Brasil
por Gabriela Bonin
Podres Poderes

O riso de nosso ridículo tirano

Online | Brasil
por Fábio Zuker
Abastecimento

Arroz: uma crise anunciada

Online | Brasil
por Sílvio Isoppo Porto
Feminismos transnacionais

Uma reflexão sobre os desafios da construção do feminino nas telenovelas

por Rosane Svartman

Trabalho remoto, saúde e produtividade na perspectiva de gênero

Online | Brasil
por Patrícia Maeda

Contradições no acolhimento de refugiados no Brasil

Online | Brasil
por Juliana Carneiro da Silva