ENTRE A FÉ, A INÉRCIA E A DESTRUIÇÃO

A ficção científica como espelho do nosso esgotamento

Trazendo a devastação ambiental global para um cenário melancólico inspirado em Pará de Minas, Eduardo Magela Rodrigues debate a inércia humana, o distanciamento de Deus e o papel político da literatura no atual estágio da crise climática

O que acontece quando um ser alienígena puramente racional é projetado na mente de um padre para investigar as ruínas da civilização humana? Essa é a premissa que guia “V4T3R”, de Eduardo Magela Rodrigues, obra que nos transporta para a década de 2070, um período em que catástrofes meteorológicas ininterruptas dizimaram o planeta. O leitor acompanha essa jornada em um cenário desolado, inspirado no interior de Minas Gerais, onde o extraterrestre tenta compreender a nossa crônica incapacidade de agir diante da tragédia climática que nós mesmos criamos.

Além de ser trama de ficção científica, o livro é caracterizado como uma ecodistopia, funcionando como um alerta social e político. Ao se afastar dos centros hipertecnológicos comuns ao gênero e focar em uma ambientação melancólica e interiorana, a narrativa investiga a inércia humana, o afastamento de Deus e as falhas da nossa empatia. A obra propõe uma reflexão sobre o esgotamento sócio-civilizacional, colocando em xeque as contradições de uma espécie que, embora se autodenomine “sábia”, caminha para a sua própria destruição.

Graduado em Letras pela FAPAM e com especializações em Engenharia de Sistemas e Big Data, Eduardo Magela Rodrigues atua há mais de duas décadas no setor de Tecnologia da Informação. Aos 49 anos, o engenheiro de software e escritor natural de Pará de Minas (MG) une sua base humanística ao raciocínio lógico da tecnologia para explorar as complexidades humanas em seus textos. Atualmente desenvolvendo a segunda parte da trilogia “V4T3R”, na qual o alienígena habitará as mentes de uma poetisa e de um político, Eduardo também divide seu tempo criativo com outros projetos de fantasia e uma antologia de ficção científica inspirada em rock.

Na entrevista a seguir, o autor fala sobre o processo de criação de sua ecodistopia, o peso político de ambientar o colapso ambiental no cenário brasileiro e sobre o papel da literatura em tempos de crise.

Confira a entrevista na íntegra:

O ponto de partida de V4T3R propõe um observador externo analisando a raça humana de dentro das nossas mentes. O que o alienígena descobre sobre a nossa incapacidade crônica de agir coletivamente diante das tragédias climáticas que nós mesmos criamos?

Na verdade, antes de se projetar na consciência do Padre Amaro, o alienígena já observava nosso comportamento errático há algum tempo. E, sendo uma criatura orientada pela lógica e racionalidade, não compreendia porque nós nos autodenominávamos “homens sábios” ao mesmo tempo que destruíamos nosso planeta.

Uma vez habitando o âmago do eclesiástico e testemunhando todos os conflitos existenciais vividos por ele, V4T3R percebe o quão pouco racionais nós, humanos, somos. Observando as ruínas em que o sacerdote vive, fica relativamente fácil para o basilar depreender que foram vários os motivos que nos levaram a falhar como civilização e não evitar o colapso climático.

Como o conceito de “ecodistopia” se aplica à estrutura do livro?

Toda a trilogia se passa na década de 2070, quando muito pouco sobrou de nossa civilização. A origem de tamanha destruição, na minha concepção criativa, foram quinze anos de ininterruptas catástrofes meteorológicas oriundas de nossa incapacidade de lidar com a mudança climática. Os cataclismos funcionam como um elemento sempre constante na trama, seja nas lembranças das personagens, seja na paisagem arruinada que os cerca. Para além disso, creio que, nas entrelinhas, as marcas de devastação operem também como um aviso contemporâneo para os problemas que nos afetam, e que demandam soluções mais urgentes e assertivas sobre o clima.

Sob a perspectiva do gênero literário, qual é a função política e social desse tipo de narrativa no atual estágio de crise climática global?

Criar uma história sobre nossa civilização sendo obliterada por eventos meteorológicos extremos, oriundos de nossa ingerência/negligência em relação à crise climática, é um ato político e social. Trata-se de um papel que a Literatura tem exercido desde seus primórdios e que, diante de eventos climáticos gradativamente mais intensos e frequentes, se tornou ainda mais premente nos dias atuais.

Você acredita que a ficção científica serve mais como um alerta pedagógico ou como um espelho do nosso próprio esgotamento social?

A ficção científica e suas especulações sobre o futuro — muitas delas confirmadas, em maior ou menor grau — exercem o importante papel pedagógico de nos alertar para os perigos que criamos para nós mesmos. As ecodistopias, em especial, deixaram de ser apenas uma expressão artística para se tornar mais um canal de aviso, pois já não parecem algo inalcançavelmente distante no tempo; basta assistir aos noticiários. Todavia, para além do aspecto pedagógico, elas também refletem nosso esgotamento sócio-civilizacional porque, mesmo diante de tantas evidências, não conseguimos corrigir nossa rota.

Foto: Divulgação

Qual é o peso político em trazer uma narrativa de colapso ambiental e existencial ambientada no cenário e no imaginário brasileiro?

O Brasil é um ator de peso, para o Bem ou para o Mal, em qualquer discussão global sobre questões ambientais. Também somos uma nação bastante religiosa. Ao abordar ambos assuntos usando um tom pouco esperançoso, melancólico e questionador, pode ser que eu crie num leitor menos cético uma sensação de desconforto. Concomitantemente, coloco em xeque nossa visão de nação religiosa, preocupada com o meio ambiente. Em termos políticos, talvez seja uma iniciativa ousada.

Na obra, a racionalidade pura do alienígena choca-se frontalmente com as paixões, hipocrisias e contradições humanas. Diante de um mundo polarizado e em crise extrema, qual é o papel da literatura?

Sempre enxerguei nas Letras uma ferramenta de ampliação de horizontes, de crescimento pessoal e intelectual, de geração de empatia e civilidade. Mas creio que essa seja uma concepção romântica, para um mundo menos conturbado.

No cenário atual, o papel da Literatura deve ser o de provocar o leitor a abrir sua mente, fazê-lo questionar suas convicções e os ecos das bolhas de confirmação que o envolvem.

Como a sua experiência de vida no interior de Minas Gerais e o olhar sobre as mudanças do cotidiano ajudaram a moldar a geografia desolada e o ritmo da caminhada das personagens em V4T3R?

Para dar ao leitor a liberdade para criar seu próprio mundo, evito nomear localidades no livro. Mas posso revelar que os cenários descritos na obra foram baseados em locais da minha terra natal, Pará de Minas. Vivendo aqui por quase cinco décadas, pude acompanhar como a cidade mudou, em edificações, hábitos, cultura. Para o livro, precisei extrapolar um pouco para imaginar as ruas onde cresci arruinadas por catástrofes naturais. Isso me ajudou também no momento de escrever as divagações que Amaro faz sobre seu passado. E fez com que eu passasse a apreciar mais o lugar onde moro.

O universo da obra apresenta um cenário onde a humanidade caminha para a própria destruição de forma consciente, incapaz de alterar o seu rumo. Sob a ótica do desenvolvimento da trama, esta inércia é tratada como uma falência da empatia individual, uma falha de comunicação ou um erro na lógica do sistema social que construímos?

Em termos práticos, na primeira parte da trilogia, o leitor é exposto majoritariamente aos resultados dessa inércia. Visto que o foco da narrativa é um padre, a destruição é analisada sob a ótica da fé religiosa. Para o Padre Amaro, nosso colapso civilizacional se origina, antes de tudo, no afastamento de Deus, tanto de nossa parte quanto d’Ele.

No entanto, outras personagens, nas demais partes da história, se debruçarão sobre estes outros aspectos e discorrerão sobre eles. Pessoalmente, a impressão que carrego é a de que, se chegarmos numa realidade parecida com a que imaginei para V4T3R, será fruto de uma tenebrosa combinação destes três fatores.

O cenário da obra afasta-se dos centros urbanos hipertecnológicos comuns no gênero e adota uma atmosfera de desolação que evoca o ritmo e as paisagens do interior mineiro. Como a transposição do colapso global para uma escala regional e interiorana altera a cadência e o tom melancólico da narrativa?

Ao transportar o basilar para um ambiente devastado e desprovido de tecnologia, ofereço-lhe uma oportunidade de nos examinar em nosso estado mais elementar. Ali, ele nos encontra abandonados, sem tecnologia, sem Deus e sem esperanças. A ambientação interiorana reforça a dramaticidade e a melancolia: não existem aparatos tecnológicos mediando nossa existência com o que restou da Terra, somos apenas nós e nossas imperfeições.

Os próximos volumes vão expandir o universo por meio das consciências de uma poetisa, um político, uma médica e um programador. De que maneira a transição por estes campos específicos (Arte, Política, Ciência e Tecnologia) servirá para mapear a anatomia das pilastras que sustentam a civilização humana?

Apesar do protagonista da trilogia ser um alienígena, o assunto principal da trama somos nós, humanos. Escolhi estas áreas porque considero que foram essenciais para o nosso desenvolvimento como espécie e civilização. Eu poderia ter concebido uma tecnologia que permitisse que um humano se projetasse na consciência de outro humano, mas decidi escolher um alienígena puramente racional para obter um ponto de vista ‘isento’ sobre nós.

A ideia de transitar por essas personagens é uma tentativa de discorrer sobre como estes temas nos afetam, tanto positiva quanto negativamente. O objetivo final é tentar mostrar o quão fascinantes somos, apesar de nossas idiossincrasias, incongruências, dramas e arroubos sentimentais.

 

Isabelle Rieger é mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Também é jornalista (UFRGS) e licenciada em Letras – Português (PUCRS). Tem interesse em literatura, imagem, educação e cultura.

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